Teologia do corpo Dele

Teologia do corpo Dele[1]

Aslam1. Força para Servir e se Sacrificar

Homem e mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus, que é Amor. O corpo do homem e da mulher são uma imagem de Deus e um chamado à doarem-se um ao outro no Amor. Contudo, o pecado original debilitou a afetividade humana. Com a sua redenção, Cristo restaura e eleva as forças humanas para a vivência plena e purificada de nossa corporeidade, afetividade e sexualidade.

Um dos contrastes mais aparentes entre o corpo masculino e o feminino está na força do homem comparada com a beleza da figura feminina. Em geral, os heróis são representados com uma grande força e os vilões como homens fracos e débeis. Isso, contudo, não significa que a mulher também não possua força.

O corpo masculino aponta para algo mais profundo, não apenas para a força dos músculos, mas para a força de caráter. Como é desapontante um homem com grande força física, mas incapaz de se sacrificar pelos outros, ou de resistir a uma simples tentação!

Em 1852, um caçador chamado François Dorel passou pela pequena vila de Ars, na França. Ele havia ouvido falar de um padre extraordinário que lá vivia. Enquanto ele caminhava com seu cão de caça em direção da igreja, são João Maria Vianney passou por ele, parou, olhou dentro de sua alma e disse: “Eu desejo muito que sua alma seja tão bonita como o seu cachorro”.

A força interior não tem idade. Jason Evert[2] conta que, depois de sua Missa privada, o Papa João Paulo II conversou com cada pessoa que tinha vindo para o ver. Ele que tinha sido um atleta e de uma beleza muito grande quando jovem. Quando se aproximou do Papa, ele pode perceber sua mão trêmula por causa do mal de Parkinson e que o fazia ter de ficar sentado. Aí está o homem que ficou órfão muito jovem, que sobreviveu ao Nazismo, contribuiu com a queda do Comunismo e possuía a responsabilidade por bilhões de almas em todo o mundo. “Ao que ele olhou para os meus olhos durante nossa rápida conversa, eu percebi nunca ter encontrado alguém com tanta força, e eu diria, masculinidade. Ele era uma verdadeira imagem daquele que O criou”.

Poucos tem apresentado a Deus nas suas qualidades masculinas. Raramente se fala de Deus como Juiz ou como um Rei que merece honra e obediência. Fala-se apenas de sua bondade, caridade e sensibilidade. Ele parece, assim, o Papai Noel. Um Deus emasculado.

O rei Davi escreve:  “Eu, que me tinha deitado e adormecido, levanto-me, porque o Senhor me sustenta. Nada temo diante desta multidão de povo, que de todos os lados se dirige contra mim. Levantai-vos, Senhor! Salvai-me, ó meu Deus! Feris no rosto todos os que me perseguem, quebrais os dentes dos pecadores” (Sl 3, 6-8).

No livro das Crõnicas de Nárnia, “O Leão, a Bruxa e o Guarda-roupa”, a menininha fica apreensiva sobre se encontra com o leão Aslam (símbolo de Jesus Cristo). Perguntam-lhe se é seguro se encontrar com um leão. A respostas se aplica a uma perfeita descrição de Deus: “Segura?… Alguém disse que era seguro? É óbvio que não é seguro. Mas, Ele é bom. Ele é o Rei, eu tinha te dito”.

Um rapaz de 17 anos disse para Jason: “Eu sei que é errado dormir com umas garotas com as quais eu não me envolvo realmente, mas se eu a amar? Tu viste, a garota com que eu estou agora, eu morreria por ela”. Jason respondeu: “Ok. Faça isso”. Ele olhou espantado, “Huh?” Jason explicou: “Morra por ela. Veja: é divertido imaginar uma cena em que tu fazes um sacrifício heroico para salvar a vida de uma mulher. Deus pôs esse nobre desejo em nosso coração por um motivo. Mas, encara os fatos: isso não acontecerá. A não ser que sua garota esteja envolvida com o crime organizado, ela provavelmente não será levada para lhe darem um tiro. Mas, há alguém de quem tu precisas protegê-la, e é de ti mesmo. Se queres realmente morrer por ela, deixe que tua luxúria morra. Se queres proteger ela, guarda a sua alma. Se alguém desse um tiro nela, ela iria para o céu? Ou, talvez, estás mais interessado em seu corpo do que em sua alma?

O modelo de masculinidade nos foi dado quando Deus se fez homem, Jesus Cristo. Ele veio para sacrificar-se para salvar os outros (cf. Is 52-53). O contrário seria dominar os outros para me servirem. Os esposos devem amar suas esposas como Cristo amou à Igreja (cf. Ef 5, 25).

Jason Evert conta que na preparação da Missa de seu casamento com Crystalina, eles não escolheram como leituras as Bodas de Caná, ou outras sobre o amor. Escolheram um evangelho da crucificação. Isso iria parecer estranho, um texto de um homem humilhado, espancado e morto.

Mas, para Jason, era o que ele queria para o seu casamento. “Ninguém tem maior amor, do que o que dá a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15,13).

Infelizmente, nem sempre os homens conseguimos ter a força para amar as esposas como elas devem ser amadas.

