Dons do Espírito Santo: Sabedoria

Cidade do Vaticano, 09 de Abril de 2014 (Zenit.org) | 575 visitas

 

PAPA FRANCISCO

AUDIÊNCIA GERAL

Praça de São Pedro
Quarta-feira, 09 de Abril de 2014

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Iniciamos hoje um ciclo de catequeses sobre os dons do Espírito Santo. Vocês sabem que o Espírito Santo constitui a alma, a seiva vital da Igreja e de cada cristão: é o amor de Deus que faz do nosso coração a sua morada e entra em comunhão conosco. O Espírito Santo está sempre conosco, está sempre em nós, no nosso coração.

O próprio Espírito é “o dom de Deus” por excelência (cfr Jo 4, 10), é um presente de Deus e à sua volta comunica a quem o acolhe diversos dons espirituais. A Igreja identifica sete, número que simbolicamente diz plenitude, completude; são aqueles que se aprendem quando nos preparamos ao sacramento da Confirmação e que invocamos na antiga oração chamada “Sequência ao Espírito Santo”. Os dons do Espírito Santo são: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor a Deus

1. O primeiro dom do Espírito Santo, segundo este elenco, é então a sabedoria. Mas não se trata simplesmente da sabedoria humana, que é fruto do conhecimento e da experiência. Na Bíblia conta-se que Salomão, no momento da sua coroação como rei de Israel, tinha pedido o dom da sabedoria (cfr 1 Re 3, 9). E a sabedoria é justamente isso: é a graça de poder ver cada coisa com os olhos de Deus. É simplesmente isso: é ver o mundo, ver as situações, as conjunturas, os problemas, tudo, com os olhos de Deus. Esta é a sabedoria. Algumas vezes vemos as coisas segundo o nosso prazer ou segundo a situação do nosso coração, com amor ou com ódio, com inveja… Não, estes não são os olhos de Deus. A sabedoria é aquilo que faz o Espírito Santo em nós a fim de que nós vejamos todas as coisas com os olhos de Deus. É este o dom da sabedoria.

2. E obviamente isto deriva da intimidade com Deus, da relação íntima que nós temos com Deus, da relação de filhos com o Pai. E o Espírito Santo, quando nós temos esta relação, nos dá o dom da sabedoria. Quando estamos em comunhão com o Senhor, é como se o Espírito Santo transfigurasse o nosso coração e o fizesse perceber todo o seu calor e a sua predileção.

3. O Espírito Santo torna ainda o cristão “sábio”. Isto, porém, não no sentido de que tem uma resposta para cada coisa, que sabe tudo, mas no sentido de que “sabe” de Deus, sabe como Deus age, conhece quando uma coisa é de Deus e quando não é de Deus; tem esta sabedoria que Deus dá aos nossos corações. O coração do homem sábio neste sentido tem o gosto e o sabor de Deus. E quão importante é que nas nossas comunidades haja cristãos assim! Tudo neles fala de Deus e se torna um sinal belo e vivo da sua presença e do seu amor. E isto é uma coisa que não podemos improvisar, que não podemos procurar por nós mesmos: é um dom que Deus faz àqueles que se tornam dóceis ao Espírito Santo. Nós temos dentro de nós, no nosso coração, o Espírito Santo; podemos escutá-Lo, podemos não escutá-Lo. Se nós escutamos o Espírito Santo, Ele nos ensina esta via da sabedoria, presenteia-nos com a sabedoria que é ver com os olhos de Deus, ouvir com os ouvidos de Deus, amar com o coração de Deus, julgar as coisas com o juízo de Deus. Esta é a sabedoria que nos dá o Espírito Santo e todos nós podemos tê-la. Somente devemos pedi-la ao Espírito Santo.

Pensem em uma mãe, em sua casa, com as crianças que, quando uma faz uma coisa, a outra pensa em outra, e a pobre mãe vai de um lado a outro, com os problemas das crianças. E quando as mães se cansam e gritam com as crianças, isto é sabedoria? Repreender as crianças – pergunto-vos – é sabedoria? O que vocês dizem: é sabedoria ou não? Não! Em vez disso, quando a mãe pega a criança e a repreende docemente e lhe diz: ‘Isto não se faz por isso…’ e lhe explica com tanta paciência, isto é sabedoria de Deus? Sim! É aquilo que nos dá o Espírito Santo na vida! Depois, no matrimônio, por exemplo, os dois esposos – o esposo e a esposa – brigam e depois não se olham ou se o fazem é com a cara amarrada: isto é sabedoria de Deus? Não! Em vez disso, se diz: ‘Bem, a tempestade passou, façamos as pazes’, e recomeçam a seguir adiante em paz: isto é sabedoria? [o povo: Sim!] Sim, este é o dom da sabedoria. Que esteja casa, que esteja com as crianças, que esteja com todos nós!

E isto não se aprende: isto é um presente do Espírito Santo. Por isto, devemos pedir ao Senhor que nos dê o Espírito Santo e nos dê o dom da sabedoria, daquela sabedoria de Deus que nos ensina a olhar com os olhos de Deus, a ouvir com o coração de Deus, a falar com as palavras de Deus. E assim, com esta sabedoria, vamos adiante, construímos a família, construímos a Igreja e todos nos santificamos. Peçamos hoje a graça da sabedoria. E peçamos à Nossa Senhora, que é a sede da sabedoria, este dom: que Ela nos dê esta graça. Obrigado!

(Trad.:Canção Nova)

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Fonte: Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal: NOVENA DA IMACULADA.(http://www.hablarcondios.org/)

O dom da sabedoria aperfeiçoou a sua caridade e levou-a a ter um conhecimento gozoso e experimental do divino e a saborear na sua intimidade os mistérios que se referiam especialmente ao Messias, seu Filho. A sua sabedoria era amorosa, infinitamente superior à que se pode obter dos mais profundos tratados de Teologia. Via, contemplava, amava e ordenava todas as coisas de acordo com essa experiência divina; julgava-as com a luz poderosa e amorosa que inundava o seu coração. Se lho pedirmos com insistência, Ela no-lo alcançará, pois “entre os dons do Espírito Santo, diria que há um de que todos nós, cristãos, necessitamos especialmente: o dom da sabedoria, que nos faz conhecer e saborear Deus, e nos coloca assim em condições de podermos avaliar com verdade as situações e as coisas desta vida” (Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 133).
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Do Catecismo Maior de S. Pio X

915) Que é a Sabedoria? A Sabedoria é um dom pelo qual nós, elevando o espírito acima das coisas terrenas e frágeis, contemplamos as eternas, isto é, a Verdade, que é Deus, no qual pomos nossa complacência, amando-O como nosso Sumo bem.

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Natureza: “Hábito sobrenatural inseparável da caridade pelo qual julgamos retamente de Deus e das coisas divinas por suas últimas e altíssimas causas sob o instinto especial do Espírito Santo, que nos faz as saborear por certa conaturalidade e simpatia” (Royo Marin, Antonio, Teologia de la perfección cristiana. 4. ed. Madrid : Católica, 1962, pag 487).
Distingue-se da penetrante e profunda apreensão da verdade do dom do Entendimento. A Sabedoria emite um juízo acerca das coisas divinas, o dom da Ciência das coisas criadas e a aplicação concreta as ações, o dom do Conselho.
Enquanto juízo, a Sabedoria reside na faculdade intelectiva, enquanto conaturalidade com as coisas divinas, a caridade reside na vontade. Também é prática: contempla os primeiros princípios e dirige os atos humanos por razões divinas. O trabalho se torna descanso, o amargo se torna doce quando feitos por Deus.
Julga de Deus, dessa inefável experiência.
É o mesmo objeto formal (quod) da fé, mas materialmente, a fé crê, a sabedoria saboreia e experimenta. “Provai e vede quão suave é o Senhor” (Sl 33,9).
Os filósofos definem a sabedoria como “Cognitio certa et evidens rerum per altissimas earum causas“. O que contempla algo sem conhecer suas causas, tem um conhecimento vulgar (Pense-se numa criança diante de um eclipse). O que conhece as causas próximas, cientista. O que conhece os últimos princípios na ordem natural, a sabedoria filosófica (Metafísica). O que é guiado pelas luzes da fé e da razão, possui a Teologia. O que conhece, pressuposto a fé e a razão, pelo instinto divino as últimas causas, possui a sabedoria sobrenatural, superada apenas pela visão beatífica.
Necessidade: É a atmosfera normal da caridade cristã. A caridade não consegue guiar-se somente por razões humanas, pequenas e mesquinhas, tem de respirar largamente o divino.
Efeitos: 1) Dá o sentido do divino, de eternidade, com que julgam todas as coisas. Mesmo nas coisas ordinárias, o cristão percebe a repercussão de eternidade. Não se detém em causas segundas (maldade humana, p. ex), mas remetem as causas altíssimas (o que Jesus faria nessa situação). “De que me vale isso para a eternidade” (S. Luís Gonzaga)?; 2) Faz viver ao modo divino os mistérios da nossa fé: enquanto criatura, tudo enxerga de dentro da Trindade, onde está pelo amor; 3) Faz viver em união com as divinas Pessoas mediante uma participação inefável na vida Trinitária; 4)Leva até ao heroísmo a virtude da Caridade; 5) Proporciona a todas as virtudes a sua perfeição, fazendo-as verdadeiramente divinas: “Só mora neste monte a honra e glória de Deus” (S. João da Cruz).
Bem aventuranças e frutos: “Bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Quanto ao mérito, pacíficos, a paz é a tranquilidade da ordem e isto pertence à Sabedoria. E quanto ao prêmio, filhos de Deus, por causa da nossa participação na vida de Deus.
O fruto do Espírito é a caridade, o gozo espiritual e a paz.
Vícios opostos: Estultícia espiritual, a fatuidade (presunção ridícula, tola). “O homem animal não compreende as coisas do Espírito de Deus” (I Cor. 2,14).
Meios de fomentar: além dos meios ordinários 1) Esforçar-nos de ver as coisas do ponto de vista de Deus; 2) Combater a sabedoria do mundo. Aquela sabedoria que idolatra a criatura, que não entende a pureza de coração. Há a sabedoria terrena e suas riquezas, a animal e seus prazeres, a diabólica e sua excelência soberba; 3) Não afixionar-se demais as coisas desse mundo, ainda que boas e honestas. Uma “única coisa é necessária”; 4) Não apegar-se aos consolos espirituais.

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Meditação diária de Falar com Deus

89. O DOM DA SABEDORIA

– Este dom confere-nos um conhecimento amoroso de Deus, bem como das pessoas e das coisas criadas na medida em que se referem a Ele. Está intimamente unido à virtude da caridade.

– Mediante este dom, participamos dos mesmos sentimentos de Jesus Cristo em relação aos que nos rodeiam. Ensina-nos a ver os acontecimentos dentro do plano providencial de Deus, que sempre se manifesta como nosso Pai.

– O dom da sabedoria e a vida contemplativa na nossa vida corrente.

I. EXISTE UM CONHECIMENTO de Deus e do que se refere a Ele a que só se chega pela santidade. O Espírito Santo, mediante o dom da sabedoria, coloca-o ao alcance das almas simples que amam o Senhor: Eu te glorifico, Pai, Senhor do céu e da terra – exclamou Jesus diante de umas crianças –, porque escondeste estas coisas aos sábios e prudentes e as revelaste aos pequeninos1.

É uma sabedoria que não se aprende nos livros, mas que é comunicada à alma pelo próprio Deus, que ilumina e ao mesmo tempo cumula de amor a mente e o coração, a inteligência e a vontade; é um conhecimento mais íntimo e saboroso de Deus e dos seus mistérios. “Quando temos na boca uma fruta, apreciamos o seu sabor muito melhor do que se lêssemos as descrições que dela fazem todos os livros de Botânica. Que descrição se pode comparar ao sabor que experimentamos quando provamos uma fruta? Do mesmo modo, quando estamos unidos a Deus e o saboreamos por íntima experiência, isso nos faz conhecer muito melhor as coisas divinas do que todas as descrições que os eruditos e os livros dos homens mais sábios possam fazer”2. Este é o conhecimento que se experimenta de modo particular pelo dom da sabedoria.

De uma maneira semelhante à de uma mãe que conhece o seu filho pelo amor que lhe tem, assim a alma, mediante a caridade, chega a um conhecimento profundo de Deus que obtém do amor a sua luz e o seu poder de penetração nos mistérios. É um dom do Espírito Santo porque é fruto da caridade infundida por Ele na alma e nasce de uma participação na sua sabedoria infinita. São Paulo orava pelos primeiros cristãos, para que,poderosamente robustecidos pelo seu Espírito […], arraigados e alicerçados na caridade, possais compreender qual a largura e o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer enfim a caridade de Cristo, que desafia todo o conhecimento3. É um compreender alicerçados na caridade; é um conhecimento profundo e amoroso.

Não podemos aspirar a nenhum conhecimento mais alto de Deus do que este conhecimento saboroso, que enriquece e facilita a nossa oração e toda a nossa vida de serviço a Deus e aos homens por Deus: A sabedoria – diz a Sagrada Escritura – vale mais do que as pérolas, e jóia alguma a pode igualar4. Eu a preferi aos cetros e aos tronos, e considerei a riqueza como um nada em comparação com ela […]. Todo o ouro ao seu lado é apenas um pouco de areia, e a prata diante dela é como lama […]. Com ela vieram-me todos os bens […] porque é a sabedoria que os traz […]. Ela é para os homens um tesouro inesgotável; e os que a adquirem preparam-se para ser amigos de Deus5.

II. INTIMAMENTE UNIDO à virtude teologal da caridade, o dom da sabedoria confere à alma um conhecimento muito especial de Deus, que a leva a possuir “uma certa experiência da doçura de Deus”6, em si mesmo e nas coisas criadas, enquanto se relacionam com Ele. “Entre os dons do Espírito Santo, diria que há um de que todos nós, cristãos, necessitamos especialmente: o dom da sabedoria, que nos faz conhecer e saborear Deus, e nos coloca assim em condições de poder avaliar com verdade as situações e as coisas desta vida”7. Com a visão profunda que este dom confere à alma, o cristão que segue de perto o Senhor contempla toda a realidade com um olhar mais alto, pois participa de algum modo da visão que Deus tem de todas as coisas criadas. Julga tudo com a clareza deste dom.

Os demais homens são então para ele uma oportunidade contínua de praticar a misericórdia e de exercer um apostolado eficaz aproximando-os do Senhor. Compreende melhor a imensa necessidade que os seus parentes, colegas e amigos têm de ser ajudados a caminhar para Cristo. Vê-os como pessoas urgentemente necessitadas de Deus, como Cristo as via.

Iluminados por este dom, os santos entenderam no seu verdadeiro sentido os acontecimentos desta vida: tanto os que consideramos grandes e importantes como os aparentemente pequenos. Por isso, não chamaram desgraça à doença e às tribulações que tiveram que sofrer; compreenderam que Deus abençoa de muitas maneiras, e freqüentemente com a Cruz; sabiam que todas as coisas, mesmo aquelas que são humanamente inexplicáveis, cooperam para o bem dos que amam a Deus8. “As inspirações do Espírito Santo, que este dom faz acolher com docilidade, esclarecem-nos pouco a pouco sobre a ordem admirável do plano providencial, mesmo e precisamente naquelas coisas que antes nos deixavam desconcertados, nos casos dolorosos e imprevistos, permitidos por Deus em vista de um bem superior”9.

Através do dom da sabedoria, as moções da graça trazem-nos uma grande paz, não somente para nós, mas também para o nosso próximo; ajudam-nos a semear alegria onde quer que estejamos e a encontrar a palavra oportuna que ajuda a reconciliarem-se os que estão desunidos. É por isso que este dom está em correspondência com a bem-aventurança dos pacíficos, daqueles que, tendo paz em si mesmos, podem comunicá-la aos outros. Esta paz, que o mundo não pode dar, é o resultado de se verem os acontecimentos dentro do plano providente de Deus, que em momento algum se esquece dos seus filhos.

III. O DOM DA SABEDORIA concede-nos uma fé amorosa, penetrante, uma clareza e segurança absolutamente insuspeitadas na compreensão do mistério inabarcável de Deus. Assim, por exemplo, a presença real de Jesus Cristo no Sacrário produz em nós uma felicidade inexplicável por nos acharmos diante de Deus. A pessoa “permanece ali sem dizer nada ou simplesmente repetindo umas palavras de amor, em contemplação profunda, com os olhos fixos na Hóstia Santa, sem cansar-se de fitá-lo. Parece-lhe que Jesus penetra pelos seus olhos até o mais profundo dela própria…”10

O normal será, no entanto, que encontremos a Deus na vida diária, sem quaisquer manifestações especiais, mas envolvidos pela íntima certeza de que Ele nos contempla, de que vê as nossas tarefas e nos olha como filhos seus… No meio do nosso trabalho, na família, o Espírito Santo ensina-nos, quando somos fiéis às suas graças, que todas as nossas ocupações são o instrumento normal que Deus põe ao nosso alcance para que possamos amá-lo e servi-lo nesta vida e depois contemplá-lo na eternidade. À medida, pois, que vamos purificando o nosso coração, entendemos melhor a verdadeira realidade do mundo, das pessoas (que olhamos e tratamos como filhos de Deus) e dos conhecimentos, participando da própria visão de Deus sobre as coisas criadas, sempre dentro dos limites da nossa condição de criaturas.

Esta ação amorosa do Espírito Santo sobre a nossa vida só será possível se cuidarmos com esmero das normas de piedade através das quais nos dedicamos especialmente a Deus: a Santa Missa, os momentos de meditação pessoal, a Visita ao Santíssimo… E isto tanto nos dias normais como naqueles em que temos um trabalho que parece ultrapassar a nossa capacidade de levá-lo adiante; quando a devoção é fácil e simples ou quando chega a aridez; nas viagens, no descanso, na doença…

E juntamente com o cuidado em viver com esmero esses momentos mais intensamente dedicados a Deus, não nos deve faltar o empenho por conseguir que o pano de fundo do nosso dia esteja sempre ocupado pelo Senhor. Presença de Deus alimentada com jaculatórias, ações de graças, pedidos de ajuda, atos de amor e desagravo, pequenos sacrifícios que surgem no nosso trabalho ou que procuramos por nossa conta.

“Que a Mãe de Deus e Mãe nossa nos proteja, a fim de que cada um de nós possa servir a Igreja na plenitude da fé, com os dons do Espírito Santo e com a vida contemplativa. Realizando cada um os deveres que lhe são próprios, cada um no seu ofício e profissão, e no cumprimento das obrigações do seu estado, honre gozosamente o Senhor”11.

(1) Mt 11, 25; (2) L. M. Martinez, El Espíritu Santo, 6ª ed., Studium, Madrid, 1959, pág. 201; (3) Ef 3, 16-19; (4) Prov 8, 11; (5) Sab 7, 8-14; (6) São Tomás, Suma Teológica, 1-2, q. 112, a. 5; (7) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 133; (8) cfr. Rom 8, 28; (9) R. Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior, 4ª ed., Palabra, Madrid, 1983, pág. 82; (10) A. Riaud, La acción del Espíritu Santo en las almas, 4ª ed., Palabra, Madrid, 1983, pág. 82; (11) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 316.

