CASTIDADE E HOMOSSEXUALIDADE

Do CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

2357 A homossexualidade designa as relações entre homens ou mulheres, que experimentam uma atracção sexual exclusiva ou predominante para pessoas do mesmo sexo. Tem-se revestido de formas muito variadas, através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua em grande parte por explicar. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves (103) a Tradição sempre declarou que «os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados» (104). São contrários à lei natural, fecham o acto sexual ao dom da vida, não procedem duma verdadeira complementaridade afectiva sexual, não podem, em caso algum, ser aprovados.

2358. Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Esta propensão, objectivamente desordenada, constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição.

2359. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio duma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.

 

103. Cf. Gn 19, 1-29; Rm 1, 24-27; 1 Cor 6, 9-10; 1 Tm 1, 10.

104. Congregação da Doutrina da Fé,  Decl. Persona humana, 8: AAS 68 (1976) 95.

Dons Do Espírito Santo: Ciência

Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2014/documents/papa-francesco_20140521_udienza-generale.html

PAPA FRANCISCO

AUDIÊNCIA GERAL

Praça de São Pedro
Quarta-feira, 21 de Maio de 2014

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, gostaria de elucidar mais um dom do Espírito Santo, a dádiva da ciência. Quando se fala de ciência, o pensamento dirige-se imediatamente para a capacidade que o homem tem de conhecer cada vez melhor a realidade que o circunda e de descobrir as leis que regulam a natureza e o universo. Contudo, a ciência que deriva do Espírito Santo não se limita ao conhecimento humano: trata-se de um dom especial, que nos leva a entender, através da criação, a grandeza e o amor de Deus e a sua profunda relação com cada criatura.

Quando são iluminados pelo Espírito, os nossos olhos abrem-se à contemplação de Deus, na beleza da natureza e na grandiosidade do cosmos, levando-nos a descobrir como tudo nos fala d’Ele e do seu amor. Tudo isto suscita em nós um grandioso enlevo e um profundo sentido de gratidão! É a sensação que sentimos também quando admiramos uma obra de arte, ou qualquer maravilha que seja fruto do engenho e da criatividade do homem: diante de tudo isto, o Espírito leva-nos a louvar o Senhor do profundo do nosso coração e a reconhecer, em tudo aquilo que temos e somos, é um dom inestimável de Deus e um sinal do seu amor infinito por nós.

No primeiro capítulo do Génesis, precisamente no início da Bíblia inteira, põe-se em evidência que Deus se compraz com a sua criação, sublinhando reiteradamente a beleza e a bondade de tudo. No final de cada dia está escrito: «Deus viu que isso era bom» (1, 12.18.21.25): se Deus vê que a criação é boa, é bela, também nós devemos assumir esta atitude e ver que a criação é boa e bela. Eis o dom da ciência, que nos faz ver esta beleza; portanto, louvemos a Deus, dando-lhe graças por nos ter concedido tanta beleza! E quando Deus terminou de criar o homem, não disse «viu que isso era bom», mas disse que era «muito bom» (v. 31). Aos olhos de Deus, nós somos a realidade mais bela, maior, mais boa da criação: até os anjos estão abaixo de nós, nós somos mais do que os anjos, como ouvimos no livro dos Salmos. O Senhor ama-nos! Devemos dar-lhe graças por isto. O dom da ciência põe-nos em profunda sintonia com o Criador, levando-nos a participar na limpidez do seu olhar e do seu juízo. E é nesta perspectiva que nós conseguimos encontrar no homem e na mulher o ápice da criação, como cumprimento de um desígnio de amor que está gravado em cada um de nós e que nos faz reconhecer como irmãos e irmãs.

Tudo isto é motivo de serenidade e de paz, e faz do cristão uma testemunha jubilosa de Deus, no sulco de são Francisco de Assis e de muitos santos que souberam louvar e cantar o seu amor através da contemplação da criação. Mas ao mesmo tempo, o dom da ciência ajuda-nos a não cair nalgumas atitudes excessivas ou erradas. A primeira é constituída pelo risco de nos considerarmos senhores da criação. A criação não é uma propriedade, que podemos manipular a nosso bel-prazer; nem muito menos uma propriedade que pertence só a alguns, a poucos: a criação é um dom, uma dádiva maravilhosa que Deus nos concedeu, para acuidarmos e utilizarmos em benefício de todos, sempre com grande respeito e gratidão. A segunda atitude errada é representada pela tentação de nos limitarmos às criaturas, como se elas pudessem oferecer a resposta a todas as nossas expectativas. Com o dom da ciência, o Espírito ajuda-nos a não cair neste erro.

Mas gostaria de voltar a meditar sobre o primeiro caminho errado: manipular a criação, em vez de a preservar. Devemos conservar a criação, porque é uma dádiva que o Senhor nos concedeu, um dom que Deus nos ofereceu; nós somos guardas da criação. Quando exploramos a criação, destruímos o sinal do amor de Deus. Destruir a criação significa dizer ao Senhor: «Não me agrada». E isto não é bom: eis o pecado!

A preservação da criação é precisamente a conservação do dom de Deus; e significa dizer a Deus: «Obrigado, eu sou o guardião da criação, mas para a fazer prosperar, e não para destruir a tua dádiva!». Esta deve ser a nossa atitude em relação à criação: preservá-la, pois se aniquilarmos a criação, será ela que nos destruirá! Não esqueçais isto! Certa vez eu estava no campo e ouvi o dito de uma pessoa simples, que gostava muitos de flores e que as preservava. Ela disse-me: «Devemos conservar estas belezas que Deus nos concedeu; a criação é para nós, a fim de beneficiarmos dela; não a devemos explorar, mas conservar, porque Deus perdoa sempre; nós, homens, perdoamos algumas vezes, mas a criação nunca perdoa, e se tu não a preservares, ela destruir-te-á!».

Isto nos leve a pensar e a pedir ao Espírito Santo a dádiva da ciência, para compreender bem que a criação é o dom mais bonito de Deus. Ele fez muitas coisas boas para a melhor coisa, que é a pessoa humana.