“Jessica”, “esteve envolvida em prostituição e ainda em pornografia e sofreu um problema vascular cerebral enquanto usava drogas” (p. 12). Ela entrou em coma e morreu, com 16 anos, filha de um pai desconhecido. Um amigo da família enviou um longo email lamentando o fato que muitos rapazes cobiçavam ela na Internet, sem saber se ela estava viva ou morta. “Em vez de olhar os atos que ela fez… reze por ela”.

João Paulo II disse que a dignidade e o equilíbrio da vida humana dependem, “em qualquer momento da história e em qualquer ponto de longitude e de latitude geográficas, de ‘quem’ será ela para ele e ele para ela”[3]. O que os homens foram para Jéssica e o que ela foi para os homens?

Os homens não fizeram sacrifícios por ela ou por defendê-la. Se tornaram exploradores, em vez de protetores. Sacrificaram-na no altar da luxúria. O homem que cooperou para dar a vida a ela, recusou dar a ela sua paternidade. Os homens que a usaram para a prostituição, não pagaram por sexo, mas para não se “incomodar”. Ela usou os homens para o seu lucro. E usou o dom da sua beleza para enredar os homens numa vida de pecado.

“Todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mt 5, 28).

Uma das grandes confusões para a vivência da pureza  é confundir “pecado” com “sexualidade”. Muitos pensam ter apenas duas opções: reprimir suas paixões e deixar Deus contente ou liberar minha luxúria e me fazer feliz.

Ao ver a mulher criada por Deus, o homem manifesta admiração e fascinação[4]. Ele experimentou o desejo sexual como algo puro; como um chamado a um amor total, livre, fiel e fecundo. Contudo, o pecado obscureceu os seus olhares e de pessoas, passaram a se olharem como objetos inanimados.

O campo de batalha está entre o amor e a luxúria. A missão é de reconhecer na forma feminina o “significado esponsal do corpo”, ou seja, perceber um chamado ao amor.

“Minha irmã, minha esposa” (Ct 4, 9). Essa linguagem do Cântico dos cânticos talvez nos surpreenda.  O sentido é o de que o amor tem de se fraterno, o irmão que defende a irmã de tudo o que é impuro. Ela não é um objeto, mas um mistério a ser preservado. E só um bom amor fraterno prepara para chamá-la “esposa”.

Não se trata de aniquilar o amor erótico, mas de aperfeiçoá-lo. Essa conversão é uma paciente mudança sobre como se olha para uma mulher. Não se trata de reprimir umas paixões. Mas, de saber amar a mulher com amizade, fraternidade, responsabilidade e sacrifício.

Para amar, se precisa de força interior para não se deixar escravizar por relações desumanas. O amor, a beleza, a pureza, a abnegação por amor, nunca perdem o seu encanto.

 

 

  1. Deus toma a iniciativa do dom do Amor

Imagine que ela lhe convidou para um lanche. Depois da refeição, ao por do sol na praia, ela te diz eu gostaria de viver para sempre contigo. Depois, ela olha no fundo dos teus olhos, te toma a mão e pega um pequeno estojo. Ela se ajoelha, abre o estojo com um anel e te pede ser o seu noivo. Estranho? Sim, mesmo depois de tantas mudanças sociais, o homem ainda sente que a iniciativa para o amor é dele.

Tanto do ponto de vista anatômico, como afetivo, o homem inicia o dom de si para a mulher e ela o recebe, não de maneira passiva, mas uma recepção ativa.

“Eu dormia, mas meu coração velava. Eis a voz do meu amado. Ele bate. ‘Abre-me, minha irmã, minha amiga, minha pomba, minha perfeita; minha cabeça está coberta de orvalho, e os cachos de meus cabelos cheios das gotas da noite’”(Ct 5, 2).

Ele se aproxima dela com reverência, cativo dela. “Entro no meu jardim, minha irmã, minha esposa, colho a minha mirra e o meu bálsamo, como o meu favo com meu mel, e bebo o meu vinho com meu leite” (Ct 5, 1).

Ao criar homem e mulher, e isso era “muito bom” (Gn 1, 31), Deus tornou visível seu plano para a humanidade. Cristo referiu-se a Si mesmo, muitas vezes, como o Esposo. São Paulo disse que o homem deve amar sua mulher como Cristo amou a Igreja[5].

Deus não nos ama de modo sexual, mas o seu amor é tão íntimo e profundo que o melhor sinal desse amor é o abraço marital. Essa analogia, como todas as outras, sempre é inadequada. Mas, nos revela algo, uma centelha, do imenso Amor divino.

A experiência e o desejo da pura beleza é um eco do “princípio” em que Deus quis criar um corpo humano que refletia puramente toda a beleza divina e uma premonição do futuro, quando O veremos face-a-face.

Essa atração pela beleza dela é um sinal do céu. É Deus querendo nos chamar a atenção.

O nível de testosterona no homem é de vinte vezes maior do que das mulheres da mesma idade. O espaço no cérebro para a sexualidade é o dobro do que das mulheres. Esses desejos intensos que o homem sente são parte do plano de Deus.

