Teologia do Corpo Dela

  1. Um Mistério a ser Revelado[1]

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A mulher é um mistério de Deus. “Primeiramente, seus órgãos internos estão fora de alcance da vista: eles estão dentro do corpo. O que está escondido usualmente se refere a algo profundo e misterioso: nós escondemos segredos, escondemos o que é pessoal e íntimo”[2].

No Antigo Testamento, o Santo dos Santos era o espaço mais sagrado para os judeus, um lugar escondido por um véu e intocável, em que o sumo sacerdote só poderia entrar uma vez por ano. O próprio Deus, invisível, parece que está a se esconder de nós, mas, na verdade, está dando a entender a grandeza de sua Santidade. De modo semelhante, o modo de se vestir de uma mulher revela sua dignidade e o seu valor.

Tu me fazes delirar, minha irmã, minha esposa, tu me fazes delirar com um só dos teus olhares, com um só colar do teu pescoço. És um jardim fechado, minha irmã, minha esposa, uma nascente fechada, uma fonte selada (Ct 4, 9.12). Esse texto bíblico, refere-se ao amor entre o homem e a mulher, mas, também, São Paulo descreveu o amor de Cristo pela Igreja usando a “analogia esponsal”.

Procurar-me-eis e me haveis de encontrar, porque de todo o coração me fostes buscar(Jr 29, 13). Assim, como Deus é um mistério para ser buscado, que exige esforço e trabalho, a mulher é um mistério que vale a pena conquistar. Há toda uma literatura do cavaleiro que atravessa todas as aventuras para conquistar a amada.  “Uma mulher deve esconder seu coração em Deus, e o homem deve ir lá para o encontrar”[3]. Um mistério que não precisa ser conquistado pelo esforço do amor degenera num objeto fácil e sem graça. O mistério se revela aos poucos. Meu amado é como um gamo, um filhote de gazela. Ei-lo postando-se atrás da nossa parede, espiando pelas grades, espreitando pela janela (Ct 2, 9).

Deus nos ama. Conta-se que, certa vez, São Francisco pedira a Deus para ouvir a música que há no céu. O Senhor respondeu que se ele a ouvisse, certamente que morreria. O santo insistiu e perguntou se poderia escutar apenas uma nota. Deus o concedeu. E São Francisco acordou do coma vários dias depois.

Para que Deus caiba em nosso coração, com sua grandeza e santidade, é preciso dilatá-lo pelo desejo do Amor e purificá-lo de todo o egoísmo. “Imagina que Deus te quer encher de mel. Se estás cheio de vinagre, onde pôr o mel? É preciso jogar fora o conteúdo do jarro e limpá-lo, ainda que com esforço, esfregando-o, para servir a outro fim”[4]. É preciso esforço para corresponder ao amor de Deus. Assim como Deus, também a mulher é senhora de seu próprio mistério. É preciso purificar-se para se aproximar dela.

No entanto, o pecado original deixou os seus efeitos na afetividade feminina. Enquanto a mulher não assumir uma atitude assertiva e confiante, ela pode ser dominada pela insegurança e pensar que ela não merece ser amada e conquistada. E, por isso, aceita ser tratada sem reverência e torna um entretenimento para a caça dos homens. Meninas que não aprenderam a considerar o seu valor por serem amadas no seio de sua família tendem a pensar que elas apenas valem pela atratividade do seu corpo. Quando o “Santo dos santos” é violentamente profanado, quando o mistério feminino é tirado à força ou por sedução, a mulher sente-se despojada de sua dignidade e não tem mais nada a oferecer. O dom de si não foi dado, mas roubado. Homem e mulher foram violentados e ficaram vazios.

Para transformar o desespero em amor, é preciso que você se veja pelo olhar de Deus. Um homem que percebe que a mulher se valoriza por se sentir amada por Deus não avança sobre os limites delas, pois sabe que será recusado.

Deus lhe deu a missão de ser senhora de seu próprio mistério. Os pretendentes ficarão frustrados se não lhe derem o devido respeito. Você merece ser amada e reverenciada no seu mistério.

 

 2. Uma Relacionamento a ser Perseguido

No Princípio, Deus disse, Façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gn 1, 26). Na Santíssima Trindade há três Pessoas que subsistem na relação de uma para com as outras. João Paulo dizia de Deus que era uma “Comunhão de Pessoas” que gera a Vida. De modo semelhante, se pode também dizer isso do homem e da mulher. A capacidade de se relacionar com o outro é especialmente visível na mulher.

Pergunta-se se isso seria da natureza ou da educação. Uma pesquisadora feminista afirmou que essas diferenças entre o homem e a mulher seriam um controle mental patriarcal[5]. Uma socióloga, para prova isso, criou a sua filha como se fosse um garoto. Em vez de bonecas, lhe deu carrinhos e armas de brinquedo A pesquisadora admitiu que se viu francamente frustrada quando a sua filha insistia em tapar com o cobertor os seus caminhõezinhos. Outra mãe, que tinha dado brinquedos unissex à filha conta que a filha punha o caminhão de bombeiros na sua cama, lhe fazia carinho e dizia “Não se preocupe, caminhãozinho, tudo vai ficar bem”[6].

