Teologia do corpo Dele

Teologia do corpo Dele[1]

Aslam1. Força para Servir e se Sacrificar

Homem e mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus, que é Amor. O corpo do homem e da mulher são uma imagem de Deus e um chamado à doarem-se um ao outro no Amor. Contudo, o pecado original debilitou a afetividade humana. Com a sua redenção, Cristo restaura e eleva as forças humanas para a vivência plena e purificada de nossa corporeidade, afetividade e sexualidade.

Um dos contrastes mais aparentes entre o corpo masculino e o feminino está na força do homem comparada com a beleza da figura feminina. Em geral, os heróis são representados com uma grande força e os vilões como homens fracos e débeis. Isso, contudo, não significa que a mulher também não possua força.

O corpo masculino aponta para algo mais profundo, não apenas para a força dos músculos, mas para a força de caráter. Como é desapontante um homem com grande força física, mas incapaz de se sacrificar pelos outros, ou de resistir a uma simples tentação!

Em 1852, um caçador chamado François Dorel passou pela pequena vila de Ars, na França. Ele havia ouvido falar de um padre extraordinário que lá vivia. Enquanto ele caminhava com seu cão de caça em direção da igreja, são João Maria Vianney passou por ele, parou, olhou dentro de sua alma e disse: “Eu desejo muito que sua alma seja tão bonita como o seu cachorro”.

A força interior não tem idade. Jason Evert[2] conta que, depois de sua Missa privada, o Papa João Paulo II conversou com cada pessoa que tinha vindo para o ver. Ele que tinha sido um atleta e de uma beleza muito grande quando jovem. Quando se aproximou do Papa, ele pode perceber sua mão trêmula por causa do mal de Parkinson e que o fazia ter de ficar sentado. Aí está o homem que ficou órfão muito jovem, que sobreviveu ao Nazismo, contribuiu com a queda do Comunismo e possuía a responsabilidade por bilhões de almas em todo o mundo. “Ao que ele olhou para os meus olhos durante nossa rápida conversa, eu percebi nunca ter encontrado alguém com tanta força, e eu diria, masculinidade. Ele era uma verdadeira imagem daquele que O criou”.

Poucos tem apresentado a Deus nas suas qualidades masculinas. Raramente se fala de Deus como Juiz ou como um Rei que merece honra e obediência. Fala-se apenas de sua bondade, caridade e sensibilidade. Ele parece, assim, o Papai Noel. Um Deus emasculado.

O rei Davi escreve:  “Eu, que me tinha deitado e adormecido, levanto-me, porque o Senhor me sustenta. Nada temo diante desta multidão de povo, que de todos os lados se dirige contra mim. Levantai-vos, Senhor! Salvai-me, ó meu Deus! Feris no rosto todos os que me perseguem, quebrais os dentes dos pecadores” (Sl 3, 6-8).

No livro das Crõnicas de Nárnia, “O Leão, a Bruxa e o Guarda-roupa”, a menininha fica apreensiva sobre se encontra com o leão Aslam (símbolo de Jesus Cristo). Perguntam-lhe se é seguro se encontrar com um leão. A respostas se aplica a uma perfeita descrição de Deus: “Segura?… Alguém disse que era seguro? É óbvio que não é seguro. Mas, Ele é bom. Ele é o Rei, eu tinha te dito”.

Um rapaz de 17 anos disse para Jason: “Eu sei que é errado dormir com umas garotas com as quais eu não me envolvo realmente, mas se eu a amar? Tu viste, a garota com que eu estou agora, eu morreria por ela”. Jason respondeu: “Ok. Faça isso”. Ele olhou espantado, “Huh?” Jason explicou: “Morra por ela. Veja: é divertido imaginar uma cena em que tu fazes um sacrifício heroico para salvar a vida de uma mulher. Deus pôs esse nobre desejo em nosso coração por um motivo. Mas, encara os fatos: isso não acontecerá. A não ser que sua garota esteja envolvida com o crime organizado, ela provavelmente não será levada para lhe darem um tiro. Mas, há alguém de quem tu precisas protegê-la, e é de ti mesmo. Se queres realmente morrer por ela, deixe que tua luxúria morra. Se queres proteger ela, guarda a sua alma. Se alguém desse um tiro nela, ela iria para o céu? Ou, talvez, estás mais interessado em seu corpo do que em sua alma?

O modelo de masculinidade nos foi dado quando Deus se fez homem, Jesus Cristo. Ele veio para sacrificar-se para salvar os outros (cf. Is 52-53). O contrário seria dominar os outros para me servirem. Os esposos devem amar suas esposas como Cristo amou à Igreja (cf. Ef 5, 25).

Jason Evert conta que na preparação da Missa de seu casamento com Crystalina, eles não escolheram como leituras as Bodas de Caná, ou outras sobre o amor. Escolheram um evangelho da crucificação. Isso iria parecer estranho, um texto de um homem humilhado, espancado e morto.

Mas, para Jason, era o que ele queria para o seu casamento. “Ninguém tem maior amor, do que o que dá a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15,13).

Infelizmente, nem sempre os homens conseguimos ter a força para amar as esposas como elas devem ser amadas.

“Jessica”, “esteve envolvida em prostituição e ainda em pornografia e sofreu um problema vascular cerebral enquanto usava drogas” (p. 12). Ela entrou em coma e morreu, com 16 anos, filha de um pai desconhecido. Um amigo da família enviou um longo email lamentando o fato que muitos rapazes cobiçavam ela na Internet, sem saber se ela estava viva ou morta. “Em vez de olhar os atos que ela fez… reze por ela”.

João Paulo II disse que a dignidade e o equilíbrio da vida humana dependem, “em qualquer momento da história e em qualquer ponto de longitude e de latitude geográficas, de ‘quem’ será ela para ele e ele para ela”[3]. O que os homens foram para Jéssica e o que ela foi para os homens?

Os homens não fizeram sacrifícios por ela ou por defendê-la. Se tornaram exploradores, em vez de protetores. Sacrificaram-na no altar da luxúria. O homem que cooperou para dar a vida a ela, recusou dar a ela sua paternidade. Os homens que a usaram para a prostituição, não pagaram por sexo, mas para não se “incomodar”. Ela usou os homens para o seu lucro. E usou o dom da sua beleza para enredar os homens numa vida de pecado.

“Todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mt 5, 28).

Uma das grandes confusões para a vivência da pureza  é confundir “pecado” com “sexualidade”. Muitos pensam ter apenas duas opções: reprimir suas paixões e deixar Deus contente ou liberar minha luxúria e me fazer feliz.

Ao ver a mulher criada por Deus, o homem manifesta admiração e fascinação[4]. Ele experimentou o desejo sexual como algo puro; como um chamado a um amor total, livre, fiel e fecundo. Contudo, o pecado obscureceu os seus olhares e de pessoas, passaram a se olharem como objetos inanimados.

O campo de batalha está entre o amor e a luxúria. A missão é de reconhecer na forma feminina o “significado esponsal do corpo”, ou seja, perceber um chamado ao amor.

“Minha irmã, minha esposa” (Ct 4, 9). Essa linguagem do Cântico dos cânticos talvez nos surpreenda.  O sentido é o de que o amor tem de se fraterno, o irmão que defende a irmã de tudo o que é impuro. Ela não é um objeto, mas um mistério a ser preservado. E só um bom amor fraterno prepara para chamá-la “esposa”.

Não se trata de aniquilar o amor erótico, mas de aperfeiçoá-lo. Essa conversão é uma paciente mudança sobre como se olha para uma mulher. Não se trata de reprimir umas paixões. Mas, de saber amar a mulher com amizade, fraternidade, responsabilidade e sacrifício.

Para amar, se precisa de força interior para não se deixar escravizar por relações desumanas. O amor, a beleza, a pureza, a abnegação por amor, nunca perdem o seu encanto.

 

 

  1. Deus toma a iniciativa do dom do Amor

Imagine que ela lhe convidou para um lanche. Depois da refeição, ao por do sol na praia, ela te diz eu gostaria de viver para sempre contigo. Depois, ela olha no fundo dos teus olhos, te toma a mão e pega um pequeno estojo. Ela se ajoelha, abre o estojo com um anel e te pede ser o seu noivo. Estranho? Sim, mesmo depois de tantas mudanças sociais, o homem ainda sente que a iniciativa para o amor é dele.

Tanto do ponto de vista anatômico, como afetivo, o homem inicia o dom de si para a mulher e ela o recebe, não de maneira passiva, mas uma recepção ativa.

“Eu dormia, mas meu coração velava. Eis a voz do meu amado. Ele bate. ‘Abre-me, minha irmã, minha amiga, minha pomba, minha perfeita; minha cabeça está coberta de orvalho, e os cachos de meus cabelos cheios das gotas da noite’”(Ct 5, 2).

