Batina, meu sacro poncho

Batina, meu sacro poncho,

Com quanto orgulho te visto.

És simples e sem mistérios,

Exatamente por isto,

foste a pilcha preferida

Pelo próprio Jesus Cristo.

 

Foi Maria quem traçou

Teu molde, tua estrutura.

As mãos da Virgem trançaram

Esses tentos, tua costura;

Foste gerada no colo

Da mais bela criatura.

 

Teu batismo foi glorioso,

No Jardim das Oliveiras.

Deus ungiu teu pano todo

Entre dores derradeiras:

O suor e o sangue de Cristo,

Transpassaram até as ombreiras.

 

Teu corpo tradicional:

Dois panos fazendo a cruz,

Em qualquer parte da terra,

Tem a marca que traduz

Esse poncho universal

Da peonada de Jesus.

 

Cor branca, marrom ou preta,

– tordilha, ruana, picaça –

Casimira, tropical,

Ou tergal que não amassa,

Pouco importa, nunca mudas

Como tradição de raça.

 

És aberta pelo meio

Como couro bem coreado;

É este colarinho branco,

É porteira sem cadeado;

Nada sai e nada entra

Tendo marca de pecado.

 

Esses trinta e seis botões,

Como dentes de uma serra,

Não são mera fantasia,

Pois é símbolo que encerra

Aqueles trinta e seis anos

Que Jesus viveu na terra…

 

Em quatro bolsos carregas:

– O dinheiro do Vigário;

– Santinhos, prazer dos piás;

– Muitas vezes o Breviário;

– E a boleadeira do Padre

Que é seu sagrado Rosário.

 

Batina, poncho diário,

Sem variação nem rodeio

Vais comigo em toda a parte,

Minha farda, meu arreio,

Meu chiripá de trabalho,

Minha pilcha de passeio.

 

És um sermão ambulante,

Pregador que não sesteia.

Botas freio nas paixões

E nos vícios, a maneia.

Quem é bom, gosta de ti;

Quem é mau, sempre te odeia.

 

Quando passa a “lo largo”,

Farfalhando com tenência,

Sobre as almas pecadoras

Sopras ventos com violência,

Para brasas do remorso

Prender fogo na consciência.

 

Campereando mundo afora,

Vais pregando: a humildade,

A pobreza e a renúncia,

O amor puro e a castidade:

És a presença de Deus.

És a própria eternidade!

 

Mesmo agora com licença

Do padre andar à paisano,

Batina, continuarás

O mesmo sagrado pano

Como símbolo do Padre,

Peão o Patrão Soberano.

 

Mais do que simples fazenda,

Neste meu poema venero

O símbolo secular,

Tradicional e austero

Com que marcaste sempre

A imagem de todo o Clero.

 

Viamão, setembro de 1960

Padre Paulo Aripe, “Potrilho” (A Igreja nos galpões).

 

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