Teologia do Corpo Dela

  1. Um Mistério a ser Revelado[1]

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A mulher é um mistério de Deus. “Primeiramente, seus órgãos internos estão fora de alcance da vista: eles estão dentro do corpo. O que está escondido usualmente se refere a algo profundo e misterioso: nós escondemos segredos, escondemos o que é pessoal e íntimo”[2].

No Antigo Testamento, o Santo dos Santos era o espaço mais sagrado para os judeus, um lugar escondido por um véu e intocável, em que o sumo sacerdote só poderia entrar uma vez por ano. O próprio Deus, invisível, parece que está a se esconder de nós, mas, na verdade, está dando a entender a grandeza de sua Santidade. De modo semelhante, o modo de se vestir de uma mulher revela sua dignidade e o seu valor.

Tu me fazes delirar, minha irmã, minha esposa, tu me fazes delirar com um só dos teus olhares, com um só colar do teu pescoço. És um jardim fechado, minha irmã, minha esposa, uma nascente fechada, uma fonte selada (Ct 4, 9.12). Esse texto bíblico, refere-se ao amor entre o homem e a mulher, mas, também, São Paulo descreveu o amor de Cristo pela Igreja usando a “analogia esponsal”.

Procurar-me-eis e me haveis de encontrar, porque de todo o coração me fostes buscar(Jr 29, 13). Assim, como Deus é um mistério para ser buscado, que exige esforço e trabalho, a mulher é um mistério que vale a pena conquistar. Há toda uma literatura do cavaleiro que atravessa todas as aventuras para conquistar a amada.  “Uma mulher deve esconder seu coração em Deus, e o homem deve ir lá para o encontrar”[3]. Um mistério que não precisa ser conquistado pelo esforço do amor degenera num objeto fácil e sem graça. O mistério se revela aos poucos. Meu amado é como um gamo, um filhote de gazela. Ei-lo postando-se atrás da nossa parede, espiando pelas grades, espreitando pela janela (Ct 2, 9).

Deus nos ama. Conta-se que, certa vez, São Francisco pedira a Deus para ouvir a música que há no céu. O Senhor respondeu que se ele a ouvisse, certamente que morreria. O santo insistiu e perguntou se poderia escutar apenas uma nota. Deus o concedeu. E São Francisco acordou do coma vários dias depois.

Para que Deus caiba em nosso coração, com sua grandeza e santidade, é preciso dilatá-lo pelo desejo do Amor e purificá-lo de todo o egoísmo. “Imagina que Deus te quer encher de mel. Se estás cheio de vinagre, onde pôr o mel? É preciso jogar fora o conteúdo do jarro e limpá-lo, ainda que com esforço, esfregando-o, para servir a outro fim”[4]. É preciso esforço para corresponder ao amor de Deus. Assim como Deus, também a mulher é senhora de seu próprio mistério. É preciso purificar-se para se aproximar dela.

No entanto, o pecado original deixou os seus efeitos na afetividade feminina. Enquanto a mulher não assumir uma atitude assertiva e confiante, ela pode ser dominada pela insegurança e pensar que ela não merece ser amada e conquistada. E, por isso, aceita ser tratada sem reverência e torna um entretenimento para a caça dos homens. Meninas que não aprenderam a considerar o seu valor por serem amadas no seio de sua família tendem a pensar que elas apenas valem pela atratividade do seu corpo. Quando o “Santo dos santos” é violentamente profanado, quando o mistério feminino é tirado à força ou por sedução, a mulher sente-se despojada de sua dignidade e não tem mais nada a oferecer. O dom de si não foi dado, mas roubado. Homem e mulher foram violentados e ficaram vazios.

Para transformar o desespero em amor, é preciso que você se veja pelo olhar de Deus. Um homem que percebe que a mulher se valoriza por se sentir amada por Deus não avança sobre os limites delas, pois sabe que será recusado.

Deus lhe deu a missão de ser senhora de seu próprio mistério. Os pretendentes ficarão frustrados se não lhe derem o devido respeito. Você merece ser amada e reverenciada no seu mistério.

 

 2. Uma Relacionamento a ser Perseguido

No Princípio, Deus disse, Façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gn 1, 26). Na Santíssima Trindade há três Pessoas que subsistem na relação de uma para com as outras. João Paulo dizia de Deus que era uma “Comunhão de Pessoas” que gera a Vida. De modo semelhante, se pode também dizer isso do homem e da mulher. A capacidade de se relacionar com o outro é especialmente visível na mulher.

