Os níveis da vida

A pedra existe. Por um lapso, ao longo de um metro na história das coisas, uma lufada de extraordinário permitiu que a pedra, nossa pequena pedra, se enxergasse, sentisse e ficou orgulhosa, sim, por que ela existe. “Semelhante aos meteoros, semelhante aos grandes mundos, eu, pedrinha, existo”. O porquê, eu não sei, mas, para as pedras, convém existir e também não se perguntam do sentido de ser pedra.
Mas, que inveja! Aquela pequena pedra altiva vê aquela frágil e esguia plantinha. Mal se tem em pé e já lhe parece possuir uma beleza superior.
A filhinha das flores respirou naquele dia de sol. Ela sentia as nuvens a passar, a água dançando e subindo, o sol lhe dourando, o seu casto caulezinho amadurecendo. Ela existe e vive! “Vivo eu, plantinha, como os grandes carvalhos cujas raízes rasgam a terra e as pedras, vivo eu, soberana da vida!”
Mesmo ela, tão bela, caiu à tentação. – Que fruta é aquela que corre? Não, não, na verdade era um esperto roedor que corria e voava por entre suas irmãs, as plantinhas e as pedras, suas amigas observadoras.
“Corro como um leão, vôo como uma águia, pois, tenho um nobre dever que as plantas e as pedras não tem: tenho de alimentar a minha ninhada e protegê-la dos opressores!” Nosso ratinho começava a gostar de política…
– Que inveja! Quem é aquele carvalho que se move, pula como um sapo, joga pedras como um macaco, e come as nossas frutas? E mais, me disseram que são de uma espécie de magos e necromantes. Eles pegam as árvores mortas e transformam em canoas, lanças e casas. Com as pedras fazem muros. Os animais lhes servem e transformam pântanos em paraísos.
Eram eles. Eles não receberam a lufada naravilhosa, mas existiam, viviam, se moviam, se reproduziam e surpreendentemente, organizavam as coisas conforme as suas palavras. Eram senhores das letras. E, para eles, a pena abriria mundo interiores cada vez mais vastos e complexos, dominariam a terra e viveriam como deuses a pairar sobre a sua criação! Eles ou, melhor dizendo, tu e eu.
Eis que poderia ter fim a nossa história. Ai, mas que inveja a minha! Estava lá, quando aquela lufada de ar veio de novo. O sol levantava cada um dos viventes. E, eu chorava no jardim. Onde estava o meu amado? Onde puseram o seu corpo?
“Maria!” E ainda não sabia, mas aquelas palavras eram já de uma nova vida, um novo”homem”, uma nova espécie do Deus Criador. Disso, sou eu a primeira testemunha.

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