Ele se aproxima dela com reverência, cativo dela. “Entro no meu jardim, minha irmã, minha esposa, colho a minha mirra e o meu bálsamo, como o meu favo com meu mel, e bebo o meu vinho com meu leite” (Ct 5, 1).

Ao criar homem e mulher, e isso era “muito bom” (Gn 1, 31), Deus tornou visível seu plano para a humanidade. Cristo referiu-se a Si mesmo, muitas vezes, como o Esposo. São Paulo disse que o homem deve amar sua mulher como Cristo amou a Igreja[5].

Deus não nos ama de modo sexual, mas o seu amor é tão íntimo e profundo que o melhor sinal desse amor é o abraço marital. Essa analogia, como todas as outras, sempre é inadequada. Mas, nos revela algo, uma centelha, do imenso Amor divino.

A experiência e o desejo da pura beleza é um eco do “princípio” em que Deus quis criar um corpo humano que refletia puramente toda a beleza divina e uma premonição do futuro, quando O veremos face-a-face.

Essa atração pela beleza dela é um sinal do céu. É Deus querendo nos chamar a atenção.

O nível de testosterona no homem é de vinte vezes maior do que das mulheres da mesma idade. O espaço no cérebro para a sexualidade é o dobro do que das mulheres. Esses desejos intensos que o homem sente são parte do plano de Deus.

O livro de Tobias contém um relato edificante onde Tobias, com a ajuda de Deus, vence o medo, a luxúria, e desposa Sara com amor. Eles dormiram em paz. O papa João Paulo II considerou isso como a “paz do olhar interior”[6].

A mulher sabe quando ela é vista com amor ou como um objeto. Seu cérebro tem facilidade em ler faces, perceber sentimentos, detectar o tom da voz. Elas estão equipadas para se defender de quem não vai defendê-la.

O plano de Deus para o amor masculino é a de que ele busque a ela com amor e sinceridade, integrando o desejo sexual e a capacidade de amar.

“Ele nos amou por primeiro” (1Jo 4, 19). Deus sempre toma a iniciativa em nos chamar. Muitas vezes recusamos o seu amor.

Alguns homens tornam-se agressivos ou manipuladores a fim de alcançar os seus prazeres. Outros, com medo da rejeição, tornam-se passivos. Outros, simplesmente, fogem para hábitos de pornografia. O compromisso vocacional exige coragem, iniciativa e a espera da resposta feminina.

Enquanto lê esse texto, poderá haver alguém que não sente essa inclinação para o sexo oposto.

O pecado original tem muitos efeitos, como a fraqueza na inteligência, a insensibilidade para com o outro, a falta de força interior, etc. Um exemplo de desordem afetiva se dá quando um homem sente desejo por crianças ou por novas formas de experiências sexuais.

O aparelho reprodutivo masculino foi feito para o feminino. Não é sem violência que ocorre a relação homossexual masculina. Isso ocorre desse modo pela razão muito simples de que apenas a relação homem e mulher é fecunda. Divorciar a reprodução da sexualidade seria algo como separar a digestão do ato de comer uma refeição. Um ato existe para o outro, existem como um único processo.

Não se sabe com clareza a origem da homossexualidade. Alguns podem não terem a figura paterna na infância, ou por que não se sentem atraídos para desenvolver semelhante papel. Outros foram vítimas de abuso infantil. É possível também uma origem biológica.

Há homens que, mesmo unindo-se fisicamente a uma mulher, possuem uma psicologia feminina. A virtude da castidade permitirá a elevar-se acima dessas inclinações e a viver a santidade.

Um homem passivo, medroso ou absorvido em si mesmo não é uma imagem adequada de Deus. A figura de Adão é melhor entendida em movimento, na ação. Ele é a imagem do Deus guerreiro. Ao transformar a sua afetividade num sacrifício pelo mistério feminino, o homem é capaz de viver já na terra o céu que lhe aguarda junto de Deus.

 

 

  1. Deus toma a iniciativa do dom da vida

“Obrigado por essas conversas sobre castidade, cara”, falou um jovem universitário”. “Eu realmente precisava. Eu vou iniciar do zero”. Quando chegou em casa ele recebeu uma mensagem de sua namorada: “Uh, Darren aqui é a Raquel. Nós fomos à festa no mês passado. Bem, eu fiz o teste de gravidez… Um. Eu preciso que tu me ligues no telefone”.

Dois ano depois, Darren estava numa conferência jovem. Estava Raquel também e ela disse que Darren tinha se transformado num pai maravilhoso. Que eles fizeram algumas coisas erradas, mas que, agora, tudo ía bem. Ele tem um trabalho e gastava bastante tempo com a criança.

Quem deseja os prazeres do casamento, deve arcar também com as suas responsabilidades. Se um jovem se abstém de relações íntimas com a namorada está em vista de um amadurecimento necessário para assumir a paternidade. Ele não pode “engravidar” alguém acidentalmente se não assumirá a responsabilidade. “Cuida da tua tarefa de fora, aplica-te ao teu campo e depois edificarás tua habitação” (Pr 24, 27).

A natureza criativa e criadora de Deus está estampada na anatomia masculina. Como Deus, o homem inicia o dom da vida. E a mulher é o tabernáculo da vida. Assim, se inicia o milagre da concepção da vida humana.

Uma vez perguntei a um amigo, num jogo de golfe, se ele tinha filhos. “De jeito nenhum, cara. Eu tenho medo de crianças”. Antes de dar a próxima tacada, lhe disse que ele ficaria sozinho quando fosse mais velho. Ele se lembrava de seus professores universitários que choravam de alegria ao falar dos filhos. Jason conta que fez essa experiência. “Os filhos são o supremo dom do casamento[7].

Todos os homens são chamados à paternidade. Inclusive, os sacerdotes são chamados “padres-pais” por que também eles dão a vida espiritual às pessoas, assim como o Cristo.

Um programa na universidade fez com que alguns rapazes dessem formação escolar para umas crianças pobres. Eles também jogavam basquete, as visitavam e brincavam com elas. Para muitas dessas crianças, essa foi a maior experiência de paternidade que elas haviam tido.

Quando um homem rejeita a paternidade, ele causa muitos danos. Jason Evert lembra de seu melhor amigo, Sean, perfurando a foto de seu pai e chorando. Há alguns dias, o seu pai havia anunciado na mesa do almoço, que ele estava deixando a família por uma outra mulher. Com o tempo, esse amigo de Jason deu claros sinais de abandono e depressão. Sua irmã começou a usar drogar e a dormir com um rapaz mais velho, enquanto que a mãe começou a perder o bom senso. Sean se perguntava: “a quanto tempo ele estava nos enganando?””Por que ele fez uma família para depois a abandonar?”

Nossa civilização, como em nenhum outro tempo, sente a ausência dos pais. E, enquanto o homem não se sente como tal, ele tenta provar para os outros que ele é um autêntico macho. Um dos modos de tentar provar para os outros a sua masculinidade é pela conquista de várias mulheres. E, assim, destrói a sua autêntica masculinidade que seria dar a vida para outros.

Garotas sexualmente ativas tem a tendência três vezes maior à depressão que garotas abstinentes[8].

Garotas sexualmente ativas (entre 12 e 16 anos) tem uma taxa de suicídio seis vezes maior que as virgens[9].

No Antigo Testamento, há uma profecia de que o coração dos pais se voltariam para os filhos e o coração dos filhos se voltariam para os pais[10]. Mesmo que o pai habite com os filhos, se não é capaz de dizer “eu te amo”, “me desculpe”, “eu te perdoo”, ele continuará distante deles.

Por isso, a Igreja chama a família de “escola do amor”. O amor é responsabilidade. As relações que construímos na família dependem da nossa relação com o Pai do céus. Ele não se importa com as nossas falhas, mas nos capacita para sermos imagens de seu Filho. Somos chamados a sermos imagens do Pai, na terra. Todo o nosso ser, o nosso corpo foi feito para isso.

 

[1] O presente artigo é como que um resumo do livro: Jason Evert, Theology of his body: Discovering the Strenght and Mission of Masculinity, Ed. Ascension Press, 2009. É um resumo ligeiro, grosseiro, apenas com fins didáticos.

[2] P. 6-7.

[3] TOB 43, 7.

[4] Cf. Gn 2, 23.

[5] Ef 5, 31-32

[6]TOB 13, 1. 110, 2

[7] Gaudium et Spes, 50.

[8] Robert E. Rector, et al., Sexually Active Teenagers are More Likely to be Depressed and to Attempt Suicide, The Heritage Foundation (3 June, 2003).