Em seu livro “O Cérebro Feminino”[7], a Doutora Louann Brazening, ensina que um menino com oito semanas, ainda no ventre da mãe, recebe testosterona o que ocasiona a morte de células ligadas à comunicação e desenvolve áreas ligadas à agressividade e ao sexo. Na adolescência, o cérebro feminino amadurece dois ou três anos antes do masculino. O cérebro feminio possui mais neurônios para a linguagem, a escuta, e maior área reservada à emoções e memórias. Os dois hemisférios cerebrais são melhor conectados, facilitando a fala, o pensamento e as emoções. A mulher fala três vezes mais que o homem (20 mil palavras para 7 mil), e tem maior capacidade de ler as emoções e expressar emoções.

Deus deu esses dons à mulher a fim de lhe preparar para a maternidade e para abrir-se aos outros no amor.

A abertura e a acolhida para os outros é uma característica feminina e, no contexto da sexualidade, essa abertura é a que possibilita gerar a vida. Assim como Deus toma a iniciativa de dar a Vida sobrenatural, a Igreja é chamada “esposa de Cristo” por se abrir ao seu dom. No corpo feminino se delinea essa característica espiritual do gênio feminino. A Virgem Maria com o seu “sim” a Deus é a melhor imagem de feminilidade que temos.

Essa abertura a Deus qualifica a humanidade do homem e da mulher e teríamos de resistir à tentação de considerarmos vitoriosos ou fracassados apenas pelas relações que temos com os outros, ou pelas obras que fazemos. Deus nos ama singularmente e isso basta.

Pelos efeitos do pecado original ou por algum abuso, a mulher pode ser ferida na sua receptividade. Seja por causa de erros do passado, seja pelo sofrimento causado por um abuso sexual, seja pela contracepção ou pelo aborto, quer seja pelo lesbianismo, a mulher fecha-se ao outro. Ou, ainda, quando a dependência do rapaz se torna de tal modo doentia que ela substitui a relação com Deus.

Para a cura dessas feridas afetivas, o primeiro passo consiste em confiar em Deus e sua misericórdia. Deus não nos ama pelo o que fazemos ou pelos nossos méritos. Ele nos ama antes disso. Ama por que somos seus filhos, suas filhas. Ama-nos mesmo com os nossos pecados ainda que Ele seja suficientemente sábio para exigir de nós a rebeldia contra o pecado e toda escravidão. Somos amados muito mais que merecemos. E, ao se sentir amada por Deus, a mulher se abre com maior facilidade para os outros, tornando-se um sinal do amor de Deus na terra.

 

3. A Beleza para ser revelada

Nada na terra se compara à beleza feminina. Ou, conheces alguém viciado em olhar para pôr-do-sol? Conheces algum adolescente que trocam mensagens com imagens de flamingos ou cachoeiras? Tudo isso é muito bonito, mas nada se compara.

No livro do Gênesis, a criação progride num crescendo e a mulher é o trabalho final de Deus. Deus deu uma forma física e espiritual bela para a mulher. Como Deus, a beleza não é algo que ela faz, mas algo que ela é. Não se capta o mistério de Eva numa cena brutal de combate, ou quando ela estivesse derrubando uma árvore. Os atistas desde tempos imemoriais a representaram descansando. Não há agenda, nem preconceitos, nem pressão cultural. Eva fala ao mundo de modo diferente que Adão. A beleza é poderosa. Pode ser a coisa mais poderosa da terra. E, por isso, é perigoso. E, também, importante.

Uma mulher num comercial ou propaganda atrai a atenção por 30% mais tempo. O corpo é a revelação da pessoa. E, a beleza do corpo quer apontar para algo maior, a beleza da pessoa feminina.

A partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor (Sb 13, 5).

Dostoyevsky escreveu que “A Beleza salvará o mundo”. Agora, mais do que nunca, a beleza tem sido distorcida ou idolatrada. O Arcebispo Fulton Sheen dizia que “A beleza de fora nunca chega a tocar alma. Mas, a beleza de alma se reflete no rosto”[8].

Não seja o vosso adorno o que aparece externamente: cabelos trançados, ornamentos de ouro, vestidos elegantes; mas tende aquele ornato interior e oculto do coração, a pureza incorruptível de um espírito suave e pacífico, o que é tão precioso aos olhos de Deus (1Pd 3, 3-4). Não que a beleza exterior seja má, mas o mais importante é a virtude.

Muitos dizem às mulheres abandonarem sua beleza em favor da revolução ou para fazer qualquer coisa de produtivo. Se esquecem que o mundo precisa beleza, compaixão e a força da verdadeira feminilidade.

Santa Teresa de Jesus viveu no século XVI e é um exemplo da beleza em ação. Sua estátua esculpida por Bernini fala da experiência mística que, paradoxalmente, é de dor e felicidade, algo como a Cruz de Cristo ou como a união nupcial.