O livro de Tobias contém um relato edificante onde Tobias, com a ajuda de Deus, vence o medo, a luxúria, e desposa Sara com amor. Eles dormiram em paz. O papa João Paulo II considerou isso como a “paz do olhar interior”[6].

A mulher sabe quando ela é vista com amor ou como um objeto. Seu cérebro tem facilidade em ler faces, perceber sentimentos, detectar o tom da voz. Elas estão equipadas para se defender de quem não vai defendê-la.

O plano de Deus para o amor masculino é a de que ele busque a ela com amor e sinceridade, integrando o desejo sexual e a capacidade de amar.

“Ele nos amou por primeiro” (1Jo 4, 19). Deus sempre toma a iniciativa em nos chamar. Muitas vezes recusamos o seu amor.

Alguns homens tornam-se agressivos ou manipuladores a fim de alcançar os seus prazeres. Outros, com medo da rejeição, tornam-se passivos. Outros, simplesmente, fogem para hábitos de pornografia. O compromisso vocacional exige coragem, iniciativa e a espera da resposta feminina.

Enquanto lê esse texto, poderá haver alguém que não sente essa inclinação para o sexo oposto.

O pecado original tem muitos efeitos, como a fraqueza na inteligência, a insensibilidade para com o outro, a falta de força interior, etc. Um exemplo de desordem afetiva se dá quando um homem sente desejo por crianças ou por novas formas de experiências sexuais.

O aparelho reprodutivo masculino foi feito para o feminino. Não é sem violência que ocorre a relação homossexual masculina. Isso ocorre desse modo pela razão muito simples de que apenas a relação homem e mulher é fecunda. Divorciar a reprodução da sexualidade seria algo como separar a digestão do ato de comer uma refeição. Um ato existe para o outro, existem como um único processo.

Não se sabe com clareza a origem da homossexualidade. Alguns podem não terem a figura paterna na infância, ou por que não se sentem atraídos para desenvolver semelhante papel. Outros foram vítimas de abuso infantil. É possível também uma origem biológica.

Há homens que, mesmo unindo-se fisicamente a uma mulher, possuem uma psicologia feminina. A virtude da castidade permitirá a elevar-se acima dessas inclinações e a viver a santidade.

Um homem passivo, medroso ou absorvido em si mesmo não é uma imagem adequada de Deus. A figura de Adão é melhor entendida em movimento, na ação. Ele é a imagem do Deus guerreiro. Ao transformar a sua afetividade num sacrifício pelo mistério feminino, o homem é capaz de viver já na terra o céu que lhe aguarda junto de Deus.

 

 

  1. Deus toma a iniciativa do dom da vida

“Obrigado por essas conversas sobre castidade, cara”, falou um jovem universitário”. “Eu realmente precisava. Eu vou iniciar do zero”. Quando chegou em casa ele recebeu uma mensagem de sua namorada: “Uh, Darren aqui é a Raquel. Nós fomos à festa no mês passado. Bem, eu fiz o teste de gravidez… Um. Eu preciso que tu me ligues no telefone”.

Dois ano depois, Darren estava numa conferência jovem. Estava Raquel também e ela disse que Darren tinha se transformado num pai maravilhoso. Que eles fizeram algumas coisas erradas, mas que, agora, tudo ía bem. Ele tem um trabalho e gastava bastante tempo com a criança.

Quem deseja os prazeres do casamento, deve arcar também com as suas responsabilidades. Se um jovem se abstém de relações íntimas com a namorada está em vista de um amadurecimento necessário para assumir a paternidade. Ele não pode “engravidar” alguém acidentalmente se não assumirá a responsabilidade. “Cuida da tua tarefa de fora, aplica-te ao teu campo e depois edificarás tua habitação” (Pr 24, 27).

A natureza criativa e criadora de Deus está estampada na anatomia masculina. Como Deus, o homem inicia o dom da vida. E a mulher é o tabernáculo da vida. Assim, se inicia o milagre da concepção da vida humana.

Uma vez perguntei a um amigo, num jogo de golfe, se ele tinha filhos. “De jeito nenhum, cara. Eu tenho medo de crianças”. Antes de dar a próxima tacada, lhe disse que ele ficaria sozinho quando fosse mais velho. Ele se lembrava de seus professores universitários que choravam de alegria ao falar dos filhos. Jason conta que fez essa experiência. “Os filhos são o supremo dom do casamento[7].

Todos os homens são chamados à paternidade. Inclusive, os sacerdotes são chamados “padres-pais” por que também eles dão a vida espiritual às pessoas, assim como o Cristo.

Um programa na universidade fez com que alguns rapazes dessem formação escolar para umas crianças pobres. Eles também jogavam basquete, as visitavam e brincavam com elas. Para muitas dessas crianças, essa foi a maior experiência de paternidade que elas haviam tido.

Quando um homem rejeita a paternidade, ele causa muitos danos. Jason Evert lembra de seu melhor amigo, Sean, perfurando a foto de seu pai e chorando. Há alguns dias, o seu pai havia anunciado na mesa do almoço, que ele estava deixando a família por uma outra mulher. Com o tempo, esse amigo de Jason deu claros sinais de abandono e depressão. Sua irmã começou a usar drogar e a dormir com um rapaz mais velho, enquanto que a mãe começou a perder o bom senso. Sean se perguntava: “a quanto tempo ele estava nos enganando?””Por que ele fez uma família para depois a abandonar?”