——————————–

Fonte: Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal: NOVENA DA IMACULADA.(http://www.hablarcondios.org/)

O dom da ciência ampliou ainda mais o olhar da fé de Maria. Por meio dele, a Virgem contemplava nas realidades cotidianas as marcas de Deus no mundo, como pistas para chegar até o Criador, e julgava retamente a relação de todas as coisas e acontecimentos com a salvação. Influenciada por esse dom, tudo lhe falava de Deus, todas as coisas a levavam a Deus9. Entendeu melhor do que ninguém a terrível realidade do pecado, e por isso sofreu, como nenhuma outra criatura, pelos pecados dos homens. Intimamente associada à dor do seu Filho, padeceu com Ele “quando morria na Cruz, cooperando de forma totalmente singular na restauração da vida sobrenatural das almas” ( Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 61).

——————————–

Do Catecismo Maior de S. Pio X

919) Que é a Ciência? A Ciência é um dom pelo qual julgamos retamente das coisas criadas, e conhecemos o modo de bem usar delas e de as dirigir ao último fim, que é Deus.

——————————–

Natureza: “Hábito sobrenatural infundido com a graça pela qual a inteligência do homem, debaixo da ação iluminadora do Espírito Santo, julga retamente das coisas criadas em ordem ao fim sobrenatural” (Royo Marin, Antonio, Teologia de la perfección cristiana. 4. ed. Madrid : Católica, 1962, pag 448).

Necessidade: Para a fé chegar seu pleno desenvolvimento. Não basta apreender a verdade revelada, é preciso esse instinto sobrenatural para descobrir e julgar retamente as relações das verdades divinas com o mundo natural e sensível que nos rodeia. Senão, a fé seria facilmente seduzida pelos encantos do mundo.

Efeitos: 1) Nos ensina a julgar retamente as coisas criadas em relação a Deus: a experiência do vazio da criatura, e na criação, os vestígios de Deus. S. Domingos chorava os pecadores enquanto S. Francisco cantava ao irmão sol, ambos sob o impulso do mesmo dom. Também dava facilidade a S. Teresa em explicar as coisas de Deus, valendo-se de analogias com as coisas criadas; 2) Nos guia certamente ao que temos que crer ou não crer: tem relação ao senso da fé; 3)Nos faz ver com prontidão e certeza o estado de nossa alma: S. Teresa: “em peça onde entra muito sol não há teia de aranha escondida” (Vida 19,2); 4) Nos inspira o modo mais acertado de conduzir-nos com o próximo em ordem à vida eterna: um pregador que saber dizer os exemplos necessários aos ouvintes, o diretor e os remédios adequados, um superior e seus súditos; 5) Nos desprende das coisas da terra; 6) Nos ensina a usar santamente das criaturas; 7) Nos enche de contrição e arrependimento de nossos erros passados.

Bem aventuranças e frutos que delas derivam: “Bem aventurados os que choram, porque eles serão consolados” (Mt 5,5). chorar como Mérito: chorar pelo pecados próprios ou alheios; chorar como prêmio: a consolação da contemplação de Deus na criação.
Fruto é igual ao do Entendimento e Sabedoria que consideram a verdade em relação ao fim último: no entendimento se produz uma certeza especial, fides, na vontade, um certo gozo, um gaudium espiritual.

Vícios: ignorância na fé, falta de senso da fé, soberba intelectual que troca critérios sobrenaturais por vãs ciências hipotéticas. “Graças te dou, Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes estas coisas dos sábios e prudentes e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25).

Meios de fomentar este dom: a) considerar a vaidade das coisas criadas; b) acostumar-se a relacionar com Deus todas as coisas criadas; c) opor-se ao espírito do mundo: onde apenas se goza das criaturas sem se perguntar o que são e para o que estão chamadas; d) ver a mão da providência no governo do mundo e em todos os acontecimentos prósperos ou adversos da nossa vida; e) preocupar-se com a pureza de coração: “Sou mais entendido que os anciãos pois guardo teus preceitos”(Sl 118,100).

——————————–

Fonte: Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal: (http://www.hablarcondios.org/)

TEMPO PASCAL. SEXTA SEMANA. SÁBADO

88. O DOM DA CIÊNCIA

– Faz-nos compreender o que são as coisas criadas, segundo o desígnio de Deus sobre a criação e a elevação à ordem sobrenatural.

– O dom da ciência e a santificação das realidades temporais.

– O verdadeiro valor e sentido deste mundo. Desprendimento e humildade necessários para podermos receber este dom.

I. “AS CRIATURAS SÃO como que vestígios da passagem de Deus. Por esses vestígios rastreia-se a sua grandeza, poder e sabedoria, bem como todos os seus atributos”1. São como um espelho em que se reflete o esplendor da sua beleza, da sua bondade, do seu poder: Os céus narram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos2.

Não obstante, muitas vezes, por causa do pecado original e dos pecados pessoais, os homens não sabem interpretar esse rasto de Deus no mundo e não conseguem reconhecer Aquele que é a fonte de todos os bens:Não souberam reconhecer o Artífice pela consideração das suas obras. Seduzidos pela beleza das coisas criadas, tomaram essas coisas por deuses. Aprendam então a saber quanto o seu Senhor prevalece sobre elas– diz a Escritura – porque Ele é o criador da beleza que as fez3.

O dom da ciência permite que o homem veja mais facilmente as coisas criadas como sinais que levam a Deus, e que compreenda o que significa a elevação à ordem sobrenatural. Através do mundo da natureza e da graça, o Espírito Santo faz-nos perceber e contemplar a infinita sabedoria de Deus, a sua onipotência e bondade, a sua natureza íntima. “É um dom contemplativo cujo olhar penetra, como o do dom do entendimento e o da sabedoria, no próprio mistério de Deus”4.

Mediante este dom, o cristão percebe e entende com toda a clareza “que a criação inteira, o movimento da terra e dos astros, as ações retas das criaturas e tudo quanto há de positivo no curso da história, tudo, numa palavra, veio de Deus e para Deus se ordena”5. É uma disposição sobrenatural pela qual participa da ciência de Deus, descobre as relações que existem entre todas as coisas criadas e o seu Criador e em que medida e sentido estão a serviço do fim último do homem.

Uma manifestação do dom da ciência é o Cântico dos três jovens, como o lemos no Livro de Daniel, que muitos cristãos recitam na ação de graças depois da Santa Missa. Pede-se a todas as coisas criadas que louvem e dêem glória ao Criador: Benedicite, omnia opera Domini, Domino…: Obras todas do Senhor, bendizei o Senhor; louvai-o e exaltai-o pelos séculos dos séculos. Anjos do Senhor, bendizei o Senhor. Céus… Águas que estais sobre os céus… Sol e lua… Estrelas do céu… Chuva e orvalho… Todos os ventos… Frio e calor… Orvalhos e geadas… Noites e dias… Luz e trevas… Montanhas e colinas… Todas as plantas… Fontes… Mares e rios… Cetáceos e peixes… Aves… Animais selvagens e rebanhos… Sacerdotes do Senhor… Espíritos e almas dos justos… Santos e humildes de coração… Cantai-lhe e dai-lhe graças porque é eterna a sua misericórdia6.