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Dons Do Espírito Santo: Ciência

Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2014/documents/papa-francesco_20140521_udienza-generale.html

PAPA FRANCISCO

AUDIÊNCIA GERAL

Praça de São Pedro
Quarta-feira, 21 de Maio de 2014

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, gostaria de elucidar mais um dom do Espírito Santo, a dádiva da ciência. Quando se fala de ciência, o pensamento dirige-se imediatamente para a capacidade que o homem tem de conhecer cada vez melhor a realidade que o circunda e de descobrir as leis que regulam a natureza e o universo. Contudo, a ciência que deriva do Espírito Santo não se limita ao conhecimento humano: trata-se de um dom especial, que nos leva a entender, através da criação, a grandeza e o amor de Deus e a sua profunda relação com cada criatura.

Quando são iluminados pelo Espírito, os nossos olhos abrem-se à contemplação de Deus, na beleza da natureza e na grandiosidade do cosmos, levando-nos a descobrir como tudo nos fala d’Ele e do seu amor. Tudo isto suscita em nós um grandioso enlevo e um profundo sentido de gratidão! É a sensação que sentimos também quando admiramos uma obra de arte, ou qualquer maravilha que seja fruto do engenho e da criatividade do homem: diante de tudo isto, o Espírito leva-nos a louvar o Senhor do profundo do nosso coração e a reconhecer, em tudo aquilo que temos e somos, é um dom inestimável de Deus e um sinal do seu amor infinito por nós.

No primeiro capítulo do Génesis, precisamente no início da Bíblia inteira, põe-se em evidência que Deus se compraz com a sua criação, sublinhando reiteradamente a beleza e a bondade de tudo. No final de cada dia está escrito: «Deus viu que isso era bom» (1, 12.18.21.25): se Deus vê que a criação é boa, é bela, também nós devemos assumir esta atitude e ver que a criação é boa e bela. Eis o dom da ciência, que nos faz ver esta beleza; portanto, louvemos a Deus, dando-lhe graças por nos ter concedido tanta beleza! E quando Deus terminou de criar o homem, não disse «viu que isso era bom», mas disse que era «muito bom» (v. 31). Aos olhos de Deus, nós somos a realidade mais bela, maior, mais boa da criação: até os anjos estão abaixo de nós, nós somos mais do que os anjos, como ouvimos no livro dos Salmos. O Senhor ama-nos! Devemos dar-lhe graças por isto. O dom da ciência põe-nos em profunda sintonia com o Criador, levando-nos a participar na limpidez do seu olhar e do seu juízo. E é nesta perspectiva que nós conseguimos encontrar no homem e na mulher o ápice da criação, como cumprimento de um desígnio de amor que está gravado em cada um de nós e que nos faz reconhecer como irmãos e irmãs.

Tudo isto é motivo de serenidade e de paz, e faz do cristão uma testemunha jubilosa de Deus, no sulco de são Francisco de Assis e de muitos santos que souberam louvar e cantar o seu amor através da contemplação da criação. Mas ao mesmo tempo, o dom da ciência ajuda-nos a não cair nalgumas atitudes excessivas ou erradas. A primeira é constituída pelo risco de nos considerarmos senhores da criação. A criação não é uma propriedade, que podemos manipular a nosso bel-prazer; nem muito menos uma propriedade que pertence só a alguns, a poucos: a criação é um dom, uma dádiva maravilhosa que Deus nos concedeu, para acuidarmos e utilizarmos em benefício de todos, sempre com grande respeito e gratidão. A segunda atitude errada é representada pela tentação de nos limitarmos às criaturas, como se elas pudessem oferecer a resposta a todas as nossas expectativas. Com o dom da ciência, o Espírito ajuda-nos a não cair neste erro.

Mas gostaria de voltar a meditar sobre o primeiro caminho errado: manipular a criação, em vez de a preservar. Devemos conservar a criação, porque é uma dádiva que o Senhor nos concedeu, um dom que Deus nos ofereceu; nós somos guardas da criação. Quando exploramos a criação, destruímos o sinal do amor de Deus. Destruir a criação significa dizer ao Senhor: «Não me agrada». E isto não é bom: eis o pecado!

A preservação da criação é precisamente a conservação do dom de Deus; e significa dizer a Deus: «Obrigado, eu sou o guardião da criação, mas para a fazer prosperar, e não para destruir a tua dádiva!». Esta deve ser a nossa atitude em relação à criação: preservá-la, pois se aniquilarmos a criação, será ela que nos destruirá! Não esqueçais isto! Certa vez eu estava no campo e ouvi o dito de uma pessoa simples, que gostava muitos de flores e que as preservava. Ela disse-me: «Devemos conservar estas belezas que Deus nos concedeu; a criação é para nós, a fim de beneficiarmos dela; não a devemos explorar, mas conservar, porque Deus perdoa sempre; nós, homens, perdoamos algumas vezes, mas a criação nunca perdoa, e se tu não a preservares, ela destruir-te-á!».

Isto nos leve a pensar e a pedir ao Espírito Santo a dádiva da ciência, para compreender bem que a criação é o dom mais bonito de Deus. Ele fez muitas coisas boas para a melhor coisa, que é a pessoa humana.

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Fonte: Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal: NOVENA DA IMACULADA.(http://www.hablarcondios.org/)

O dom da ciência ampliou ainda mais o olhar da fé de Maria. Por meio dele, a Virgem contemplava nas realidades cotidianas as marcas de Deus no mundo, como pistas para chegar até o Criador, e julgava retamente a relação de todas as coisas e acontecimentos com a salvação. Influenciada por esse dom, tudo lhe falava de Deus, todas as coisas a levavam a Deus9. Entendeu melhor do que ninguém a terrível realidade do pecado, e por isso sofreu, como nenhuma outra criatura, pelos pecados dos homens. Intimamente associada à dor do seu Filho, padeceu com Ele “quando morria na Cruz, cooperando de forma totalmente singular na restauração da vida sobrenatural das almas” ( Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 61).

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Do Catecismo Maior de S. Pio X

919) Que é a Ciência? A Ciência é um dom pelo qual julgamos retamente das coisas criadas, e conhecemos o modo de bem usar delas e de as dirigir ao último fim, que é Deus.

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Natureza: “Hábito sobrenatural infundido com a graça pela qual a inteligência do homem, debaixo da ação iluminadora do Espírito Santo, julga retamente das coisas criadas em ordem ao fim sobrenatural” (Royo Marin, Antonio, Teologia de la perfección cristiana. 4. ed. Madrid : Católica, 1962, pag 448).

Necessidade: Para a fé chegar seu pleno desenvolvimento. Não basta apreender a verdade revelada, é preciso esse instinto sobrenatural para descobrir e julgar retamente as relações das verdades divinas com o mundo natural e sensível que nos rodeia. Senão, a fé seria facilmente seduzida pelos encantos do mundo.

Efeitos: 1) Nos ensina a julgar retamente as coisas criadas em relação a Deus: a experiência do vazio da criatura, e na criação, os vestígios de Deus. S. Domingos chorava os pecadores enquanto S. Francisco cantava ao irmão sol, ambos sob o impulso do mesmo dom. Também dava facilidade a S. Teresa em explicar as coisas de Deus, valendo-se de analogias com as coisas criadas; 2) Nos guia certamente ao que temos que crer ou não crer: tem relação ao senso da fé; 3)Nos faz ver com prontidão e certeza o estado de nossa alma: S. Teresa: “em peça onde entra muito sol não há teia de aranha escondida” (Vida 19,2); 4) Nos inspira o modo mais acertado de conduzir-nos com o próximo em ordem à vida eterna: um pregador que saber dizer os exemplos necessários aos ouvintes, o diretor e os remédios adequados, um superior e seus súditos; 5) Nos desprende das coisas da terra; 6) Nos ensina a usar santamente das criaturas; 7) Nos enche de contrição e arrependimento de nossos erros passados.

Bem aventuranças e frutos que delas derivam: “Bem aventurados os que choram, porque eles serão consolados” (Mt 5,5). chorar como Mérito: chorar pelo pecados próprios ou alheios; chorar como prêmio: a consolação da contemplação de Deus na criação.
Fruto é igual ao do Entendimento e Sabedoria que consideram a verdade em relação ao fim último: no entendimento se produz uma certeza especial, fides, na vontade, um certo gozo, um gaudium espiritual.

Vícios: ignorância na fé, falta de senso da fé, soberba intelectual que troca critérios sobrenaturais por vãs ciências hipotéticas. “Graças te dou, Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes estas coisas dos sábios e prudentes e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25).

Meios de fomentar este dom: a) considerar a vaidade das coisas criadas; b) acostumar-se a relacionar com Deus todas as coisas criadas; c) opor-se ao espírito do mundo: onde apenas se goza das criaturas sem se perguntar o que são e para o que estão chamadas; d) ver a mão da providência no governo do mundo e em todos os acontecimentos prósperos ou adversos da nossa vida; e) preocupar-se com a pureza de coração: “Sou mais entendido que os anciãos pois guardo teus preceitos”(Sl 118,100).

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Fonte: Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal: (http://www.hablarcondios.org/)

TEMPO PASCAL. SEXTA SEMANA. SÁBADO

88. O DOM DA CIÊNCIA

– Faz-nos compreender o que são as coisas criadas, segundo o desígnio de Deus sobre a criação e a elevação à ordem sobrenatural.

– O dom da ciência e a santificação das realidades temporais.

– O verdadeiro valor e sentido deste mundo. Desprendimento e humildade necessários para podermos receber este dom.

I. “AS CRIATURAS SÃO como que vestígios da passagem de Deus. Por esses vestígios rastreia-se a sua grandeza, poder e sabedoria, bem como todos os seus atributos”1. São como um espelho em que se reflete o esplendor da sua beleza, da sua bondade, do seu poder: Os céus narram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos2.

Não obstante, muitas vezes, por causa do pecado original e dos pecados pessoais, os homens não sabem interpretar esse rasto de Deus no mundo e não conseguem reconhecer Aquele que é a fonte de todos os bens:Não souberam reconhecer o Artífice pela consideração das suas obras. Seduzidos pela beleza das coisas criadas, tomaram essas coisas por deuses. Aprendam então a saber quanto o seu Senhor prevalece sobre elas– diz a Escritura – porque Ele é o criador da beleza que as fez3.

O dom da ciência permite que o homem veja mais facilmente as coisas criadas como sinais que levam a Deus, e que compreenda o que significa a elevação à ordem sobrenatural. Através do mundo da natureza e da graça, o Espírito Santo faz-nos perceber e contemplar a infinita sabedoria de Deus, a sua onipotência e bondade, a sua natureza íntima. “É um dom contemplativo cujo olhar penetra, como o do dom do entendimento e o da sabedoria, no próprio mistério de Deus”4.

Mediante este dom, o cristão percebe e entende com toda a clareza “que a criação inteira, o movimento da terra e dos astros, as ações retas das criaturas e tudo quanto há de positivo no curso da história, tudo, numa palavra, veio de Deus e para Deus se ordena”5. É uma disposição sobrenatural pela qual participa da ciência de Deus, descobre as relações que existem entre todas as coisas criadas e o seu Criador e em que medida e sentido estão a serviço do fim último do homem.

Uma manifestação do dom da ciência é o Cântico dos três jovens, como o lemos no Livro de Daniel, que muitos cristãos recitam na ação de graças depois da Santa Missa. Pede-se a todas as coisas criadas que louvem e dêem glória ao Criador: Benedicite, omnia opera Domini, Domino…: Obras todas do Senhor, bendizei o Senhor; louvai-o e exaltai-o pelos séculos dos séculos. Anjos do Senhor, bendizei o Senhor. Céus… Águas que estais sobre os céus… Sol e lua… Estrelas do céu… Chuva e orvalho… Todos os ventos… Frio e calor… Orvalhos e geadas… Noites e dias… Luz e trevas… Montanhas e colinas… Todas as plantas… Fontes… Mares e rios… Cetáceos e peixes… Aves… Animais selvagens e rebanhos… Sacerdotes do Senhor… Espíritos e almas dos justos… Santos e humildes de coração… Cantai-lhe e dai-lhe graças porque é eterna a sua misericórdia6.

Este cântico admirável de toda a criação, de todos os seres vivos e de todas as coisas inanimadas, é um hino de glória ao Criador. “É uma das mais puras e ardentes expressões do dom da ciência: que os céus e toda a Criação cantem a glória de Deus”7. Em muitas ocasiões, poderá também ajudar-nos a dar graças ao Senhor depois de participarmos na obra que mais glória lhe dá: a Santa Missa.

II. MEDIANTE O DOM DA CIÊNCIA, o cristão dócil ao Espírito Santo sabe discernir com perfeita clareza o que o conduz a Deus e o que o separa dEle. E isto no ambiente, nas modas, na arte, nas ideologias… Verdadeiramente, esse cristão pode dizer: O Senhor guia o justo por caminhos retos e comunica-lhe a ciência das coisas santas8. O Paráclito previne-nos também quando as coisas boas e retas em si mesmas se podem converter em nocivas porque nos afastam do nosso fim sobrenatural: por um desejo desordenado de posse, por um apego do coração que não o deixa livre para Deus, etc.

O cristão, que deve santificar-se no meio do mundo, tem uma especial necessidade deste dom para encaminhar para Deus as suas atividades temporais, convertendo-as em meio de santidade e apostolado. Mediante esse dom, a mãe de família compreende mais profundamente que a sua tarefa doméstica é caminho que leva a Deus, se a realiza com retidão de intenção e desejos de agradar ao Senhor; assim como o estudante passa a entender que o seu estudo é o meio habitual de que dispõe para amar a Deus, desenvolver a sua ação apostólica e servir a sociedade; e o arquiteto encara da mesma maneira os seus projetos; e a enfermeira, o cuidado dos seus doentes, etc. Compreende-se então por que devemos amar o mundo e as realidades temporais, e como “há algo de santo, divino, escondido nas situações mais comuns, que cabe a cada um de vós descobrir”9.

Deste modo – continuam a ser palavras de Mons. Escrivá –, “quando um cristão desempenha com amor a mais intranscendente das ações diárias, está desempenhando algo donde transborda a transcendência de Deus. Por isso tenho repetido, com insistente martelar, que a vocação cristã consiste em transformar em poesia heróica a prosa de cada dia”10. Esse verso heróico para Deus, nós o compomos com os episódios corriqueiros da tarefa diária, dos problemas e alegrias que encontramos à nossa passagem.

Amamos as coisas da terra, mas passamos a avaliá-las no seu justo valor, no valor que têm para Deus. E assim passamos a dar uma importância capital a esse sermos templos do Espírito Santo, porque “se Deus mora na nossa alma, tudo o resto, por mais importante que pareça, é acidental, transitório. Em contrapartida, nós, em Deus, somos o permanente”11.

III. À LUZ DO DOM DA CIÊNCIA, o cristão reconhece a brevidade da vida humana sobre a terra, a relativa felicidade que este mundo pode dar, comparada com a que Deus prometeu aos que o amam, a inutilidade de tanto esforço se não se realiza de olhos postos em Deus… Ao recordar-se da vida passada, em que talvez Deus não tenha estado em primeiro lugar, a alma sente uma profunda contrição por tanto mal e por tantas ocasiões perdidas, e nasce nela o desejo de recuperar o tempo malbaratado, sendo mais fiel ao Senhor.

Todas as coisas do mundo – deste mundo que amamos e em que nos devemos santificar – aparecem-nos à luz deste dom sob a marca da caducidade, ao mesmo tempo que compreendemos com toda a nitidez o fim sobrenatural do homem e a necessidade de subordinar-lhe todas as realidades terrenas.

Esta visão do mundo, dos acontecimentos e das pessoas a partir da fé pode obscurecer-se e mesmo apagar-se em conseqüência daquilo que São João chama a concupiscência dos olhos12. É como se a mente rejeitasse a luz verdadeira, e já não soubesse orientar para Deus as realidades terrenas, que passam a ser encaradas como fim. O desejo desordenado de bens materiais e a ânsia de uma felicidade procurada nas coisas da terra dificultam ou anulam a ação desse dom. A alma cai então numa espécie de cegueira que a impede de reconhecer e saborear os verdadeiros bens, os que não perecem, e a esperança sobrenatural transforma-se num desejo cada vez maior de bem-estar material, levando a fugir de tudo aquilo que exige mortificação e sacrifício.

A visão puramente humana da realidade acaba por desembocar na ignorância das verdades de Deus ou por fazê-las parecer teóricas, sem sentido prático para a vida corrente, sem capacidade para impregnar a existência de todos os dias. Os pecados contra este dom deixam-nos sem luz, e assim se explica essa grande ignorância de Deus de que sofre o mundo. Por vezes, chega-se a uma verdadeira incapacidade de entender ou assimilar aquilo que é sobrenatural, porque os olhos da alma estão completamente obcecados pelos bens parciais e enganosos, e fecham-se aos verdadeiros. Para nos prepararmos para receber este dom, necessitamos de pedir ao Espírito Santo que nos ajude a viver a liberdade e o desprendimento dos bens materiais, bem como a ser mais humildes, para podermos ser ensinados acerca do verdadeiro valor das coisas.

Juntamente com estas disposições, devemos fomentar os atos que nos levam à presença de Deus, de modo a vermos o Senhor no meio dos nossos trabalhos; e fazer o propósito decidido de considerar na oração os acontecimentos que vão determinando a nossa vida e as realidades do dia-a-dia: a família, os colegas de trabalho, aquilo que mais nos preocupa… A oração sempre é um farol poderoso que ilumina a verdadeira realidade das coisas e dos acontecimentos.

Para obtermos este dom, para nos tornarmos capazes de possuí-lo em maior plenitude, recorremos à Virgem, Nossa Senhora. Ela é a Mãe do Amor Formoso, e do temor, e da ciência, e da santa esperança13. “Maria é Mãe da ciência, porque com Ela se aprende a lição que mais interessa: que nada vale a pena se não estivermos junto do Senhor; que de nada servem todas as maravilhas da terra, todas as ambições satisfeitas, se não nos arder no peito a chama de amor vivo, a luz da santa esperança que é uma antecipação do amor interminável na nossa Pátria definitiva”14.

(1) São João da Cruz, Cântico espiritual, 5, 3; (2) Sl 19, 1-2; (3) Sab 13, 1-5; (4) M. M. Philipon, Los dones del Espíritu Santo, pág. 200; (5) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 130; (6) cfr. Dan 3, 52-90; (7) M. M. Philipon, op. cit., pág. 203; (8) Sab 10, 10; (9) Josemaría Escrivá, Amar o mundo apasionadamente, in Questões atuais do cristianismo, n. 114; (10) ib.; (11) Josemaría Escrivá,Amigos de Deus, n. 92; (12) 1 Jo 2, 16; (13) Eclo 24, 24; (14) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 278.