[9] D. P. Orr, M. Beiter, G. Ingersoll, Premature Sexual Activity as an Indicator of Psychological Risk,  Pedriatics 87 (February 1991): 141-147.

[10] Cf. Ml 4, 6.

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SOBRE OS OITO VÍCIOS CAPITAIS

Fonte: http://www.veritatis.com.br/article/5363

SOBRE OS OITO VÍCIOS CAPITAIS

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Publicado em 15/03/2004

Sobre os Oito Vícios Capitais

I. A GULA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Publicado em

I. A Gula (1)

Capítulo 1

A origem do fruto é a flor e a origem da vida ativa (2) é a moderação (3); quem domina o próprio estômago, diminui as paixões; pelo contrário, quem é subjugado pela comida, aumenta os prazeres.

Assim como Amalec é a origem dos povos, também a gula é a origem das paixões. Assim como a lenha é alimento do fogo, a comida é o alimento do estômago. Muita lenha proporciona uma grande chama e a abundância da comida nutre a concupiscência. A chama se extingue quando há menos lenha e a miséria de comida apaga a concupiscência.

Aquele que domina a boca, confunde os forasteiros e desata facilmente as suas mãos. Da boca bem coordenada brota uma fonte de água e a libertação da gula gera a prática da contemplação.

A estaca da tenda, atacando, matou a boca inimiga e a sabedoria da moderação mata a paixão (4).

O desejo de comida gera desobediência e uma deleitosa degustação afasta do Paraíso. As comidas saborosas saciam a garganta e nutrem o glutão de uma imoderação que nunca cochila.

Um ventre indigente prepara para uma oração vigilante; ao contrário, um ventre bem cheio convida para um longo sono.

Uma mente sóbria se alcança com uma dieta bem pobre, enquanto que uma vida cheia de delicadezas lança a mente no abismo.

A oração daquele que jejua é como um pintinho voando mais alto que uma águia, enquanto que a [oração] do glutão está envolta nas trevas. A nuvem esconde os raios do sol e a digestão pesada dos alimentos ofusca a mente.

Capítulo 2

Um espelho sujo não reflete claramente a imagem daquele que se põe diante dele e o intelecto, tonto pela saciez, não acolhe o conhecimento de Deus.

Uma terra não cultivada gera espinhos e de uma mente corrompida pela gula germinam maus pensamentos.

Como na lama não emana boa cheiro, tampouco no glutão é possível sentir o suave perfume da contemplação.

O olho do glutão explora com curiosidade os banquetes, enquanto que o olhar do moderado observa os ensinamentos dos sábios.

A alma do glutão enumera a lembrança dos mártires, enquanto que a do moderado imita os seus exemplos.

O soldado fraco foge ao som da trombeta que preanuncia a batalha; da mesma forma, o glutão foge dos chamados à moderação.

O monge guloso, submetido às exigências do seu ventre, faz questão de sua parte cotidiana. O caminhante, que caminha com afinco, alcançará logo a cidade e o monge glutão não chegará à casa da paz interior (5).

O vapor úmido do incenso perfuma o ar, tal como a oração do moderado deleita o olfato divino.

Se te abandonas ao desejo de comida, já nada te bastará para satisfazer o teu prazer; o desejo de comida, com efeito, é como o fogo que sempre envolve e sempre se inflama. Uma medida suficente enche o prato, mas um ventre mal acostumado jamais dirá: “Basta!”. A extensão das mãos pôs em fuga a Amalec e uma vida ativa elevada submete as paixões carnais.

Capítulo 3

Extermina tudo o que for inspirado pelos vícios e mortifica fortemente a tua carne. Com efeito, uma vez morto o inimigo, este não mais produz medo; assim, um corpo mortificado não perturbará a alma. Um cadáver não sente a dor produzida pelo fogo; e, menos ainda, o moderado sente o prazer do desejo extinto.

Se matardes o Egípcio (6), esconda-o sob a areia e não engordes o corpo por uma paixão vencida; assim como na terra preparada germina o que está escondido, também no corpo gordo revive a paixão.

A chama que se reduz é reacendida quando a alimentamos com lenha seca e o prazer que está se atenuando revive com a saciedade da comida; não te compadeças do corpo que se lamenta pela carestia e não te agrades com comidas suntuosas; com efeito, se te reforças, encontrareis uma guerra sem trégua, que escravizará tua alma e te fará servo da luxúria.

O corpo indigente é como um cavalo dócil que jamais derrubará o cavaleiro; [o cavalo], com efeito, dominado pelas rédeas, se submete e obedece a mão daquele que as detém; assim, o corpo, dominado pela fome e vigília, não reage por um pensamento que o cavalga, nem relincha excitado pelo ímpeto das paixões.

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Notas:

1. Ao que hoje chamamos gula, Evágrio chamava gastrimargia, literalmente “loucura do ventre”.

2. “Vida ativa” é a tradução mais próxima para praktiké, a disciplina espiritual que, segundo Evágrio, se encontra no princípio do processo de conformação com o Senhor Jesus e que tem por fim purificar as paixões da alma humana. A isto Evágrio dedica o seu “Tratado Prático”.

3. Enkráteia é um conceito muito mais rico que o termo “moderação”, se por este se entende apenas a virtude contrária à gula. Pela raiz krat, que significa “força” ou “poder”, esta virtude implica “domínio de si” ou “senhorio de si”.

4. Trata-se de uma comparação obscura, mas a mensagem é clara.

5. O termo usado por Evágrio é Apátheia, que em sua espiritualidade equivale ao estado de plenitude espiritual, alcançado mediante o domínio das paixões e o silenciamento do interior.

6. O “Egípcio” é o nome dado, pelos Padres do Deserto, a um demônio especialmente voraz na tentação.

 

II. A LUXÚRIA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Publicado em

II. A Luxúria

Capítulo 4

A moderação gera a regra, enquanto que a gula é a mãe do desenfreio; o óleo alimenta a luz da lamparina e o freqüentar mulheres atiça a chama do prazer.

A violência da onda se desencadeia contra o mercador mal ancorado, assim como o pensamento da luxúria [se desencadeia] sobre a mente do imoderado. A luxúria virá aliada à saciez, lhe concederá licença, se juntará aos adversários e combaterá, finalmente, do lado dos inimigos.

Permanece invunerável às flechas inimigas aquele que ama a tranqüilidade (7); ao contrário, aquele que se mistura com a multidão recebe golpes continuamente.

O olhar para uma mulher é semelhante a um dardo venenoso: fere a alma, nos injeta veneno e, quanto mais perdura, tanto mais espalha a infecção. Aquele que busca defender-se destas flechas se mantém alheio das multitudinárias reuniões públicas e não divaga com a boca aberta nos dias de festa; é muito melhor ficar em casa, passando o tempo orando, do que fazer a obra do inimigo, crendo honrar as festas.

Evita a intimidade com as mulheres se realmente desejas ser sábio e não lhes dê liberdade para falar-te, nem confiança. Com efeito, no início têm ou simulam uma certa cautela; porém, a seguir, ousam fazer tudo descaradamente: na primeira aproximação, mantêm olhar baixo, falam docemente, choram comovidas, tratam seriamente, suspiram com amargura, fazem perguntas sobre a castidade e escutam com atenção; na segunda vez, levantam um pouco mais a cabeça; na terceira vez, aproximam-se sem muito pudor; tu sorris e elas se põem a rir desaforadamente; a seguir, se embelezam e se te mostram com ostentação; seus olhares passam a anunciar o ardor, levantam as sobrancelhas e os olhos, desnudam o pescoço e abandonam todo o corpo à fraqueza, pronunciam frases abrandadas pela paixão e te dirigem uma voz fascinante ao ouvido até apoderarem-se por completo da [tua] alma.

Ocorre que estas ciladas te encaminham à morte e estas redes entrelaçadas te arrastam à perdição; portanto, não te deixes enganar sequer por aquelas que se servem de discursos discretos; nestas, com efeito, se oculta o maligno veneno das serpentes.

Capítulo 5

Aproxima-te antes do fogo ardente que de uma mulher jovem, sobretudo se também sois jovem; com efeito, quando te aproximas da chama e sentis um bom calor, te levantas rapidamente, enquanto que, quando sois seduzido pelas conversas femininas, dificilmente conseguireis fugir.

A erva cresce quando está cercada pela água; assim, germina a imoderação freqüentando as mulheres.

Aquele que enche o ventre e faz profissão de sabedoria se parece com alguém que afirma ser possível frear a força do fogo usando palha. Assim como efetivamente é impossível apagar a mutável agitação do fogo com a palha, também é impossível limitar na saciedade o ímpeto inflamado da imoderação.