Santa Teresa Benedita da Cruz, conhecida pelo nome de Edith Stein nasceu numa família judia, tornou-se ateia na adolescência, doutorou-se em filosofia da Alemanha e se converteu ao ler a autobiografia de Santa Teresa de Jesus. Continuou com sua vida acadêmica, encorajando às mulheres a atuarem na política, na sociedade e na educação trazendo o específico do feminino para essas atividades. Mais tarde se tornará carmelita. Essas duas santas influíram profundamente no pensamento e na espiritualidade do Papa João Paulo II.

“Obrigado a ti, mulher, pelo simples fato de seres mulher! Com a percepção que é própria da tua feminilidade, enriqueces a compreensão do mundo e contribuis para a verdade plena das relações humanas”[9].

Depois do pecado original, Adão olha para a Eva de um modo diferente. Ele tem dificuldade de ver o corpo dela como um chamado de Deus para o Amor. Uma tentação demoníaca é fazer a mulher pensar que não é bonita. E os meios de comunicação reforçam a “ditadura da beleza”. Ou ela se submete aos padrões irreais, ou se rebaixa, deixando-se manipular pela luxúria masculina.

Como ter uma boa autoimagem? Como curar essas marcas do pecado? A Igreja sempre foi entendida como a esposa de Cristo. De modo que essa palavra do Cântico dos cânticos adquire um novo significado para as batizadas: Como és formosa, amiga minha! Como és bela! Teus olhos são como pombas (Ct 1, 15). E ela responde  Cristo: Sua boca é cheia de doçura, tudo nele é encanto. Assim é o meu amado, tal é o meu amigo, filhas de Jerusalém! (Ct 5, 16).

Deus nem sempre é apresentado com uma imagem masculina. Regozijai-vos com Jerusalém e encontrai aí a vossa alegria, vós todos que a amais; com ela ficai cheios de alegria, vós todos que estais de luto, a fim de vos amamentar à saciedade em seu seio que consola, a fim de que sugueis com delícias seus peitos generosos (Is 66, 10-11).

A pureza do amor masculino e feminino são sinais do Amor de Deus, o nosso amor, é a sua Glória. O corpo feminino é um especial sinal da beleza de Deus. Deus lhe deu beleza e a capacidade de gerar a vida. Por isso, a mulher é a imagem de Deus na terra. Ela não é um simples objeto. A primeira ferramenta para a correta valorização do outro é a modéstia no agir e no se vestir. Assim, ela é a “ministra da beleza”[10].

 

[1] O presente artigo é como que um resumo do livro: Jason Evert, Theology of her body, discovering the Beauty and Mystery of Femininity, Ed. Ascension Press, 2009. É um resumo ligeiro, grosseiro, apenas com fins didáticos.

[2] Alice von Hildebrand, Woman as the Guardians of Purity, Homiletic and Pastoral Review (March 2004), 14-18; citation at 15 apud Jason Evert, idem, p. 5.

[3] Jason Evert, idem, p. 11.

[4] Dos Tratados sobre a Primeira Carta de São João, de Santo Agostinho, bispo, Tract.4,6: PL 35,2008-2009.

[5] Sheila Ruth, Issues in Feminism: An Introduction to Womens’s Studies (New York: McGraw-Hill, 2000).

[6] Louann Brizendine, The Female Brain (New York: Morgan Road Books, 2006), 12.

[7] The Female Brain, sem tradução para o português.

[8] Fulton Sheen, as quoted in True Girl 1, 1 (February/March 2006).

[9] João Paulo II, Carta às Mulheres,1995, n. 2.

[10] Eden, 150.

Como salvar seu casamento antes de conhecer seu cônjuge?

Vídeo

Jason Evert, mestre em Teologia e pregador da Teologia do corpo, fala sobre a preparação para o sacramento do matrimônio que deve começar antes mesmo de se ter alguém em vista e ressalta o que devemos trabalharem nós para salvar nosso casamento, mesmo que ele ainda nem tenha acontecido.

O Matrimônio, instituição natural. Pressupostos ideológicos

Referência: FERNÁNDEZ, Aurelio. Teología moral: curso fundamental de la moral Católica. Ed. Palabra. 4ª ed. Madrid, 2010. p. 320-323. Minha tradução.

a) Doutrinas insuficientes

Se trata de saber quais são os equívocos doutrinais que desorientam e impossibilitam ter um juízo real do matrimônio.

Aqui expomos somente um erro de fundo, do qual derivam outro cúmulo de erros mais imediatos. É preciso advetir que este erro não afeta somente ao matrimônio, senão a outras realidades da existência humana. Descobri-lo é situar-se em vias de superá-lo, pois, como também escreveu Aristóteles, ‘um erro pequeno no princípio leva ao fim a graves consequências’. Cabe, pois, perguntar: existe um erro de princípio?

Sim. Este ‘erro pequeno’ consiste numa mudança profunda no conceito de verdade. Desde o racionalismo, se valoriza mais o ‘pensar’ que o ‘conhecer’; pois, interessa mais o que ‘eu penso’ sobre algo que o ‘conhecer o que é a realidade’. Diante de tal posicionamento, a ‘opinião’ é mais importante que a ‘verdade’, o que conduz a um subjetivismo: não existe o real, senão o que eu penso e e o que eu imagino.