Nossa civilização, como em nenhum outro tempo, sente a ausência dos pais. E, enquanto o homem não se sente como tal, ele tenta provar para os outros que ele é um autêntico macho. Um dos modos de tentar provar para os outros a sua masculinidade é pela conquista de várias mulheres. E, assim, destrói a sua autêntica masculinidade que seria dar a vida para outros.

Garotas sexualmente ativas tem a tendência três vezes maior à depressão que garotas abstinentes[8].

Garotas sexualmente ativas (entre 12 e 16 anos) tem uma taxa de suicídio seis vezes maior que as virgens[9].

No Antigo Testamento, há uma profecia de que o coração dos pais se voltariam para os filhos e o coração dos filhos se voltariam para os pais[10]. Mesmo que o pai habite com os filhos, se não é capaz de dizer “eu te amo”, “me desculpe”, “eu te perdoo”, ele continuará distante deles.

Por isso, a Igreja chama a família de “escola do amor”. O amor é responsabilidade. As relações que construímos na família dependem da nossa relação com o Pai do céus. Ele não se importa com as nossas falhas, mas nos capacita para sermos imagens de seu Filho. Somos chamados a sermos imagens do Pai, na terra. Todo o nosso ser, o nosso corpo foi feito para isso.

 

[1] O presente artigo é como que um resumo do livro: Jason Evert, Theology of his body: Discovering the Strenght and Mission of Masculinity, Ed. Ascension Press, 2009. É um resumo ligeiro, grosseiro, apenas com fins didáticos.

[2] P. 6-7.

[3] TOB 43, 7.

[4] Cf. Gn 2, 23.

[5] Ef 5, 31-32

[6]TOB 13, 1. 110, 2

[7] Gaudium et Spes, 50.

[8] Robert E. Rector, et al., Sexually Active Teenagers are More Likely to be Depressed and to Attempt Suicide, The Heritage Foundation (3 June, 2003).

[9] D. P. Orr, M. Beiter, G. Ingersoll, Premature Sexual Activity as an Indicator of Psychological Risk,  Pedriatics 87 (February 1991): 141-147.

[10] Cf. Ml 4, 6.

Adão conheceu a Eva: a finalidade unitiva

Nas reflexões precedentes, iniciamos o tema da “sacramentalidade do matrimônio”. No entanto, estamos primeiramente a contemplar a realidade natural do próprio casamento.

O instinto sexual está intimamente relacionado ao matrimônio.  A diferença de sexos, a atração física, afetiva e psicológica entre homem e mulher são a base natural do matrimônio. A união entre os dois consegue uma complementação não só biológica, mas uma “integração” completa – afetiva, intelectual, espiritual e vital – dos valores da virilidade e feminilidade (cf. Diretório da Pastoral Familiar, 2004, n. 58).

As relações destituídas da dimensão unitiva, onde há o enlace de seres “anônimos”, gera sentimentos de culpa, desprezo, nojo e náusea, mesmo em culturas não-cristãs, como tem averiguado a antropologia e a psiquiatria contemporânea. A libido deve integrar-se na personalidade humana, elevando-se do mero prazer ao afeto, à amizade, e ao amor. Somente numa relação em que haja a atração sexual, sentimentos, troca de experiências e autodoação é que se pode falar de ato autenticamente humano e fecundo. A redução do ato sexual ao mero prazer momentâneo o transforma em produto num mercado que trata o amor humano como moeda.

Convém entender o termo usado em Gn 4, 1a: “Adão conheceu a Eva, sua mulher”. “Conhecer”, em linguagem bíblica, não é um ato apenas intelectual, mas uma experiência concreta. Pelo ato de se tornarem “uma só carne”, Adão e Eva se conhecem reciprocamente na sua profundidade de pessoa humana, mediante o sexo. O ato conjugal é um meio de união e não um fim em si mesmo; é um instrumento para o conhecimento mútuo dos cônjuges. Não conhecem somente a sexualidade como se fosse uma especificidade somática, mas a pessoal identidade desse outro “eu” feminino e masculino.

O fato de o homem e a mulher serem criados à imagem de Deus não significa apenas que cada um deles, individualmente, é semelhante a Deus, enquanto ser racional e livre; significa também que o homem e a mulher, na comunhão de amor, refletem no mundo a comunhão de amor que é própria de Deus, pela qual as três Pessoas se amam no íntimo mistério da única vida divina.

Amor que é autodoação de si para o amado. Doa-se a própria vida, e, inclusive, a liberdade. Amor é santa e doce escravidão. Santo Agostinho afirmou que o amor é a “vida que enlaça ou deseja enlaçar o amante ao amado” (De Trin. VIII 10: ML 42, 960). Assim, o amor se torna instituição por força de seu próprio ímpeto.

Salvos da solidão

“Este mistério é grande – eu digo isto com referência a Cristo e à Igreja” (Ef 5, 32). O mistério a que Paulo se refere tem haver com o plano de Deus para a salvação da humanidade. A nossa salvação será o Amor.