Dons Do Espírito Santo: Entendimento

Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2014/documents/papa-francesco_20140430_udienza-generale.html

PAPA FRANCISCO

AUDIÊNCIA GERAL

Praça de São Pedro
Quarta-feira, 30 de Abril de 2014

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Depois de ter meditado sobre a sabedoria, como primeiro dos sete dons do Espírito Santo, gostaria hoje de chamar a atenção para o segundo dom, ou seja, o entendimento. Aqui, não se trata da inteligência humana, da capacidade intelectual de que podemos ser mais ou menos dotados. Ao contrário, é uma graça que só o Espírito Santo pode infundir e que suscita no cristão a capacidade de ir além do aspecto externo da realidade e perscrutar as profundidades do pensamento de Deus e do seu desígnio de salvação.

Dirigindo-se à comunidade de Corinto, o apóstolo Paulo descreve bem os efeitos deste dom — ou seja, como age em nós o dom do entendimento — e Paulo diz o seguinte: «Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus preparou para aqueles que o amam. Todavia, Deus no-los revelou pelo seu Espírito» (1 Cor2, 9-10). Obviamente, isto não significa que o cristão pode compreender tudo e ter um conhecimento completo dos desígnios de Deus: tudo isto permanece à espera de se manifestar em toda a sua limpidez, quando nos encontrarmos na presença de Deus e formos verdadeiramente um só com Ele. No entanto, como sugere a própria palavra, a inteligência permite «intus legere», ou seja, «ler dentro»: esta dádiva faz-nos compreender a realidade como o próprio Deus a entende, isto é, com a inteligência de Deus. Porque podemos compreender uma situação com a inteligência humana, com prudência, e isto é um bem. Contudo, compreender uma situação em profundidade, como Deus a entende, é o efeito deste dom. E Jesus quis enviar-nos o Espírito Santo para que também nós tenhamos este dom, para que todos nós consigamos entender a realidade como Deus a compreende, com a inteligência de Deus. Trata-se de um bonito presente que o Senhor concedeu a todos nós. É o dom com que o Espírito Santo nos introduz na intimidade com Deus, tornando-nos partícipes do desígnio de amor que Ele tem em relação a nós.

Então, é claro que o dom do entendimento está intimamente ligado à fé. Quando o Espírito Santo habita o nosso coração e ilumina a nossa mente, faz-nos crescer dia após dia na compreensão daquilo que o Senhor disse e levou a cabo. O próprio Jesus disse aos seus discípulos: enviar-vos-ei o Espírito Santo e Ele far-vos-á entender tudo o que vos ensinei. Compreender os ensinamentos de Jesus, entender a sua Palavra, compreender o Evangelho, entender a Palavra de Deus. Podemos ler o Evangelho e entender algo, mas se lermos o Evangelho com este dom do Espírito Santo conseguiremos compreender a profundidade das palavras de Deus. Este é um grande dom, uma dádiva enorme que todos nós devemos pedir, e pedir juntos: concedei-nos, ó Senhor, o dom do entendimento!

Há um episódio do Evangelho de Lucas que explica muito bem a profundidade e a força deste dom. Depois de ter assistido à morte na Cruz e à sepultura de Jesus, dois dos seus discípulos, desiludidos e amargurados, deixam Jerusalém e voltam para o seu povoado chamado Emaús. Enquanto caminham, Jesus ressuscitado aproxima-se deles e começa a falar-lhes mas os seus olhos, velados pela tristeza e até pelo desespero, não são capazes de o reconhecer. Jesus caminha ao seu lado, mas eles sentem-se tão tristes, tão desesperados, que não o reconhecem. Contudo, quando o Senhor lhes explica as Escrituras para que compreendam que Ele devia ter sofrido e morrido para depois ressuscitar, as suas mentes abriram-se e nos seus corações voltou a acender-se a esperança (cf. Lc 24, 13-27). E é isto que nos faz o Espírito Santo: abre-nos a mente, abre-nos para nos fazer entender melhor, para nos levar a compreender melhor as disposições de Deus, as realidades humanas, as situações, tudo. O dom do entendimento é importante para a nossa vida cristã. Peçamos ao Senhor que nos conceda a todos este dom, a fim de nos fazer compreender, como Ele mesmo entende, as situações que acontecem e para que compreendamos, sobretudo, a Palavra de Deus no Evangelho. Obrigado!

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Fonte: Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal: NOVENA DA IMACULADA. 1º DE DEZEMBRO. SEGUNDO DIA DA NOVENA (http://www.hablarcondios.org/)

Pelo dom do entendimento, que teve num grau superior ao de qualquer criatura, Maria teve conhecimento com uma fé pura, radicada na autoridade divina, de que a sua virgindade era sumamente grata ao Senhor. O seu olhar penetrou com a maior profundidade no sentido oculto das Escrituras, e compreendeu imediatamente que a saudação do Anjo era estritamente messiânica e que a Santíssima Trindade a tinha designado como Mãe do Messias esperado há tanto tempo. Depois teria sucessivas iluminações que confirmariam o cumprimento das promessas divinas de salvação e compreenderia que “deveria viver no sofrimento a sua obediência de fé ao lado do Salvador que sofre, e que a sua maternidade seria obscura e dolorosa” (João Paulo II, Enc. Redemptoris Mater, 16).

O dom do entendimento está intimamente ligado à pureza de alma, e é por isso que se relaciona com a bem-aventurança dos limpos de coração, que verão a Deus (Mt 5, 8). A alma de Maria, a Puríssima, gozou de especiais iluminações que a levaram a descobrir o querer de Deus em todos os acontecimentos. Ninguém soube melhor do que Ela o que Deus espera de cada homem; por isso, é a nossa melhor aliada nos pedidos que dirigimos a Deus nas nossas necessidades.

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Do Catecismo Maior de S. Pio X

916) Que é o Entendimento? O Entendimento é um dom pelo qual nos é facilitada, quanto é possível a um homem mortal, a inteligência das verdades da Fé e dos divinos mistérios, os quais não podemos conhecer com as luzes naturais da nossa razão.

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Natureza: “Hábito sobrenatural infundido com a graça santificante pela qual a inteligência do homem, sob a ação iluminadora do Espírito Santo, se faz apta para uma penetrante intuição das verdades reveladas especulativas e práticas e até naturais em ordem ao fim sobrenatural” (Royo Marin, Antonio,Teologia de la perfección cristiana, 4. ed. Madrid : Católica, 1962, pag 440).

Necessidade: Para o desenvolvimento pleno da fé, não basta a via ascética, discursiva, mas é indispensável a via mística, o dom do entendimento. O conhecimento humano é discursivo, composição e divisão, análise e síntese e não por simples intuição da verdade. Mas, sendo o objeto da fé a Verdade primeira se manifestando [a Verdade Divina pode se dar de três modos: in essendo, ou seja, Deus verus– o Deus Verdadeiro; in cognoscendo, conhecendo a Divina Sabedoria; e in dicendo, que é a veracidade; A primeira é o objeto formal quod (do qual) da fé e os dois últimos, o objeto formal quo (o qual) que especifica a fé], que é simplíssima, o modo discursivo é imperfeito. A fé é um hábito intuitivo e para tanto, para a contemplação, deve tender. É a fé pura de S. João da Cruz que faz possível a união do entendimento com Deus.
Efeitos: 1) Nos faz ver a substância das coisas ocultas sob os acidentes: “Eu lhe olho, ele me olha” (S. J. Vianney); 2) Nos descobre o sentido oculto das divinas Escrituras: Emaús; 3) Nos manifesta o significado misterioso das semelhanças e figuras: Antigo Testamento e sua relação com o Novo, por exemplo; 4) Nos mostra debaixo das aparências sensíveis as realidades espirituais: na Liturgia, p. exemplo; 5) Nos faz contemplar os efeitos contidos nas causas: um mundo novo se revela baixo um princípio como Cristo Sumo Sacerdote, Maria Medianeira, etc; 6) Nos faz ver as causas através dos efeitos.
Videmus nunc per speculum in aenigmate” (1 Cor. 13,12). “Nesta mesma vida, purificando o olho do espírito pelo dom do entendimento, pode-se ver a Deus de certo modo” (I-II, 69,2 ad 3). “Nos autem sensum Christi habemus” (1 Cor. 2,16). ”Iustus ex fide vivit” (Rm. 1,17).

Bem aventuranças e frutos: “Bem aventurados os limpos de coração, pois eles verão a Deus” (Mt 5,8). Dela se indica o mérito ou disposição (a limpeza do coração) e o prêmio (ver a Deus). Há a pureza do coração, dos pecados e afetos desordenados, na parte apetitiva e pureza da mente, depurando-a dos fantasmas (idéias materiais) e erros contra a fé. Os frutos é a fides, a certeza da fé e o gaudium, o gozo da fé.

Vícios: A privação ou cegueira espiritual e o embotamento (Embotamento é um tipo de comportamento onde o indivíduo apresenta-se sem emoções e sentimentos) do sentido espiritual. A luxúria produz a cegueira espiritual pois debilita qualquer conhecimento, típtico das almas tíbias, que encontra sua mente mergulhada nas suas paixões, sem recolhimento interior e espírito de oração, derramada nas situações exteriores. É o caminho das vacas. As coisas espirituais lhe causam tédio.

Meios de fomentar esse dom: a) A prática da fé viva com a ajuda da graça ordinária; b) Perfeita pureza da alma e corpo; c) Recolhimento interior; d) Fidelidade à graça: “hodie si vocem eius audieritis nolite obdurare corda vestra” (Sl 94,8). Os conselhos do diretor espiritual; e) Invocar ao Espírito Santo.

 

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Fonte: Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal: (http://www.hablarcondios.org/)

 

TEMPO PASCAL. SEXTA SEMANA. SEXTA-FEIRA

87. O DOM DO ENTENDIMENTO

– Mediante este dom, chegamos a um conhecimento mais profundo dos mistérios da fé.

– Concede-se a todos os cristãos, mas o seu desenvolvimento exige que nos purifiquemos.

– O dom do entendimento e a vida contemplativa.

I. CADA PÁGINA da Sagrada Escritura é uma manifestação da solicitude com que Deus se inclina para nós a fim de nos guiar para a santidade. O Senhor mostra-se no Antigo Testamento como a verdadeira luz de Israel, sem a qual o povo se extravia e tropeça na escuridão. Os grandes personagens do Antigo Testamento dirigem-se constantemente a Javé pedindo-lhe que os conduza nas horas difíceis. Dá-me a conhecer os teus caminhos1, pede Moisés para guiar o povo até a Terra da Promissão. Sem o ensinamento divino, sente-se perdido. E o rei Davi suplica: Ensina-me a observar a tua lei e a guardá-la de todo o coração2.

Jesus promete o Espírito de verdade, que terá a missão de iluminar toda a Igreja3. Com o envio do Paráclito, “completa a revelação e a culmina e confirma com testemunho divino”4. Os próprios Apóstolos compreenderão mais tarde o sentido das palavras do Senhor que antes do Pentecostes se lhes apresentavam obscuras. “Ele é a alma desta Igreja – ensina Paulo VI –. É Ele quem explica aos fiéis o sentido profundo dos ensinamentos de Jesus e o seu mistério”5.

O Paráclito conduz-nos das primeiras luzes da fé à “inteligência mais profunda da Revelação”6. Mediante o dom do entendimento, concede ao fiel cristão um conhecimento mais profundo dos mistérios revelados, iluminando-lhe a inteligência com uma luz poderosíssima. “Conhecemos esses mistérios há muito tempo; ouvimo-los e até meditamos neles muitas vezes, mas, num dado momento, sacodem o nosso espírito de uma maneira nova, como se até então nunca tivéssemos compreendido a verdade”7. Sob este influxo, a alma adquire uma certeza muito maior das verdades sobrenaturais, que se lhe tornam mais claras, e experimenta uma alegria indescritível, que é antecipação da visão beatífica.

O dom do entendimento permite que a alma participe com facilidade desse olhar de Jesus que tudo penetra e que incita a reverenciar a grandeza de Deus, a dedicar-lhe um afeto filial, a ponderar adequadamente o valor das coisas criadas… “Pouco a pouco, à medida que o amor vai crescendo na alma, a inteligência do homem resplandece mais e mais sob a própria luz de Deus”8 e dá-nos uma grande familiaridade com os mistérios divinos.

Para chegarmos a este conhecimento, não nos bastam as luzes habituais da fé; precisamos de uma especial efusão do Espírito Santo, que recebemos na medida em que correspondemos à graça, começando por purificar o coração. Neste dia do Decenário do Espírito Santo, podemos examinar como são os nossos desejos de purificação, se nos levam especialmente a aproveitar muito bem as graças de cada confissão, a recorrer a ela com periodicidade, a pedir ajuda ao Paráclito para fomentar a contrição e um grande desejo de nos afastarmos de todo o pecado e das faltas deliberadas.

II. MEDIANTE O DOM DO ENTENDIMENTO, o Espírito Santo faz a alma penetrar de muitas maneiras nos mistérios revelados. De uma forma sobrenatural e portanto gratuita, ensina no íntimo do coração o alcance das verdades mais profundas da fé. “É como se alguém, sem ter aprendido nem trabalhado nada para saber ler, nem mesmo estudado coisa alguma – explica Santa Teresa –, se visse na posse de toda a ciência, sem saber como e donde lhe veio, pois jamais se esforçou sequer por aprender o abecedário. Esta última comparação parece-me explicar em parte este dom celestial, porque, de um momento para outro, a alma se vê tão instruída no mistério da Santíssima Trindade e em outras coisas muito subidas, que não há teólogo com quem não se atreva a discutir sobre a verdade dessas grandezas”9.

O dom do entendimento leva a captar o sentido mais profundo da Sagrada Escritura, a vida da graça, a presença de Cristo em cada sacramento e, de uma maneira real e substancial, na Sagrada Eucaristia. É um dom que confere como que um instinto divino para o que há de sobrenatural no mundo. Ante o olhar daquele que crê, iluminado pelo Espírito, surge um universo totalmente novo. Os mistérios da Santíssima Trindade, da Encarnação, da Redenção, da Igreja, convertem-se em realidades extraordinariamente vivas e atuais, que orientam toda a vida do cristão e influem decisivamente no seu trabalho, na família, nos amigos… Chega-se a ver Deus no meio das tarefas habituais, nos acontecimentos agradáveis ou dolorosos da vida diária.

O caminho para chegarmos à plenitude deste dom é a oração pessoal, em que contemplamos as verdades da fé, bem como a luta, alegre e amorosa, por manter-nos na presença de Deus ao longo do dia. Não se trata de uma ajuda sobrenatural extraordinária, reservada a pessoas muito excepcionais, mas de um dom que o Senhor concede a todos aqueles que queiram ser-lhe fiéis no lugar em que se encontram, santificando as suas alegrias e dores, o seu trabalho e o seu descanso.

III. PARA PROGREDIR neste caminho de santidade, é necessário fomentar o recolhimento interior, a mortificação dos sentidos internos e externos, a procura diligente da presença de Deus nos acontecimentos e percalços de cada dia.

É preciso sobretudo purificar o coração, pois somente os limpos de coração têm capacidade para ver a Deus10. A impureza, o apego aos bens terrenos, a facilidade em conceder ao corpo todos os seus caprichos embotam a alma para as coisas de Deus. O homem não espiritual não percebe as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucura. Nem as pode compreender, porque é segundo o Espírito que se devem ponderar11. Homem espiritual é o cristão que traz o Espírito Santo na sua alma em graça, e tem o pensamento posto em Cristo. A sua vida limpa, sóbria e mortificada é a melhor preparação para ser digna morada do Espírito, que nele habitará com todos os seus dons.

Quando o Espírito Santo encontra uma alma assim, vai-se apossando dela e conduzindo-a por caminhos de uma oração sempre mais profunda, até que “as palavras se tornam pobres…, e se dá passagem à intimidade divina, num olhar para Deus sem descanso e sem cansaço. Vivemos então como cativos, como prisioneiros. Enquanto realizamos com a maior perfeição possível, dentro dos nossos erros e limitações, as tarefas próprias da nossa condição e do nosso ofício, a alma anseia por escapar. Vai-se rumo a Deus, como o ferro atraído pela força do ímã. Começa-se a amar Jesus de forma mais eficaz, com um doce sobressalto”12.

Mons. Escrivá descreve aqui o caminho que as almas percorrem – no meio das ocupações mais normais da sua vida e seja qual for a sua cultura, profissão, estado, etc. – até chegarem à oração contemplativa. Para muitos, esse caminho parte da consideração freqüente da Santíssima Humanidade do Senhor, a que se chega através da Virgem – passando necessariamente pela Cruz –, e que acaba na Santíssima Trindade. “O coração necessita então de distinguir e adorar cada uma das Pessoas divinas. De certa maneira, o que a alma realiza na vida sobrenatural é uma descoberta semelhante às de uma criaturinha que vai abrindo os olhos à existência. E entretém-se amorosamente com o Pai e com o Filho e com o Espírito Santo; e submete-se facilmente à atividade do Paráclito vivificador, que se nos entrega sem o merecermos: os dons e as virtudes sobrenaturais!”13

Ao terminarmos a nossa oração, recorremos à Virgem Nossa Senhora, Àquela que teve a plenitude da fé e dos dons do Espírito Santo, e lhe pedimos que nos ensine a tratar e a amar sempre o Paráclito na nossa alma, especialmente neste Decenário, e que não fiquemos a meio do caminho que conduz à santidade a que fomos chamados.

(1) Ex 33, 13; (2) Sl 119, 34; (3) cfr. Jo 16, 13; (4) Conc. Vat. II, Const. Dei Verbum, 4; (5) Paulo VI, Exort. Apost. Evangelii nuntiandi, 8-XII-1975; (6) Conc. Vat. II, Const. Dei Verbum, 5; (7) A. Riaud, La acción del Espíritu Santo en las almas, Palabra, Madrid, 1985, pág. 72; (8) M. M. Philipon, Los dones del Espíritu Santo, Palabra, Madrid, 1983, pág. 194; (9) Santa Teresa, Vida, 27, 8-9; (10) cfr. Mt 5, 8; (11) 1 Cor 2, 14; (12) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 296; (13) ib., n. 306.

El papel de la Santísima Virgen María en el amor esponsal y paternal del sacerdote célibe

Monseñor John Cihak, S.T.D. (sacerdote de la arquidiócesis de Portland, Oregon, que trabaja en el Vaticano. Ayudó a comenzar los campamentos llamados Quo Vadis para preparatorias, en los que promueve el discernimiento sobre el sacerdocio en diversas diócesis de Estados Unidos. Ha trabajado como encargado de parroquia y en la formación del seminario).

http://ignatiusinsight.com/features2009/jcihak_maryandpriests1_july09.asp

Introducción

Escribí este artículo más de rodillas que sobre mi escritorio. Comenzó con apuntes de mi oración mental de este último año. Cuando finalmente me senté a unirlas y formar un todo coherente, tenía un montón de notas post-it y garabatos en las últimas páginas de mi Magnificat – una colección de mis propios pensamientos. Este artículo se titula, “El papel de la Virgen María en el amor esponsal y paternal del sacerdote célibe”. [2] En las páginas siguientes les hablaré de cómo la Virgen tiene un papel fundamental e imprescindible en el desarrollo de la masculinidad del sacerdote, sobre todo en su dimensión esponsal y paternal, y la manera de vivir la masculinidad en el amor célibe. [3] En otras palabras, quiero mostrar cómo la Virgen ayuda a que el sacerdote, siendo célibe, llegue a convertirse en esposo y padre, y así llegue a la plenitud como hombre.

