A paternidade e a maternidade espiritual

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A Bíblia e reiterativa e extremamente expressiva quando fala da paternidade espiritual: uma relação que provêm não do sangue, nem da carne, mas do espírito de Deus, da filiação divina. Assim no livro do Gênesis, o Senhor fala a Abraão: “E não se chamará mais Abrão, mas o seu nome será Abraão, pois eu o tornei pai de muitas nações” (Gn 17, 5).

O sentido da mudança de nome é clara no hebraico (Cf. VAN DEN BORN, A. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Petrópolis, Vozes, 1977, p. 8), indica a passagem de uma paternidade consangüínea, limitada aos parentes, a uma paternidade espiritual que se estenderá a uma multidão de pessoas com as que se cria uma relação mais elevada que os vínculos do sangue e do amor puramente humano.

Como já vimos, Deus tem a plenitude da paternidade e dela participam tanto os nossos pais ao dar-nos a vida, como também aqueles que de alguma maneira nos geraram para a vida de fé.

São Paulo em muitas passagens refere-se a essa paternidade espiritual. Assim escreve aos primeiros cristãos de Corinto como a filhos queridos.

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“De fato, ainda que vocês tivessem dez mil pedagogos em Cristo, não teriam muitos pais, porque fui eu quem gerou vocês em Jesus Cristo, por meio do Evangelho. Portanto, eu lhes dou um conselho: sejam meus imitadores” (1Cor 4, 14-16).

Também dirige-se aos da Galácia com acentos de pai e de mãe , ao ter notícia das dificuldades que enfrentavam pela fé e ao experimentar a impossibilidade de atendê-los pessoalmente por encontrar-se fisicamente distante: “Meus filhos, sofro novamente com dores de parto, até que Cristo se forme em vocês” (Gl 4, 19). O Apóstolo sentia dentro de si preocupações próprias de um pai e de uma mãe com os seus filhos necessitados.

Esse espírito de São Paulo não deve ser considerado uma peculiariedade exclusiva do apóstolo. É espírito característico da Igreja. Na Igreja, sempre foram considerados pais aqueles que nos geraram na fé mediante a pregação e o batismo (cf. Catecismo Romano, III, 5, n. 8). Dessa paternidade espiritual participaram os cristãos que tinham ajudado os outros – quantas vezes também com dor e fadiga – a encontrar Cristo. Essa paternidade espiritual – tanto mais plena quanto maior é a nossa entrega a essa tarefa – é uma parte importante do prêmio que Deus concede nesta vida aos que o seguem, por vocação divina, numa entrega plena:

“Ele é generoso… Dá cem por um; e isso é verdade, mesmo nos filhos. – Muitos se privam deles pela glória de Deus, e têm milhares de filhos do seu espírito. – Filhos, como nós o somos do nosso Pai que está nos céus” (ESCRIVÁ, J. Caminho, n. 779).

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Essa missão de paternidade espiritual – lembra João Paulo II:

“Implica também essa cordial ternura e sensibilidade de que tão eloqüentemente nos fala a parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32). O amor misericordioso, portanto, é sobremaneira indispensável entre aqueles que convivem mais intimamente: entre os esposos, entre pais e filhos, entre amigos; é de igual modo indispensável na educação e na pastoral” (JOÃO PAULO II, Encíclica, Dives in misericordia, 30 de novembro de 1980).

São Paulo, continua dando-nos lições magistrais de paternidade espiritual. Alude constantemente com emoção a essa sua solicitude por todas as Igrejas (cf. 2Cor 11, 28): “Quem fraqueja, sem que eu também me sinta fraco? Quem cai, sem que eu me sinta com febre?” (2Cor 11, 29) (Idem, ibidem, n. 29). Essa atitude do Apóstolo é um modelo sempre atual para todos os pastores da Igreja, na sua solicitude por aqueles que Deus lhes confiou e também para todos os cristãos no seu apostolado constante, pois “como pais em Cristo – diz o concílio Vaticano II – devem cuidar dos fiéis que geraram espiritualmente pelo batismo e pela pregação” (Conc. Vat. II, op. cit., 28). Conseqüentemente, todos os cristãos devem sentir a responsabilidade de proporcionar aos seus irmãos tudo o que possa ajudá-los a caminhar para a santidade: o exemplo, a correção fraterna quando for oportuno, a palavra amável que anima, a alegria, o otimismo, o conselho que orienta nas dificuldades… E sempre deveremos oferecer-lhes a ajuda mais eficaz de todas as que lhes podemos prestar sem que o saibam: a da oração e da mortificação.