Uma coluna se apóia sobre uma base e a paixão da luxúria tem sua base na saciez.

O navio, presa da tempestade, se apressa em chegar ao porto e a alma do sábio busca a solidão; um foge das ameaçadoras ondas do mar, e a outra, das formas femininas, que trazem dor e ruína.

Um belo rosto de mulher afunda mais que um maremoto; mesmo assim, este último te oferece a possibilidade de nadar, para que salveis a vida, enquanto que a beleza feminina traz o engano e te persuade a desprezar inclusive a própria vida.

A sarça solitária se subtrai intacta à chama e o sábio, que tem consciência que deve manter-se afastado das mulheres, não incinde na imoderação; assim como a lembrança do fogo não queima a mente, também nem sequer a paixão tem êxito se lhe falta a matéria.

Capítulo 6

Se tens piedade para com o inimigo, esta será sempre tua inimiga; e se facilitas à paixão, esta se te revelará.

Ver mulheres excita o imoderado, enquanto empurra o sábio a glorificar a Deus; porém, se no meio das mulheres a paixão é tranqüila, não dês crédito a quem te afirma terdes alcançado a paz interior (8).

O cão abana o rabo justamente quando está no meio da multidão, mas quando é espantado, mostra a sua maldade. Apenas quando a recordação da mulher surgir em ti separada da paixão, então poderás considerar-te próximo dos confins da sabedoria. Ao contrário, quando a imagem dela te levar a vê-la e os seus dardos cercarem a tua alma, então poderás considerar-te afastado da virtude.

Porém, não deves manter-te assim, nesses pensamentos, nem tua mente deve familiarizar-se muito com as formas femininas, pois a paixão será reincidente, levando perigo junto a si.

Efetivamente, assim como uma fundição apropriada purifica a prata, enquanto que, quando prolongada, a destrói facilmente, assim uma insistente fantasia com mulheres destrói a sabedoria adquirida; não tenhas, portanto, familiaridade prolongada com um rosto imaginado, para que não se lhe adiram as chamas do prazer e venham a queimar a auréola que circunda a tua alma; assim como a faísca próxima da palha desencadeia as chamas, assim a lembrança da mulher, persistindo, acende o desejo.

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Notas:

7. Refere-se à paz interior, à tranqüilidade de recolhimento ou solidão, no caso do monge.

8. Trata-se, novamente, do termo Apátheia. Ver nota 5.

III. A AVAREZA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Publicado em

III. A Avareza (9)

Capítulo 7

A avareza é a raiz de todos os males e nutre, como arbustos malignos, as demais paixões, não permitindo que estas se sequem, eis que florescidas daquela.

Quem deseja exterminar as paixões, que arranque a raiz; se para o bem tu podas os ramos, a avareza, porém, permanece; [esta providência] não te servirá de nada, porque estes [ramos], apesar de terem sido cortados, rapidamente florescem.

O monge rico é como um navio extremamente carregado que é atingido pelo ímpeto de uma tempestade; assim como um navio que deixa entrar a água é posto à prova por cada onda, também o rico se vê submergido pelas preocupações.

O monge que não possui nada é, ao contrário, um viajante ágil que encontra refúgio em todos os lados. É como a águia que voa alto e que desce somente para buscar o seu alimento quando necessita; está acima de qualquer prova, ri do presente e se eleva às alturas, afastando-se das coisas terrenas e juntando-se às celestes; tem, efetivamente, asas ligeiras, jamais carregadas pelas preocupações; sobrepassa a opressão e deixa o lugar sem dor; a morte chega e ele vai com ânimo sereno; a alma, com efeito, não está amarrada a nenhum tipo de atadura.

Quem, ao contrário, muito possui, se submete às preocupações e, como o cão, está preso à corrente e, se é obrigado a ir embora, leva consigo, como um grave peso e inútil aflição, a lembrança das suas riquezas, é vencido pela tristeza e, quando pensa nisso, sofre muito em perder as riquezas e se atormenta com o desânimo.

E quando lhe chega a morte, abandona miseravelmente suas tendências, entrega a alma, embora o olho não abandone os negócios; de má vontade é arrastado como um escravo fugitivo; se separa do corpo, mas não dos seus interesses, porque a paixão o atinge mais do que o arrasta.

Capítulo 8

O mar jamais se enche, embora receba a grande massa de água dos rios; da mesma maneira, o desejo de riquezas do ávaro jamais se sacia: ele o duplica e, imediatamente, deseja quadruplicá-los e não cessa jamais esta multiplicação, até que a morte venha pôr fim a tal interminável pretensão.

O monge sensato terá cuidado das necessidades do corpo e proverá com pão e água o estômago indigente; não adulará os ricos pelo prazer do ventre, nem submeterá sua mente livre a muitos senhores; com efeito, as mãos são sempre suficientes para satisfazer as necessidades naturais.

O monge que não possui nada é como um lutador que não pode ser golpeado fortemente e um atleta veloz que alcança rapidamente o prêmio do convite celeste.

O monge rico se regozija nas muitas rendas, enquanto que o que nada tem se regozija com os prêmios que vêm das coisas bem obtidas.

O monge ávaro trabalha duramente, enquanto que o que nada possui dedica seu tempo para a oração e a leitura.

O monge ávaro enche os buracos de ouro, enquanto que o que nada possui acumula tesouros no céu.

Seja maldito aquele que forja o ídolo e o esconde, da mesma forma que aquele que é afeto à avareza; com efeito, o primeiro se prostra diante do falso e inútil, e o outro carrega em si a imagem (10) da riqueza, como um simulacro.

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Notas:

9. Philargyria, ou amor ao ouro, ao dinheiro. Evágrio dá especial importância a este vício e apresenta seu demônio como particularmente astuto, pois apresenta ao monge uma série de raciocínios que fazem parecer a acumulação de bens como um ato de sensatez e prudência.

10. Para Evágrio, o apaixonado possui no coração a imagem do objeto que o domina.

IV. A IRA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Publicado em

IV. A Ira

Capítulo 9

A ira é uma paixão furiosa que, com freqüência, faz perder o juízo àqueles que têm o conhecimento, embrutece a alma e degrada todo o conjunto humano.

Um vento impetuoso não derruba uma torre e a animosidade não arrasta a alma mansa.

A água se move pela violência dos ventos e o homem irado se agita pelos pensamentos irracionais. O monge irado vê alguém e range os dentes.

A difusão da neblina condensa o ar e o movimento da ira torna nublada a mente do irado.

A nuvem que avança ofusca o sol e, assim, o pensamento rancoroso entorpece a mente.

O leão na jaula sacode continuamente a porta tal como o violento, em sua cela, quando é acometido pelo pensamento da ira.

É deliciosa a vista de um mar tranqüilo, porém, certamente não é mais agradável que o estado de paz; com efeito, os golfinhos nadam no mar calmo e os pensamentos voltados para Deus emergem um estado de serenidade.

O monge magnânimo é uma fonte tranqüila, uma bebida agradável oferecida a todos, enquanto que a mente do irado se vê continuamente agitada e não dará água a quem tem sede e, se a der, será esta turva e nociva; os olhos do irado estão arregalados e cheios de sangue, anunciando um coração em conflito. O rosto do magnânino mostra tranqüilidade e os olhos benignos estão voltados para baixo.

Capítulo 10

A mansidão do homem é lembrada por Deus e a alma pacífica se converte no templo do Espírito Santo.

Cristo recosta sua cabeça nos espíritos mansos e apenas a mente pacífica se converte em morada da Santa Trindade.

As raposas montam guarda na alma rancorosa e as feras se agasalham no coração rebelde.

O homem honesto se afasta das casas de mal conduta e Deus [se afasta] de um coração rancoroso.

Uma pedra que cai na água a agita, tal como um discurso maligno no coração do homem.

Afasta da tua alma os pensamentos de ira, não permita a animosidade no recinto do teu coração e não te perturbes no momento da oração; efetivamente, como a fumaça da palha ofusca a visão, assim a mente se vê perturbada pelo rancor durante a oração.

Os pensamentos do irado são descendentes das víboras e devoram o coração que lhes gerou. Sua oração é um incenso abominável e seus salmos emitem um som desagradável.

A oferta do rancoroso é como um doce cheio de formigas que certamente não encontrará lugar nos altares aspergidos pela água benta.

O irado terá sonhos perturbadores e se imaginará assaltado pelas feras. O homem magnânimo, que não guarda rancor, se exercita com discursos espirituais e, durante a noite, recebe a solução dos mistérios.

V. A TRISTEZA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Publicado em

V. A Tristeza

Capítulo 11

O monge atingido pela tristeza não conhece o prazer espiritual; a tristeza abate a alma e se forma a partir dos pensamentos da ira.