Este cântico admirável de toda a criação, de todos os seres vivos e de todas as coisas inanimadas, é um hino de glória ao Criador. “É uma das mais puras e ardentes expressões do dom da ciência: que os céus e toda a Criação cantem a glória de Deus”7. Em muitas ocasiões, poderá também ajudar-nos a dar graças ao Senhor depois de participarmos na obra que mais glória lhe dá: a Santa Missa.

II. MEDIANTE O DOM DA CIÊNCIA, o cristão dócil ao Espírito Santo sabe discernir com perfeita clareza o que o conduz a Deus e o que o separa dEle. E isto no ambiente, nas modas, na arte, nas ideologias… Verdadeiramente, esse cristão pode dizer: O Senhor guia o justo por caminhos retos e comunica-lhe a ciência das coisas santas8. O Paráclito previne-nos também quando as coisas boas e retas em si mesmas se podem converter em nocivas porque nos afastam do nosso fim sobrenatural: por um desejo desordenado de posse, por um apego do coração que não o deixa livre para Deus, etc.

O cristão, que deve santificar-se no meio do mundo, tem uma especial necessidade deste dom para encaminhar para Deus as suas atividades temporais, convertendo-as em meio de santidade e apostolado. Mediante esse dom, a mãe de família compreende mais profundamente que a sua tarefa doméstica é caminho que leva a Deus, se a realiza com retidão de intenção e desejos de agradar ao Senhor; assim como o estudante passa a entender que o seu estudo é o meio habitual de que dispõe para amar a Deus, desenvolver a sua ação apostólica e servir a sociedade; e o arquiteto encara da mesma maneira os seus projetos; e a enfermeira, o cuidado dos seus doentes, etc. Compreende-se então por que devemos amar o mundo e as realidades temporais, e como “há algo de santo, divino, escondido nas situações mais comuns, que cabe a cada um de vós descobrir”9.

Deste modo – continuam a ser palavras de Mons. Escrivá –, “quando um cristão desempenha com amor a mais intranscendente das ações diárias, está desempenhando algo donde transborda a transcendência de Deus. Por isso tenho repetido, com insistente martelar, que a vocação cristã consiste em transformar em poesia heróica a prosa de cada dia”10. Esse verso heróico para Deus, nós o compomos com os episódios corriqueiros da tarefa diária, dos problemas e alegrias que encontramos à nossa passagem.

Amamos as coisas da terra, mas passamos a avaliá-las no seu justo valor, no valor que têm para Deus. E assim passamos a dar uma importância capital a esse sermos templos do Espírito Santo, porque “se Deus mora na nossa alma, tudo o resto, por mais importante que pareça, é acidental, transitório. Em contrapartida, nós, em Deus, somos o permanente”11.

III. À LUZ DO DOM DA CIÊNCIA, o cristão reconhece a brevidade da vida humana sobre a terra, a relativa felicidade que este mundo pode dar, comparada com a que Deus prometeu aos que o amam, a inutilidade de tanto esforço se não se realiza de olhos postos em Deus… Ao recordar-se da vida passada, em que talvez Deus não tenha estado em primeiro lugar, a alma sente uma profunda contrição por tanto mal e por tantas ocasiões perdidas, e nasce nela o desejo de recuperar o tempo malbaratado, sendo mais fiel ao Senhor.

Todas as coisas do mundo – deste mundo que amamos e em que nos devemos santificar – aparecem-nos à luz deste dom sob a marca da caducidade, ao mesmo tempo que compreendemos com toda a nitidez o fim sobrenatural do homem e a necessidade de subordinar-lhe todas as realidades terrenas.

Esta visão do mundo, dos acontecimentos e das pessoas a partir da fé pode obscurecer-se e mesmo apagar-se em conseqüência daquilo que São João chama a concupiscência dos olhos12. É como se a mente rejeitasse a luz verdadeira, e já não soubesse orientar para Deus as realidades terrenas, que passam a ser encaradas como fim. O desejo desordenado de bens materiais e a ânsia de uma felicidade procurada nas coisas da terra dificultam ou anulam a ação desse dom. A alma cai então numa espécie de cegueira que a impede de reconhecer e saborear os verdadeiros bens, os que não perecem, e a esperança sobrenatural transforma-se num desejo cada vez maior de bem-estar material, levando a fugir de tudo aquilo que exige mortificação e sacrifício.

A visão puramente humana da realidade acaba por desembocar na ignorância das verdades de Deus ou por fazê-las parecer teóricas, sem sentido prático para a vida corrente, sem capacidade para impregnar a existência de todos os dias. Os pecados contra este dom deixam-nos sem luz, e assim se explica essa grande ignorância de Deus de que sofre o mundo. Por vezes, chega-se a uma verdadeira incapacidade de entender ou assimilar aquilo que é sobrenatural, porque os olhos da alma estão completamente obcecados pelos bens parciais e enganosos, e fecham-se aos verdadeiros. Para nos prepararmos para receber este dom, necessitamos de pedir ao Espírito Santo que nos ajude a viver a liberdade e o desprendimento dos bens materiais, bem como a ser mais humildes, para podermos ser ensinados acerca do verdadeiro valor das coisas.

Juntamente com estas disposições, devemos fomentar os atos que nos levam à presença de Deus, de modo a vermos o Senhor no meio dos nossos trabalhos; e fazer o propósito decidido de considerar na oração os acontecimentos que vão determinando a nossa vida e as realidades do dia-a-dia: a família, os colegas de trabalho, aquilo que mais nos preocupa… A oração sempre é um farol poderoso que ilumina a verdadeira realidade das coisas e dos acontecimentos.

Para obtermos este dom, para nos tornarmos capazes de possuí-lo em maior plenitude, recorremos à Virgem, Nossa Senhora. Ela é a Mãe do Amor Formoso, e do temor, e da ciência, e da santa esperança13. “Maria é Mãe da ciência, porque com Ela se aprende a lição que mais interessa: que nada vale a pena se não estivermos junto do Senhor; que de nada servem todas as maravilhas da terra, todas as ambições satisfeitas, se não nos arder no peito a chama de amor vivo, a luz da santa esperança que é uma antecipação do amor interminável na nossa Pátria definitiva”14.