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Essa responsabilidade

“comporta sempre uma singular disponibilidade para derramar-se sobre todos os que se encontram no raio da sua ação. No matrimônio, é uma disponibilidade que – embora deva estar aberta a todos – consiste particularmente no amor que os pais dedicam aos filhos. Na virgindade, está aberta a todos, abraçados pelo amor de Cristo esposo” (JOÃO PAULO II, Carta Mulieris dignitatem, 15 de agosto de 1998, n. 21).

No celibato e na virgindade por amor a Deus, o Senhor dilata o coração do homem e da mulher para que a paternidade ou maternidade espiritual seja mais extensa e profunda. A entrega a Deus não limita de maneira alguma o coração; ao contrário, enriquece-o e torna-o mais capaz de realizar esses sentimentos profundos de paternidade e maternidade que o próprio Senhor colocou na natureza humana (Cf.CARVAJAL, F.F., Falar com Deus, São Paulo, Quadrante, 1990, v. V, pp. 322-325).

Recordemos, enfim, que a virgem Maria também exerce sua maternidade sobre todos os cristãos e sobre todos os homens (Cf. CONC. VAT. II,  Const. Lumen Gentium, n. 61). Dela aprendemos a ter uma alma grande no trato com aqueles que continuamente procuramos conduzir ao seu FIlho, e que de certo modo geramos para a fé. Se imitarmos Maria, participaremos de algum modo da sua maternidade espiritual.

Fonte: LLANO CIUENTES, Rafael. Não temais…não vos preocupeis…Deus é vosso pai! SP: Paulinas, 2001, col. Sopro do Espírito, p. 155-8.

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ALBERTINA BERKENBROCK, LEIGA (1919-1931)

Albertina Berkenbrock nasceu a 11 de Abril de 1919, em São Luís, Imaruí (Brasil), numa família de origem alemã, simples e profundamente cristã. Há uma singular concordância entre os testemunhos dados nos vários processos canónicos por parte das testemunhas que a tinham conhecido e convivido com a Serva de Deus, ao descrevê-la como uma menina bondosa no mais amplo sentido do termo. A natural mansidão e bondade de Albertina conjugavam-se bem com uma vida cristã compreendida e vivida completamente. Da prática cristã derivava a sua inclinação à bondade, às práticas religiosas e às virtudes, na medida em que uma criança da sua idade podia entendê-las e vivê-las. Sabia ajudar os pais no trabalho dos campos e especialmente em casa. Sempre dócil, obediente, incansável, com espírito de sacrifício, paciente, até quando os irmãos a mortificavam ou lhe batiam ela sofria em silêncio, unindo-se aos sofrimentos de Jesus, que amava sinceramente.

 A frequência aos sacramentos e a profunda compenetração que mostrava ter na participação da mesa eucarística é um índice de maturidade espiritual que a menina tinha alcançado; distinguia-se pela piedade e recolhimento.

 O cenário no qual foi consumado o delito é terrivelmente simples, quanto atroz e violenta foi a morte da Serva de Deus. No dia 15 de Junho de 1931, Albertina estava apascentando os animais de propriedade da família quando o pai lhe disse para ir procurar um bovino que se tinha distanciado. Ela obedeceu. Num campo vizinho encontrou Idanlício e perguntou-lhe se tinha visto o animal passar por ali.