Los desafíos recientes y su condición perenne

Ofrezco esta reflexión en el aquí y ahora de la Iglesia católica del siglo 21 en América, institucionalmente todavía aturdida, sospecho, sobre las revelaciones de la mala conducta clerical que nos han avergonzado, exponiéndonos a la burla y escarnio, y haciéndonos un llamamiento a la responsabilidad. Sin embargo, fácilmente se pasa por alto la dimensión del desafío reciente que hemos enfrentado con la salida del ministerio activo de los que son llamados “los sacerdotes JPII” (los sacerdotes de Juan Pablo II). Después de que pensamos que los años 60s, 70s y 80s habían terminado, hemos tenido una repetición desalentadora de desgaste de los sacerdotes del ministerio activo. He conocido a varios de ellos, que han intentado casarse, o han sufrido problemas de alcohol y drogas. Estos no son los sacerdotes disidentes. Estos “sacerdotes JPII” están comprometidos con la Iglesia y el sacerdocio y abrazan la fe ortodoxa y la disciplina de la Iglesia, como el celibato clerical.

¿Por qué sucede esto? Una respuesta obvia es que la ortodoxia intelectual, si bien es necesaria, no es suficiente para la perseverancia en el sacerdocio en estos tiempos. Otra respuesta obvia es poner mucha culpa a la cultura y al estado de la vida familiar. Muchos de estos hombres que han venido sin amarras en sus vocaciones han sufrido los efectos de la cultura del divorcio, el abuso, el materialismo y la libertad sexual. Una tercera respuesta es el ejemplo deplorable dado por sus propios padres a muchos hombres, que enseñan a través de su propio comportamiento que ser hombre significa la conquista sexual. Un hombre, desde este punto de vista, no tiene que asumir la responsabilidad de sus acciones, ni le rinde cuentas a nadie. Los jóvenes que vienen a prepararse para el sacerdocio llegan con muchas más fracturas que en generaciones anteriores en el campo de sus relaciones con los otros. Creo que estas respuestas son verdaderas, pero no lo suficientemente profundas.

Tal vez el ver de modo sutil la deserción del considerado “sacerdote JPII”, es un ejemplo reciente de la lucha perenne que lleva el sacerdote célibe en su afectividad y las relaciones con otros, en su corazón y muy especialmente en su amor esponsal y paternal. En pocas palabras, ¿cómo se supone que todos esos deseos naturales – incluidos los deseos eróticos – de ser un esposo y padre, funcionan en la promesa libre al celibato del sacerdote? La respuesta que algunos ex-sacerdotes en la década de 1970 ofrecieron fue que esos deseos no tenían cabida en el celibato y por lo tanto, la disciplina del celibato debería de cambiar. El argumento era que la disciplina del celibato impide que un hombre se desarrolle plenamente como hombre. Cuando se dieron cuenta de que la Iglesia no cambiaría su disciplina, se fueron. Pero esta respuesta es demasiado superficial para el profundo misterio del sacerdocio célibe. Sin embargo, este enfrentamiento se siente profundamente en el corazón de un hombre llamado al celibato en el sacerdocio. El desfase no aparece en la alineación del intelecto con la verdad sobre el celibato sacerdotal, sino en cómo esta verdad del celibato sacerdotal se encarna en el corazón del sacerdote y en sus relaciones como hombre.

El Papa Benedicto nos ha dado una respuesta tentativa inicial sobre cómo resolver este desafío en Deus caritas est, en su tratamiento de la relación entre eros y ágape y la transformación del eros desordenado en un eros que proporciona la vitalidad para el amor ágape. [4] En el caso del sacerdote célibe, es la transformación de su eros desordenado a un amor verdaderamente esponsal y paternal, que se expresa en su amor de ágape como célibe.

¿Puede suceder esto? Creo que todos diríamos que sí. Pero, ¿cómo sucede esto? No hay una respuesta automática, y hay muchos peligros potenciales. El hacer carrera, las relaciones ilícitas, el alcoholismo, abuso de drogas, vacaciones exóticas, diversas colecciones, la pornografía y el encontrar refugio en la televisión y el Internet, son formas simplemente inadecuadas de lidiar con un misterio que se encuentra, yo diría, en el corazón mismo del sacerdocio y que vamos a explorar en un momento. Debido a nuestra naturaleza caída, hay necesidad de una sanación profunda del eros en el corazón de cada hombre. En mi opinión creo que apenas estamos viendo cómo solucionar este reto en nuestros programas de formación humana y espiritual, y literalmente, sólo estamos empezando a entrar en el corazón de la cuestión. Yo propongo que la Virgen tiene un papel indispensable en la transformación de la masculinidad del sacerdote, y la base de todo lo que se dice en este artículo radica en la importante labor de Juan Pablo II en su Teología del Cuerpo y deBenedicto XVI en Deus caritas est .

Los Cuatro Grandes Dimensiones de la masculinidad sacerdotal y el complemento femenino

Ser hombre implica un conjunto de cuatro relaciones básicas, que comprenden las cuatro dimensiones básicas de su masculinidad. A través de estas cuatro relaciones básicas el hombre se desarrolla, madura y logra su realización como hombre. Cada dimensión es importante para llegar a desarrollar un hombre íntegro y así poder llegar a ser un sacerdote santo y eficaz. Como enseñó el Papa Juan Pablo II, la personalidad humana del sacerdote está en el corazón de un sacerdocio fecundo, es el puente humano entre los demás con Jesucristo. [5]

Estas cuatro dimensiones relacionales de la masculinidad son hijo, hermano, esposo y padre. Las dos primeras dimensiones (hijo y hermano) son preparativos necesarios para la virilidad y las últimas dos (marido y padre) lograr el cumplimiento de la misma. En otras palabras, el hombre tiene que ser un buen hijo, un buen hermano, después, un buen marido y un buen padre para convertirse en un hombre de bien y alcanzar su plenitud como hombre. Las cuatro dimensiones juntas, sin dejar ninguna detrás, son necesarias para alcanzar al hombre perfecto.  Para ser un buen padre, primero el hombre tiene que ser un buen hijo, si es posible, con su padre terrenal, y  seguramente con su Padre celestial, con quien debe vivir en una relación de filiación divina. Cada relación, sin embargo, trae su propia peculiaridad y enfoque. Sabemos también que en este mundo roto, no todos los hombres tienen relaciones sanas con sus padres y hermanos. Sin embargo, se puede hablar de estas dimensiones, aunque no siempre funcionen bien en esta vida. Habría mucho que decir acerca de cada dimensión, pero para el cometido de nuestro análisis nos centraremos en las dos dimensiones que vive el sacerdote célibe, mencionadas al final.

De acuerdo con la antropología teológica revelada en la Sagrada Escritura (Gen.. 1-3, Mt. 19:3-12, Ef. 5:21-33), especialmente como la interpreta y desarrolla Juan Pablo II, en el hombre, la relación con la mujer es un elemento esencial e indispensable. Ellos son iguales en dignidad, ambos hechos a imagen y semejanza de Dios, y complementarios en la misión. Siendo hechos a imagen de Dios, ambos fueron hechos para el amor de donación. Sólo Dios satisface al hombre, sin embargo, el Señor ha querido que esta satisfacción o realización suceda a través de la relación del hombre con la mujer. [6] Es decir, el hombre no puede alcanzar la perfección como hombre, sin la ayuda de la mujer y viceversa. La soledad de Adán (Gen 2:20) le enseñó que no podía alcanzar la plenitud por sí mismo, también podríamos decir que no puede hacerlo en relación sólo con otros hombres. De la misma manera la mujer no puede alcanzar su realización sola o sólo con otras mujeres, sino sólo a través de la relación complementaria con el hombre.

Un corolario de esta verdad de la complementariedad hombre-mujer es que debemos rechazar falsas antropologías frecuentemente  implícitas en las ciencias psicológicas (y que a veces salen a la superficie en nuestros programas de formación humana), sobre todo la idea de Freud de que toda persona humana es bi-sexual,  hermafrodita, conteniendo a la vez lo femenino y lo masculino dentro de sí mismo. Esta idea, que Freud nunca corrobora pero considera parte de su “metapsicología” (un supuesto mítico), se perpetúa hoy en día por los movimientos homosexuales y transexuales en este país. La revelación bíblica e incluso el ADN dicen lo contrario. Un hombre es el hombre a partir de ser imagen de Dios, hasta llegar a sus mismos cromosomas, una mujer es mujer a partir de ser imagen de Dios hasta llegar a sus propios cromosomas. La verdad es que los seres humanos fueron hechos para la relación, hechos para salir de sí mismos y desarrollarse como un hombre o una mujer, a través de la complementariedad que se encuentra fuera de sí mismos. El hombre y la mujer fueron hechos uno para el otro para que cada uno ayude al otro a alcanzar su plenitud en su naturaleza. Por lo tanto el ideal de cualquier sanación psicológica no es tratar de recuperar algo de la existencia primordial monádica, o hermafrodita, sino lanzarse a uno mismo hacia adelante, fuera de uno mismo en el amor, y esto sólo puede suceder en las relaciones – las del hombre y la mujer con Dios, y las del hombre y la mujer uno con el otro.

A través de esta relación esencial y complementaria con la mujer, un hombre en el orden natural puede crecer en sus cuatro dimensiones como hijo, hermano, esposo y padre con el fin de alcanzar la plena madurez. Un hijo tiene una madre, un hermano con suerte tiene hermanos, un marido tiene una esposa y juntos se convierten en padre y madre. En el orden de la naturaleza, podemos comenzar a ver la importancia de la mujer en el desarrollo del sacerdote como un hombre: su madre y sus hermanas ayudan a llevarlo a la madurez como un buen hijo y hermano. La relación de un hombre con su madre comienza en el útero donde, como hijo comienza a estar en sintonía con su madre, su corazón, sus procesos corporales, sus movimientos, sus emociones, podríamos decir incluso su alma. En la infancia, es de esperar, en algún momento que la sonrisa de la madre despierte su autoconciencia. Su sonrisa, entretejida de su amor femenino, le da la conciencia de que es una persona única. La belleza, la bondad y la verdad manifestada en la sonrisa de la madre despierta en el niño una conciencia de la belleza, la bondad y la verdad del mundo, y por analogía, de Dios. [7]

Psiquiatría y neurobiología describen esto como un proceso de “apego seguro (sano)”, una sintonización sutil entre la madre y el niño, que es esencial para el desarrollo normal del cerebro, el desarrollo psicológico, así como el desarrollo espiritual, sobre todo en los primeros cinco años de vida que son cruciales. Esta relación continúa en la infancia donde el niño sigue aprendiendo cómo ser un hijo y, finalmente, un hermano. En todo esto, el desarrollo del rol de la madre (y hermanas ‘) no es el de ser un objeto para ser utilizado, ni el de ser sobreprotectora o cultivar un afecto “femenino” en su hijo. Todo esto sería un colapso de la complementariedad masculino-femenina. El hijo o hermano sano no se identifica con la madre o hermana de tal forma que imita su feminidad (por ejemplo, cuando él mismo imita características afeminadas), sino que se refiere a ella como un verdadero “otro” con el que, en su masculinidad, puede relacionarse a través de un proceso de complementariedad, de amor de donación.

La relación del hombre con su madre es una relación primordial a partir de la cual crece en todas sus demás relaciones con mujeres. Por supuesto, si tiene a su padre y a sus hermanos, ellos tienen un papel esencial, sobre todo en la forma en que su padre trata a su madre. En su padre, un hombre encuentra la respuesta masculina primaria de complementariedad femenina; esperando que el padre lo confirme: acariciando a su esposa, amándola, y entregándose a ella. Una madre también prepara a su hijo para su esposa.

En el matrimonio, la esposa de un hombre lo cambia. Él practica entregarse con amor a ella. Se deja determinar por ella. Él debe sintonizarse con ella, y ella atrae su corazón y ayuda a desarrollar su eros en amor ágape. Como hombre, él desea protegerla, proveer para ella, darle hijos, hacer cosas maravillosas para ella, cuidarla y derramar su afecto en ella. Por supuesto, esto describe algo ideal, y no pasa en el matrimonio automáticamente. Pero el lector puede ver lo que quiero decir.

El papel de la Santísima Virgen María para que el sacerdote célibe se realice como Esposo y Padre.

En la vida de gracia, comprendemos inmediatamente el papel de Nuestra Señora para ayudar al hombre a que sea un buen hijo. Siendo el arquetipo de la Iglesia Madre, ella lo da a luz y lo nutre a través de la gracia. Ella juega un papel femenino esencial en guiarlo a relacionarse con el Padre, con su Hijo Encarnado y con el Espíritu Santo. Ella enseña a sus hijos acerca de la esperanza, la entrega, y la aceptación de la propia debilidad y pobreza sin odiarse a sí mismos. Ella cultiva en sus hijos el espíritu de ser como niños. ¿Pero qué hay de las últimas dos dimensiones del sacerdote célibe? En el orden natural, la esposa del hombre es quien lo ayuda a convertirse en esposo y en padre. Yo sugiero que en el orden de la gracia, la Santísima Virgen María es quien asume este papel de un modo muy sutil pero real.

Cuando se trata de desarrollar la dimensión esponsal y paternal de su masculinidad, no podemos dejar de ver al Freudiano en la audiencia que alzará su mano objetando la idea de que la Santísima Virgen María ayuda a lograr la realización del sacerdote célibe como esposo y como padre, diciendo que está simplemente llena del complejo de Edipo. Creo que nuestra respuesta a esta objeción comienza con la distinción entre la Santísima Virgen María y la Iglesia; ella es una clase de Iglesia, de hecho, es el arquetipo de la Iglesia. María no es la esposa de la Iglesia, como el sacerdote célibe lo es. Nuestra Señora es la esposa del Espíritu Santo, no su Hijo Encarnado. No hay nada relacionado con Edipo que esté ocurriendo aquí si entendemos las relaciones correctamente, y las entendemos en términos simbólicos y espirituales y no de un modo crudo, literal. Por otra parte, no podemos olvidar que la forma concreta del amor esponsal del sacerdote es el amor célibe.

Con esta distinción, permítanme ser un poco provocativo. Nuestra Señora misma, de un modo muy concreto, lleva al sacerdote célibe a su matrimonio espiritual con la Iglesia y a su paternidad espiritual, participando en la relación esponsal de Cristo con la Iglesia. Ella lo compromete profundamente con su corazón masculino, aún en su eros, a través de su amor femenino para lograr esta transformación en su sacerdote de un eros desordenado a un eros ordenado y a un ágape célibe.

El Misterio Central: La Cruz

Este compromiso complementario del amor femenino de la Santísima Virgen María con el amor masculino del sacerdote sucede dentro del misterio central del sacerdocio: la Cruz, y específicamente en la escena de Nuestra Señora y San Juan al pie de la Cruz. Imagina la escena: ahí está Nuestro Señor clavado en la Cruz, ensangrentado y roto en Su pasión. Al pie de la Cruz, encontramos a Nuestra Señora y al único sacerdote que permaneció con Nuestro Señor eis telos (Jn. 13:1), San Juan. La Santísima Virgen María está en agonía total; tanto ella como Su sacerdote, están siendo arrastrados interiormente a Su crucifixión.

Hay tanto silencio en torno a este misterio. Básicamente sólo se nos dan los datos geográficos de la escena. Jesús es quien pone todo en movimiento con su mirada: “Cuando Jesús vio a su madre, y al discípulo a quien Él amaba que estaba allí cerca, él dijo…” (Jn. 19:26). Comienza con la mirada de Nuestro Señor viendo a Su Madre y a Su sacerdote. Ninguna de las palabras del Señor en los Evangelios son superfluas, especialmente las pronunciadas desde la Cruz. Por tanto, estas palabras desde la Cruz son unas de las palabras más importantes pronunciadas a Nuestra Señora y a uno de Sus primeros sacerdotes.

Ella escucha, “Mujer, he ahí a tu hijo” (Jn. 19:26). Él la llama “Mujer”, no “Mamá”. Siente el distanciamiento. Estas palabras debieron de haber sido especialmente dolorosas para ella. Como madre, todo lo que quiere es estar cerca de Él e incluso morir con él de modo que pueda estar cerca de Él. “Mujer” la aísla de Él. El la rechaza, no por crueldad, sino para que pueda convertirse en la Nueva Eva, la madre de todos los que vivirán eternamente. Su agonía son los dolores de parto para dar a luz a la Iglesia. Aquí la distinción entre Nuestra Señora y la Iglesia, de la cual nunca debería de haber separación, es tal vez un poco más pronunciada. Aquí ella está dando a luz a la Iglesia, actuando como la Madre de la Iglesia, a través de su agonía interior.

San Juan está a su lado. No es coincidencia que un sacerdote de la nueva alianza se sitúe en la Cruz con Jesus. San Juan también está experimentando su propia crucifixión interior, siendo conformado como sacerdote en la Cruz del eterno y sumo Sacerdote. Tal vez podemos percibir la impotencia de San Juan. No hay peor sentimiento para un hombre que el de la impotencia. ¿Qué palabras podía pronunciar viéndola en tal agonía? La espada que atraviesa el Corazón Inmaculado atraviesa su corazón sacerdotal también. Esto no es un precio heroico a la victoria. Es obscuridad, desamparo, una noche obscura; es toda la incongruencia desordenada de la colisión entre amor y pecado. Se siente como y es la muerte.

“Entonces Jesús le dice a su discípulo, ¡He aquí a tu madre!” (Jn. 19:27). En este momento, Jesús le pide al Apóstol en lo más profundo de su dolor sintonizar con ella. Como sacerdote debe decidir ponerla primero, sintonizarse con su corazón. Él debe poner su sufrimiento antes que el propio. Me imagino a San Juan, volteando a ver a Nuestra Señora, y mirándola con gran ternura y reverencia. Jesús manda Su orden a lo profundo del corazón de su sacerdote , “Mírala… recíbela… cuídala.” Como hombre debe sentirse inútil e inadecuado, pero en este momento le ha sido dada una tarea masculina. A San Juan le es ordenado que cuide de ella, para consolarla, sostenerla, protegerla porque está muy sola y vulnerable en ese momento. Tal orden resonará profundamente en el corazón de este hombre: él debe mirar más allá de su propio dolor y adaptarse a ella, y dejar que surja dentro de él lo mejor de ser hombre en un gran acto de célibe ágape. Su opción de estar atento a su dolor lo lleva a entrar en el umbral de su amor esponsal y paternidad como un célibe, como la Iglesia está a punto de nacer.

Me gusta meditar en esa escena, contemplando cómo los ojos de Nuestra Señora y de San Juan se encuentran en su agonía mutua. Ninguno de los dos parece tener ya más a Jesús. En ese momento, ella necesita a San Juan; ella también le permite ayudarla. Ella está tan sola en ese momento. Ella que es la “sin-pecado” permite a su gran pobreza de espíritu necesitar a este hombre y sacerdote que está parado junto a ella. Su complementariedad femenina saca lo mejor del corazón masculino de San Juan. La necesidad de este apoyo y protección la debe de haber conectado a algo profundo dentro de él como hombre. ¿Cómo la ayuda él? San Juan dice que entonces se la llevó “a su propia” (en Griego, eis ta idia). ¿Qué significa esto? “Su casa”, como se lee en muchas traducciones? ¿“Sus cosas”? ¿Qué hay de “todo lo que él es”? Tal vez indica que él se la lleva a vida como sacerdote.