Esse plano de salvação, pedagogicamente, tem três etapas: a) a Criação e a Queda; b) a Salvação; c) a Ressurreição. Falando especificamente do amor humano, fomos a) feitos para amar; trocamos o amor pela “instrumentalização do outro” (o outro é um objeto para a minha utilidade); b) Cristo purifica o nosso amor pela Cruz; o Espírito Santo doado à Igreja nos permite amar como Cristo; c) esse amor chegará ao ápice com a Ressurreição da carne.

a) A criação: Deus nos desenhou para a reciprocidade do amor.  O fim da vida humana é o amor a Deus e ao próximo. Somos feitos à imagem e semelhança do Deus Amor. Uma das primeiras características da pessoa humana descrita no livro do Gênesis é a solidão. Adão olhou para a criação e percebeu que nada lhe era complementar. Há uma solidão indestrutível no ser humano. O homem precisa de alguém que lhe seja complementar.

Reflete o Papa João Paulo II: “Trata-se aqui do “auxiliar” só na ação, no “submeter a terra” (cf. Gn 1, 28)? Certamente se trata da companheira da vida, com a qual o homem pode unir-se como a uma esposa, tornando-se com ela “uma só carne” e abandonando por isso “seu pai e sua mãe” (cf. Gn 2, 24). A descrição bíblica, por conseguinte, fala da instituição, por parte de Deus, do matrimônio contextualmente com a criação do homem e da mulher como condição indispensável para a transmissão da vida às novas gerações dos homens, à qual o matrimônio e o amor conjugal são, por sua natureza, ordenados: “Sede fecundos e multiplicai-vos, povoai a terra; submetei-a” (Gn 1, 28) (A Dignidade da Mulher, n. 6, grifo do autor).

O casal se une numa só carne e são fecundos pelo mesmo ato: são os dois aspectos intrínsecos do ato sexual, o unitivo e o procriativo. Esse duplo aspecto constitui a “natureza” do ato sexual.

Eva

Fonte: http://sumateologica.wordpress.com/2011/09/29/eva/

John Milton, Paraíso PerdidoCanto VIII

 

Foi grande o golpe e em um instante a cura.
Deus coas mãos a costela vai moldando,
Té que uma criatura dela forma
Mui semelhante a mim, mas de outro sexo.
Pareceu-me tão bela e tão amável,
Que tudo quanto dantes no Universo
Julgara belo agora o crê mediano –
Ou que do Mundo as formosuras todas
Em corpo tão gentil se resumiam,
Principalmente nos benignos olhos
Que desde então mimosos infundiram
Dentro em meu coração tanta doçura,
Qual nunca exp’rimentado havia dantes:
Do porte seu também logo exalaram
O espírito de amor, graças, deleites
Que em toda a Natureza se esparziam.
Nisto ela foge e me deixou em trevas:
De repente acordei na ânsia de acha-la
Ou de carpir sem causa a perda sua,
Abjurando prazer que não fosse ela.
No entanto, quando menos a esperava,
Não longe a vi, tal como a vira em sonhos
Adornada de quanto o Céu e a Terra
Para fazê-la amável possuíam.
Ei-la que vem: condu-la o Autor celeste,
Guiando-a com sua voz, porém não visto:
Dos ritos conjugais vem informada,
Da santidade e candidez das núpcias:
Nos olhos traz o Céu, no andar as graças,
O amor e o brio nas maneiras todas.
Em tantas perfeições eu enlevado,
A erguer assim a voz fui compelido:
“Ela volta!… Dissipa-se o meu susto!
“Cumpres quanto disseste, é Deus benigno,
“Generoso doador de coisas belas;
“Mas esta sobrepuja as outras todas
“Que não se podem comparar com ela.
“Nela me estou a ver; dos meus por certo
“Seus ossos são, da minha carne a sua:
“Do homem tirada foi, mulher se chama:
“Por ela pai e mãe ele abandona,
“E esposo se une à esposa idolatrada –