Esta orientação intelectual referida ao matrimônio leva ao que, mais que o matrimônio em si mesmo, interessa o que ‘se pensa’ sobre isso, com o que a instituição matrimonial se submete ao arbítrio do pensar de cada sujeito.

Deste ‘erro pequeno no princípio’ derivam outros erros mais imediatos. Por exemplo, de que o matrimônio não é uma instituição natural, mas cultural, pois depende das ideias de cada época. Não se trata de afirmar que modos concretos de modos concretos de levar ao cabo o matrimônio estejam condicionados por costumes (modo de contrair matrimônio, ritos de administração, etc.), o que é evidente, mas se afirma que a mesma instituição matrimonial é de origem e realização histórica, portanto, é mutável.

Outro erro derivado é pensar que o matrimônio é um compromisso social que requer certa estabilidade por que se anota no registro civil, mas fica ao arbítrio das partes que participam. Daí o requerimento de que esse compromisso se possa romper pelo mútuo compromisso dos esposos ou, inclusive, somente por uma das partes.

Nesta linha dos subjetivismos, alguns pensam que essa ‘papelada’ é inútil e inclusive se acusa disso ser uma rotina, um resto da sociedade farisaica, pelo que não faz falta recorrer ao reconhecimento civil, mas que é suficiente a mútua vontade de conviver dos cônjuges. Supõe-se que tampouco esta vontade é definitiva, mas que se pode rescindir a qualquer momento.

No plano inclinado do ‘eu penso’, pensam alguns que o matrimônio não é a convivência homem-mulher, mas que basta falar ‘casal’. Mas o conceito de ‘casal’ não supõe necessariamente que seja homem e mulher, mas que podem formá-lo dois homens ou duas mulheres.

No final desse processo se dá que a imagem de um homem e de uma mulher, de constituição somática distinta e complementária que, além da interação sexual, traz junto a atração afetiva, se converte em convivência mais ou menos estável de um casal de sexo distinto ou homossexuais que compartilham o mesmo leito, dado que tampouco se exigiria a convivência na mesma casa.

(…).

b) Corrupção dos costumes

Outra das causas que desvirtuam a natureza do matrimônio não tem origem nas ideias, mas na vida, ou melhor, na ‘má vida’.

Com efeito, é evidente a íntima relação que existe entre a razão e a vida; entre o pensamento e a própria existência. O dito popular o formula assim: ‘Quando não se vive como se pensa, se acaba pensando como se vive’. E a causa é dupla. Primeira, por que é algo inerente ao ser humano tratar de justificar com razões o estilo de vida que leva. Segunda, porquê a conduta desregrada impede a razão  de descobrir a verdade. Santo Tomás afirma:

A pureza é necessária para que a mente se aplique a Deus. A mente humana, com efeito, se contamina ao imergir-se nas coisas inferiores, igual a qualquer coisa si infecta ou se mescla com algo mais baixo, como a prata com o chumbo. É preciso que a mente se desapegue das coisas inferiores para unir-se à Suprema realidade. A mente, se não está pura, não pode aplicar-se a Deus (Sum. Teol. II-II, q. 81, a. 8).

Esta doutrina do Aquinate faz referência não só à vida sobrenatural, mas também à todas expressões da vida espiritual, especialmente à inteligência humana. Com efeito, o exercício intelectual do ser espiritual, que é a pessoa humana, se corrompe quando os costumes não são corretos.

Já os gregos distinguiam como duas enfermidades a que está submetida a razão: a “loucura”, quando a pessoa confunde as realidades físicas. Por exemplo, uma pessoa que acredita ser “Napoleão” ou que vê sinais de perseguição diante de mostras de carinho. Já a “corrupção da razão”, que tem lugar não quando a pessoa confunde o mundo físico, mas a realidade dos valores. Por exemplo, quando ao “bem” se denomina “mal” e ao “mal” se chama de “bem”. Assim, por exemplo, se alguém defende que é melhor fazer o mal do que fazer o bem, corrompeu o primeiro princípio da ética: ‘bonum faciendum, malum vitandum”. Mas, sem chegar a esse extremo, em relação ao matrimônio, se dá a “corrupção da razão” se se afirma que é melhor a promiscuidade sexual do que a relação homem-mulher ou que é preferível o amor livre à união estável, ou que a “família tradicional” deve postergar-se diante das uniões de fato e homossexuais e etc.

(…)

CASAL CRISTÃO: IDE E EVANGELIZAI

 Dom Dimas Lara Barbosa 

“A família é um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos e caribenhos e é patrimônio da humanidade inteira. Em nossos países, uma parte importante da população está afetada por difíceis condições de vida que ameaçam diretamente a instituição familiar. Em nossa condição de discípulos e missionários de Jesus Cristo somos chamados a trabalhar para que esta situação seja transformada e a família assuma seu ser e sua missão no âmbito da sociedade e da Igreja” (DAp 432).