(1) São João da Cruz, Cântico espiritual, 5, 3; (2) Sl 19, 1-2; (3) Sab 13, 1-5; (4) M. M. Philipon, Los dones del Espíritu Santo, pág. 200; (5) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 130; (6) cfr. Dan 3, 52-90; (7) M. M. Philipon, op. cit., pág. 203; (8) Sab 10, 10; (9) Josemaría Escrivá, Amar o mundo apasionadamente, in Questões atuais do cristianismo, n. 114; (10) ib.; (11) Josemaría Escrivá,Amigos de Deus, n. 92; (12) 1 Jo 2, 16; (13) Eclo 24, 24; (14) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 278.

Dons Do Espírito Santo: Entendimento

Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2014/documents/papa-francesco_20140430_udienza-generale.html

PAPA FRANCISCO

AUDIÊNCIA GERAL

Praça de São Pedro
Quarta-feira, 30 de Abril de 2014

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Depois de ter meditado sobre a sabedoria, como primeiro dos sete dons do Espírito Santo, gostaria hoje de chamar a atenção para o segundo dom, ou seja, o entendimento. Aqui, não se trata da inteligência humana, da capacidade intelectual de que podemos ser mais ou menos dotados. Ao contrário, é uma graça que só o Espírito Santo pode infundir e que suscita no cristão a capacidade de ir além do aspecto externo da realidade e perscrutar as profundidades do pensamento de Deus e do seu desígnio de salvação.

Dirigindo-se à comunidade de Corinto, o apóstolo Paulo descreve bem os efeitos deste dom — ou seja, como age em nós o dom do entendimento — e Paulo diz o seguinte: «Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus preparou para aqueles que o amam. Todavia, Deus no-los revelou pelo seu Espírito» (1 Cor2, 9-10). Obviamente, isto não significa que o cristão pode compreender tudo e ter um conhecimento completo dos desígnios de Deus: tudo isto permanece à espera de se manifestar em toda a sua limpidez, quando nos encontrarmos na presença de Deus e formos verdadeiramente um só com Ele. No entanto, como sugere a própria palavra, a inteligência permite «intus legere», ou seja, «ler dentro»: esta dádiva faz-nos compreender a realidade como o próprio Deus a entende, isto é, com a inteligência de Deus. Porque podemos compreender uma situação com a inteligência humana, com prudência, e isto é um bem. Contudo, compreender uma situação em profundidade, como Deus a entende, é o efeito deste dom. E Jesus quis enviar-nos o Espírito Santo para que também nós tenhamos este dom, para que todos nós consigamos entender a realidade como Deus a compreende, com a inteligência de Deus. Trata-se de um bonito presente que o Senhor concedeu a todos nós. É o dom com que o Espírito Santo nos introduz na intimidade com Deus, tornando-nos partícipes do desígnio de amor que Ele tem em relação a nós.

Então, é claro que o dom do entendimento está intimamente ligado à fé. Quando o Espírito Santo habita o nosso coração e ilumina a nossa mente, faz-nos crescer dia após dia na compreensão daquilo que o Senhor disse e levou a cabo. O próprio Jesus disse aos seus discípulos: enviar-vos-ei o Espírito Santo e Ele far-vos-á entender tudo o que vos ensinei. Compreender os ensinamentos de Jesus, entender a sua Palavra, compreender o Evangelho, entender a Palavra de Deus. Podemos ler o Evangelho e entender algo, mas se lermos o Evangelho com este dom do Espírito Santo conseguiremos compreender a profundidade das palavras de Deus. Este é um grande dom, uma dádiva enorme que todos nós devemos pedir, e pedir juntos: concedei-nos, ó Senhor, o dom do entendimento!

Há um episódio do Evangelho de Lucas que explica muito bem a profundidade e a força deste dom. Depois de ter assistido à morte na Cruz e à sepultura de Jesus, dois dos seus discípulos, desiludidos e amargurados, deixam Jerusalém e voltam para o seu povoado chamado Emaús. Enquanto caminham, Jesus ressuscitado aproxima-se deles e começa a falar-lhes mas os seus olhos, velados pela tristeza e até pelo desespero, não são capazes de o reconhecer. Jesus caminha ao seu lado, mas eles sentem-se tão tristes, tão desesperados, que não o reconhecem. Contudo, quando o Senhor lhes explica as Escrituras para que compreendam que Ele devia ter sofrido e morrido para depois ressuscitar, as suas mentes abriram-se e nos seus corações voltou a acender-se a esperança (cf. Lc 24, 13-27). E é isto que nos faz o Espírito Santo: abre-nos a mente, abre-nos para nos fazer entender melhor, para nos levar a compreender melhor as disposições de Deus, as realidades humanas, as situações, tudo. O dom do entendimento é importante para a nossa vida cristã. Peçamos ao Senhor que nos conceda a todos este dom, a fim de nos fazer compreender, como Ele mesmo entende, as situações que acontecem e para que compreendamos, sobretudo, a Palavra de Deus no Evangelho. Obrigado!

——————————–

Fonte: Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal: NOVENA DA IMACULADA. 1º DE DEZEMBRO. SEGUNDO DIA DA NOVENA (http://www.hablarcondios.org/)

Pelo dom do entendimento, que teve num grau superior ao de qualquer criatura, Maria teve conhecimento com uma fé pura, radicada na autoridade divina, de que a sua virgindade era sumamente grata ao Senhor. O seu olhar penetrou com a maior profundidade no sentido oculto das Escrituras, e compreendeu imediatamente que a saudação do Anjo era estritamente messiânica e que a Santíssima Trindade a tinha designado como Mãe do Messias esperado há tanto tempo. Depois teria sucessivas iluminações que confirmariam o cumprimento das promessas divinas de salvação e compreenderia que “deveria viver no sofrimento a sua obediência de fé ao lado do Salvador que sofre, e que a sua maternidade seria obscura e dolorosa” (João Paulo II, Enc. Redemptoris Mater, 16).

O dom do entendimento está intimamente ligado à pureza de alma, e é por isso que se relaciona com a bem-aventurança dos limpos de coração, que verão a Deus (Mt 5, 8). A alma de Maria, a Puríssima, gozou de especiais iluminações que a levaram a descobrir o querer de Deus em todos os acontecimentos. Ninguém soube melhor do que Ela o que Deus espera de cada homem; por isso, é a nossa melhor aliada nos pedidos que dirigimos a Deus nas nossas necessidades.