“Em deliciosa união ambos formando
“Um coração, uma alma, uma só vida.”
Prestava ela atenção às minhas vozes:
Acabando de ser por Deus formada,
Inda toda pudor, toda inocência,
Já conhecia com clareza exata
O grande preço das virtudes suas;
Que deve ser com mimo requestada
E não ganhada sem que muito a roguem;
Que não deve óbvia ser, nem ser esquiva,
Mas recatada estar, assim causando
Mais vivo amor, mais ávido apetite:
Ou, por melhor dizer, a Natureza
Nos pensamentos tanto lhe influía,
Lida que isentos da mais leve mancha,
Que ela me olhou modesta e retirou-se.
Eu fui seguindo-a: percebeu em breve
Com que respeito e amor eu me portava,
E não tardou com majestoso obséquio
Em ceder à razão que me assistia.
Ao nupcial aposento a vou guiando,
Corada, semelhante à manhã bela:
Nessa hora inteiro o Céu e os astros todos
Sobre nós mandam mais seleto influxo,
E nos decoram com fulgor mais vivo:
Mais ataviados de verdura e flores
Dão-nos os parabéns montes e vales;
Suave e alegre concerto as aves tecem;
Frescas as virações, meigas as brisas,
Nossa união pelas árvores murmuram,
E coas asas brincando nos atiram
De arbustos próprios rosas e fragrâncias,
Até que o rouxinol entoou solene
O canto do himeneu, e assim convida
Da tarde a estrela a que de pronto acenda,
No arbóreo cimo da montanha sua,
Das sacras núpcias o brilhante facho.
Assim te hei relatado a minha história,
Levando-a té ao ápice da dita
Que neste Paraíso estou gozando:
E cumpre confessar que – achando eu gosto
Em tudo o mais de que se adorna o Mundo,
Quais os passeios, plantas, frutos, flores,
A música das aves, tudo em suma
Que delicadamente me comove
O tato, o gosto, o ouvido, a vista, o cheiro,
Por nada sinto na alma abalo vivo,
Desejo ígneo nenhum, goze ou não goze;
Mas outro é meu sentir por tal beleza.
Vejo-a abalado de transporte sumo,
Cheio de igual transporte a toco e apalpo;
Ardo por ela em comoção estranha,
Minha única paixão conheço nela:
Quaisquer outros prazeres não me agitam,
A todos eles superior me julgo;
Porém somente me confesso fraco
Ante os encantos, ante o mover d’olhos,
Com que a beleza triunfar consegue.
Ou pobre a Natureza em mim se mostra,
Fazendo-me imperfeito a assim não apto
De tal objeto a repelir encantos:
Ou mais talvez tirou do que bastava
Do meu lado, e essa falta me enfraquece:
Ou, quando menos, deu em demasia
Ornatos à mulher que, não obstante
Ser no seu interior menos sublime
Mostra por fora as perfeições mais belas.
Não que eu deixe de ver que abaixo fica
No desígnio essencial à Natureza
E da alma nas internas faculdades,
Que são na espécie humana as mais distintas;
E que também por fora iguala menos
De quem nos fez a majestosa imagem,
E designa com menos expressão
O caráter de império impresso no homem,
Com que ele as outras criaturas rege,
Contudo, quando dela me aproximo,
Tão amável a julgo, tão perfeita,
Tão ciente de si mesma e extreme em tudo,
Que quanto ela pretende, ou faz, ou fala,
O mais discreto me parece sempre,
O melhor, o mais certo, o mais virtuoso:
À vista dela a ciência a mais profunda
Titubeia, desmente a usada força;
A mais grave e ilustrada sisudez
Desconcerta-se e mostra-se loucura.
Como se antes de mim fosse ela feita
E não depois, qual foi por causa minha,
De autoridade e de razão se adorna:
E, para tudo ter, seu porte amável,
Candura e graças todo, em si ostenta
Nobreza de alma, pensamentos grandes,
Dela em torno espalhando reverência
Que faz o ofício ali de guarda de anjos