Ella lo está apoyando también a él. Él está dependiendo de ella en ese momento porque él también está muy solo. Me pregunto si se sintió abandonado por los otros apóstoles. Ella guía el camino sacrificándose, porque su corazón femenino es más receptivo y está más en sintonía con el de Jesús. Ella no sólo está presente sino que conduce al camino para él, ayudando al sacerdote a tener también su propio corazón traspasado. Hay mucho que reflexionar aquí cuando ella atrae su amor masculino. Él se entrega a ella, para apreciarla y consolarla. En este momento ella lo necesita y lo necesita fuerte, aunque ella sea la que en realidad lo sostiene a él.

El papel de la Santísima Virgen María es el de sacar del corazón del sacerdote este amor ágape para ayudarlo a convertirse en un esposo para la Iglesia y un padre espiritual – un padre fuerte, aún en su debilidad. Ella hace esto en la Cruz, sacando al sacerdote de su propio dolor para ofrecer un amor puro masculino, en medio de su (de ella) propio amor puro y femenino. Esta escena se convierte en un icono de la relación entre el sacerdote y la Iglesia. El sacerdote se entrega a la Iglesia en su sufrimiento y necesidad – para que su vida sea moldeada por ella. Al pie de la cruz la Iglesia agoniza en dolores de parto para dar a luz a los miembros del cuerpo místico. Me llama la atención el siguiente versículo en este pasaje del evangelio de San Juan: “Después de esto, sabiendo Jesús que ya todo estaba consumado, dijo… “Tengo Sed”(Jn.19:28). Fue después de este intercambio de amor al pie de la Cruz que “todo estuvo acabado”.

San Carlos Borromeo solía dar conferencias a sus sacerdotes cuando era Arzobispo de Milán. En las líneas introductorias de la conferencia que dirigió a su sínodo diocesano el 20 de abril, 1584, él señala la conexión entre, y la mujer del fin del mundo en el Apocalipsis y Raquel en el Génesis, y la Iglesia:

Ella estaba embarazada y gritaba con dolores de quien da a luz, en un angustioso parto”. (Rev12:2)… ¡O qué dolor, O qué lamento de la Santa Iglesia! Ella grita con oraciones en la presencia de Dios, y en tu presencia a través de mi boca, pronuncia palabras divinas para ti. Me parece estar oyéndola decir a su prometido,  Nuestro Señor Jesucristo, lo que Raquel antes había dicho a su esposo Jacob: “Dame hijos o me moriré” (Gen30:1).Estoy realmente deseosa del que va a nacer. Más aún, me da miedo esta esterilidad: entonces a menos que ustedes [¡sacerdotes!] vengan a Cristo y me den muchos hijos, estoy precisamente en este momento a punto de morir. [8]

La implicación de las palabras de San Carlos es que la Santa Madre Iglesia reclama hijos a su Esposo Divino, y al sacerdote, quien participa en la relación esponsal de Cristo. Es en la cruz donde el sacerdote en el aguijón de su celibato se convierte en un esposo para la Iglesia y en un padre espiritual. Para el sacerdote célibe, la Cruz en el lecho nupcial, del mismo modo que lo fue para Nuestro Señor.

Es a través del intercambio de amor entre Nuestra Señora y San Juan al pie de la Cruz cuando el mismo eros caído del sacerdote comienza a curarse y transformarse en la imagen del amor célibe del sacerdote que Jesús revela en la cruz. Nosotros los sacerdotes nos metemos en problemas cuando huimos de este misterio o nos negamos a entrar en él. El único amor fecundo es el amor que brota de la cruz. Por esta razón el amor sacerdotal y esponsal del sacerdote célibe debe ser mayor – no menor –  y  tiene el potencial de convertirse en sobreabundante porque es muy sacrificado. Sin ánimo de ofender a mis hermanos de las Iglesias Orientales que están casados, pero creo que ellos estarán de acuerdo en que hay una primacía escatológica y hasta ontológica del celibato en el sacerdocio. Esto no es afirmar que tengan una primacía moral, ya que prometer celibato no es garantía de que un sacerdote célibe lo vivirá bien o en plenitud. Sólo en la medida en que el sacerdote célibe se permita adentrarse en el misterio del Calvario con la Santísima Virgen María  podrá alcanzar la llamada sublime al amor célibe y esponsal, y a la paternidad espiritual.

Cuando estaba recién ordenado y oía a otros sacerdotes quejarse acerca de la soledad en el sacerdocio, debo confesar que yo pensé que se debía a la falta de buenas relaciones o de una buena vida de oración. Y por supuesto, para algunos esto era cierto. A veces estamos solos porque no tenemos amistades buenas y profundas con los demás, especialmente con otros sacerdotes, o simplemente porque no oramos. De cualquier forma, después de 10 años  como sacerdote he llegado a una conclusión más realista. Hay una soledad esencial que se siente en el sacerdocio porque hay una soledad esencial en la Cruz, la Cruz que permanece en el centro mismo del sacerdocio. Nosotros los sacerdotes sentimos especialmente el aguijón del celibato, y es comprensible que luchemos por llegar a un término con él. Sabemos  de la terrible soledad que nos golpea, la frialdad al regresar a la rectoría – ciertamente exhausto y cansado de la gente – pero solo porque parece que no hay nadie con quien compartir o que comprenda nuestros corazones. Un pensamiento pío sería rezar, pero la oración en esos momentos bien puede parecer seca y desagradable.

Esto no está dando paso al amor propio. Es simplemente ser hombre. Hay algo en lo profundo de nosotros que anhela el consuelo y entendimiento de una mujer, y el anhelo de consolar y comprender a una mujer única y de generar una vida con ella. Unos tratan de adormecer este anhelo tratando de hacer carrera dentro de la Iglesia, a través de la comida, la droga,  el alcohol, relaciones ilícitas, pornografía; probablemente las formas más comunes de anestesiarse son a través de la televisión o el internet. Tampoco esto es para sugerir que “la vida es dura, así que supéralo”. Más bien, es una invitación al sacerdote célibe a entrar de modo más profundo precisamente dentro del misterio de cuidar a la Iglesia al pie de la Cruz y llegar a unirse a ella. El sacerdote debe luchar por aceptar ser co-crucificado con Jesús y adentrarse en la compasión de Nuestra Señora. Ella por su parte viene a auxiliar al sacerdote sacando su masculinidad como esposo y como padre para ayudar a que esta unión con la Iglesia se dé – no en una unión sexual sino a través de la crucifixión, muriendo por ella. El sacerdote, en su soledad, llega a sintonizarse con la soledad de la Iglesia en este mundo.

Nuestra línea de pensamiento nos lleva a considerar el gozo de la Cruz. La transformación del sacerdote a través de consolar a la Madre de Dios en la Cruz, no sólo le lleva a su amor esponsal y paternal, sino también transforma toda su noción de alegría. Desde su revalorización por la Cruz, la alegría cristiana es más una condición espiritual que un estado emocional pasajero. La alegría no se encuentra en la falta de sufrimiento ni en el otro lado del sufrimiento sino en un amor que es entrega. De este modo, la alegría puede brotar clara y directamente del sufrimiento. Esta es una alegría como fruto del Espíritu Santo y por lo tanto algo indestructible, algo que el mundo no puede dar.

Ayudando al seminarista o sacerdote a abrazar el Misterio

¿Cómo ayudamos a nuestros seminaristas y sacerdotes a entrar en este profundo misterio del desarrollo de su masculinidad como sacerdotes célibes?

Creo que necesitamos continuar desligando nuestros programas formativos humanos y espirituales de la estrechez de una perspectiva demasiado psicológica. Las ciencias psicológicas son importantes y necesarias, pero la formación humana y espiritual es más amplia de lo que la  psicología puede medir. Debemos tener en mente que los enfoques psicológicos, cuando se apartan de la fisiología del cuerpo humano, pasan a ámbitos filosóficos y teológicos. Como observa el Dr. Paul Vitz, cada teoría psicológica, sea o no reconocida, es una filosofía de vida aplicada. [9] La formación humana debe ser fundada en una antropología filosófica y teológica sana.

Aún no he encontrado una antropología más sólida que la de Santo Tomás, especialmente como lo interpreta Juan Pablo II. Añadiría pensamientos de escolásticos que siguen una línea de pensamiento agustiniano, como el Papa Benedicto XVI y Hans Urs von Balthasar. Creo que en un programa de formación humana para sacerdotes debe sacarse de lo mejor entre nuestra teología espiritual, especialmente la teología ascética de San Juan Climaco, Don Lorenzo Scupoli y San Francisco de Sales. [10] Estos tesoros de la tradición hacen buena resonancia con las excelentes investigaciones que han brotado en las áreas de neurobiología, biología social y el desarrollo del cerebro. [11] Tal vez las cuatro dimensiones de la masculinidad relacional puedan darnos un marco inicial.

Es desde esta perspectiva más amplia, donde entra en juego el importante trabajo de las ciencias psicológicas. Como formadores buscamos ayudar a hombres a convertirse en mejores hijos, hermanos, esposos y padres. A veces se despierta la necesidad de una intervención terapéutica para sanar una relación herida con el padre y la madre y para desarrollar apegos seguros para que la persona sea capaz de un amor ágape. Dichas intervenciones deben hacerse por terapistas que aprecian y entienden la antropología filosófica y teológica en totalidad, y que capta la misión y vocación del sacerdote, que es única.

También es importante integrar en nuestros programas formativos, insisto, una afectividad masculina tanto en los formadores como en los seminaristas. Creo que cualquiera que ha crecido en una familia semi-normal tiene alguna idea de lo que es el afecto masculino. No importa cómo haya sido la vida de familia de alguien, se puede entrever mucho material bueno de los santos hombres de las Escrituras, incluyendo a David, Jeremías, Ezequiel, San Juan Bautista, San José, San Pedro, San Juan, San Pablo, y los santos en general, especialmente de los sacerdotes santos. Creo que hay mucho de las vidas de San Francisco de Sales y San Juan María Vianey que pueden dar ejemplo a los seminaristas y sacerdotes de una masculinidad sacerdotal y de cómo se lleva a cabo concretamente en una vida diocesana.

No es políticamente correcto, incluso en algunos círculos eclesiales, seguir la mente de la Iglesia en cuanto a la atracción al mismo sexo como lo habla la Congregación para la Educación en 2005. [12]  La dificultad sale precisamente cuando comenzamos a hablar sobre el amor esponsal y paternal del sacerdote. Todos parecen estar de acuerdo con el concepto del sacerdote como hijo o hermano, pero al hablar del sacerdote como esposo y padre, habrá resistencia en algunos círculos. Sin embargo, en Pastores Dabo Vobis se habla repetidas veces de la afectividad masculina en conjunto con la “caridad pastoral”. El amor que un seminarista o sacerdote muestra a Nuestra Señora al pie de la cruz es exactamente eso, caridad, la forma más grande de amor, pero debe ser una encarnación masculina de ello. La caridad pastoral es donde el eros desordenado de un hombre se ordena en un ágape célibe al cuidar de la Iglesia y de un alma en concreto.

Los seminaristas y sacerdotes deben ser ayudados a orar desde el corazón. Una sugerencia inicial es motivarles a rezar el rosario usando la aplicación ignaciana de los sentidos que ayuda a comprometer el corazón de quien reza. La Hermana Mary Timothea Ellior, RSM ofrece una idea sobre cómo rezar como María: guardando la palabra de Dios tenazmente, ponderarla con otras palabras, aplicarla a las situaciones de la vida, y madurar en la palabra. [13] Un buen modo de orar con el corazón se enseña en el Instituto para la Formación Sacerdotal por medio de una frase célebre, “Reza como pirata” [14] Un pirata dice “Arrr!”, lo cual forma un acrónimo de “reconocer, relacionar, recibir, responder”. Reconocer significa ser real y honesto en la oración. Relacionar significa estar en relación de lucha con lo que esté ahí, comprometerse con el Señor, estar presente para Él. Recibir significa dejarle a Él la libertad para hacer lo que desee. Responder quiere decir que, habiendo recibido de Él, uno tiene la habilidad para responderle desde el amor. Rezar de este modo ayuda a cultivar la honestidad en la oración y ayuda a uno mismo a practicar el don de sí en sinceridad.

Parte de rezar desde el corazón es rezar con la Virgen María, no como una idea, sino como mujer. Como hombres y sacerdotes necesitamos desarrollar una relación afectiva con ella y dejarla ayudarnos a sintonizar con su corazón. Al leer a San Luis María de Montfort, creo que en realidad, esto es lo que él estaba buscando alcanzar. Su espiritualidad no es simplemente un sentimentalismo emotivo, sino aprender a modelar el propio corazón con el de María. Su espiritualidad es una espiritualidad de sintonización. Este importante trabajo espiritual sobre aprender a amar con el corazón y de darse realmente a sí mismo en la oración ayudará a construir un hábito de darse a uno mismo en el ofrecimiento en la Santa Misa, de entrar al fuego del calvario con los brazos abiertos.

Como formadores humanos y espirituales, debemos buscar entrar profundamente en este misterio nosotros mismos, y después, con amor, lanzar a estos maravillosos y futuros sacerdotes en el misterio, para ayudarles a lucharlo y asimilarlo, para dejar que el fuego del calvario penetre en las profundidades de sus corazones y, finalmente, encarnar este misterio. Así, un sacerdote puede entonces entrar en la realidad esponsal y paternal con todo el eros de su corazón masculino y elevarlo a un ágape célibe.

El misterio transformado: La Santa Misa en Éfeso

No puedo abandonar la escena al pie de la cruz que revela el rol de la Virgen en el amor esponsal y paternal del sacerdote célibe, sin describir otra escena. Esta escena llegó a mí uno de esos días en los cuales no me emocionaba ser sacerdote y rezaba reticentemente. Comenzó con la escena de la cruz, pero la escena se trasladó, en cierto punto, a un evento más tardío. Fue en Éfeso, y San Juan estaba preparándose para ofrecer la Misa. María estaba ahí con él. Tengan paciencia conmigo si algún anacronismo se mete en la meditación. Ella le ayudaba a revestirse, primero el amito, alba, cíngulo, etc. Sus dedos aseguraban que todo se lo ponía bien. Puedo imaginar los ojos de los dos encontrándose. Nada se necesitaba decir, especialmente cuando ella levanta la estola para ponérsela a él. Ambos sabían de dónde venía el poder generativo simbolizado en la estola. Puedo ver la satisfacción en los ojos de la Virgen viéndolo como sacerdote, un hombre que era real y totalmente su hijo. La felicidad y el amor en sus ojos lo hace grande y confidente para ir a ofrecer este sacrificio en el que su amor esponsal y paternal se confirma una vez más y se hace fructífero. Creo que éstas pueden ser escenas fecundas para cualquier sacerdote, para que pueda reflexionarlo cada vez que va y ofrece la Misa; la presencia femenina de la Virgen al pie de la cruz y antes de Misa en Éfeso.

Conclusión

Mi intención no es ofrecer una investigación deductiva y una prueba que responda al reto contemporáneo y la condición perene del amor esponsal y paternal del sacerdote célibe. Lo que sí ofrezco es una convicción que sale del interior de que la respuesta a la condición perenne de la masculinidad del sacerdote célibe se basa en  la profundidad de este misterio – el abrazo puro del apóstol a la Madre de Dios en el calvario.

Esto no es una piedad mariana cubierta de azúcar. Es una piedad mariana tan real que sacará astillas, hará derramar lágrimas e incluso lanzará una lanza justo al corazón del sacerdote. Es una piedad mariana para verdaderos hombres.

Sugiero que este misterio se quede en el centro de la vida de cada sacerdote, sea capaz de reconocerlo como tal o no. Algunos sacerdotes se van, hacen mal uso de su sexualidad, o se refugian en otras cosas porque no pueden entregarse a, o abrazar este misterio. Es el misterio de su masculinidad y la cruz. La Virgen María está ahí para recordárselos y ayudarles a llevarlo a un nuevo nivel de realización como esposo y padre.

El único modo en que el sacerdote puede superar la cruz es acogiendo a la Virgen en su sufrimiento. A través de su amor femenino el sacerdote célibe puede convertirse en esposo para la Iglesia y padre espiritual para todos. Y de lo profundo de su masculinidad el sacerdote puede decir “ya no soy yo quien vive, sino que es Cristo quien vive en mí” (Gal 2:20)

Este ensayo fue publicado originalmente en Sacrum Ministerium 15:1 (2009):149-164, y ha sido publicado en ignatiusinsight.com con permiso de su autor.

En Amor Seguro consideramos muy importante su difusión en español, es por eso que lo hemos traducido para que llegue al mayor número de sacerdotes.

Notas finales:

[1] This article originated as a presentation at the Marian Symposium for the Bicentennial Celebration of Mount Saint Mary Seminary, Emmitsburg, Maryland (USA), 9 October 2008. I am grateful to Dr. Aaron Kheriaty, MD, Deacon Theodore Lange, and Fr. Jerome Young, OSB, for their helpful comments on earlier drafts.

[2] I began an exploration of this topic of the spousal and paternal dimensions of priestly identity in an earlier article, cf. Cihak, John. “The Priest as Man, Husband and Father,” Sacrum Ministerium 12:2 (2006): 75-85.

[3] Attention is focused on the area of human and spiritual formation since they figure most prominently in Pastores dabo vobis (John Paul II, Post Synodal Apostolic Exhortation Pastores dabo vobis, 25 March 1992, nn. 43-50), and where the greatest need in seminary formation still exists.

[4] Benedict XVI, Encyclical Letter Deus caritas est, 25 December 2005, especially nn. 3-18.

[5] Perhaps the most well known passage from Pastores dabo vobis, n. 43.

[6] Cf. Catechism of the Catholic Church, nn. 371-372.

[7] These are insights especially developed by Hans Urs von Balthasar in his theological anthropology, for example in his Wenn ihr nicht werdet wie dieses Kind(repr. 2, Einsiedeln-Freiburg: Johannes Verlag, 1998);Unless you become like this Child, trans. Erasmo Leiva-Merikakis (San Francisco: Ignatius Press, 1991); and his essay “Bewegung zu Gott,” Spiritus Creator: Skizzen zur Theologie, vol. III (Einsiedeln: Johannes Verlag, 1967); “Movement Toward God,” Explorations in Theology, vol. III: Creator Spirit, trans. Brian McNeil, CRV (San Francisco: Ignatius Press, 1993), 15-55.

[8] Acta Ecclesiae Mediolanensis, Pars II, 20 April 1584, 347. [Trans. Gerard O’Connor]

[9] Cf. Vitz, Paul, “Psychology in Recovery,” First Things 151 (2005), pp. 17-21.