1. Áquila e Priscila: exemplo de um casal cristão
“Paulo deixou Atenas e foi para Corinto. Aí encontrou um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, que acabava de chegar da Itália, com sua esposa Priscila, pois o imperador Cláudio tinha decretado que todos os judeus saíssem de Roma. Paulo entrou em contato com eles. Como tinham a mesma profissão – eram fabricantes de tendas – passou a morar com eles e trabalhar ali” (At 18,1-3).
Começou, assim, uma amizade duradoura. Esse casal acompanhará Paulo em suas viagens apostólicas. Continuam narrando os Atos dos Apóstolos que, saindo de Corinto, Paulo “navegou para a Síria e com ele Priscila e Áquila” (At 18,18). Dessa forma foi-se acendendo neles o desejo de levar Cristo a muitos. O Apóstolo deixa-os em Éfeso (cf. At 18,19) e parte para Cesaréia, Jerusalém e Antioquia, passando depois pelas regiões da Galácia e da Frígia (cf. At 18,19-23). Nesse meio tempo, chega a Éfeso um homem chamado Apolo, “homem eloqüente, versado nas Escrituras. 25Tinha recebido instrução no caminho do Senhor e, com muito entusiasmo, falava e ensinava com exatidão a respeito de Jesus, embora só conhecesse o batismo de João” (At 18,24-25).
Sobre esta passagem, comenta um santo dos nossos dias: “Áquila e Priscila, um casal de cristãos, ouvem as suas palavras e não permanecem inativos e indiferentes. Não lhes ocorre pensar: este já sabe bastante; ninguém nos manda dar-lhe lições. Como eram almas com autêntica preocupação apostólica, aproximaram-se de Apolo, levaram-no consigo e instruíram-no mais acuradamente na doutrina do Senhor (At 18,26)[1].
Depois de receber a instrução desse casal, como Apolo “estava querendo passar para a Acaia, os irmãos apoiaram-no e escreveram aos discípulos para que o acolhessem bem.. A presença de Apolo aí foi muito útil aos que tinham abraçado a fé – pela graça \de Deus.Pois ele refutava vigorosamente e em público os judeus, demonstrando pelas Escrituras que Jesus é o Cristo” (At 18,27-28). Aquele simples casal cristão, fabricante de tendas, ajudou a preparar um dos grandes pregadores do início do cristianismo.
“Talvez não se possa propor aos esposos cristãos melhor modelo que o das famílias dos tempos apostólicos: o centurião Cornélio, que foi dócil à vontade de Deus, e em cuja casa se consumou a abertura de Igreja aos gentios (At 10,24-48); Áquila e Priscila, que difundiram o cristianismo em Corinto e em Éfeso, e que colaboraram com o apostolado de São Paulo (At 18,1-26); Tabita, que com a sua caridade assistiu aos necessitados de Jope (At 9,36). E tantos outros lares de judeus e gentios, de gregos e romanos, aos quais chegou a pregação dos primeiros discípulos do Senhor.
Famílias que viveram de Cristo e que deram a conhecer Cristo. Pequenas comunidades cristãs, que atuaram como centros de irradiação da mensagem evangélica. Lares iguais aos outros lares daqueles tempos, mas animados de um espírito novo, que contagiava os que os conheciam e que com eles se relacionavam.
Assim foram os primeiros cristãos e assim havemos de ser nós, os cristãos de hoje: semeadores de paz e de alegria, da paz e da alegria que Jesus nos trouxe”[2].

2. “Ninguém dá o que não tem”

A evangelização não é uma técnica, não é apenas uma transmissão de conhecimentos sobre a religião católica. É fruto da conversão pessoal que, como exemplo de vida, faz com que outros sejam atraídos para Cristo. Aqueles primeiros casais de cristãos não tinham livros, ainda não tinham o Novo Testamento, não haviam sido escritos os Catecismos nem os manuais de teologia. Anunciavam a Cristo com as suas palavras, mas especialmente com as suas vidas.
Daí a grande importância do exercício pessoal das virtudes humanas e cristãs, que são a demonstração clara que queremos seguir a Cristo. A compreensão, o mútuo respeito e outras virtudes aprendidas no lar, como a primeira e melhor escola, têm repercussão num âmbito mais amplo. Se no seio da família se aprendeu a dialogar, a compreender os pontos de vista dos outros, a ceder à própria opinião, a prestar serviços, será mais fácil transmitir esses modos de proceder à sociedade.
“A promoção de uma autêntica e madura comunhão de pessoas na família converte-se em (…) exemplo e estímulo para as relações comunitárias mais amplas num clima de respeito, justiça, diálogo e amor”[3]. Por isso, “é fundamental que os pais dêem, nas suas famílias, um exemplo de vida coerente”[4].
E mais: “É urgente, em todas as partes, refazer o espírito cristão da sociedade (…). Os fiéis leigos – devido à sua participação no ofício profético de Cristo – estão plenamente implicados nesta tarefa da Igreja. Em concreto, corresponde-lhes testemunhar como a fé cristã – mais ou menos conscientemente percebida e invocada por todos – constitui a única resposta válida aos problemas e expectativas que a vida coloca a cada homem e a cada sociedade. Isto será possível se os fiéis leigos sabem superar, neles mesmos, a ruptura entre o Evangelho e a vida, recompondo na sua vida familiar cotidiana, no trabalho e na sociedade, essa unidade de vida que no Evangelho encontra inspiração e força para realizar-se com plenitude[5].
Aqui é grande a importância da vivência dos Sacramentos por parte do casal, sobretudo a Eucaristia, onde se unem profundamente a Cristo, e a Confissão freqüente, onde se levantam e recebem a orientação segura para começar e recomeçar sempre.