no Princípio

«Não lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher, e disse: Por isso, o homem deixará o pai e a mãe, e unir-se-á a sua mulher, e serão os dois uma só carne? Portanto, já não são dois, mas uma só carne. Pois bem, o que Deus uniu, não o separe o homem». «Por que foi então, perguntaram eles, que Moisés preceituou dar-lhe carta de divórcio ao repudiá-la?». «Por causa da dureza do vosso coração, Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim» (Mt. 19, 3 ss.; cfr. também Mc. 10, 2, ss.).

A unidade e a indissolubilidade do matrimônio: “os dois uma só carne”; “o que Deus uniu, não o separe o homem”.

Ou seja, um matrimônio, entre homem e mulher, indissolúvel. Não o inventou a Igreja, mas Jesus Cristo, nosso Senhor. Além do mais é o que está inscrito na natureza humana.

São José, pai espiritual

São José não imaginou que seria pai do Verbo feito homem.
‘José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu consigo a sua esposa’; o que se gerou nela ‘é obra do Espírito Santo’. Ora, de tais expressões, não se imporá porventura deduzir que também o seu amor de homem tinha sido regenerado pelo Espírito Santo? (…).
(…) José, obediente ao Espírito, encontra precisamente nele a fonte do amor, do seu amor esponsal de homem; e este amor foi maior do que aquele ‘homem justo’ poderia esperar, segundo a medida do próprio coração humano. (Redemptoris Custos 19, grifo do autor).
São José foi surpreendido pela vontade de Deus. Pensara que a sua vocação seria simplesmente a do matrimônio. No entanto, era um matrimônio único na história por seu fruto (Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem) e pelo meio para alcançar o fim da procriação, ou seja, em vez de uma santa relação sexual, uma fecundidade virginal.
É bem verdade de que muitos não crêem na Palavra de Deus. Procuram meios para “interpretá-la”, o que é até necessário, mas ao ponto de desvirtuar os seus sentidos mais fundamentais. E, é a fé fundamental da Igreja e dos evangelistas, a concepção virginal de Jesus Cristo. Esta, para destacar a unicidade daquele que era gerado no ventre de Maria. E, num segundo momento, testemunhando uma fecundidade diversa da do matrimônio: a fecundidade espiritual da virgindade.
“José, obediente ao Espírito, encontra precisamente nele a fonte do amor, do seu amor esponsal de homem”. Escutando ao Espírito, que ainda não havia sido derramado como foi em Pentecostes, São José descobre uma fonte de amor, e amor esponsal. Na prática, isso diz que é possível viver do Amor de Deus e não ser um frustrado. Por causa de umas más interpretações da psicologia humana, se pensa que quem não sacia o instinto sexual, será uma pessoa complexada. E, isso, não é verdade. É possível ser celibatário e feliz. A vocação fundamental do ser humano é ao amor, e a sexualidade, vivida segundo esse amor. A própria sexualidade se não é subordinada ao amor, é vazia e insatisfatória. O apelo mais intenso que faz o corpo humano é o do amor, e o Amor é real.
É próprio do coração humano aceitar as exigências, até difíceis, em nome do amor por um ideal e, sobretudo, em nome do amor para com a pessoa (o amor, de fato, é por essência orientado para a pessoa). E, portanto, naquele chamado à continência “por amor do Reino dos Céus”, primeiro os próprios discípulos e depois toda a Tradição viva da Igreja logo descobrirão o amor que se refere ao próprio Cristo, como Esposo da Igreja, Esposo das almas, às quais Ele se deu a Si mesmo totalmente, no mistério da sua Páscoa e da Eucaristia (João Paulo II, catequese 79 da Teologia do Corpo, 9, grifo do autor).
O documento de Aparecida fala da experiência que os discípulos-missionários devem fazer de Deus. Sem um amor esponsal a Cristo, um amor de inteira entrega de si ao Senhor, tudo é apenas teoria. E, quando o coração humano não é saciado de amor puro e abundante, ele se vinga: buscará no lixo do mundo, distrair-se de sua dor.

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II A PRIMEIRA NARRAÇÃO DA CRIAÇÃO E A DEFINIÇÃO OBJETIVA DO HOMEM
1. A conversa de Jesus com os fariseus de Mateus 19 e Marcos 10 refere-se duas vezes ao “princípio”, o livro do Gênesis. “Não lestes que desde o princípio o Criador os fez homem e mulher?” (Mt 19,4) e “faz referência à chamada primeira narração da criação do homem, inserida no ciclo de sete diaas da criação do mundo (Gn 1, 1-2,4). Ao invés, o contexto mais próximo das palavras de Cristo, tiradas do 2,24, é a chamada segunda narração da criação do homem (Gn 2, 5-25)”. Indiretamente, é também uma referência a todo o capítulo terceiro do Gênesis até o versículo 1 do capítulo 4, que trata da “concepção e nascimento do homem por parte dos genitores terrenos”. O importante é reter que existe uma unidade nas duas narrações da criação do homem e, ao mesmo tempo, há de se distinguí-las. A primeira narração é mais objetiva, a segunda trata mais da subjetividade humana. Lembramos que Jesus não queria apenas reafirmar a norma objetiva da indissolubilidade do matrimônio, mas também refletir a partir da própria realidade interior da pessoa humana sobre os motivos para tal comportamento ético.
2. “a primeira narração da criação do homem é, cronologicamente, posterior à segunda“. A segunda narração é mais antiga. A primeira narração é de origem Eloísta, de “Eloim”, termo com o qual designa Deus. E a segunda, javista, de “Javé”. Enquanto a segunda tem traços mais antropomórficos, ou seja, Deus é apresentados com traços humanos (“Iahweh Deus plasmou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente“, Gn 2,7), a primeira narrativa apresenta Deus de maneira mais amadurecida.3. Esta primeira narrativa, a Eloísta, por inserir a criação do homem no ciclo de sete dias, tem um forte “caráter cosmológico; o homem é criado na terra juntamente com o mundo visível. Ao mesmo tempo, porém, o Criador ordena-lhe que subjugue e domine a terra (cf. Gn 1, 28): ele é, portanto, colocado acima do mundo”. Apesar de estar tão ligado ao mundo criado, o texto não fala da semelhança das criaturas com Deus, a não ser relacionada com o homem. “No ciclo dos sete dias da criação, manifesta-se, evidentemente, uma gradualidade nítida”. Na nota de rodapé dessa citação, o Santo Padre dá vários dados exegéticos interessantes. Para a matéria não viva, o texto usa verbos como “fez”, “pôs”; aos seres vivos, “criou”, “abençoou”. E tanto aos homens, quanto aos animais, ordenou a fecundidade e a multiplicação da espécie. Contudo, a criação do homem é mais solene, “o Criador parece deter-se antes de chamar à existência, como se recolhesse em si mesmo, para tomar a decisão: ‘Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança…'” (Gn 1, 26). A diferença de sexos é sublinhada somente em relação ao homem e a mulher, e não em relação aos animais.
Essas considerações introdutórias fazem perceber algo que pertence ao senso comum: o ser humano é uma criatura, é animal, mas ao mesmo tempo, diferente e superior a qualquer outro animal. E mesmo a sua sexualidade não é apenas uma parte de sua animalidade, mas integra o mistério do ser humano.