[10] Cf. Climacus, St. John. The Ladder of Divine Ascent in The Classics of Western Spirituality (Mahwah: Paulist, 1982); de Sales, St. Francis. Introduction to the Devout Life, trans. John Ryan (New York: Doubleday, 1989); Scupoli, Lorenzo. The Spiritual Combat, trans. William Lester (Rockford: TAN, 1990).

[11] Cf. Ainsworth, Mary, Patterns of Attachment: A Psychological Study of the Strange Situation (Mahwah: Erlbaum, 1978); Bowlby, John. A Secure Base: Parent-Child Attachment and Healthy Human Development (New York: Basic Books, 1990); Greenspan, Stanley, Building Healthy Minds: The Six Experiences That Create Intelligence and Emotional Growth in Babies and Young Children (Cambridge: Da Capo Press, 2000); The Growth of the Mind: And the Endangered Origins of Intelligence (Cambridge: Da Capo Press, 1998); Siegel, Daniel, The Developing Mind: Toward a Neurobiology of Interpersonal Experience (New York: Guilford, 1999);Stern, Daniel, The Interpersonal World of the Infant: A View from Psychoanalysis and Developmental Psychology (New York: Basic Books, 2000).

[12] Cf. Congregation for Education. Instruction Concerning the Criteria for the Discernment of Vocations with regard to Persons with Homosexual Tendencies in view of their Admission to Seminary and Holy Orders, 2005.

[13] Elliott, Mary Timothea. “Mary – Pure Response to the Word of God,” presentation at the Marian Symposium for the Bicentennial Celebration of Mount Saint Mary Seminary, 8 October 2008.

[14] In my view, the Institute for Priestly Formation, under the direction of Fr. Richard Gabuzda and Fr. John Horn, SJ, is currently doing some of the best work in the United States on the spiritual and human development of seminarians and diocesan priests.

Texto completo da quarta pregação de Advento do Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap.

Roma, 04 de Abril de 2014 (Zenit.orgPe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap

1. Oriente e ocidente unânimes sobre Cristo

Existem vários caminhos, ou métodos, para aproximar-se à pessoa de Jesus. Pode-se, por exemplo, partir diretamente da Bíblia e, também neste caso, é possível seguir várias vias: a via tipológica, seguida na mais antiga catequese da Igreja, que explica Jesus à luz das profecias e das figuras do Antigo Testamento; a via histórica, que reconstrói o desenvolvimento da fé em Cristo a partir das várias tradições, autores e títulos cristológicos, ou dos diversos ambientes culturais do Novo Testamento. Pode-se, pelo contrário, partir das perguntas e dos problemas do homem de hoje, ou até mesmo da própria experiência de Cristo, e, de tudo isso, chegar à Bíblia. Todos esses são caminhos amplamente explorados.

A Tradição da Igreja elaborou, bem rápido, uma via de acesso ao mistério de Cristo, um modo seu de recolher e organizar os dados bíblicos relativos a ele, e esta via se chama o dogma cristológico, a via dogmática. Por dogma cristológico compreendo as verdades fundamentais sobre Cristo, definidos nos primeiros concílios ecumênicos, especialmente o de Calcedônia, que, em substância, se resumem nesses três pilares: Jesus Cristo é verdadeiro homem, é verdadeiro Deus, é uma só pessoa.

São Leão Magno é o Padre que eu escolhi para introduzir-nos nas profundidades deste mistério. Por um motivo bem específico. Na teologia latina estava pronta por dois séculos e meio a fórmula da fé em Cristo que se tornara o dogma de Calcedônia. Tertuliano tinha escrito: “Vemos duas naturezas, não confusas, mas unidas em uma pessoa, Jesus Cristo, Deus e homem[1]”. Depois de muita pesquisa, os autores gregos chegam, por conta própria, a uma formulação idêntica em substância; mas não porque eles tenham se atrasado ou perdido tempo, e sim porque só agora era possível dar àquela fórmula o seu verdadeiro significado, tendo eles evidenciado, enquanto isso, todas as implicações e resolvido as dificuldades.

O Papa São Leão Magno é aquele que gerenciou o momento em que as duas correntes do rio – aquela latina e aquela grega – se uniram e com a sua autoridade de bispo de Roma favoreceu o acolhimento universal. Ele não se contenta em simplesmente transmitir a fórmula herdada por Tertuliano e retomada por Agostinho, mas a adapta aos problemas que apareceram nesse ínterim, entre o concílio de Éfeso do 431 e aquele de Calcedônia do 451. Eis, em grandes linhas, o seu pensamento cristológico, como foi exposto no famoso Tomus ad Flavianum[2].

Primeiro ponto: a pessoa do Deus-homem é idêntica à do Verbo eterno: “Aquele que se fez homem, sob a forma de servo, é o mesmo que na forma de Deus criou o homem”. Segundo ponto: a natureza divina e a humana coexistem nesta única pessoa que é Cristo, sem mistura ou confusão, mas cada uma mantendo suas propriedades naturais (salva proprietate utriusque naturae). Ele começa a ser o que não era, sem cessar de ser o que era[3]. A obra da redenção exigia que “o único e mesmo mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, tivesse que ser capaz de morrer em relação à natureza humana e não morrer com respeito à natureza divina”. Terceiro ponto: A unidade da pessoa justifica o uso da comunicação dos idiomas, pela qual podemos afirmar que o Filho de Deus foi crucificado e enterrado, e também que o Filho do homem veio do céu.

Foi uma tentativa, em grande parte bem sucedida, de finalmente encontrar um acordo entre as duas grandes “escolas” de teologia grega, a de Alexandria e a de Antioquia, evitando os respectivos erros que eram o monofisismo e o nestorianismo. Os antioquenos tinham o reconhecimento, para eles vitais, das duas naturezas de Cristo, e portanto, da plena humanidade de Cristo; os alexandrinos, apesar de algumas reservas e resistências, podiam encontrar na formulação de Leão o reconhecimento da identidade da pessoa do Verbo encarnado e aquela do Verbo eterno, que estava nos seus corações por acima de tudo.

Basta recordar o cerne da definição de Calcedônia para dar-se conta do quanto esteja presente nela o pensamento do Papa Leão:

“Ensinamos por unanimidade que deve-se reconhecer o único e mesmo Filho Senhor nosso Jesus Cristo, perfeito na divindade e sempre o mesmo perfeito na humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem […], gerado antes dos séculos pelo Pai segundo a divindade e nos últimos tempos, por nós homens e para a nossa salvação, gerado por Maria Virgem segundo a humanidade; subsistente nas duas naturezas de modo inconfuso, imutável, indivisível, inseparável, não sendo de forma alguma suprimida a diferença das naturezas por causa da união, pelo contrário, permanecendo preservada a propriedade tanto de uma quanto da outra natureza, elas combinam para formar uma só pessoa e hipóstase[4]“.

Poderia parecer uma fórmula tecnicamente perfeita, mas árida e abstrata, porém, nela se baseia toda a doutrina cristã da salvação. Só se Cristo é homem como nós, o que ele faz, nos representa e nos pertence, e somente se ele também é Deus, aquilo que faz tem um valor infinito e universal, a tal ponto que, como se canta no Adoro te devote, “uma única gota de sangue derramado salva o mundo todo do pecado” (“Cuius una stilla salvum facere totum mundum qui ab omni scelere”)

Sobre este ponto, oriente e ocidente, são unânimes. Esta era a situação da humanidade antes de Cristo, escrevem, com poucas diferenças entre eles, santo Anselmo entre os latinos e o Cabasilas entre os ortodoxos. De um lado estava o homem que tinha contraído a dívida pecando e que tinha que lutar contra satanás para livrar-se, mas não podia fazê-lo, sendo a dívida infinita e sendo ele escravo daquele que deveria ter vencido; por outro lado está Deus que podia expiar o pecado e vencer o demônio, mas não deveria fazê-lo, não sendo ele o devedor. Era preciso que se encontrassem unidos na mesma pessoa aquele quedevia lutar e aquele que podia vencer, e é aquilo que aconteceu com Jesus, “verdadeiro Deus e verdadeiro homem, em uma pessoa[5]”.

2. Jesus da história e o Cristo do dogma novamente unidos

Estas tranquilas certezas sobre Cristo, nos últimos dois séculos, foram atingidas por um ciclone crítico que tendia a tirar-lhes toda a consistência e a qualificá-las como puras invenções dos teólogos. A partir de Strauss, tornou-se uma espécie de grito de guerra entre os estudiosos do Novo Testamento: libertar a figura de Cristo dos grilhões do dogma, para reencontrar o Jesus histórico, o único real. “A ilusão de que Jesus possa ter sido homem no sentido pleno e que como única pessoa seja superior à toda a humanidade é a cadeia que ainda fecha a porta da teologia cristã ao mar aberto da ciência racional[6]”. E eis a conclusão à qual o estudioso chega: “A ideia do Cristo do dogma por um lado e o Jesus de Nazaré da história por outro estão separados para sempre”.

Declara-se sem hesitação o pressuposto racionalista desta tese. O Cristo do dogma não satisfaz as exigências da ciência racional. O ataque continuou, com soluções alternativas, quase até os nossos dias. Tornou-se ele mesmo, a seu modo, um dogma: para conhecer o verdadeiro Jesus da história é preciso prescindir da fé nele posterior à Páscoa. Neste clima proliferaram reconstruções fantasiosas da figura de Jesus a benefício do espetáculo, algumas com pretensões de historicidade, mas que na verdade se baseavam em hipóteses de hipóteses, todas respondendo a gostos ou reivindicações do momento.

Mas agora, eu acho, chegamos ao fim da parábola. É hora de tomar nota da mudança que aconteceu neste setor, a fim de sair de uma certa atitude defensiva e de vergonha que tem caracterizado os estudiosos crentes nos últimos anos, e ainda mais para fazer chegar uma mensagem a todos aqueles que nestes anos divulgaram profusamente imagens de Jesus ditadas por aquele anti-dogma. E a mensagem é que não é possível mais escrever na boa-fé “Investigações sobre Jesus” que fingem ser “históricas”, mas prescindem, ou melhor, excluem desde o início, a fé nele.

Quem personaliza de modo mais claro a mudança em ato é um dos maiores estudiosos vivos do NT, o inglês James D.G. Dunn. Ele resumiu em um pequeno livro, intitulado “Mudar perspectivas sobre Jesus”, os resultados da sua monumental pesquisa sobre as origens do cristianismo[7]. O autor pôs a descoberto as raízes dos dois pressupostos em que se baseiam a contraposição entre Jesus histórico e o Cristo da fé: primeiro, que para conhecer o Jesus da história é necessário prescindir da fé pós-pascal; segundo, que para conhecer o que realmente disse e fez o Jesus histórico, é preciso libertar a tradição das camadas e das adições posteriores e voltar para a camada original, ou à primeira “redação”, de uma determinada perícope evangélica.

Contra o primeiro pressuposto, Dunn demonstra que a fé começou antes da Páscoa; se alguns o seguiram e se tornaram seus discípulos é porque tinham acreditado nele. Trata-se de uma fé ainda imperfeita, mas de fé. Nesta fé, o evento pascal marcará certamente um salto de qualidade, mas saltos de qualidade, embora menos importantes, já tinham acontecido antes da Páscoa, em momentos particulares, como a transfiguração, certos milagres sensacionais, o diálogo de Cesaréia de Filipe. A Páscoa não é um início absoluto.

Contra o outro assunto, Dunn demonstra como, embora admitindo que as tradições evangélicas circularam por um certo tempo de forma oral, os estudiosos aplicavam sempre a tal tradição o modelo literário, como se faz hoje quando se quer voltar, de edição em edição, ao texto original de uma obra. Se levarmos em conta as leis que regularizam – até no presente, em certas culturas -, a transmissão oral das tradições de uma comunidade, veremos que não há necessidade de enxugar um dito evangélico, em busca de um hipotético núcleo originário, uma operação que abriu as portas a todo tipo de manipulação dos textos evangélicos, acabando por repetir aquilo que acontece quando se descasca uma cebola em busca do seu núcleo sólido que não existe. Algumas destas conclusões são aquelas que os estudiosos católicos desde sempre sustentaram[8], mas Dunn tem o mérito de tê-las defendido com argumentos dificilmente refutáveis a partir da mesma pesquisa histórico-crítica e com as suas próprias armas.

O rabino americano J. Neusner, com o qual Bento XVI estabelece um diálogo em seu primeiro livro sobre Jesus de Nazaré, dá por suposto este resultado. Partindo de um ponto de vista autônomo e por assim dizer neutro, ele faz notar como é vã a tentativa de separar o Jesus histórico do Cristo da fé pós-pascal. O Jesus histórico, o dos Evangelhos, por exemplo do discurso da montanha, é já um Jesus que exige a fé na sua pessoa como alguém que pode corrigir Moisés, que é senhor do sábado, pelo qual também pode-se fazer uma exceção ao quarto mandamento; em suma como alguém que se coloca em pé de igualdade com Deus. É  próprio por isso, diz o rabino, que embora fascinado pela figura de Jesus, ele não poderá mais ser um dos seus discípulos.

O estudo sobre o NT termina aqui; chega a provar a continuidade entre o Jesus da história e o Cristo do querigma, não vai mais longe. Resta provar a continuidade entre o Cristo do querigma e o do dogma da Igreja. A fórmula de Leão Magno e de Calcedônia marca um desenvolvimento coerente da fé do Novo Testamento, ou representa, pelo contrário, uma ruptura com relação a ela? Este foi o meu principal interesse nos anos em que eu me ocupava de História das origens do cristianismo e a conclusão a que cheguei não difere daquela do Cardeal Newman, em seu famoso ensaio “Sobre o desenvolvimento da doutrina cristã[9]“. Houve certamente a mudança de uma cristologia funcional (o que Cristo “faz”) a uma cristologia ontológica (o que Cristo “é”), mas não se trata de uma ruptura porque o mesmo processo se dá já no interior do querigma, por exemplo, na passagem da cristologia de Paulo àquela de João, e em Paulo mesmo, na passagem das suas primeiras cartas àquelas da prisão, Filipenses e Colossenses.

3. Além da fórmula

Desta vez o próprio argumento exigia fixar-se um pouco mais na parte doutrinal do tema. A pessoa de Cristo é o fundamento de todo o cristianismo. “Se a trombeta emite um som incerto, quem se preparará para a batalha?”, dizia São Paulo (1 Cor 14, 8): se não tem ideia clara sobre quem é Jesus Cristo, que força terá a nossa evangelização? Nos resta, no entanto, fazer agora uma aplicação prática para a vida pessoal e a fé atual da Igreja, que é o objetivo constante da nossa revisão dos Padres.

Quatro séculos e meio de formidável trabalho teológico deram à Igreja a fórmula: “Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; Jesus Cristo é uma só pessoa”. Mais sinteticamente ainda: ele é “uma pessoa em duas naturezas”. A esta fórmula se aplica perfeitamente o dito de Kiekegaard: “A terminologia dogmática da Igreja primitiva é como um castelo encantado, onde descansam em um sono profundo os mais graciosos príncipes e princesas. Basta somente acordá-los, para que se coloquem de pé em toda a sua glória[10]”. A nossa tarefa é, portanto, a de despertar e de dar sempre nova vida aos dogmas.

A investigação sobre os Evangelhos – mesmo aquela que lembramos agora de Dunn – nos mostra que a história não nos pode levar ao “Jesus em si”, ao Cristo como é na realidade. O que alcançamos nos evangelhos é sempre, em todas as fases, um Jesus “lembrado”, mediado pela memória que dele conservaram os discípulos, embora se uma memória crente. É como a ressurreição. “Alguns dos nossos – dizem os dois discípulos de Emaús – foram ao túmulo e encontraram as coisas tais como as mulheres haviam dito; mas não o viram” (Lc 24, 24). A história pode constatar que as coisas, com relação a Jesus de Nazaré, estão como disseram os discípulos nos evangelhos, mas ele não o vê.

O mesmo acontece com o dogma. Ele pode levar-nos a um Jesus “definitivo”, “formulado”, mas Tomás de Aquino nos ensina que “a fé não termina com os enunciados (enuntiabile), mas na realidade (res). Entre a fórmula de Calcedônia e o Jesus real existe a mesma diferença que há entre a fórmula química H2O e a água que bebemos ou na qual nadamos. Ninguém pode dizer que a fórmula H2O é inútil ou que não descreve perfeitamente a realidade; somente não é a realidade! Quem nos poderá levar ao Jesus “real” que está além da história e por trás da definição?

E eis que nos deparamos com a grande notícia reconfortante. Existe a possibilidade de um conhecimento “imediato” de Cristo: é aquele que nos dá o Espírito Santo enviado por ele mesmo. Ele é a única “mediação não-mediata” entre nós e Jesus, no sentido que não age como um véu, não constitui um diafragma ou um trâmite, sendo ele o Espírito de Jesus, o seu “alter ego”, da sua mesma natureza. Santo Irineu chega a dizer que “o Espírito Santo é a nossa mesma comunhão com Cristo[11]”. E nisso, aquela do Espírito é diferente de qualquer outra mediação entre nós e o Ressuscitado, seja eclesial que sacramental.

Mas é a Escritura mesma que nos fala deste papel do Espírito Santo com o propósito do conhecimento do verdadeiro Jesus. A vinda do Espírito Santo em Pentecostes se traduz em uma repentina iluminação de todo o trabalho e a pessoa de Cristo. Pedro conclui o seu discurso com aquela espécie de definição “urbi et orbi” do senhorio de Cristo: “Saiba, portanto, com certeza toda a casa de Israel que Deus constituiu Senhor e Cristo aquele Jesus que vós crucificastes” (At 2, 36).

São Paulo afirma que Jesus Cristo é revelado “Filho de Deus com poder pelo Espírito de santidade” (Rm 1, 4), isto é, por obra do Espírito Santo. Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, a não ser por uma iluminação interior do Espírito Santo (cf. 1 Cor 12, 3). O Apóstolo atribui ao Espírito Santo “a compreensão do mistério de Cristo”, que foi dada a ele, como a todos os santos apóstolos e profetas (cf. Ef 3, 4-5). Só se forem “fortalecidos pelo Espírito”, – continua o Apóstolo – os crentes poderão “compreender a largura e o comprimento, a altura e a profundidade e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento” (Ef 3, 16-19).

No Evangelho de João, o próprio Jesus anuncia esta obra do Paráclito com relação a ele. Ele tomará do que é seu e o anunciará aos discípulos; recordar-lhes-á tudo o que ele disse; os conduzirá à toda verdade sobre a sua relação com o Pai; lhes dará testemunho. Exatamente isso será, de agora em diante, o critério para reconhecer se se trata do verdadeiro Espírito de Deus e não de um outro espírito: se leva a reconhecer Jesus vindo na carne (cf. 1 Jo 4, 2-3).

4. Jesus de Nazaré, uma “pessoa”

Com a ajuda do Espírito Santo, façamos então uma pequena tentativa de “acordar” o dogma. Do triângulo dogmático de Leão Magno e de Calcedônia – “verdadeiro Deus”, “verdadeiro homem”, “uma pessoa” – nos limitamos a tomar em consideração somente o último elemento: Cristo “uma pessoa”. As definições dogmáticas são “estruturas abertas”, capazes de acomodar novos significados, o que é possível graças ao progresso do pensamento humano. Na sua etapa mais antiga, pessoa (do latim personare, ressoar) indicava a máscara que o ator precisava para fazer ressoar a sua voz no teatro; disso passou a indicar rosto, portanto, indivíduo, até chegar ao seu significado mais elevado de “ser individual de natureza racional” (Boécio).