O desejo de vingança, com efeito, é próprio da ira; o fracasso da vingança gera a tristeza; a tristeza é a boca do leão e facilmente devora aquele que se entristece.

A tristeza é um glutão de coração e se alimenta da mãe que o gerou.

Sofre a mãe quando dá à luz um filho; porém, esta, tendo dado à luz, se vê livre da dor. A tristeza, ao contrário, enquanto é gerada, provoca fortes dores e, sobrevivendo, após o esforço, não traz sofrimentos menores.

O monge triste não conhece a alegria espiritual, como aquele que acometido por forte febre não reconhece o sabor do mel.

O monge triste não saberá como manter a mente na contemplação, nem brota nele uma oração pura: a tristeza impede todo o bem.

Ter os pés amarrados impede a corrida; assim é a tristeza: um obstáculo para a contemplação.

O prisioneiro dos bárbaros está preso com correntes; a tristeza amarra aquele que é prisioneiro (11) das paixões.

Na ausência de outras paixões, a tristeza não tem força, assim como não tem força uma corda se lhe faltar quem amarre.

Aquele que está atado pela tristeza é vencido pelas paixões e, como prova de sua derrota, vem acrescentada a atadura.

Efetivamente, a tristeza deriva da falta de êxito do desejo carnal, porque o desejo é co-natural a todas as paixões. Quem vence o desejo, vence as paixões; e o vencedor das paixões não será submetido pela tristeza.

O moderado não se entristece pela falta de alimentos, nem o sábio quando é atacado por um lapso de memória, nem o manso que renuncia a vingança, nem o humilde que se vê privado da honra dos homens, nem o generoso que sofre uma perda financeira; com efeito, eles evitam, com força, o desejo destas coisas, como efetivamente aquele que corajosamente rejeita os golpes. Assim, o homem carente de paixões não é ferido pela tristeza.

Capítulo 12

O escudo é a segurança do soldado e os muros são a [proteção] da cidade; mais seguro que ambos é, para o monge, a paz interior (12).

De fato, freqüentemente uma flecha lançada por um braço forte traspassa o escudo e a multidão de inimigos abate os muros, enquanto que a tristeza não pode prevalecer sobre a paz interior.

Aquele que domina as paixões se tornará senhor sobre a tristeza, enquanto que quem foi vencido pelo prazer não se desatará das suas ataduras.

Aquele que se entristece facilmente e simula uma ausência de paixões é como o doente que finge não estar enfermo; assim como a enfermidade se revela pela vermelhidão, a presença de uma paixão se demonstra pela tristeza.

Aquele que ama o mundo se verá muito afligido, enquanto que aqueles que desprezam o que há nele serão felizes para sempre.

O ávaro, ao receber algo ruim, se verá extremamente entristecido, enquanto que aquele que despreza as riquezas estará sempre livre da tristeza.

Quem busca a glória, ao chegar a desonra, se verá em dores, enquanto que o humilde a acolherá como que a um companheiro.

O forno purifica a prata impura e a tristeza perante Deus livra o coração do erro; a fusão contínua empobrece o chumbo e a tristeza em razão das coisas do mundo diminui o intelecto.

A névoa diminui o poder dos olhos e a tristeza embrutece a mente dedicada à contemplação; a luz do sol não chega aos abismos marinhos e a visão da luz não ilumina o coração entristecido; doce é para todos os homens o nascer do sol, porém também isto desagrada a alma entristecida; a coceira elimina o sentido do gosto tal como a tristeza subtrai da alma a capacidade de percepção. Porém, aquele que despreza os prazeres do mundo não se verá perturbado pelos maus pensamentos da tristeza.

—–

Notas:

11. Evágrio utiliza o termo Aikhmálotos, que significa “prisioneiro de guerra”, porém, ao mesmo tempo, faz referência à aikhmálosia que, em sua teoria espiritual, é o estágio final de escravidão da alma aos demônios, que chega como conseqüência de deixar-se vencer sistematicamente por eles.

12. Outra vez, a Apátheia.

VI. O ABORRECIMENTO

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Publicado em

VI. O Aborrecimento

Capítulo 13

O aborrecimento é a debilidade da alma que irrompe quando não se vive segundo a natureza, nem se enfrenta nobremente a tentação. Com efeito, a tentação é para uma alma nobre o que o alimento é para um corpo vigoroso.

O vento do norte nutre os brotos e as tentações consolidam a firmeza da alma.

A nuvem pobre de água é afastada pelo vento tal como a mente que não persevera no espírito do aborrecimento.

O orvalho da primavera aumenta o fruto do campo e a palavra espiritual exalta a firmeza da alma.

O fluxo do aborrecimento expulsa o monge de sua morada, enquanto que aquele que é perseverante está sempre tranqüilo.

O aborrecido aduz como pretexto a visita aos doentes (13), coisa que garante seu próprio objetivo.

O monge aborrecido é rápido em terminar suas tarefas e considera um preceito sua própria satisfação; a planta doente é dobrada por uma brisa leve e imaginar uma saída [justificadora] distrai o aborrecido.

Uma árvore bem plantada não é sacudida pela violência dos ventos e o aborrecimento não submete a alma bem sustentada.

O monge que anda em círculos, como uma solitária fibra seca, está pouco tranqüilo e, sem querer, é interrompido aqui e acolá a todo tempo.

Uma árvore transplantada não frutifica e o monge vagabundo não produz fruto de virtude. O doente não se satisfaz com um só tipo de alimento e o monge aborrecido não se satisfaz com uma só ocupação.

Não basta uma só mulher para satisfazer ao voluptuoso e não basta uma só cela para o aborrecido.

Capítulo 14

O olho do aborrecido se fixa continuamente nas janelas e sua mente imagina que chegam visitas; a porta gira e ele sai, escuta uma voz e olha pela a janela e dali não se afasta até que, sentado, se canse.

Quando lê, o aborrecido boceja muito, se deixa levar facilmente pelo sono, pesam-lhe os olhos, deita-se e, tirando o olhar do livro, o fixa na parede e, voltando a ler mais um pouco, fatiga-se inutilmente ao final de cada palavra; passa, então, a contar as páginas, calcular os parágrafos, desprezar as letras e belezas de estilo; finalmente, fechando o livro, o põe debaixo da cabeça e cai em sono não muito profundo. Pouco depois, a fome desperta na alma e, com ela, todas as suas preocupações.

O monge aborrecido é frouxo para a oração e certamente jamais pronunciará as palavras da oração; como efetivamente o doente jamais carrega peso excessivo, assim também o aborrecido seguramente não se ocupa diligentemente dos deveres para com Deus: primeiro, porque lhe falta efetivamente a força física; segundo, porque estranha o vigor da alma.

A paciência, o fazer tudo com muita constância e o temor de Deus curam o aborrecimento.

Dispõe para ti mesmo uma justa medida em cada atividade e não desistas antes de tê-la concluído; reza prudentemente e com força, e o espírito de aborrecimento se afastará de ti.

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Nota:

13. Na tradição dos monges do deserto, o abandonar a cela era uma das principais tentações do aborrecimento. Visitar doentes era, portanto, a maneira de encobrir sob o manto da caridade o desejo de sair da solidão.

VII. A VANGLÓRIA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

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VII. A Vanglória (14)

Capítulo 15

A vanglória é uma paixão irracional que facilmente se enraíza em todas as obras virtuosas.

Um desenho traçado na água desaparece tal como a fadiga da virtude na alma vangloriosa.

A mão escondida no bolso apresenta-se inocente e a ação que permanece oculta resplandece com uma luz mais brilhante.

A hera adere à árvore e, quando chega ao ponto mais alto, seca-lhe a raiz; assim, a vanglória se origina nas virtudes e não se afasta enquanto não lhes tiver consumido as forças.

O cacho de uvas caído sobre a terra murcha facilmente e a virtude, se apoiada na vanglória, perece.

O monge vanglorioso é um trabalhador sem salário: esforça-se no trabalho, porém, não recebe qualquer pagamento; o bolso furado não guarda com segurança o que nele é colocado e a vanglória destrói a recompensa das virtudes.

A moderação do vanglorioso é como a fumaça na estrada: ambas desaparecem no ar.

O vento apaga a pegada do homem tal como a esmola do vanglorioso. A pedra lançada ao ar não atinge o céu e a oração de quem deseja comprazer aos homens não chega a Deus.

Capítulo 16

A vanglória é um obstáculo submerso: se chocas contra ele, corres o risco de perder a carga.

O homem prudente esconde seu tesouro tanto como o monge sábio [esconde] as fadigas da sua virtude.