——————————–

Do Catecismo Maior de S. Pio X

916) Que é o Entendimento? O Entendimento é um dom pelo qual nos é facilitada, quanto é possível a um homem mortal, a inteligência das verdades da Fé e dos divinos mistérios, os quais não podemos conhecer com as luzes naturais da nossa razão.

——————————–

Natureza: “Hábito sobrenatural infundido com a graça santificante pela qual a inteligência do homem, sob a ação iluminadora do Espírito Santo, se faz apta para uma penetrante intuição das verdades reveladas especulativas e práticas e até naturais em ordem ao fim sobrenatural” (Royo Marin, Antonio,Teologia de la perfección cristiana, 4. ed. Madrid : Católica, 1962, pag 440).

Necessidade: Para o desenvolvimento pleno da fé, não basta a via ascética, discursiva, mas é indispensável a via mística, o dom do entendimento. O conhecimento humano é discursivo, composição e divisão, análise e síntese e não por simples intuição da verdade. Mas, sendo o objeto da fé a Verdade primeira se manifestando [a Verdade Divina pode se dar de três modos: in essendo, ou seja, Deus verus– o Deus Verdadeiro; in cognoscendo, conhecendo a Divina Sabedoria; e in dicendo, que é a veracidade; A primeira é o objeto formal quod (do qual) da fé e os dois últimos, o objeto formal quo (o qual) que especifica a fé], que é simplíssima, o modo discursivo é imperfeito. A fé é um hábito intuitivo e para tanto, para a contemplação, deve tender. É a fé pura de S. João da Cruz que faz possível a união do entendimento com Deus.
Efeitos: 1) Nos faz ver a substância das coisas ocultas sob os acidentes: “Eu lhe olho, ele me olha” (S. J. Vianney); 2) Nos descobre o sentido oculto das divinas Escrituras: Emaús; 3) Nos manifesta o significado misterioso das semelhanças e figuras: Antigo Testamento e sua relação com o Novo, por exemplo; 4) Nos mostra debaixo das aparências sensíveis as realidades espirituais: na Liturgia, p. exemplo; 5) Nos faz contemplar os efeitos contidos nas causas: um mundo novo se revela baixo um princípio como Cristo Sumo Sacerdote, Maria Medianeira, etc; 6) Nos faz ver as causas através dos efeitos.
Videmus nunc per speculum in aenigmate” (1 Cor. 13,12). “Nesta mesma vida, purificando o olho do espírito pelo dom do entendimento, pode-se ver a Deus de certo modo” (I-II, 69,2 ad 3). “Nos autem sensum Christi habemus” (1 Cor. 2,16). ”Iustus ex fide vivit” (Rm. 1,17).

Bem aventuranças e frutos: “Bem aventurados os limpos de coração, pois eles verão a Deus” (Mt 5,8). Dela se indica o mérito ou disposição (a limpeza do coração) e o prêmio (ver a Deus). Há a pureza do coração, dos pecados e afetos desordenados, na parte apetitiva e pureza da mente, depurando-a dos fantasmas (idéias materiais) e erros contra a fé. Os frutos é a fides, a certeza da fé e o gaudium, o gozo da fé.

Vícios: A privação ou cegueira espiritual e o embotamento (Embotamento é um tipo de comportamento onde o indivíduo apresenta-se sem emoções e sentimentos) do sentido espiritual. A luxúria produz a cegueira espiritual pois debilita qualquer conhecimento, típtico das almas tíbias, que encontra sua mente mergulhada nas suas paixões, sem recolhimento interior e espírito de oração, derramada nas situações exteriores. É o caminho das vacas. As coisas espirituais lhe causam tédio.

Meios de fomentar esse dom: a) A prática da fé viva com a ajuda da graça ordinária; b) Perfeita pureza da alma e corpo; c) Recolhimento interior; d) Fidelidade à graça: “hodie si vocem eius audieritis nolite obdurare corda vestra” (Sl 94,8). Os conselhos do diretor espiritual; e) Invocar ao Espírito Santo.

 

——————————–

Fonte: Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal: (http://www.hablarcondios.org/)

 

TEMPO PASCAL. SEXTA SEMANA. SEXTA-FEIRA

87. O DOM DO ENTENDIMENTO

– Mediante este dom, chegamos a um conhecimento mais profundo dos mistérios da fé.

– Concede-se a todos os cristãos, mas o seu desenvolvimento exige que nos purifiquemos.

– O dom do entendimento e a vida contemplativa.

I. CADA PÁGINA da Sagrada Escritura é uma manifestação da solicitude com que Deus se inclina para nós a fim de nos guiar para a santidade. O Senhor mostra-se no Antigo Testamento como a verdadeira luz de Israel, sem a qual o povo se extravia e tropeça na escuridão. Os grandes personagens do Antigo Testamento dirigem-se constantemente a Javé pedindo-lhe que os conduza nas horas difíceis. Dá-me a conhecer os teus caminhos1, pede Moisés para guiar o povo até a Terra da Promissão. Sem o ensinamento divino, sente-se perdido. E o rei Davi suplica: Ensina-me a observar a tua lei e a guardá-la de todo o coração2.

Jesus promete o Espírito de verdade, que terá a missão de iluminar toda a Igreja3. Com o envio do Paráclito, “completa a revelação e a culmina e confirma com testemunho divino”4. Os próprios Apóstolos compreenderão mais tarde o sentido das palavras do Senhor que antes do Pentecostes se lhes apresentavam obscuras. “Ele é a alma desta Igreja – ensina Paulo VI –. É Ele quem explica aos fiéis o sentido profundo dos ensinamentos de Jesus e o seu mistério”5.

O Paráclito conduz-nos das primeiras luzes da fé à “inteligência mais profunda da Revelação”6. Mediante o dom do entendimento, concede ao fiel cristão um conhecimento mais profundo dos mistérios revelados, iluminando-lhe a inteligência com uma luz poderosíssima. “Conhecemos esses mistérios há muito tempo; ouvimo-los e até meditamos neles muitas vezes, mas, num dado momento, sacodem o nosso espírito de uma maneira nova, como se até então nunca tivéssemos compreendido a verdade”7. Sob este influxo, a alma adquire uma certeza muito maior das verdades sobrenaturais, que se lhe tornam mais claras, e experimenta uma alegria indescritível, que é antecipação da visão beatífica.