4. A primeira narrativa enquadra a criação da humanidade não só num contexto cosmológico, como também, e sobretudo teológico. A definição do homem é uma relação com Deus: (à imagem de Deus o criou), o que é a “afirmação da impossibilidade absoluta de reduzir o homem ao ‘mundo'”. O homem não se explica redutivamente como apenas mais um corpo entre as criaturas. E a esta criação do homem e a da mulher à semelhança de Deus, corresponde uma benção: “Deus os abençoou e lhes disse: ‘sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a…'” (Gn 1, 28). Ainda antes de considerar o ser humano na sua subjetividade e nas relações que estabelece com outras pessoas humanas, objetivamente o ser humano é uma criatura singular. E na sua definição teológica de imago Dei (imagem de Deus) se inclui a faculdade de geração do ser humano. Biblicamente, a sexualidade humana e sua fecundidade é abençoada por Deus e não simplesmente rechaçada. Aqui, também não se vê qualquer espécie de dissociação entre o ato sexual e as suas dimensões genital, afetiva, prazerosa e procriadora (essas dimensões são explicadas em detalhes em FERNANDEZ, AurelioBreve curso de moral católica: adaptado al catecismo de la Iglesia Católica y a la Encíclica “Veritatis Splendor”. 2. ed. Madrid: Editora Social y Cultural, 1993).

Citações: JOÃO PAULO II. Homem e mulher o criou: catequeses sobre o amor humano. João Carlos Petrini e Josafá Menezes da Silva (Orgs.). Bauru, SP: EDUSC, 2005, p. 57-9 (TOB 2).

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I – EM COLÓQUIO COM CRISTO SOBRE OS FUNDAMENTOS DA FAMÍLIA.
1. O Papa João Paulo II deu, nas audiências de quarta-feira, 6 ciclos de 129 catequeses, do ano de 1979 a 1984.  Na primeira ele diz que “estão em curso os preparativos para a próxima Assembléia ordinária do Sínodo dos Bispos (…). O tema do Sínodo ‘De muneribus familiae christiane’ (Deveres da família cristã) (…).
2. “Durante a conversa com os fariseus, que o interrogavam sobre a indissolubilidade do matrimônio, duas vezes Jesus Cristo se referiu ao ‘princípio'”. Começa a reflexão por este texto do Evangelho de Mateus:
“Alguns fariseus se aproximaram dele, querendo pô-lo à prova. E perguntaram: É lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo que seja? Ele respondeu: ‘Não lestes que desde o princípio o Criador os fez homem e mulher? É que ele disse: Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne? De modo que não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar’. Eles, porém, objetaram: ‘Por que, então, ordenou moisés que se desse carta de divórcio e depois se repudiasse?’ Ele disse: ‘Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas desde o princípio não era assim'” (Mt 19,3ss; cf. também Mc 10,2ss). Cristo “Evita embrenhar-se nas controvérsias jurídico-casuísticas;” Recorrendo ao livro do Gênesis, Jesus reafirma o princípio de indissolubilidade e unidade do matrimônio, ou seja, não há divórcio nem poligamia.
3. “‘Princípio’ significa, então, aquilo de que fala o Livro do Gênesis. É, portanto, o Gênesis 1, 27 que cita Cristo, em forma resumida: O Criador desde o princípio fê-los homem e mulher”; “Em seguida, o Mestre refere-se ao Gênesis 2,24: ‘Por isso um homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne’. Citando  estas palavras quase ‘in extenso’, por inteiro, Cristo dá-lhes ainda mais explícito significado normativo (…). O significado normativo é plausível enquanto Cristo não se limita à citação em si, mas acrescenta: ‘De modo que não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar’. Este ‘não separe’ é determinante. À luz desta palavra de Cristo, o Gênesis 2,24 enuncia o princípio da unidade e indissolubilidade do matrimônio como o próprio conteúdo da  palavra de Deus expressa na mais antiga revelação”.
4. “Todavia, aquela expressão significativa ‘desde o princípio’, repetida duas vezes, induz claramente os interlocutores a refletirem sobre o modo como, no mistério da criação, foi plasmado o homem, precisamente como ‘homem e mulher’, para se compreender, corretamente o sentido normativo das palavras do Gênesis“. Não se trata de entender que é proibido o divórcio, mas de compreender os motivos disso. Será que é melhor para nós que o matrimônio seja indissolúvel?
As questões que podemos levantar a partir desse texto são maiores do que apenas a indissolubilidade. O Papa quer que escutemos a Jesus. E aprendamos o mistério profundo que se esconde e se revela no próprio corpo humano: o mistério da vocação para o amor.
A situação atual não é propriamente a de culto ao corpo. É, pelo contrário, a sua mais completa desvalorização, diante do fato de que ele é tratado não mais como integrante da pessoa humana, mas como um objeto. Manipula-se, vende-se, cala-se o corpo. A sua dignidade é comparada à dos animais. Se fosse cultuado, haveria algum respeito ou reverência para com o corpo humano. Na melhor das hipóteses, ele é instrumento para alcançar outros fins como poder e fama.
Citações: JOÃO PAULO II. Homem e mulher o criou: catequeses sobre o amor humano. João Carlos Petrini e Josafá Menezes da Silva (Orgs.). Bauru, SP: EDUSC, 2005, p. 55-6 (TOB 1).