A vanglória aconselha rezar nas praças, enquanto que quem a combate reza em sua pequena habitação.

O homem pouco prudente torna evidente a sua riqueza e faz com que muitos a queiram tomar para si. Tu, ao contrário, esconde as tuas coisas: durante o caminho, encontrarás assaltantes, mas, ao chegardes à cidade da paz, poderás usar dos teus bens tranqüilamente.

A virtude do vanglorioso é um sacrifício extenuante, que não é oferecido no altar de Deus.

O aborrecimento consome o vigor da alma, enquanto que a vanglória fortalece a mente daquele que se esquece de Deus, torna robusto o fraco e torna o velho mais forte que o jovem, mas somente enquanto sejam muitas as testemunhas que os assistem. Então serão inúteis o jejum, a vigília, ou a oração, porque é apenas a aprovação pública que excita o seu zêlo.

Não mostres tuas fadigas para colher a fama, nem renuncies a glória futura para seres aclamado. Com efeito, a glória humana habita na terra e na terra extingue-se a tua fama, enquanto que a glória das virtudes permanecem para sempre.

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Nota:

14. O termo Kenodoxía deriva de kenós “vazio, vão” e dóxa, “opinião”: uma imagem de si que se projeta aos demais com base em valores inexistentes ou insignificantes por sua trivialidade.

VIII. A SOBERBA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

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VIII. A Soberba (15)

Capítulo 17

A soberba é um tumor da alma, cheio de pus. Se maduro, explodirá, emanando terrível fedor.

O resplandor do relâmpago anuncia o estrondo do trovão e a presença da vanglória anuncia a soberba.

A alma do soberbo alcança grandes altitudes e, daí, cai no abismo.

Sofre de soberba o apóstata de Deus, quando atribui às suas próprias capacidades as coisas bem sucedidas.

Como aquele que cai numa teia de aranha [e aí fica preso], assim cai aquele que se apóia nas suas próprias capacidades.

A abundância de frutos dobra os ramos da árvore; a abundância de virtudes humilha a mente do homem.

O fruto caído na terra é inútil para o lavrador e a virtude do soberbo não é aceita por Deus.

A cana sustenta o ramo carregado de frutos e o temor de Deus [sustenta] a alma virtuosa. Como o peso dos frutos quebra o ramo, também a soberba abate a alma virtuosa.

Não entregues tua alma à soberba e não terás fantasias terríveis. A alma do soberbo é abandonada por Deus e se converte em objeto de maligna alegria dos demônios. À noite, imagina manadas de bestas que o assaltam e, durante o dia, vê-se alterado por pensamentos vis. Quando dorme, facilmente se sobressalta e, quando vela, se assusta com a sombra de um pássaro. O sussurar das copas das árvores aterroriza o soberbo e o som da água destroça a sua alma. Aquele que efetivamente tem se oposto a Deus, rejeitando sua ajuda, vê-se depois assustado por vulgares fantasmas.

Capítulo 18

A soberba precipitou o arcanjo do céu (=Lúcifer) e, como um raio, o fez espatifar-se [junto com outros] sobre a terra.

A humildade, ao contrário, conduz o homem para o céu e o prepara para fazer parte do côro dos anjos.

“De que te orgulhas, ó homem, quando por natureza sois barro e pó e por que te elevas sobre as nuvens?

Contempla tua natureza, porque sois terra e cinza, e em breve voltarás ao pó, agora soberbo e, dentro de pouco, verme.

Para que elevas a cabeça que daqui a pouco cairá por terra?”

Grande é o homem socorrido por Deus; uma vez abandonado, reconheceu a debilidade da natureza. Não possuís nada que não tenhas recebido de Deus; não desprezes, portanto, o Criador.

Deus te socorre; não rejeites ao Benfeitor. Chegaste ao topo da tua condição, porém, Ele te tem guiado; tens agido retamente, segundo a virtude, e Ele te tem conduzido. Glorifica a quem te elevou, para permanecerdes seguro nas alturas; reconhece Aquele que tem a mesma origem que a tua, porque a substância é a mesma e não rejeites, por jactância, este parentesco.

Capítulo 19

Humilde e moderado é aquele que reconhece este parentesco; porém, o Criador (16) fez tanto a Ele como o soberbo.

Não desprezes o humilde: efetivamente ele está mais seguro que tu, caminha sobre a terra e não se precipita; porém, aquele que se eleva mais para o alto, quando cai se espatifa.

O monge soberbo é como uma árvore sem raízes e não suporta o ímpeto do vento.

Uma mente sem jactância é como uma cidade bem fortificada e quem a habita será incapturável.

Um sopro arrasta a pena e o insulto leva o soberbo à loucura.

Uma bolha [de sabão] levada pelo vento desaparece e a memória do soberbo perece.

A palavra do humilde adoça a alma, enquanto que a do soberbo está cheia de jactância.

Deus acolhe a oração do humilde; ao contrário, se exaspera com a súplica do soberbo.

A humildade é a coroa da casa e mantém seguro quem ali entra.

Quando te elevares ao topo da virtude, precisarás de muita segurança. Aquele que efetivamente cai, rapidamente se recupera; porém, aquele que se atira de grandes alturas, corre risco de morte.

A pedra preciosa brilha no bracelete de ouro e a humildade humana resplandece nas muitas virtudes.

—–

Notas:

15. O termo Hyperephanía provém do superlativo hypér e phaíno, “o que aparece”: aquele que aparece como mais do que é, arrogância, orgulho.

16. Evágrio emprega o termo Demioyrgós que, na tradução grega, equivale ao trabalhador manual ou a divindade que criava o mundo a partir de uma matéria pré-existente. Parece que aqui é usado no sentido de “Deus Criador”, embora esta acepção não seja totalmente clara.

Nescitis quoniam corpora vestra membra Christi sunt? Tollens ergo membra Christi faciam membris meretricis? Absit! Na nescitis quoniam, qui adhaeret meretrici, unum corpus est? “Erunt enim, inquit, duo in carne una”. Qui autem adharert Domino, unus Spíritus est. Fúgite fornicationem! Omne peccatum, quodcumque fécerit homo, extra corpus est; qui autem fornicatur, in corpus suum peccat (1Cor 6, 15-18).

(São Paulo expõe a grave ofensa que este pecado supõe para Jesus Cristo. O cristão foi incorporado a Cristo pelo Baptismo, destinado a viver estreitamente unido a Ele, a viver a sua própria vida (cfr Gal 2, 20), a ser ‘um só espírito com Ele’; foi feito em última análise, membro do Seu Corpo (cfr Rom 12,5; 1 Cor 12,27). A fornicação supõe algo tão monstruoso como desprender-se brutalmente do Corpo de Cristo, para se tornar membro duma meretriz. Daí a gravidade deste pecado, que vai contra o próprio corpo, que é parte do Corpo místico de Cristo.

‘Fugi da fornicação’: É o caminho que se deve seguir diante das tentações contra a castidade. As outras podem vencer-se resistindo, mas neste caso ‘não se vence resistindo, porque quanto mais alguém pensa nisso, mais se acende; vence-se fugindo, isto é, evitando totalmente os pensamentos imundos, e todas as ocasiões’ (Comentário sobre 1 Cor, ad loc.). O cristão conta com meios abundantes para viver delicadamente esta virtude da santa pureza: ‘O primeiro é exercer uma grande vigilância sobre os nossos olhos, os nossos pensamentos, as nossas palavras e os nossos actos; o segundo, recorrer a oração; o terceiro, frequentar dignamente os sacramentos; o quarto, fugir de tudo quanto possa induzir-nos ao mal; o quinto, ser muito devotos da Santíssima Virgem. Observando tudo isso, apesar dos esforços dos nossos inimigos, apesar da fragilidade dessa virtude, teremos a segurança de a conservar’ (São João Maria Vianney, Sermão Dom. XVII depois de Pentecostes) (cfr a nota a Mt 5, 27-30))

Bíblia Sagrada. Traduzida pela universidade de Navarra. Eições Theologica, Braga, 1990, vol. II

Pinceladas sobre a castidade hoje

Os cristãos dizem que o ato sexual é sagrado. Também dizem que a pessoa humana é sagrada e que Deus é Santo e fonte de toda a santidade. Outros, dizem que o sexo é sagrado; não sabem se Deus existe; e têm certeza que os outros não existem: é o ápice do individualismo. Perceba-se que temos algo em comum: sexo é importante; mas, é mais importante e sagrado para os cristãos do que para os pervertidos.