O dom do entendimento permite que a alma participe com facilidade desse olhar de Jesus que tudo penetra e que incita a reverenciar a grandeza de Deus, a dedicar-lhe um afeto filial, a ponderar adequadamente o valor das coisas criadas… “Pouco a pouco, à medida que o amor vai crescendo na alma, a inteligência do homem resplandece mais e mais sob a própria luz de Deus”8 e dá-nos uma grande familiaridade com os mistérios divinos.

Para chegarmos a este conhecimento, não nos bastam as luzes habituais da fé; precisamos de uma especial efusão do Espírito Santo, que recebemos na medida em que correspondemos à graça, começando por purificar o coração. Neste dia do Decenário do Espírito Santo, podemos examinar como são os nossos desejos de purificação, se nos levam especialmente a aproveitar muito bem as graças de cada confissão, a recorrer a ela com periodicidade, a pedir ajuda ao Paráclito para fomentar a contrição e um grande desejo de nos afastarmos de todo o pecado e das faltas deliberadas.

II. MEDIANTE O DOM DO ENTENDIMENTO, o Espírito Santo faz a alma penetrar de muitas maneiras nos mistérios revelados. De uma forma sobrenatural e portanto gratuita, ensina no íntimo do coração o alcance das verdades mais profundas da fé. “É como se alguém, sem ter aprendido nem trabalhado nada para saber ler, nem mesmo estudado coisa alguma – explica Santa Teresa –, se visse na posse de toda a ciência, sem saber como e donde lhe veio, pois jamais se esforçou sequer por aprender o abecedário. Esta última comparação parece-me explicar em parte este dom celestial, porque, de um momento para outro, a alma se vê tão instruída no mistério da Santíssima Trindade e em outras coisas muito subidas, que não há teólogo com quem não se atreva a discutir sobre a verdade dessas grandezas”9.

O dom do entendimento leva a captar o sentido mais profundo da Sagrada Escritura, a vida da graça, a presença de Cristo em cada sacramento e, de uma maneira real e substancial, na Sagrada Eucaristia. É um dom que confere como que um instinto divino para o que há de sobrenatural no mundo. Ante o olhar daquele que crê, iluminado pelo Espírito, surge um universo totalmente novo. Os mistérios da Santíssima Trindade, da Encarnação, da Redenção, da Igreja, convertem-se em realidades extraordinariamente vivas e atuais, que orientam toda a vida do cristão e influem decisivamente no seu trabalho, na família, nos amigos… Chega-se a ver Deus no meio das tarefas habituais, nos acontecimentos agradáveis ou dolorosos da vida diária.

O caminho para chegarmos à plenitude deste dom é a oração pessoal, em que contemplamos as verdades da fé, bem como a luta, alegre e amorosa, por manter-nos na presença de Deus ao longo do dia. Não se trata de uma ajuda sobrenatural extraordinária, reservada a pessoas muito excepcionais, mas de um dom que o Senhor concede a todos aqueles que queiram ser-lhe fiéis no lugar em que se encontram, santificando as suas alegrias e dores, o seu trabalho e o seu descanso.

III. PARA PROGREDIR neste caminho de santidade, é necessário fomentar o recolhimento interior, a mortificação dos sentidos internos e externos, a procura diligente da presença de Deus nos acontecimentos e percalços de cada dia.

É preciso sobretudo purificar o coração, pois somente os limpos de coração têm capacidade para ver a Deus10. A impureza, o apego aos bens terrenos, a facilidade em conceder ao corpo todos os seus caprichos embotam a alma para as coisas de Deus. O homem não espiritual não percebe as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucura. Nem as pode compreender, porque é segundo o Espírito que se devem ponderar11. Homem espiritual é o cristão que traz o Espírito Santo na sua alma em graça, e tem o pensamento posto em Cristo. A sua vida limpa, sóbria e mortificada é a melhor preparação para ser digna morada do Espírito, que nele habitará com todos os seus dons.

Quando o Espírito Santo encontra uma alma assim, vai-se apossando dela e conduzindo-a por caminhos de uma oração sempre mais profunda, até que “as palavras se tornam pobres…, e se dá passagem à intimidade divina, num olhar para Deus sem descanso e sem cansaço. Vivemos então como cativos, como prisioneiros. Enquanto realizamos com a maior perfeição possível, dentro dos nossos erros e limitações, as tarefas próprias da nossa condição e do nosso ofício, a alma anseia por escapar. Vai-se rumo a Deus, como o ferro atraído pela força do ímã. Começa-se a amar Jesus de forma mais eficaz, com um doce sobressalto”12.

Mons. Escrivá descreve aqui o caminho que as almas percorrem – no meio das ocupações mais normais da sua vida e seja qual for a sua cultura, profissão, estado, etc. – até chegarem à oração contemplativa. Para muitos, esse caminho parte da consideração freqüente da Santíssima Humanidade do Senhor, a que se chega através da Virgem – passando necessariamente pela Cruz –, e que acaba na Santíssima Trindade. “O coração necessita então de distinguir e adorar cada uma das Pessoas divinas. De certa maneira, o que a alma realiza na vida sobrenatural é uma descoberta semelhante às de uma criaturinha que vai abrindo os olhos à existência. E entretém-se amorosamente com o Pai e com o Filho e com o Espírito Santo; e submete-se facilmente à atividade do Paráclito vivificador, que se nos entrega sem o merecermos: os dons e as virtudes sobrenaturais!”13

Ao terminarmos a nossa oração, recorremos à Virgem Nossa Senhora, Àquela que teve a plenitude da fé e dos dons do Espírito Santo, e lhe pedimos que nos ensine a tratar e a amar sempre o Paráclito na nossa alma, especialmente neste Decenário, e que não fiquemos a meio do caminho que conduz à santidade a que fomos chamados.

(1) Ex 33, 13; (2) Sl 119, 34; (3) cfr. Jo 16, 13; (4) Conc. Vat. II, Const. Dei Verbum, 4; (5) Paulo VI, Exort. Apost. Evangelii nuntiandi, 8-XII-1975; (6) Conc. Vat. II, Const. Dei Verbum, 5; (7) A. Riaud, La acción del Espíritu Santo en las almas, Palabra, Madrid, 1985, pág. 72; (8) M. M. Philipon, Los dones del Espíritu Santo, Palabra, Madrid, 1983, pág. 194; (9) Santa Teresa, Vida, 27, 8-9; (10) cfr. Mt 5, 8; (11) 1 Cor 2, 14; (12) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 296; (13) ib., n. 306.

