Adão conheceu a Eva: a finalidade unitiva

Nas reflexões precedentes, iniciamos o tema da “sacramentalidade do matrimônio”. No entanto, estamos primeiramente a contemplar a realidade natural do próprio casamento.

O instinto sexual está intimamente relacionado ao matrimônio.  A diferença de sexos, a atração física, afetiva e psicológica entre homem e mulher são a base natural do matrimônio. A união entre os dois consegue uma complementação não só biológica, mas uma “integração” completa – afetiva, intelectual, espiritual e vital – dos valores da virilidade e feminilidade (cf. Diretório da Pastoral Familiar, 2004, n. 58).

As relações destituídas da dimensão unitiva, onde há o enlace de seres “anônimos”, gera sentimentos de culpa, desprezo, nojo e náusea, mesmo em culturas não-cristãs, como tem averiguado a antropologia e a psiquiatria contemporânea. A libido deve integrar-se na personalidade humana, elevando-se do mero prazer ao afeto, à amizade, e ao amor. Somente numa relação em que haja a atração sexual, sentimentos, troca de experiências e autodoação é que se pode falar de ato autenticamente humano e fecundo. A redução do ato sexual ao mero prazer momentâneo o transforma em produto num mercado que trata o amor humano como moeda.

Convém entender o termo usado em Gn 4, 1a: “Adão conheceu a Eva, sua mulher”. “Conhecer”, em linguagem bíblica, não é um ato apenas intelectual, mas uma experiência concreta. Pelo ato de se tornarem “uma só carne”, Adão e Eva se conhecem reciprocamente na sua profundidade de pessoa humana, mediante o sexo. O ato conjugal é um meio de união e não um fim em si mesmo; é um instrumento para o conhecimento mútuo dos cônjuges. Não conhecem somente a sexualidade como se fosse uma especificidade somática, mas a pessoal identidade desse outro “eu” feminino e masculino.

O fato de o homem e a mulher serem criados à imagem de Deus não significa apenas que cada um deles, individualmente, é semelhante a Deus, enquanto ser racional e livre; significa também que o homem e a mulher, na comunhão de amor, refletem no mundo a comunhão de amor que é própria de Deus, pela qual as três Pessoas se amam no íntimo mistério da única vida divina.

Amor que é autodoação de si para o amado. Doa-se a própria vida, e, inclusive, a liberdade. Amor é santa e doce escravidão. Santo Agostinho afirmou que o amor é a “vida que enlaça ou deseja enlaçar o amante ao amado” (De Trin. VIII 10: ML 42, 960). Assim, o amor se torna instituição por força de seu próprio ímpeto.

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