3. Primeiro local de evangelização: o próprio lar

A família é a primeira escola das virtudes sociais[6]. Com freqüência, parece ser mais cômodo, mais fácil, mais gratificante cuidar dos filhos dos outros que dos próprios. No entanto, seria um grave erro edificar a vida espiritual e apostólica às margens do próprio lar, evangelizar os de fora, em detrimento dos de dentro, dos que estão mais próximos de nós.
Os lares cristãos são chamados a serem sementeiras de vocações, sacerdotais, religiosas e leigas, de pessoas decididas a serem santos de verdade. Certamente, a formação na fé, como acontece com todo processo educativo, deve ser progressiva, adequada à idade de cada um, respeitando a situação concreta em que cada um se situa. Deve, sobretudo, ser regada com muito amor.
Enquanto busca a santificação, a família:
a) É chamada a ser uma comunidade orante, a brilhar pelo dom e pela arte da oração, ser escola de oração, de que Maria e o próprio Jesus são modelos e mestres. A oração é para a família um dom. O seu artífice é o próprio Espírito Santo, que desperta em nós o desejo de orar, conduz a nossa oração e, para que ela seja possível, cria a necessária comunhão entre nós e o Pai. Assim, a oração é a expressão da luz e da beleza do Espírito Santo em nós e fonte de profunda alegria para quem crê.
b) É chamada a fazer a experiência do perdão, da partilha, da correção fraterna, do acolhimento, do amor, na vivência dos valores propostos por Jesus, de modo que todos contribuam para a santificação uns dos outros.
c) È chamada a ser Igreja doméstica, vivendo intensamente o amor, que se manifesta de modo especial no serviço, na atenção, no cuidado, na busca do bem maior.
d) Não pode ser uma comunidade fechada em si mesma, mas deve estar presente no mundo e também nele exercer a sua missão, de modo que a Igreja se faça presente na realidade secular.
e) Fiel à vocação a que foi chamada pela graça do batismo e do matrimônio, deve testemunhar, no mundo, os valores do Evangelho, o que supõe a condição de discípulos e missionários.
Corresponde, portanto, aos pais fazer que seus filhos, superando os limites da própria família, abram seu espírito à idéia de comunidade, tanto eclesiástica como temporal[7].
O que se pode fazer no lar? Eis apenas alguns exemplos:
– Dever de sentar: estendê-lo de vez em quando aos filhos, sobretudo quando já têm suficiente discernimento.
– Orações familiares em conjunto: bênção dos alimentos, orações juntos antes de dormir, etc.
– Leitura e explicação da Bíblia, conforme a idade dos filhos.
– Aproveitar os tempos fortes, como a Novena de Natal em família, Campanha da Fraternidade, Aniversários, Mês da Bíblia, Mês Vocacional, Campanha Missionária…
– Montagem do Presépio (Bento XVI, Advento de 2008)
– Retomar a prática do Terço em família (João Paulo II em Aparecida, 1980)
– Fomentar a generosidade com os mais necessitados (visitas a creches, orfanatos, asilos, etc.)
– A missão dos avós (Bento XVI na Espanha)