Diretório para os Presbíteros, n. 1

Excerto[1]

«Os presbíteros são, na Igreja e para a Igreja, uma representação sacramental de Jesus Cristo[2] Cabeça e Pastor, proclamam a Sua palavra com autoridade, repetem os Seus gestos de perdão e oferta de salvação, nomeadamente com o Batismo, a Penitência e a Eucaristia, exercitam a Sua amável solicitude, até ao dom total de si mesmos, pelo rebanho que reúnem na unidade e conduzem ao Pai por meio de Cristo no Espírito» [3]

tuxpi.com.1350561939

 

[1]Fonte: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cclergy/documents/rc_con_cclergy_doc_20130211_direttorio-presbiteri_po.html

[2] Meu grifo.

[3] João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, 15.

Teologia do Corpo Dela

  1. Um Mistério a ser Revelado[1]

st-therese-18-months-before-death

 

A mulher é um mistério de Deus. “Primeiramente, seus órgãos internos estão fora de alcance da vista: eles estão dentro do corpo. O que está escondido usualmente se refere a algo profundo e misterioso: nós escondemos segredos, escondemos o que é pessoal e íntimo”[2].

No Antigo Testamento, o Santo dos Santos era o espaço mais sagrado para os judeus, um lugar escondido por um véu e intocável, em que o sumo sacerdote só poderia entrar uma vez por ano. O próprio Deus, invisível, parece que está a se esconder de nós, mas, na verdade, está dando a entender a grandeza de sua Santidade. De modo semelhante, o modo de se vestir de uma mulher revela sua dignidade e o seu valor.

Tu me fazes delirar, minha irmã, minha esposa, tu me fazes delirar com um só dos teus olhares, com um só colar do teu pescoço. És um jardim fechado, minha irmã, minha esposa, uma nascente fechada, uma fonte selada (Ct 4, 9.12). Esse texto bíblico, refere-se ao amor entre o homem e a mulher, mas, também, São Paulo descreveu o amor de Cristo pela Igreja usando a “analogia esponsal”.

Procurar-me-eis e me haveis de encontrar, porque de todo o coração me fostes buscar(Jr 29, 13). Assim, como Deus é um mistério para ser buscado, que exige esforço e trabalho, a mulher é um mistério que vale a pena conquistar. Há toda uma literatura do cavaleiro que atravessa todas as aventuras para conquistar a amada.  “Uma mulher deve esconder seu coração em Deus, e o homem deve ir lá para o encontrar”[3]. Um mistério que não precisa ser conquistado pelo esforço do amor degenera num objeto fácil e sem graça. O mistério se revela aos poucos. Meu amado é como um gamo, um filhote de gazela. Ei-lo postando-se atrás da nossa parede, espiando pelas grades, espreitando pela janela (Ct 2, 9).

Deus nos ama. Conta-se que, certa vez, São Francisco pedira a Deus para ouvir a música que há no céu. O Senhor respondeu que se ele a ouvisse, certamente que morreria. O santo insistiu e perguntou se poderia escutar apenas uma nota. Deus o concedeu. E São Francisco acordou do coma vários dias depois.

Para que Deus caiba em nosso coração, com sua grandeza e santidade, é preciso dilatá-lo pelo desejo do Amor e purificá-lo de todo o egoísmo. “Imagina que Deus te quer encher de mel. Se estás cheio de vinagre, onde pôr o mel? É preciso jogar fora o conteúdo do jarro e limpá-lo, ainda que com esforço, esfregando-o, para servir a outro fim”[4]. É preciso esforço para corresponder ao amor de Deus. Assim como Deus, também a mulher é senhora de seu próprio mistério. É preciso purificar-se para se aproximar dela.

No entanto, o pecado original deixou os seus efeitos na afetividade feminina. Enquanto a mulher não assumir uma atitude assertiva e confiante, ela pode ser dominada pela insegurança e pensar que ela não merece ser amada e conquistada. E, por isso, aceita ser tratada sem reverência e torna um entretenimento para a caça dos homens. Meninas que não aprenderam a considerar o seu valor por serem amadas no seio de sua família tendem a pensar que elas apenas valem pela atratividade do seu corpo. Quando o “Santo dos santos” é violentamente profanado, quando o mistério feminino é tirado à força ou por sedução, a mulher sente-se despojada de sua dignidade e não tem mais nada a oferecer. O dom de si não foi dado, mas roubado. Homem e mulher foram violentados e ficaram vazios.

Para transformar o desespero em amor, é preciso que você se veja pelo olhar de Deus. Um homem que percebe que a mulher se valoriza por se sentir amada por Deus não avança sobre os limites delas, pois sabe que será recusado.

Deus lhe deu a missão de ser senhora de seu próprio mistério. Os pretendentes ficarão frustrados se não lhe derem o devido respeito. Você merece ser amada e reverenciada no seu mistério.

 

 2. Uma Relacionamento a ser Perseguido

No Princípio, Deus disse, Façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gn 1, 26). Na Santíssima Trindade há três Pessoas que subsistem na relação de uma para com as outras. João Paulo dizia de Deus que era uma “Comunhão de Pessoas” que gera a Vida. De modo semelhante, se pode também dizer isso do homem e da mulher. A capacidade de se relacionar com o outro é especialmente visível na mulher.

Pergunta-se se isso seria da natureza ou da educação. Uma pesquisadora feminista afirmou que essas diferenças entre o homem e a mulher seriam um controle mental patriarcal[5]. Uma socióloga, para prova isso, criou a sua filha como se fosse um garoto. Em vez de bonecas, lhe deu carrinhos e armas de brinquedo A pesquisadora admitiu que se viu francamente frustrada quando a sua filha insistia em tapar com o cobertor os seus caminhõezinhos. Outra mãe, que tinha dado brinquedos unissex à filha conta que a filha punha o caminhão de bombeiros na sua cama, lhe fazia carinho e dizia “Não se preocupe, caminhãozinho, tudo vai ficar bem”[6].