Para nós, filhos de Deus, o ato sexual é um símbolo do Deus Amor. – Por favor, não se escandalizem, isso é teologia clássica -. O ato conjugal é um meio e não um fim: meio para amar o cônjuge (dimensão unitiva), gerar filhos (dimensão procriativa), e amar a Deus (chamemo-la de dimensão mística ou espiritual do sexo). Mantém-se uma clara escala de valores: Deus, o próximo, a sexualidade (masculinidade ou feminilidade) e o ato sexual que expressa e realiza de algum modo a sexualidade. Gosto de meditar com o Papa João Paulo II, na Mulieris Dignitatem, a necessidade de nos santificarmos no exercício da sexualidade. Ele disse que o arcanjo referiu-se a Maria como “plena de graça”. A graça supõe a natureza. Portanto, Maria tanto mais santa era, quanto mais feminina. O mesmo vale para a masculinidade, quando bem entendida.

Para os filhos das trevas o que vale é o prazer próprio e a descartabilidade do próximo. O ato sexual é sagrado, desde que não conduza ao amor e à responsabilidade pelo cônjuge: amor sem compromisso, descartável. O que vale não é a pessoa, mas o máximo prazer. Deus é visto como um repressor. Gerar filhos é uma amarra. A identidade sexual é vaga. Sente-se como um animal que sacia impulsos e não como alguém que ama. Pensam que se libertaram e são felizes, mas estão sozinhos e não sabem como sair do círculo vicioso.

É a “Castidade como virtude moral que regula o exercício da sexualidade segundo o estado de vida da pessoa, em função de seus valores e no respeito da natureza da própria sexualidade” (CENCINI, Amedeo. Virgindade e celibato hoje: para uma sexualidade pascal. trad. Joana da Cruz. São Paulo: Paulinas, 2009, p. 132). A castidade, no matrimônio, consiste no exercício da sexualidade e dos atos sexuais integrados no amor, ou seja, na afirmação do bem da outra pessoa. A luxúria consistirá na instrumentalização e despersonalização do outro (cônjuge ou não) em vista do prazer. Algumas ofensas a castidade: masturbação, fornicação, pornografia, prostituição, estupro, incesto, o ato sexual homossexual; a exclusão de alguma das dimensões do ato sexual (procriação e comunhão), o adultério, a união livre (“namoridos”) etc.

“Escreveste-me, médico apóstolo: ‘Todos sabemos por experiência que podemos ser castos, vivendo vigilantes, frequentando os Sacramentos e apagando as primeiras chispas da paixão, sem deixar que ganhe corpo a fogueira. É precisamente entre os castos que se contam os homens mais íntegros, sob todos os aspectos. E entre os luxuriosos predominam os tímidos, os egoístas, os falsos e os cruéis, que são tipos de pouca virilidade’” (S. Josemaría Escrivá, Caminho, n. 124).

SANTA PUREZA: entre o amor e o egoísmo

“Deus é amor” (1Jo 4, 16). “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). O ser humano é amor.

“Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação… Que cada um saiba usar o seu corpo santa e honestamente, não se abandonando às paixões, como fazem os pagãos, que não conhecem a Deus” (1Ts 4, 3-5).

 

No princípio

O texto bíblico segue em Gn 2, 25 dizendo que “os dois estavam nus, o homem e sua mulher, mas não sentiam vergonha”.

O Papa João Paulo II[1] apresenta a hermenêutica do dom, o critério fundamental para constituir uma antropologia adequada para interpretar essa nudez primordial. “E Deus viu tudo o que havia feito: e era muito bom” (Gn 1, 31). A criação é um dom de Deus, e a pessoa humana é capaz de compreender-se nessa dinâmica.

No “princípio”, homem e mulher são chamados a uma perfeita relação de amor entre si e com Deus, como administradores da Criação, pela ação da graça.

Viver a relação de mútua doação não é uma lei externa à pessoa humana. Mas, expressão de sua realidade subjetiva quando está na graça de Deus.

É a “Castidade como virtude moral que regula o exercício da sexualidade segundo o estado de vida da pessoa, em função de seus valores e no respeito da natureza da própria sexualidade[2].

Em suma, a castidade é, simultaneamente, um dom que é preciso pedir a Deus (cf. S. Josemaria Escrivá, Caminho, n. 118), e uma virtude que deve se conquistar, aperfeiçoar e crescer (cf. Id.,  Forja, n. 91), mediante o esforço generoso da nossa correspondência à graça.

 

A queda

O medo e a vergonha surgem pela desobediência[3] a Deus: “Ele respondeu: – Eu te vi no jardim, fiquei com medo porque estava nu, e me escondi. O Senhor Deus lhe replicou: – E quem te disse que estavas nu? Então comeste da árvore proibida?” (Gn 3, 10- 11).

A quebra do Amor: “Em meu interior, agrada-me a lei de Deus; em meus membros descubro outra lei que guerreia contra a lei da razão e me torna prisioneiro da lei do pecado que habita em meus membros” (Rm 7, 22-23). A pessoa humana não domina o seu corpo com a mesma simplicidade e naturalidade do princípio, tem medo e desconfiança de Deus e de si mesma. A vergonha aparece não só como desobediência a Deus, mas como a consciência do próprio desejo de dominar (ou ser dominada) e instrumentalizar o outro.

A lei da concupiscência[4], no âmbito da sexualidade, é o máximo prazer sem compromisso, como se fosse uma espécie de amor-lixo descartável. Gerar filhos é uma amarra e a identidade sexual é vaga. Sente-se como um animal que sacia impulsos e não como alguém que ama. Pensam que se libertaram e são felizes, mas estão sozinhos e não sabem como sair do círculo vicioso.

Uma coisa, de fato, é ter consciência de que o valor do sexo faz parte de toda a riqueza de valores, com que o ser feminino aparece ao homem; e outra coisa é “reduzir” toda a riqueza pessoal da feminilidade àquele único valor, isto é, ao sexo, como objeto idôneo à satisfação da própria sexualidade[5].

É a “segunda descoberta do sexo[6]”: o pudor (para valorizar a personalidade e a amizade, antes da atração sexual e para defender da concupiscência alheia; não é só esconder o corpo, mas se estende no jeito de tratar, nas conversas, nos olhares etc.).

Em parte como resultado desta transformação radical, inúmeros terapeutas raro encontram pacientes que sofrem de recalque sexual, à maneira dos histéricos de Freud, no mundo que precedeu as duas grandes guerras. Na verdade, encontramos naqueles que nos procuram em busca de ajuda exatamente o oposto: muita conversa, muita atividade sexual, praticamente nenhuma queixa de inibições relativas a ir para a cama com tanta freqüência e com tantos parceiros quantos lhes agrade. Mas queixam-se é de insensibilidade e ausência de paixão. (…) Tanto sexo e tão pouco significado, ou mesmo diversão![7]

Portanto, a vida segundo a carne é a vida submetida ao domínio da tríplice concupiscência, afastada de Deus, instrumentalizadora do próximo, em profundo conflito interior, sem esperança de salvação. A vida segundo o Espírito, que exige algum empenho humano na virtude da temperança, recebe como graça o autodomínio, a alegria e a salvação. O Espírito oposto à carne é a contraposição de dois modos de viver.

 

Redenção 15m.

A teologia da concupiscência não deve levar a pôr em permanente suspeita e ceticismo ao coração humano. As palavras de Cristo convidam a uma ética que aproveitando a força original da criação e a graça da redenção possa “realizar o significado esponsal do corpo e a exprimir, de tal modo, a liberdade interior do dom, isto é, daquele estado e daquela força espiritual, que derivam do domínio da concupiscência da carne”[8].

Para a redenção é necessário ao domínio de si uma “habitual temperança”[9]. É preciso reconquistar o Amor.

“Esse Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor existe liberdade” (2Cor 3, 17). Pela pureza, a pessoa humana se purifica de suas paixões libidinosas e mantém-se na justiça e na santidade de Deus e da Igreja. “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo? Vou, pois, tomar os membros de Cristo para torná-los membros de uma prostituta? Porém, quem se une ao Senhor se torna um só espírito com ele” (1Cor 6, 15.17). A pureza é, portanto, um modo de unir-se a Cristo, um dom carismático, em específico “o dom da ‘piedade’”[10]. Essa é a “antropologia do renascimento do Espírito Santo[11].

O desejo humano deve dirigir-se para o “Esposo das almas”, Jesus Cristo. É impossível não recordar aquelas palavras do Papa João Paulo II, de que o ser humano é alguém em estado de busca infindável: “busca da verdade e busca duma pessoa em quem poder confiar” (Fides et Ratio, 33). Amando a Cristo mais do que a qualquer outra pessoa humana, poderei amar ao próximo, o que, ao contrário, necessariamente não ocorre.