4. Missão na Família e da Familia

Além disso, as portas do lar deveriam estar abertas a outras pessoas e famílias, num espírito marcadamente missionário. O Papa João Paulo II, dirigindo-se a um grupo de casais que promoviam atividades de orientação familiar, animava-os a ajudar um grande número de famílias a educar seus filhos, começando por procurar a melhora pessoal, um conhecimento mais objetivo dos vossos filhos e tomando consciência da necessidade de preocupar-vos também pelos filhos dos outros. Neste campo, em primeiro lugar é preciso estar bem convencidos do lugar originário e fundamental que ocupa a família, tanto na sociedade como na Igreja[8].
A missão do casal cristão, portanto, vai muito além do dever de cuidar da própria família. A comunidade familiar é convocada a estar aberta às outras comunidades semelhantes e à sociedade inteira, como células de um organismo sadio que, mesmo tendo vida própria, cooperam para o bem do corpo inteiro.
A confluência de gerações dentro de uma mesma família é uma riqueza que é preciso apreciar: pais e filhos, os avós e outros parentes próximos e, também, conforme a situação, as pessoas que se ocupam do serviço doméstico. Muitos desses servidores foram evangelizadas e até batizadas ou celebraram sua Primeira Eucaristia no seio da família em que trabalhavam.
E mais! A família, em virtude da sua natureza e vocação, longe de encerrar-se em si mesma, abre-se às outras famílias e à sociedade, assumindo sua função social[9]. A vida familiar pode, assim, alcançar um grande eco, um efeito multiplicador enorme em prol de toda a sociedade.
A família cristã hoje, sobretudo, tem uma vocação especial para ser testemunha da aliança pascal de Cristo, mediante a constante irradiação da alegria do amor e da certeza da esperança, da qual deve dar razão[10].
Como já consideramos no início, assim se comportaram os primeiros cristãos. Os Atos dos Apóstolos narram como a primeira preocupação das pessoas casadas que se convertiam, por exemplo Lídia (cf. At 16,14), o guarda da prisão (cf. At 16,33) ou o chefe da sinagoga (cf. At 18,8), consistia em transmitir a fé em Cristo aos demais membros da família.
Diante de uma sociedade que corre o perigo de ser cada vez mais despersonalizada e massificada e, portanto, desumana e desumanizadora, tendo como resultados negativos tantas formas de “evasão” – como são, por exemplo, o alcoolismo, a droga e o próprio terrorismo –, a família possui e comunica, ainda hoje, energias formidáveis, capazes de tirar o homem do anonimato, de mantê-lo consciente da sua dignidade pessoal, de enriquecê-lo com uma profunda humanidade e de inseri-lo ativamente, com sua unicidade e irrepetibilidade, no tecido da sociedade[11].
Em outras palavras, não batam as atividades desenvolvidas em âmbito paroquial ou eclesial. É preciso levar a fé cristã a toda a sociedade. Ir ao encontro dos “novos areópagos e centros de decisão”[12]. Ter a coragem de enfrentar os ambientes difíceis, lugares aparentemente refratários à mensagem evangélica. Para isso, é preciso estar preparados para enfrentar temas difíceis e saber dar razão da nossa esperança (cf. 1 Pd 3,15). Mostrar que vivemos porque acreditamos, não porque nos disseram que é assim que se deve fazer. É preciso formar-se bem e com profundidade; estudar os temas atuais, especialmente os mais atacados, e dar respostas convincentes, não apenas decoradas, mas aquelas que se podem defender com argumentos sérios, também lógicos e científicos, sem se esquecer de pedir as luzes do Espírito Santo para tomar a dianteira.
Outro local importante para a ação do casal cristão são as escolas onde estudam seus filhos. A mobilização dos pais e seu envolvimento nas decisões, sejam elas referentes à infra-estrutura material, sejam de cunho pedagógico e formativo, tornam-se cada vez mais necessários. Como alerta a Conferência de Aparecida, as novas formas educacionais de nosso continente… aparecem centradas prioritariamente na aquisição de conhecimentos e habilidades e denotam claro reducionismo antropolóico… com freqüência, elas propiciam a inclusão de fatores contrários à vida, à família e a uma sadia sexualidade. Dessa forma, não não manifestam os melhores valores do jovens nem seu espírito religioso; menos ainda lhes ensinam os caminhos para superar a violência e se aproximar da felicidade, nem os ajudam a levar uma vida sóbria e adquirir as atitudes, virtudes e costumes que tornariam estável o lar que venham a estabelecer, e que os converteriam em construtores solidários da paz e do futuro da sociedade[13].

[1] SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ, Amigos de Deus, n. 269.
[2] SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ, É Cristo que passa, n. 30.
[3] JOÃO PAULO II, Familiaris consortio, 22/11/1981, n. 43.
[4] JOÃO PAULO II, Homilia, 3/11/1982.
[5] JOÃO PAULO II, Christifideles laici, 30/12/1988, n. 34.
[6] CONCÍLIO VATICANO II, Decreto Gravissimum educationis, n.3.
[7] CONCILIO VATICANO II, Decreto Apostolicam actuositatem, n.30.
[8] JOÃO PAULO II, Discurso ao VII Congresso Internacional sobre a Família, 7/11/1983, n.1-2.
[9] JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Familiaris consortio, 22/11/1981, n.52.
[10] Ibidem.
[11] Ibidem, n.43.
[12] Documento de Aparecida, n.491.
[13] Documento de Aparecida, n.328.

Luís Martin, pai de Santa Teresinha (alguns traços)

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“Todas as tardes ia a pequeno passeio com papai. Fazíamos juntos nossa visita ao Santíssimo Sacramento, e cada dia visitávamos uma nova igreja. Assim entrei pela primeira vez na capela do Carmelo. Papai mostrou-me as grades do coro, dizendo-me que  atrás delas havia religiosas. Muito longe estava de pensar que, nove anos mais adiante, me encontraria entre elas! …” (grifos meus).