 Idanlício Cipriano Martins, conhecido com o nome de Manuel Martins da Silva, era chamado pelo apelido de Maneco. Tinha 33 anos, vivia com a mulher próximo da casa de Albertina e trabalhava para um tio dela. Embora já tivesse matado uma pessoa, era considerado por todos um homem recto e um trabalhador honesto. Albertina muitas vezes levava-lhe comida e brincava com os seus filhos; portanto, era uma pessoa do seu conhecimento. Quando Albertina lhe perguntou se tinha visto o boi, Maneco responde que sim, acrescentando que o tinha visto ir para o bosque próximo dali e ofereceu-se para a acompanhar e ajudar na busca. Mas, ao chegarem perto do bosque, convidou-a para deitar com ele. Seguiu-a com intenção de lhe fazer mal. Albertina não consentiu e Maneco então a pegou pelos cabelos, jogou-a ao chão e, visto que não conseguia obter o que queria porque ela reagia, pegou um canivete e cortou o seu pescoço. A jovem morreu imediatamente. Dos testemunhos dos companheiros de prisão de Maneco revelou-se que a menina declarou a sua indisponibilidade pois aquele acto era pecado. A intenção de Maneco era clara, a posição de Albertina também: não queria pecar.

 Durante o velório, Maneco controlava a situação fingindo velar a vítima e ficando por perto da casa. Porém, antes que descobrissem quem era o assassino, algumas pessoas notaram um fenómeno particular: todas as vezes que ele se aproximava do cadáver da Serva de Deus, a grande ferida do pescoço começava a sangrar.

 No funeral de Albertina participou um elevado número de pessoas e todos diziam já que era uma “pequena mártir”, pois dado o seu temperamento, a sua piedade e delicadeza, eram convictos de que tinha preferido a morte ao pecado. Albertina sacrificou a vida somente pela virtude.

Início da conversão de São Francisco

Relato de três companheiros de São Francisco de Assis (c. 1244) 


§§ 7-8 (a partir da trad. de Debonnet e Vorreux, Ed. Franciscaines, 1968, p.810) 


Certa noite, depois do seu regresso a Assis, os companheiros do jovem Francisco elegeram-no como chefe do grupo. Com tantas vezes tinha feito, mandou então preparar um sumptuoso banquete. Depois de saciados, saíram todos e percorreram a cidade, a cantar. Os companheiros, em grupo, iam à frente de Francisco; este, empunhando o bastão de chefe, fechava o cortejo, um pouco mais atrás, sem cantar, mergulhado nos seus pensamentos. E eis que, de súbito, o Senhor lhe aparece, enchendo-lhe o coração de uma doçura tal, que ele ficou sem conseguir falar, sem se mexer […].

Quando os companheiros se voltaram para trás e o viram assim tão longe deles, voltaram atrás e aproximaram-se, receosos; encontraram-no mudado, como se fosse outro homem. Perguntaram-lhe: «Em que é que pensavas para te esqueceres assim de nos seguir? Estarias a pensar em arranjar mulher?» «Têm toda a razão! Decidi ter esposa, uma esposa mais nobre, mais rica e mais bela do que todas as que vocês já viram». Os companheiros puseram-se a troçar dele […].

A partir daquele momento, ele fazia os possíveis para que Jesus Cristo lhe ocupasse a alma, e bem assim aquela pérola que tanto desejava comprar depois de tudo ter vendido (Mt 13, 46). Furtando-se frequentemente aos olhos dos que dele troçavam, ia muitas vezes – quase diariamente – rezar em segredo. De alguma maneira a isso era impelido pelo gozo antecipado daquela doçura extrema que tantas vezes o visitava e que com tanta força o atraía, estando ele na praça ou noutros locais públicos, para a oração.

Autodoação

A comunidade cristã só é autêntica, quando os seus membros se inserem progressivamente no mistério Pascal de Cristo. O mistério Pascal de Cristo é o da sua autodoação na Cruz, a ressurreição e o dom do Espírito. Naturalmente, os cristãos passarão a viver como Cristo: na autodoação. Comunidades que não gerem vocações para o celibato e a virgindade não são vivas; tampouco, gerarão vocações matrimoniais, pois tanto a virgindade quanto o matrimônio são vocações de autodoação para uma outra pessoa, Divina ou humana. O problema das vocações sacerdotais na Igreja Latina não é o celibato, mas a falta de vida cristã intensa. Pois, que revolucionemos a Igreja: mais fidelidade a Cristo, mais fidelidade à Igreja, mais fidelidade ao Papa e ao bispo diocesano. E Deus se mostrará benigno e fiel, escolhendo mais e mais pessoas que se dediquem de corpo e alma ao seu serviço.