No uso moderno, o conceito se enriqueceu de um significado mais subjetivo e relacional, favorecido sem dúvida pelo uso trinitário de pessoa como “relação subsistente”. Indica, portanto, o ser humano em quanto capaz de relação, de estar como um eu diante de um tu. Nisso a fórmula latina “uma pessoa” revelou-se mais fecunda do que aquela respectiva grega de “uma hispóstase”. Hipóstase se pode dizer de cada objeto particular existente; pessoa, somente do ser humano e, por analogia, do ser divino. Nós falamos hoje (e também os gregos falam) de “dignidade da pessoa”, não de dignidade da hipóstase.

Aplicamos tudo isso ao nosso relacionamento com Cristo. Dizer que Jesus é “uma pessoa” significa também dizer que ressuscitou, que vive, que está diante de mim, que posso tratar-lhe por tu como ele me trata por tu. É necessário passar constantemente, no nosso coração e na nossa mente, do Jesus personagem ao Jesus pessoa. A personagem é alguém de quem se pode falar e escrever o que quiser, mas a quem e com quem, no geral, não se pode falar. Jesus, infelizmente, para a maioria dos crentes é ainda um personagem, alguém de quem se discute, se escreve muito, uma memória do passado, um conjunto de doutrinas, de dogmas ou de heresias. É um ente, mais do que um existente.

O filósofo Sartre, em uma página famosa, descreveu a emoção metafísica que produz a súbita descoberta da existência das coisas e pelo menos nisto podemos dar-lhe crédito:

“Eu estava no Jardim Público. A raiz da castanheira entrava na terra, exatamente sob o meu banco. Eu não me lembrava que era uma raiz. As palavras se desvaneceram e, com elas, a significação das coisas, a maneira de empregá-las, as frágeis referências que os homens tinham traçado na sua superfície. [ …] E depois tive aquela iluminação. Fiquei sem respiração. […] geralmente a existência esconde-se. Está presente à nossa volta; não se podem dizer duas palavras sem falar dela, e afinal não lhe tocamos […] E depois sucedeu aquilo: de repente, ali estava, ali estava, era claro como a água: a existência dera-se subitamente a conhecer[12]”.

Para ir além das ideias e palavras de Jesus e entrar em contato com ele, pessoa que vive, é necessário passar por uma experiência desse tipo. Alguns exegetas interpretam o nome divino “Aquele que é”, no sentido de “aquele que está”, que é presente, disponível, agora, aqui[13]. Esta definição aplica-se perfeitamente também ao Jesus ressuscitado.

É possível ter Jesus como amigo, porque, depois de ter ressuscitado, ele está vivo, está ao meu lado, posso tratá-lo como um ser vivo a um ser vivo, um presente a um presente. Não com o corpo e nem sequer somente com a fantasia, mas “no Espírito” que é infinitamente mais íntimo e real de ambos. São Paulo nos assegura que é possível fazer tudo “com Jesus”: quer comamos, quer bebamos, quer façamos qualquer outra coisa (cf. 1 Cor 10, 31; Col 3,17).

Infelizmente, raramente pensamos em Jesus como um amigo e um confidente. No subconsciente domina a imagem dele ressuscitado, ascendido ao céu, distante em sua transcendência divina, que retornará um dia, no fim dos tempos. Esquecemos que sendo, como diz o dogma, “verdadeiro homem”, melhor, a mesma perfeição humana, ele possui no mais alto grau o sentimento da amizade que é uma das qualidades mais nobres do ser humano. É Jesus que deseja um tal relacionamento conosco. No seu discurso de despedida, dando plena vazão a seus sentimentos , ele diz: ” Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz; mas vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer todas as coisas que ouvi do meu Pai” (Jo 15 ,15).

Já vi esse tipo de relacionamento com Jesus, não tanto nos santos, onde prevalece o relacionamento com o Mestre, com o Pastor, com o Salvador, o Esposo…, mas com os hebreus que, de modo semelhante a Saulo, chegam hoje a aceitar o Messias. O nome de Jesus, de repente, muda de uma obscura ameaça, ao mais doce e amado dos nomes. Um amigo. É como se a ausência de dois mil anos de discussões sobre Cristo jogasse a favor deles. O deles não é nunca um Jesus “ideológico”, mas uma pessoa de carne e sangue. Do sangue deles! Emociona ler os testemunhos de alguns deles. Todas as contradições se resolvem em um instante, todas as escuridões se iluminam. É como ver a leitura espiritual do Antigo Testamento se realizar totalmente e rapidamente sob os próprios olhos. São Paulo o compara à queda de um véu dos olhos (cf. 2 Cor 3,16).

Durante sua vida terrena, embora amando a todos sem distinção, somente com alguns – com Lázaro e as irmãs e mais ainda com João, o “discípulo que ele amava” – Jesus tem um relacionamento de verdadeira amizade. Agora, porém, que ressuscitou e não está mais sujeito aos limites da carne, ele oferece a todo homem e a toda mulher a possibilidade de tê-lo como amigo, no sentido mais pleno da palavra. Que o Espírito Santo, o amigo do esposo, nos ajude a aceitar com alegria e maravilha esta possibilidade que preenche a vida.

[Tradução Thácio Siqueira/ ZENIT]

[1] Tertuliano, Adversus Praxean, 27, 11 (CC 2, p.1199)

[2] Leão Magno, Carta 28 (PL 54, 755 s.).

[3] Leão Magno, Sermo 27 (26),1 (PL 54, 749).

[4] Denzinger, Enchiridion Symbolorum, 301-302.

[5] N. Cabasilas, Vita in Cristo, I, 5 (PG 150, 313); Cf Anselmo, Cur Deus homo?, II, 18.20; Tomas de Aquino, Summa theologiae, III, q. 46, art. 1, ad 3.

[6] D.F. Strauss, Der Christus des Glaubens und der Jesus der Geschichte, 1865.

[7] J.D.G. Dunn,  A New Perspective on Jesus. What the Quest for the Historical Jesus Missed, Grands Rapids, Michigan 2005 (Trad. ital. Cambiare prospettiva su Gesù, Paideia, Brescia  2011).

[8] Dunn considera muito o estudo do exegeta católico alemão H. Schürmann sobre a origem pré-pascal de certos ditos de Jesus. ob.cit. p.28

[9] Cf.  o meu estudo, Dal kerygma al dogma. Studi sulla cristologia dei Padri, Vita e Pensiero, Milano 2006, pp. 11-51.

[10] S. Kierkegaard, Diario, II,A 110 (ed. a cura di C. Fabro, Brescia 1962, nr. 196).

[11] S. Ireneo, Contra as heresias, III, 24, 1

[12] J.-P. Sartre, La Nausea, Milano 1984, p. 193 s.

[13] Cf.  G. Von Rad, Teologia dell’Antico Testamento, I, Paideia, Brescia 1972, p. 212.

 

Fonte: http://www.zenit.org/pt/articles/texto-completo-da-quarta-pregacao-de-advento-do-pe-raniero-cantalamessa-ofmcap?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+zenit%2Fportuguese+%28ZENIT+Portuguese%29

SOBRE OS OITO VÍCIOS CAPITAIS

Fonte: http://www.veritatis.com.br/article/5363

SOBRE OS OITO VÍCIOS CAPITAIS

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Publicado em 15/03/2004

Sobre os Oito Vícios Capitais

I. A GULA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Publicado em

I. A Gula (1)

Capítulo 1

A origem do fruto é a flor e a origem da vida ativa (2) é a moderação (3); quem domina o próprio estômago, diminui as paixões; pelo contrário, quem é subjugado pela comida, aumenta os prazeres.

Assim como Amalec é a origem dos povos, também a gula é a origem das paixões. Assim como a lenha é alimento do fogo, a comida é o alimento do estômago. Muita lenha proporciona uma grande chama e a abundância da comida nutre a concupiscência. A chama se extingue quando há menos lenha e a miséria de comida apaga a concupiscência.

Aquele que domina a boca, confunde os forasteiros e desata facilmente as suas mãos. Da boca bem coordenada brota uma fonte de água e a libertação da gula gera a prática da contemplação.

A estaca da tenda, atacando, matou a boca inimiga e a sabedoria da moderação mata a paixão (4).

O desejo de comida gera desobediência e uma deleitosa degustação afasta do Paraíso. As comidas saborosas saciam a garganta e nutrem o glutão de uma imoderação que nunca cochila.

Um ventre indigente prepara para uma oração vigilante; ao contrário, um ventre bem cheio convida para um longo sono.

Uma mente sóbria se alcança com uma dieta bem pobre, enquanto que uma vida cheia de delicadezas lança a mente no abismo.

A oração daquele que jejua é como um pintinho voando mais alto que uma águia, enquanto que a [oração] do glutão está envolta nas trevas. A nuvem esconde os raios do sol e a digestão pesada dos alimentos ofusca a mente.

Capítulo 2

Um espelho sujo não reflete claramente a imagem daquele que se põe diante dele e o intelecto, tonto pela saciez, não acolhe o conhecimento de Deus.

Uma terra não cultivada gera espinhos e de uma mente corrompida pela gula germinam maus pensamentos.

Como na lama não emana boa cheiro, tampouco no glutão é possível sentir o suave perfume da contemplação.

O olho do glutão explora com curiosidade os banquetes, enquanto que o olhar do moderado observa os ensinamentos dos sábios.

A alma do glutão enumera a lembrança dos mártires, enquanto que a do moderado imita os seus exemplos.

O soldado fraco foge ao som da trombeta que preanuncia a batalha; da mesma forma, o glutão foge dos chamados à moderação.

O monge guloso, submetido às exigências do seu ventre, faz questão de sua parte cotidiana. O caminhante, que caminha com afinco, alcançará logo a cidade e o monge glutão não chegará à casa da paz interior (5).

O vapor úmido do incenso perfuma o ar, tal como a oração do moderado deleita o olfato divino.

Se te abandonas ao desejo de comida, já nada te bastará para satisfazer o teu prazer; o desejo de comida, com efeito, é como o fogo que sempre envolve e sempre se inflama. Uma medida suficente enche o prato, mas um ventre mal acostumado jamais dirá: “Basta!”. A extensão das mãos pôs em fuga a Amalec e uma vida ativa elevada submete as paixões carnais.

Capítulo 3

Extermina tudo o que for inspirado pelos vícios e mortifica fortemente a tua carne. Com efeito, uma vez morto o inimigo, este não mais produz medo; assim, um corpo mortificado não perturbará a alma. Um cadáver não sente a dor produzida pelo fogo; e, menos ainda, o moderado sente o prazer do desejo extinto.

Se matardes o Egípcio (6), esconda-o sob a areia e não engordes o corpo por uma paixão vencida; assim como na terra preparada germina o que está escondido, também no corpo gordo revive a paixão.

A chama que se reduz é reacendida quando a alimentamos com lenha seca e o prazer que está se atenuando revive com a saciedade da comida; não te compadeças do corpo que se lamenta pela carestia e não te agrades com comidas suntuosas; com efeito, se te reforças, encontrareis uma guerra sem trégua, que escravizará tua alma e te fará servo da luxúria.

O corpo indigente é como um cavalo dócil que jamais derrubará o cavaleiro; [o cavalo], com efeito, dominado pelas rédeas, se submete e obedece a mão daquele que as detém; assim, o corpo, dominado pela fome e vigília, não reage por um pensamento que o cavalga, nem relincha excitado pelo ímpeto das paixões.

—–

Notas:

1. Ao que hoje chamamos gula, Evágrio chamava gastrimargia, literalmente “loucura do ventre”.

2. “Vida ativa” é a tradução mais próxima para praktiké, a disciplina espiritual que, segundo Evágrio, se encontra no princípio do processo de conformação com o Senhor Jesus e que tem por fim purificar as paixões da alma humana. A isto Evágrio dedica o seu “Tratado Prático”.

3. Enkráteia é um conceito muito mais rico que o termo “moderação”, se por este se entende apenas a virtude contrária à gula. Pela raiz krat, que significa “força” ou “poder”, esta virtude implica “domínio de si” ou “senhorio de si”.

4. Trata-se de uma comparação obscura, mas a mensagem é clara.

5. O termo usado por Evágrio é Apátheia, que em sua espiritualidade equivale ao estado de plenitude espiritual, alcançado mediante o domínio das paixões e o silenciamento do interior.

6. O “Egípcio” é o nome dado, pelos Padres do Deserto, a um demônio especialmente voraz na tentação.

 

II. A LUXÚRIA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Publicado em

II. A Luxúria

Capítulo 4

A moderação gera a regra, enquanto que a gula é a mãe do desenfreio; o óleo alimenta a luz da lamparina e o freqüentar mulheres atiça a chama do prazer.

A violência da onda se desencadeia contra o mercador mal ancorado, assim como o pensamento da luxúria [se desencadeia] sobre a mente do imoderado. A luxúria virá aliada à saciez, lhe concederá licença, se juntará aos adversários e combaterá, finalmente, do lado dos inimigos.

Permanece invunerável às flechas inimigas aquele que ama a tranqüilidade (7); ao contrário, aquele que se mistura com a multidão recebe golpes continuamente.

O olhar para uma mulher é semelhante a um dardo venenoso: fere a alma, nos injeta veneno e, quanto mais perdura, tanto mais espalha a infecção. Aquele que busca defender-se destas flechas se mantém alheio das multitudinárias reuniões públicas e não divaga com a boca aberta nos dias de festa; é muito melhor ficar em casa, passando o tempo orando, do que fazer a obra do inimigo, crendo honrar as festas.

Evita a intimidade com as mulheres se realmente desejas ser sábio e não lhes dê liberdade para falar-te, nem confiança. Com efeito, no início têm ou simulam uma certa cautela; porém, a seguir, ousam fazer tudo descaradamente: na primeira aproximação, mantêm olhar baixo, falam docemente, choram comovidas, tratam seriamente, suspiram com amargura, fazem perguntas sobre a castidade e escutam com atenção; na segunda vez, levantam um pouco mais a cabeça; na terceira vez, aproximam-se sem muito pudor; tu sorris e elas se põem a rir desaforadamente; a seguir, se embelezam e se te mostram com ostentação; seus olhares passam a anunciar o ardor, levantam as sobrancelhas e os olhos, desnudam o pescoço e abandonam todo o corpo à fraqueza, pronunciam frases abrandadas pela paixão e te dirigem uma voz fascinante ao ouvido até apoderarem-se por completo da [tua] alma.

Ocorre que estas ciladas te encaminham à morte e estas redes entrelaçadas te arrastam à perdição; portanto, não te deixes enganar sequer por aquelas que se servem de discursos discretos; nestas, com efeito, se oculta o maligno veneno das serpentes.

Capítulo 5

Aproxima-te antes do fogo ardente que de uma mulher jovem, sobretudo se também sois jovem; com efeito, quando te aproximas da chama e sentis um bom calor, te levantas rapidamente, enquanto que, quando sois seduzido pelas conversas femininas, dificilmente conseguireis fugir.

A erva cresce quando está cercada pela água; assim, germina a imoderação freqüentando as mulheres.

Aquele que enche o ventre e faz profissão de sabedoria se parece com alguém que afirma ser possível frear a força do fogo usando palha. Assim como efetivamente é impossível apagar a mutável agitação do fogo com a palha, também é impossível limitar na saciedade o ímpeto inflamado da imoderação.

Uma coluna se apóia sobre uma base e a paixão da luxúria tem sua base na saciez.

O navio, presa da tempestade, se apressa em chegar ao porto e a alma do sábio busca a solidão; um foge das ameaçadoras ondas do mar, e a outra, das formas femininas, que trazem dor e ruína.

Um belo rosto de mulher afunda mais que um maremoto; mesmo assim, este último te oferece a possibilidade de nadar, para que salveis a vida, enquanto que a beleza feminina traz o engano e te persuade a desprezar inclusive a própria vida.

A sarça solitária se subtrai intacta à chama e o sábio, que tem consciência que deve manter-se afastado das mulheres, não incinde na imoderação; assim como a lembrança do fogo não queima a mente, também nem sequer a paixão tem êxito se lhe falta a matéria.

Capítulo 6

Se tens piedade para com o inimigo, esta será sempre tua inimiga; e se facilitas à paixão, esta se te revelará.

Ver mulheres excita o imoderado, enquanto empurra o sábio a glorificar a Deus; porém, se no meio das mulheres a paixão é tranqüila, não dês crédito a quem te afirma terdes alcançado a paz interior (8).

O cão abana o rabo justamente quando está no meio da multidão, mas quando é espantado, mostra a sua maldade. Apenas quando a recordação da mulher surgir em ti separada da paixão, então poderás considerar-te próximo dos confins da sabedoria. Ao contrário, quando a imagem dela te levar a vê-la e os seus dardos cercarem a tua alma, então poderás considerar-te afastado da virtude.

Porém, não deves manter-te assim, nesses pensamentos, nem tua mente deve familiarizar-se muito com as formas femininas, pois a paixão será reincidente, levando perigo junto a si.

Efetivamente, assim como uma fundição apropriada purifica a prata, enquanto que, quando prolongada, a destrói facilmente, assim uma insistente fantasia com mulheres destrói a sabedoria adquirida; não tenhas, portanto, familiaridade prolongada com um rosto imaginado, para que não se lhe adiram as chamas do prazer e venham a queimar a auréola que circunda a tua alma; assim como a faísca próxima da palha desencadeia as chamas, assim a lembrança da mulher, persistindo, acende o desejo.

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Notas:

7. Refere-se à paz interior, à tranqüilidade de recolhimento ou solidão, no caso do monge.

8. Trata-se, novamente, do termo Apátheia. Ver nota 5.

III. A AVAREZA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Publicado em

III. A Avareza (9)

Capítulo 7

A avareza é a raiz de todos os males e nutre, como arbustos malignos, as demais paixões, não permitindo que estas se sequem, eis que florescidas daquela.

Quem deseja exterminar as paixões, que arranque a raiz; se para o bem tu podas os ramos, a avareza, porém, permanece; [esta providência] não te servirá de nada, porque estes [ramos], apesar de terem sido cortados, rapidamente florescem.

O monge rico é como um navio extremamente carregado que é atingido pelo ímpeto de uma tempestade; assim como um navio que deixa entrar a água é posto à prova por cada onda, também o rico se vê submergido pelas preocupações.

O monge que não possui nada é, ao contrário, um viajante ágil que encontra refúgio em todos os lados. É como a águia que voa alto e que desce somente para buscar o seu alimento quando necessita; está acima de qualquer prova, ri do presente e se eleva às alturas, afastando-se das coisas terrenas e juntando-se às celestes; tem, efetivamente, asas ligeiras, jamais carregadas pelas preocupações; sobrepassa a opressão e deixa o lugar sem dor; a morte chega e ele vai com ânimo sereno; a alma, com efeito, não está amarrada a nenhum tipo de atadura.