“Nos passeios que fazia com ele, o papai gostava de me mandar entregar a esmola aos pobres que encontrássemos. Certo dia vimos um que se arrastava com dificuldade em muletas. Acerquei-me para lhe dar um óbolo. Mas, não se julgando bastante pobre a ponto de aceitar esmola, ele olhou-me com triste sorriso e não quis pegar o que lhe oferecia. Não consigo descrever o que se passou em meu coração. Quisera consolá-lo e reconfortá-lo. Em lugar disso, porém, julguei que o tinha magoado. O pobre doente adivinhou por certo meu pensamento, pois que o vi virar-se para trás e envolver-me num sorriso. Papai acabava de comprar um doce para mim. Bem me veio a vontade de lho dar, mas não tive coragem. Ainda assim queria dar-lhe alguma cousa que não me pudesse refugar, pois sentia por ele uma simpatia muito grande. Ocorreu-me então ter ouvido falar que, no dia da primeira comunhão, a gente obteria tudo o que pedisse. Este pensamento foi um consolo para mim, e disse comigo mesma, embora só tivesse seis anos ainda: “Rezarei pelo meu pobre no dia da minha primeira comunhão”. Cumpri a promessa cinco anos mais tarde, e espero que o Bom Deus tenha atendido a oração que me inspirara a fazer-lhe por um de seus membros sofredores…” (grifos meus).

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Seu pai, santidade, nome de Batismo, Eucaristia

“Vinha a madrinha fazer o penteado da afilhada. Esta nem sempre ficava quietinha, quando lhe assentavam o cabelo, mas depois tinha toda a satisfação de ir pegar a mão de seu Rei que, em tal dia, lhe dava um abraço mais afetuoso do que de ordinário, pois toda a família se movimentava para a Missa. Em todo o trajeto do caminho, e mesmo dentro da igreja, a “Rainhazinha do Papai” dava-lhe a mão. Tomava lugar ao lado dele, e quando nos víamos obrigados a chegar mais adiante para o sermão, era preciso ainda encontrar dois assentos, um ao lado do outro. Não se tornava muito difícil. Toda a gente parecia achar tão amorável ver um ancião tão imponente com uma filha tão pequenina, que as pessoas não se incomodavam em ceder seus lugares. Meu tio que ficava nos bancos dos fabriqueiros, alegrava-se quando nos via chegar. Dizia ser eu seu mimoso raio de Sol… Por mim, não me inquietava de ser alvo de olhares. Ouvia muito atenta os sermões, dos quais, aliás, não alcançava muita cousa. O primeiro que entendi, e que me comoveu profundamente foi um sermão sobre a Paixão, pregado pelo Padre Ducellier. Dali por diante entendi todos os outros sermões. Quando o pregador falava de Santa Teresa, papai curvava-se para me dizer baixinho: “Escuta bem, minha rainhazinha, ele fala de tua Santa Padroeira”. Realmente, estava escutando bem, mas olhava mais vezes para o papai do que para o pregador. Seu belo semblante dizia-me tantas cousas! … Por vezes, seus olhos marejavam-se de lágrimas. Em vão procurava sopitá-las. Parecia estar já desligado da terra, tanto sua alma gostava de imergir nas verdades eternas … Sua carreira, porém, estava longe do termo final. Longos anos deviam passar, antes que o belo Céu se abrisse a seus olhos embevecidos, e o Senhor enxugasse as lágrimas do seu bom e fiel servidor! …”

Seu pai, santidade, exemplo de oração

“Que direi de nossos serões de inverno, mormente dos de Domingo? Ah! como me era agradável, depois do jogo de damas, sentar-me com Celina nos joelhos de Papai… Como sua bela voz, entoava canções que enchiam a alma de pensamentos elevados… ou então, embalando-nos de mansinho, recitava poesias inspiradas nas verdades eternas… Depois, subíamos para fazer a oração em comum, e a rainhazinha ficava só ao pé do seu Rei, não precisando senão olhar para ele para saber como rezam os Santos… Afinal, íamos por ordem de idade dar boa-noite a Papai e receber um beijo. A rainha vinha naturalmente por última. Para a beijar, o rei tomava-a pelos cotovelos, e ela exclamava bem alto: “Boa noite, Papai, boa noite, dorme bem”. Todas as noites era a mesma repetição…”

Fonte:

HISTÓRIA DE UMA ALMA- MANUSCRITOS AUTOBIOGRÁFICOS. SANTA TERESA DO MENINO JESUS E DA SAGRADA FACE

Família de Santa Teresinha

Pais: Luís Martin (22-8-1823 a 29-7-1894) e Azélia Maria (23-12-1831 a 28-8-1877).

Maria (22-2-1860 a 19-1-1940) (Irmã Maria do Sagrado Coração).

Paulina (7-9-1861 a 28-7-1951) (Madre Inês de Jesus).

Leônia (3-6-1863 a 16-6-1941) (irmã Francisca Teresa).

Helena (13-10-1864 a 22-2-1870).

José Luís (20-9-1866 a 14-2-1867).

José João Batista (19-12-1867 a 24-8-1868).

Celina (28-41869 a 25-2-1959) (Irmã Genoveva da Sagrada Face).

Melânia Teresa (16-8-1870 a 8-10-1870).

Teresa (2-1-1873 a 30-9-1897) (Santa Teresinha).