Pergunta-se se isso seria da natureza ou da educação. Uma pesquisadora feminista afirmou que essas diferenças entre o homem e a mulher seriam um controle mental patriarcal[5]. Uma socióloga, para prova isso, criou a sua filha como se fosse um garoto. Em vez de bonecas, lhe deu carrinhos e armas de brinquedo A pesquisadora admitiu que se viu francamente frustrada quando a sua filha insistia em tapar com o cobertor os seus caminhõezinhos. Outra mãe, que tinha dado brinquedos unissex à filha conta que a filha punha o caminhão de bombeiros na sua cama, lhe fazia carinho e dizia “Não se preocupe, caminhãozinho, tudo vai ficar bem”[6].

Em seu livro “O Cérebro Feminino”[7], a Doutora Louann Brazening, ensina que um menino com oito semanas, ainda no ventre da mãe, recebe testosterona o que ocasiona a morte de células ligadas à comunicação e desenvolve áreas ligadas à agressividade e ao sexo. Na adolescência, o cérebro feminino amadurece dois ou três anos antes do masculino. O cérebro feminio possui mais neurônios para a linguagem, a escuta, e maior área reservada à emoções e memórias. Os dois hemisférios cerebrais são melhor conectados, facilitando a fala, o pensamento e as emoções. A mulher fala três vezes mais que o homem (20 mil palavras para 7 mil), e tem maior capacidade de ler as emoções e expressar emoções.

Deus deu esses dons à mulher a fim de lhe preparar para a maternidade e para abrir-se aos outros no amor.

A abertura e a acolhida para os outros é uma característica feminina e, no contexto da sexualidade, essa abertura é a que possibilita gerar a vida. Assim como Deus toma a iniciativa de dar a Vida sobrenatural, a Igreja é chamada “esposa de Cristo” por se abrir ao seu dom. No corpo feminino se delinea essa característica espiritual do gênio feminino. A Virgem Maria com o seu “sim” a Deus é a melhor imagem de feminilidade que temos.

Essa abertura a Deus qualifica a humanidade do homem e da mulher e teríamos de resistir à tentação de considerarmos vitoriosos ou fracassados apenas pelas relações que temos com os outros, ou pelas obras que fazemos. Deus nos ama singularmente e isso basta.

Pelos efeitos do pecado original ou por algum abuso, a mulher pode ser ferida na sua receptividade. Seja por causa de erros do passado, seja pelo sofrimento causado por um abuso sexual, seja pela contracepção ou pelo aborto, quer seja pelo lesbianismo, a mulher fecha-se ao outro. Ou, ainda, quando a dependência do rapaz se torna de tal modo doentia que ela substitui a relação com Deus.

Para a cura dessas feridas afetivas, o primeiro passo consiste em confiar em Deus e sua misericórdia. Deus não nos ama pelo o que fazemos ou pelos nossos méritos. Ele nos ama antes disso. Ama por que somos seus filhos, suas filhas. Ama-nos mesmo com os nossos pecados ainda que Ele seja suficientemente sábio para exigir de nós a rebeldia contra o pecado e toda escravidão. Somos amados muito mais que merecemos. E, ao se sentir amada por Deus, a mulher se abre com maior facilidade para os outros, tornando-se um sinal do amor de Deus na terra.

 

3. A Beleza para ser revelada

Nada na terra se compara à beleza feminina. Ou, conheces alguém viciado em olhar para pôr-do-sol? Conheces algum adolescente que trocam mensagens com imagens de flamingos ou cachoeiras? Tudo isso é muito bonito, mas nada se compara.

No livro do Gênesis, a criação progride num crescendo e a mulher é o trabalho final de Deus. Deus deu uma forma física e espiritual bela para a mulher. Como Deus, a beleza não é algo que ela faz, mas algo que ela é. Não se capta o mistério de Eva numa cena brutal de combate, ou quando ela estivesse derrubando uma árvore. Os atistas desde tempos imemoriais a representaram descansando. Não há agenda, nem preconceitos, nem pressão cultural. Eva fala ao mundo de modo diferente que Adão. A beleza é poderosa. Pode ser a coisa mais poderosa da terra. E, por isso, é perigoso. E, também, importante.

Uma mulher num comercial ou propaganda atrai a atenção por 30% mais tempo. O corpo é a revelação da pessoa. E, a beleza do corpo quer apontar para algo maior, a beleza da pessoa feminina.

A partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor (Sb 13, 5).

Dostoyevsky escreveu que “A Beleza salvará o mundo”. Agora, mais do que nunca, a beleza tem sido distorcida ou idolatrada. O Arcebispo Fulton Sheen dizia que “A beleza de fora nunca chega a tocar alma. Mas, a beleza de alma se reflete no rosto”[8].