Quem, ao contrário, muito possui, se submete às preocupações e, como o cão, está preso à corrente e, se é obrigado a ir embora, leva consigo, como um grave peso e inútil aflição, a lembrança das suas riquezas, é vencido pela tristeza e, quando pensa nisso, sofre muito em perder as riquezas e se atormenta com o desânimo.

E quando lhe chega a morte, abandona miseravelmente suas tendências, entrega a alma, embora o olho não abandone os negócios; de má vontade é arrastado como um escravo fugitivo; se separa do corpo, mas não dos seus interesses, porque a paixão o atinge mais do que o arrasta.

Capítulo 8

O mar jamais se enche, embora receba a grande massa de água dos rios; da mesma maneira, o desejo de riquezas do ávaro jamais se sacia: ele o duplica e, imediatamente, deseja quadruplicá-los e não cessa jamais esta multiplicação, até que a morte venha pôr fim a tal interminável pretensão.

O monge sensato terá cuidado das necessidades do corpo e proverá com pão e água o estômago indigente; não adulará os ricos pelo prazer do ventre, nem submeterá sua mente livre a muitos senhores; com efeito, as mãos são sempre suficientes para satisfazer as necessidades naturais.

O monge que não possui nada é como um lutador que não pode ser golpeado fortemente e um atleta veloz que alcança rapidamente o prêmio do convite celeste.

O monge rico se regozija nas muitas rendas, enquanto que o que nada tem se regozija com os prêmios que vêm das coisas bem obtidas.

O monge ávaro trabalha duramente, enquanto que o que nada possui dedica seu tempo para a oração e a leitura.

O monge ávaro enche os buracos de ouro, enquanto que o que nada possui acumula tesouros no céu.

Seja maldito aquele que forja o ídolo e o esconde, da mesma forma que aquele que é afeto à avareza; com efeito, o primeiro se prostra diante do falso e inútil, e o outro carrega em si a imagem (10) da riqueza, como um simulacro.

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Notas:

9. Philargyria, ou amor ao ouro, ao dinheiro. Evágrio dá especial importância a este vício e apresenta seu demônio como particularmente astuto, pois apresenta ao monge uma série de raciocínios que fazem parecer a acumulação de bens como um ato de sensatez e prudência.

10. Para Evágrio, o apaixonado possui no coração a imagem do objeto que o domina.

IV. A IRA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Publicado em

IV. A Ira

Capítulo 9

A ira é uma paixão furiosa que, com freqüência, faz perder o juízo àqueles que têm o conhecimento, embrutece a alma e degrada todo o conjunto humano.

Um vento impetuoso não derruba uma torre e a animosidade não arrasta a alma mansa.

A água se move pela violência dos ventos e o homem irado se agita pelos pensamentos irracionais. O monge irado vê alguém e range os dentes.

A difusão da neblina condensa o ar e o movimento da ira torna nublada a mente do irado.

A nuvem que avança ofusca o sol e, assim, o pensamento rancoroso entorpece a mente.

O leão na jaula sacode continuamente a porta tal como o violento, em sua cela, quando é acometido pelo pensamento da ira.

É deliciosa a vista de um mar tranqüilo, porém, certamente não é mais agradável que o estado de paz; com efeito, os golfinhos nadam no mar calmo e os pensamentos voltados para Deus emergem um estado de serenidade.

O monge magnânimo é uma fonte tranqüila, uma bebida agradável oferecida a todos, enquanto que a mente do irado se vê continuamente agitada e não dará água a quem tem sede e, se a der, será esta turva e nociva; os olhos do irado estão arregalados e cheios de sangue, anunciando um coração em conflito. O rosto do magnânino mostra tranqüilidade e os olhos benignos estão voltados para baixo.

Capítulo 10

A mansidão do homem é lembrada por Deus e a alma pacífica se converte no templo do Espírito Santo.

Cristo recosta sua cabeça nos espíritos mansos e apenas a mente pacífica se converte em morada da Santa Trindade.

As raposas montam guarda na alma rancorosa e as feras se agasalham no coração rebelde.

O homem honesto se afasta das casas de mal conduta e Deus [se afasta] de um coração rancoroso.

Uma pedra que cai na água a agita, tal como um discurso maligno no coração do homem.

Afasta da tua alma os pensamentos de ira, não permita a animosidade no recinto do teu coração e não te perturbes no momento da oração; efetivamente, como a fumaça da palha ofusca a visão, assim a mente se vê perturbada pelo rancor durante a oração.

Os pensamentos do irado são descendentes das víboras e devoram o coração que lhes gerou. Sua oração é um incenso abominável e seus salmos emitem um som desagradável.

A oferta do rancoroso é como um doce cheio de formigas que certamente não encontrará lugar nos altares aspergidos pela água benta.

O irado terá sonhos perturbadores e se imaginará assaltado pelas feras. O homem magnânimo, que não guarda rancor, se exercita com discursos espirituais e, durante a noite, recebe a solução dos mistérios.

V. A TRISTEZA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

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V. A Tristeza

Capítulo 11

O monge atingido pela tristeza não conhece o prazer espiritual; a tristeza abate a alma e se forma a partir dos pensamentos da ira.

O desejo de vingança, com efeito, é próprio da ira; o fracasso da vingança gera a tristeza; a tristeza é a boca do leão e facilmente devora aquele que se entristece.

A tristeza é um glutão de coração e se alimenta da mãe que o gerou.

Sofre a mãe quando dá à luz um filho; porém, esta, tendo dado à luz, se vê livre da dor. A tristeza, ao contrário, enquanto é gerada, provoca fortes dores e, sobrevivendo, após o esforço, não traz sofrimentos menores.

O monge triste não conhece a alegria espiritual, como aquele que acometido por forte febre não reconhece o sabor do mel.

O monge triste não saberá como manter a mente na contemplação, nem brota nele uma oração pura: a tristeza impede todo o bem.

Ter os pés amarrados impede a corrida; assim é a tristeza: um obstáculo para a contemplação.

O prisioneiro dos bárbaros está preso com correntes; a tristeza amarra aquele que é prisioneiro (11) das paixões.

Na ausência de outras paixões, a tristeza não tem força, assim como não tem força uma corda se lhe faltar quem amarre.

Aquele que está atado pela tristeza é vencido pelas paixões e, como prova de sua derrota, vem acrescentada a atadura.

Efetivamente, a tristeza deriva da falta de êxito do desejo carnal, porque o desejo é co-natural a todas as paixões. Quem vence o desejo, vence as paixões; e o vencedor das paixões não será submetido pela tristeza.

O moderado não se entristece pela falta de alimentos, nem o sábio quando é atacado por um lapso de memória, nem o manso que renuncia a vingança, nem o humilde que se vê privado da honra dos homens, nem o generoso que sofre uma perda financeira; com efeito, eles evitam, com força, o desejo destas coisas, como efetivamente aquele que corajosamente rejeita os golpes. Assim, o homem carente de paixões não é ferido pela tristeza.

Capítulo 12

O escudo é a segurança do soldado e os muros são a [proteção] da cidade; mais seguro que ambos é, para o monge, a paz interior (12).

De fato, freqüentemente uma flecha lançada por um braço forte traspassa o escudo e a multidão de inimigos abate os muros, enquanto que a tristeza não pode prevalecer sobre a paz interior.

Aquele que domina as paixões se tornará senhor sobre a tristeza, enquanto que quem foi vencido pelo prazer não se desatará das suas ataduras.

Aquele que se entristece facilmente e simula uma ausência de paixões é como o doente que finge não estar enfermo; assim como a enfermidade se revela pela vermelhidão, a presença de uma paixão se demonstra pela tristeza.

Aquele que ama o mundo se verá muito afligido, enquanto que aqueles que desprezam o que há nele serão felizes para sempre.

O ávaro, ao receber algo ruim, se verá extremamente entristecido, enquanto que aquele que despreza as riquezas estará sempre livre da tristeza.

Quem busca a glória, ao chegar a desonra, se verá em dores, enquanto que o humilde a acolherá como que a um companheiro.

O forno purifica a prata impura e a tristeza perante Deus livra o coração do erro; a fusão contínua empobrece o chumbo e a tristeza em razão das coisas do mundo diminui o intelecto.

A névoa diminui o poder dos olhos e a tristeza embrutece a mente dedicada à contemplação; a luz do sol não chega aos abismos marinhos e a visão da luz não ilumina o coração entristecido; doce é para todos os homens o nascer do sol, porém também isto desagrada a alma entristecida; a coceira elimina o sentido do gosto tal como a tristeza subtrai da alma a capacidade de percepção. Porém, aquele que despreza os prazeres do mundo não se verá perturbado pelos maus pensamentos da tristeza.

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Notas:

11. Evágrio utiliza o termo Aikhmálotos, que significa “prisioneiro de guerra”, porém, ao mesmo tempo, faz referência à aikhmálosia que, em sua teoria espiritual, é o estágio final de escravidão da alma aos demônios, que chega como conseqüência de deixar-se vencer sistematicamente por eles.

12. Outra vez, a Apátheia.

VI. O ABORRECIMENTO

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

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VI. O Aborrecimento

Capítulo 13

O aborrecimento é a debilidade da alma que irrompe quando não se vive segundo a natureza, nem se enfrenta nobremente a tentação. Com efeito, a tentação é para uma alma nobre o que o alimento é para um corpo vigoroso.

O vento do norte nutre os brotos e as tentações consolidam a firmeza da alma.

A nuvem pobre de água é afastada pelo vento tal como a mente que não persevera no espírito do aborrecimento.

O orvalho da primavera aumenta o fruto do campo e a palavra espiritual exalta a firmeza da alma.

O fluxo do aborrecimento expulsa o monge de sua morada, enquanto que aquele que é perseverante está sempre tranqüilo.

O aborrecido aduz como pretexto a visita aos doentes (13), coisa que garante seu próprio objetivo.

O monge aborrecido é rápido em terminar suas tarefas e considera um preceito sua própria satisfação; a planta doente é dobrada por uma brisa leve e imaginar uma saída [justificadora] distrai o aborrecido.

Uma árvore bem plantada não é sacudida pela violência dos ventos e o aborrecimento não submete a alma bem sustentada.

O monge que anda em círculos, como uma solitária fibra seca, está pouco tranqüilo e, sem querer, é interrompido aqui e acolá a todo tempo.

Uma árvore transplantada não frutifica e o monge vagabundo não produz fruto de virtude. O doente não se satisfaz com um só tipo de alimento e o monge aborrecido não se satisfaz com uma só ocupação.

Não basta uma só mulher para satisfazer ao voluptuoso e não basta uma só cela para o aborrecido.

Capítulo 14

O olho do aborrecido se fixa continuamente nas janelas e sua mente imagina que chegam visitas; a porta gira e ele sai, escuta uma voz e olha pela a janela e dali não se afasta até que, sentado, se canse.

Quando lê, o aborrecido boceja muito, se deixa levar facilmente pelo sono, pesam-lhe os olhos, deita-se e, tirando o olhar do livro, o fixa na parede e, voltando a ler mais um pouco, fatiga-se inutilmente ao final de cada palavra; passa, então, a contar as páginas, calcular os parágrafos, desprezar as letras e belezas de estilo; finalmente, fechando o livro, o põe debaixo da cabeça e cai em sono não muito profundo. Pouco depois, a fome desperta na alma e, com ela, todas as suas preocupações.

O monge aborrecido é frouxo para a oração e certamente jamais pronunciará as palavras da oração; como efetivamente o doente jamais carrega peso excessivo, assim também o aborrecido seguramente não se ocupa diligentemente dos deveres para com Deus: primeiro, porque lhe falta efetivamente a força física; segundo, porque estranha o vigor da alma.

A paciência, o fazer tudo com muita constância e o temor de Deus curam o aborrecimento.

Dispõe para ti mesmo uma justa medida em cada atividade e não desistas antes de tê-la concluído; reza prudentemente e com força, e o espírito de aborrecimento se afastará de ti.

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Nota:

13. Na tradição dos monges do deserto, o abandonar a cela era uma das principais tentações do aborrecimento. Visitar doentes era, portanto, a maneira de encobrir sob o manto da caridade o desejo de sair da solidão.

VII. A VANGLÓRIA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

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VII. A Vanglória (14)

Capítulo 15

A vanglória é uma paixão irracional que facilmente se enraíza em todas as obras virtuosas.

Um desenho traçado na água desaparece tal como a fadiga da virtude na alma vangloriosa.

A mão escondida no bolso apresenta-se inocente e a ação que permanece oculta resplandece com uma luz mais brilhante.

A hera adere à árvore e, quando chega ao ponto mais alto, seca-lhe a raiz; assim, a vanglória se origina nas virtudes e não se afasta enquanto não lhes tiver consumido as forças.

O cacho de uvas caído sobre a terra murcha facilmente e a virtude, se apoiada na vanglória, perece.

O monge vanglorioso é um trabalhador sem salário: esforça-se no trabalho, porém, não recebe qualquer pagamento; o bolso furado não guarda com segurança o que nele é colocado e a vanglória destrói a recompensa das virtudes.

A moderação do vanglorioso é como a fumaça na estrada: ambas desaparecem no ar.

O vento apaga a pegada do homem tal como a esmola do vanglorioso. A pedra lançada ao ar não atinge o céu e a oração de quem deseja comprazer aos homens não chega a Deus.

Capítulo 16

A vanglória é um obstáculo submerso: se chocas contra ele, corres o risco de perder a carga.

O homem prudente esconde seu tesouro tanto como o monge sábio [esconde] as fadigas da sua virtude.

A vanglória aconselha rezar nas praças, enquanto que quem a combate reza em sua pequena habitação.

O homem pouco prudente torna evidente a sua riqueza e faz com que muitos a queiram tomar para si. Tu, ao contrário, esconde as tuas coisas: durante o caminho, encontrarás assaltantes, mas, ao chegardes à cidade da paz, poderás usar dos teus bens tranqüilamente.

A virtude do vanglorioso é um sacrifício extenuante, que não é oferecido no altar de Deus.

O aborrecimento consome o vigor da alma, enquanto que a vanglória fortalece a mente daquele que se esquece de Deus, torna robusto o fraco e torna o velho mais forte que o jovem, mas somente enquanto sejam muitas as testemunhas que os assistem. Então serão inúteis o jejum, a vigília, ou a oração, porque é apenas a aprovação pública que excita o seu zêlo.

Não mostres tuas fadigas para colher a fama, nem renuncies a glória futura para seres aclamado. Com efeito, a glória humana habita na terra e na terra extingue-se a tua fama, enquanto que a glória das virtudes permanecem para sempre.

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Nota:

14. O termo Kenodoxía deriva de kenós “vazio, vão” e dóxa, “opinião”: uma imagem de si que se projeta aos demais com base em valores inexistentes ou insignificantes por sua trivialidade.

VIII. A SOBERBA

Por Evágrio Pôntico

Fonte: VE Multimedios

Tradução: Carlos Martins Nabeto

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VIII. A Soberba (15)

Capítulo 17

A soberba é um tumor da alma, cheio de pus. Se maduro, explodirá, emanando terrível fedor.

O resplandor do relâmpago anuncia o estrondo do trovão e a presença da vanglória anuncia a soberba.

A alma do soberbo alcança grandes altitudes e, daí, cai no abismo.

Sofre de soberba o apóstata de Deus, quando atribui às suas próprias capacidades as coisas bem sucedidas.

Como aquele que cai numa teia de aranha [e aí fica preso], assim cai aquele que se apóia nas suas próprias capacidades.

A abundância de frutos dobra os ramos da árvore; a abundância de virtudes humilha a mente do homem.

O fruto caído na terra é inútil para o lavrador e a virtude do soberbo não é aceita por Deus.

A cana sustenta o ramo carregado de frutos e o temor de Deus [sustenta] a alma virtuosa. Como o peso dos frutos quebra o ramo, também a soberba abate a alma virtuosa.

Não entregues tua alma à soberba e não terás fantasias terríveis. A alma do soberbo é abandonada por Deus e se converte em objeto de maligna alegria dos demônios. À noite, imagina manadas de bestas que o assaltam e, durante o dia, vê-se alterado por pensamentos vis. Quando dorme, facilmente se sobressalta e, quando vela, se assusta com a sombra de um pássaro. O sussurar das copas das árvores aterroriza o soberbo e o som da água destroça a sua alma. Aquele que efetivamente tem se oposto a Deus, rejeitando sua ajuda, vê-se depois assustado por vulgares fantasmas.

Capítulo 18

A soberba precipitou o arcanjo do céu (=Lúcifer) e, como um raio, o fez espatifar-se [junto com outros] sobre a terra.

A humildade, ao contrário, conduz o homem para o céu e o prepara para fazer parte do côro dos anjos.

“De que te orgulhas, ó homem, quando por natureza sois barro e pó e por que te elevas sobre as nuvens?

Contempla tua natureza, porque sois terra e cinza, e em breve voltarás ao pó, agora soberbo e, dentro de pouco, verme.

Para que elevas a cabeça que daqui a pouco cairá por terra?”

Grande é o homem socorrido por Deus; uma vez abandonado, reconheceu a debilidade da natureza. Não possuís nada que não tenhas recebido de Deus; não desprezes, portanto, o Criador.

Deus te socorre; não rejeites ao Benfeitor. Chegaste ao topo da tua condição, porém, Ele te tem guiado; tens agido retamente, segundo a virtude, e Ele te tem conduzido. Glorifica a quem te elevou, para permanecerdes seguro nas alturas; reconhece Aquele que tem a mesma origem que a tua, porque a substância é a mesma e não rejeites, por jactância, este parentesco.

Capítulo 19

Humilde e moderado é aquele que reconhece este parentesco; porém, o Criador (16) fez tanto a Ele como o soberbo.

Não desprezes o humilde: efetivamente ele está mais seguro que tu, caminha sobre a terra e não se precipita; porém, aquele que se eleva mais para o alto, quando cai se espatifa.

O monge soberbo é como uma árvore sem raízes e não suporta o ímpeto do vento.

Uma mente sem jactância é como uma cidade bem fortificada e quem a habita será incapturável.

Um sopro arrasta a pena e o insulto leva o soberbo à loucura.

Uma bolha [de sabão] levada pelo vento desaparece e a memória do soberbo perece.

A palavra do humilde adoça a alma, enquanto que a do soberbo está cheia de jactância.

Deus acolhe a oração do humilde; ao contrário, se exaspera com a súplica do soberbo.

A humildade é a coroa da casa e mantém seguro quem ali entra.

Quando te elevares ao topo da virtude, precisarás de muita segurança. Aquele que efetivamente cai, rapidamente se recupera; porém, aquele que se atira de grandes alturas, corre risco de morte.

A pedra preciosa brilha no bracelete de ouro e a humildade humana resplandece nas muitas virtudes.

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Notas:

15. O termo Hyperephanía provém do superlativo hypér e phaíno, “o que aparece”: aquele que aparece como mais do que é, arrogância, orgulho.

16. Evágrio emprega o termo Demioyrgós que, na tradução grega, equivale ao trabalhador manual ou a divindade que criava o mundo a partir de uma matéria pré-existente. Parece que aqui é usado no sentido de “Deus Criador”, embora esta acepção não seja totalmente clara.