A concupiscência faz com que os seres que são segundo a Causa e Natureza única, a única desejável e impassível, sejam mais desejáveis que Aquela. Por isso torna a carne preferível ao espírito, e o gozo do visível mais agradável que a glória e o esplendor do espiritual[12].

A nossa razão deve mover-se, por conseguinte, à busca de Deus; a nossa força concupiscível[13] deve orientar-se para o desejo d’Ele, e a irascível[14] deve lutar pela sua conservação; ou melhor, para falar mais propriamente, a mente deve tender para Deus, fortalecida pela tensão da potência irascível e inflamada pelo desejo extremo da concupiscência[15].

No Espírito Santo, o homem e a mulher se relacionam com “toda a simplicidade, a sua limpidez e também a sua alegria interior[16]. Mas antes , o nosso desejo, a vontade, a imaginação, enfim, todo o coração humano deve preferir mais ardentemente a Deus, do que a qualquer relação humana, seja sexual ou não. “Retirou-me da cova da morte e de um charco de lodo e de lama” (Sl 39,3a).

O que é a castidade? É a plenitude do amor expressa na sexualidade, extinguindo toda a espécie de egoísmo. O amor engloba a sexualidade, não ao inverso.

A santa pureza produz muitos frutos na alma: dilata o coração e facilita o desenvolvimento normal da afetividade; gera uma alegria íntima e profunda, mesmo no meio das contrariedades; possibilita a ação apostólica; fortalece o caráter diante das dificuldades; torna-nos mais humanos, aumentando a nossa capacidade de entender e compadecer-nos dos problemas alheios.

Meios 20m.

  1. Portanto, o primeiro é a união com Cristo, para que purifique o nosso desejo.

«A castidade – a de cada um no seu estado: solteiro, casado, viúvo, sacerdote – é uma triunfante afirmação do Amor» (Sulco, n. 831).

  1. A amizade com os irmãos.

“Jesus, guarda o nosso coração! Um coração grande, e forte, e terno, e afetuoso, e delicado, transbordante de caridade para contigo, a fim de servirmos a todas as almas” (S. Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 177).

3. A humildade: Para alcançarmos esta virtude, é necessário em primeiro lugar que sejamos humildes, o que tem como manifestação clara e imediata a sinceridade nas nossas conversas com quem orienta a nossa alma. A própria sinceridade conduz à humildade.

4. A luta ascética: “Se queremos guardar a mais bela de todas as virtudes, que é a castidade, devemos saber que ela é uma rosa que somente floresce entre espinhos; e, portanto, só a encontraremos, como todas as outras virtudes, numa pessoa mortificada” (Santo Cura d’Ars, Sermão sobre a penitência).

“Tenho para mim – afirmava o abade João Cassiano (século V) – que não poderemos jamais reprimir o aguilhão da carne, se antes não conseguirmos refrear os desejos da gula”.

Quem é dono da imaginação, tem noventa por cento ganho para ser, com fortaleza, dono e senhor dos seus impulsos sexuais e dos seus sentimentos e, portanto, do seu amor. Este autodomínio do pensamento é a chamada “mortificação interior”, tanto ou mais importante para o senhorio da vontade como a “mortificação dos sentidos”.

5. Fugir sempre. Sem complacência com o inimigo.

“A santa pureza exige uma conquista diária, porque não se adquire de uma vez para sempre. E pode haver épocas em que a luta seja mais intensa e haja que recorrer com mais freqüência à Santíssima Virgem e lançar mão de algum meio extraordinário“.

“Cuidai da castidade com esmero, e também dessas outras virtudes que formam o seu cortejo – a modéstia e o pudor –, que vêm a ser como que a sua salvaguarda. Não passeis levianamente por cima dessas normas que são tão eficazes para nos conservarmos dignos do olhar de Deus: a guarda atenta dos sentidos e do coração; a valentia – a valentia de ser covarde – para fugir das ocasiões; a freqüência dos sacramentos, de modo particular a Confissão sacramental; a sinceridade plena na direção espiritual pessoal; a dor, a contrição, a reparação depois das faltas. E tudo ungido com uma terna devoção a Nossa Senhora, para que Ela nos obtenha de Deus o dom de uma vida santa e limpa” (S. Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 185).

6. É preciso uma «cruzada de virilidade e de pureza que enfrente e anule o trabalho selvagem daqueles que pensam que o homem é uma besta» (Caminho 121).

Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897), carmelita, Doutora da Igreja
Poemas «Viver de amor» e «Por que te amo, Maria» (trad. a partir de OC, Cerf DDB 1996, p. 668)

«Dá-lhe também a capa»

Viver do Amor é dar sem olhar
Sem neste mundo exigir um salário.
Ah! Eu dou sem contar,
pois sei que quem ama é perdulário!
Ao Coração Divino, que transborda ternura,
Dei tudo. […] Corro os meus dias ligeira, sem dor nem fraqueza
Nada mais tendo que esta minha riqueza:
Viver do Amor.

Viver do Amor é banir o temor,
Riscando a lembrança dos erros passados.
De meus pecados não vejo nem cor,
Com amor inflamante foram perdoados!
Ó doce fornalha, ó divina chama,
Morada que elejo com todo o fulgor,
Canto em teu fogo, e sou eu quem clama (cf Dn 3, 51):
«Vivo de Amor!» […]

«Viver do Amor, que estranha loucura!»
O mundo me diz «Cessai de cantar!»
«Que os perfumes e a vida futura
«Com utilidade os deveis empregar!»
Amar-Te, Jesus, se é perda, é ganho fecundo!
Para sempre são Teus meus perfumes, Senhor,
Quero cantar ao deixar este mundo:
«Morro de Amor !»


[1] TOB 13, 2. [As catequeses sobre a Teologia do Corpo se encontram integralmente em JOÃO PAULO II, Homem e mulher o criou: catequeses sobre o amor humano, 2005. Doravante, o livro é significado pela sigla “TOB” (Theology of Body, como mundialmente conhecida) seguido do número da catequese e o parágrafo].

[2] CENCINI, Amedeo. Virgindade e celibato hoje: para uma sexualidade pascal. trad. Joana da Cruz. São Paulo: Paulinas, 2009, p. 132.

[3] O pecado como desobediência não é só o rompimento da norma objetiva “não comas da árvore de conhecer o bem e o mal” (cf. Gn 2,17), mas também o não escutar a norma subjetiva do Amor e da confiança, de fato, obedecer vem do latim ob-audire, escutar.

[4] A concupiscência é a inclinação para o pecado. A inclinação para o prazer, em si, não é pecado. Só há pecado se for um prazer desordenado, pecaminoso.

[5] TOB 40, 3.

[6] TOB 29, 4.

[7] MAY, Rollo, Eros e Repressão: Amor e vontade. trad. Áurea Brito Weissenberg. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1978, p. 42, grifo do autor.

[8] TOB 46, 4.

[9] TOB 49, 4.

[10] TOB 57, 1, grifo do autor.

[11] TOB 57, 5, grifo do autor.

[12] MÁXIMO, São, Centúrias sobre a Caridade e outros escritos espirituais. Ed. Landy, s.n.t., p. 138.

[13] O apetite concupiscível.

[14] O apetite irascível (impulso ou Thymós) atua pela “atração pelos bens árduos (ou fuga dos males difíceis de serem evitados), com base no estabelecimento das relações instintivas pela estimativa (captação dos valores no passado e no futuro)” (FILHO, Ives Gandra Martins. Manual Esquemático de Filosofia. 3. ed. São Paulo: LTr, 2006, p. 137, grifo do autor).

[15] MÁXIMO, São. Centúrias sobre a Caridade e outros escritos espirituais. Ed. Landy, s.n.t., p. 144.

[16] TOB 58, 7, grifo do autor.

É um retrocesso cultural a

“perda do valor da família nas sociedades ocidentais. É um espaço de suicídio e talvez não seja a primeira vez que é produzido na história.

Na cultura política está se impondo um liberalismo libertário. Inclusive a esquerda acolhe este discurso, depois de que, com a queda dos regimes comunistas, desapareceu a teoria econômica e social socialista.

O liberalismo clássico tinha duas vertentes: um liberalismo econômico, que pretendia eliminar as barreiras e fronteiras com a produção industrial e o comércio; e um liberalismo político, que protege e aumenta as liberdades políticas das pessoas.

A partir de 1968 chegou um novo liberalismo sexual. Esse é o liberalismo libertário. A defesa do sexo usado de qualquer forma. Isso afetou profundamente a família, que é a base da civilização”

LORDA, J. L., Doutrina da Igreja sobre o homem, “Luz para o mundo moderno”. Disponível em https://www.zenit.org/article-25504?l=portuguese. Acessado em 06/09/2010.