Não seja o vosso adorno o que aparece externamente: cabelos trançados, ornamentos de ouro, vestidos elegantes; mas tende aquele ornato interior e oculto do coração, a pureza incorruptível de um espírito suave e pacífico, o que é tão precioso aos olhos de Deus (1Pd 3, 3-4). Não que a beleza exterior seja má, mas o mais importante é a virtude.

Muitos dizem às mulheres abandonarem sua beleza em favor da revolução ou para fazer qualquer coisa de produtivo. Se esquecem que o mundo precisa beleza, compaixão e a força da verdadeira feminilidade.

Santa Teresa de Jesus viveu no século XVI e é um exemplo da beleza em ação. Sua estátua esculpida por Bernini fala da experiência mística que, paradoxalmente, é de dor e felicidade, algo como a Cruz de Cristo ou como a união nupcial.

Santa Teresa Benedita da Cruz, conhecida pelo nome de Edith Stein nasceu numa família judia, tornou-se ateia na adolescência, doutorou-se em filosofia da Alemanha e se converteu ao ler a autobiografia de Santa Teresa de Jesus. Continuou com sua vida acadêmica, encorajando às mulheres a atuarem na política, na sociedade e na educação trazendo o específico do feminino para essas atividades. Mais tarde se tornará carmelita. Essas duas santas influíram profundamente no pensamento e na espiritualidade do Papa João Paulo II.

“Obrigado a ti, mulher, pelo simples fato de seres mulher! Com a percepção que é própria da tua feminilidade, enriqueces a compreensão do mundo e contribuis para a verdade plena das relações humanas”[9].

Depois do pecado original, Adão olha para a Eva de um modo diferente. Ele tem dificuldade de ver o corpo dela como um chamado de Deus para o Amor. Uma tentação demoníaca é fazer a mulher pensar que não é bonita. E os meios de comunicação reforçam a “ditadura da beleza”. Ou ela se submete aos padrões irreais, ou se rebaixa, deixando-se manipular pela luxúria masculina.

Como ter uma boa autoimagem? Como curar essas marcas do pecado? A Igreja sempre foi entendida como a esposa de Cristo. De modo que essa palavra do Cântico dos cânticos adquire um novo significado para as batizadas: Como és formosa, amiga minha! Como és bela! Teus olhos são como pombas (Ct 1, 15). E ela responde  Cristo: Sua boca é cheia de doçura, tudo nele é encanto. Assim é o meu amado, tal é o meu amigo, filhas de Jerusalém! (Ct 5, 16).

Deus nem sempre é apresentado com uma imagem masculina. Regozijai-vos com Jerusalém e encontrai aí a vossa alegria, vós todos que a amais; com ela ficai cheios de alegria, vós todos que estais de luto, a fim de vos amamentar à saciedade em seu seio que consola, a fim de que sugueis com delícias seus peitos generosos (Is 66, 10-11).

A pureza do amor masculino e feminino são sinais do Amor de Deus, o nosso amor, é a sua Glória. O corpo feminino é um especial sinal da beleza de Deus. Deus lhe deu beleza e a capacidade de gerar a vida. Por isso, a mulher é a imagem de Deus na terra. Ela não é um simples objeto. A primeira ferramenta para a correta valorização do outro é a modéstia no agir e no se vestir. Assim, ela é a “ministra da beleza”[10].

 

[1] O presente artigo é como que um resumo do livro: Jason Evert, Theology of her body, discovering the Beauty and Mystery of Femininity, Ed. Ascension Press, 2009. É um resumo ligeiro, grosseiro, apenas com fins didáticos.

[2] Alice von Hildebrand, Woman as the Guardians of Purity, Homiletic and Pastoral Review (March 2004), 14-18; citation at 15 apud Jason Evert, idem, p. 5.

[3] Jason Evert, idem, p. 11.

[4] Dos Tratados sobre a Primeira Carta de São João, de Santo Agostinho, bispo, Tract.4,6: PL 35,2008-2009.

[5] Sheila Ruth, Issues in Feminism: An Introduction to Womens’s Studies (New York: McGraw-Hill, 2000).

[6] Louann Brizendine, The Female Brain (New York: Morgan Road Books, 2006), 12.

[7] The Female Brain, sem tradução para o português.

[8] Fulton Sheen, as quoted in True Girl 1, 1 (February/March 2006).

[9] João Paulo II, Carta às Mulheres,1995, n. 2.

[10] Eden, 150.

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