Em seu livro “O Cérebro Feminino”[7], a Doutora Louann Brazening, ensina que um menino com oito semanas, ainda no ventre da mãe, recebe testosterona o que ocasiona a morte de células ligadas à comunicação e desenvolve áreas ligadas à agressividade e ao sexo. Na adolescência, o cérebro feminino amadurece dois ou três anos antes do masculino. O cérebro feminio possui mais neurônios para a linguagem, a escuta, e maior área reservada à emoções e memórias. Os dois hemisférios cerebrais são melhor conectados, facilitando a fala, o pensamento e as emoções. A mulher fala três vezes mais que o homem (20 mil palavras para 7 mil), e tem maior capacidade de ler as emoções e expressar emoções.

Deus deu esses dons à mulher a fim de lhe preparar para a maternidade e para abrir-se aos outros no amor.

A abertura e a acolhida para os outros é uma característica feminina e, no contexto da sexualidade, essa abertura é a que possibilita gerar a vida. Assim como Deus toma a iniciativa de dar a Vida sobrenatural, a Igreja é chamada “esposa de Cristo” por se abrir ao seu dom. No corpo feminino se delinea essa característica espiritual do gênio feminino. A Virgem Maria com o seu “sim” a Deus é a melhor imagem de feminilidade que temos.

Essa abertura a Deus qualifica a humanidade do homem e da mulher e teríamos de resistir à tentação de considerarmos vitoriosos ou fracassados apenas pelas relações que temos com os outros, ou pelas obras que fazemos. Deus nos ama singularmente e isso basta.

Pelos efeitos do pecado original ou por algum abuso, a mulher pode ser ferida na sua receptividade. Seja por causa de erros do passado, seja pelo sofrimento causado por um abuso sexual, seja pela contracepção ou pelo aborto, quer seja pelo lesbianismo, a mulher fecha-se ao outro. Ou, ainda, quando a dependência do rapaz se torna de tal modo doentia que ela substitui a relação com Deus.

Para a cura dessas feridas afetivas, o primeiro passo consiste em confiar em Deus e sua misericórdia. Deus não nos ama pelo o que fazemos ou pelos nossos méritos. Ele nos ama antes disso. Ama por que somos seus filhos, suas filhas. Ama-nos mesmo com os nossos pecados ainda que Ele seja suficientemente sábio para exigir de nós a rebeldia contra o pecado e toda escravidão. Somos amados muito mais que merecemos. E, ao se sentir amada por Deus, a mulher se abre com maior facilidade para os outros, tornando-se um sinal do amor de Deus na terra.

 

3. A Beleza para ser revelada

Nada na terra se compara à beleza feminina. Ou, conheces alguém viciado em olhar para pôr-do-sol? Conheces algum adolescente que trocam mensagens com imagens de flamingos ou cachoeiras? Tudo isso é muito bonito, mas nada se compara.

No livro do Gênesis, a criação progride num crescendo e a mulher é o trabalho final de Deus. Deus deu uma forma física e espiritual bela para a mulher. Como Deus, a beleza não é algo que ela faz, mas algo que ela é. Não se capta o mistério de Eva numa cena brutal de combate, ou quando ela estivesse derrubando uma árvore. Os atistas desde tempos imemoriais a representaram descansando. Não há agenda, nem preconceitos, nem pressão cultural. Eva fala ao mundo de modo diferente que Adão. A beleza é poderosa. Pode ser a coisa mais poderosa da terra. E, por isso, é perigoso. E, também, importante.

Uma mulher num comercial ou propaganda atrai a atenção por 30% mais tempo. O corpo é a revelação da pessoa. E, a beleza do corpo quer apontar para algo maior, a beleza da pessoa feminina.

A partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor (Sb 13, 5).

Dostoyevsky escreveu que “A Beleza salvará o mundo”. Agora, mais do que nunca, a beleza tem sido distorcida ou idolatrada. O Arcebispo Fulton Sheen dizia que “A beleza de fora nunca chega a tocar alma. Mas, a beleza de alma se reflete no rosto”[8].

Não seja o vosso adorno o que aparece externamente: cabelos trançados, ornamentos de ouro, vestidos elegantes; mas tende aquele ornato interior e oculto do coração, a pureza incorruptível de um espírito suave e pacífico, o que é tão precioso aos olhos de Deus (1Pd 3, 3-4). Não que a beleza exterior seja má, mas o mais importante é a virtude.

Muitos dizem às mulheres abandonarem sua beleza em favor da revolução ou para fazer qualquer coisa de produtivo. Se esquecem que o mundo precisa beleza, compaixão e a força da verdadeira feminilidade.

Santa Teresa de Jesus viveu no século XVI e é um exemplo da beleza em ação. Sua estátua esculpida por Bernini fala da experiência mística que, paradoxalmente, é de dor e felicidade, algo como a Cruz de Cristo ou como a união nupcial.

Santa Teresa Benedita da Cruz, conhecida pelo nome de Edith Stein nasceu numa família judia, tornou-se ateia na adolescência, doutorou-se em filosofia da Alemanha e se converteu ao ler a autobiografia de Santa Teresa de Jesus. Continuou com sua vida acadêmica, encorajando às mulheres a atuarem na política, na sociedade e na educação trazendo o específico do feminino para essas atividades. Mais tarde se tornará carmelita. Essas duas santas influíram profundamente no pensamento e na espiritualidade do Papa João Paulo II.

“Obrigado a ti, mulher, pelo simples fato de seres mulher! Com a percepção que é própria da tua feminilidade, enriqueces a compreensão do mundo e contribuis para a verdade plena das relações humanas”[9].

Depois do pecado original, Adão olha para a Eva de um modo diferente. Ele tem dificuldade de ver o corpo dela como um chamado de Deus para o Amor. Uma tentação demoníaca é fazer a mulher pensar que não é bonita. E os meios de comunicação reforçam a “ditadura da beleza”. Ou ela se submete aos padrões irreais, ou se rebaixa, deixando-se manipular pela luxúria masculina.

Como ter uma boa autoimagem? Como curar essas marcas do pecado? A Igreja sempre foi entendida como a esposa de Cristo. De modo que essa palavra do Cântico dos cânticos adquire um novo significado para as batizadas: Como és formosa, amiga minha! Como és bela! Teus olhos são como pombas (Ct 1, 15). E ela responde  Cristo: Sua boca é cheia de doçura, tudo nele é encanto. Assim é o meu amado, tal é o meu amigo, filhas de Jerusalém! (Ct 5, 16).

Deus nem sempre é apresentado com uma imagem masculina. Regozijai-vos com Jerusalém e encontrai aí a vossa alegria, vós todos que a amais; com ela ficai cheios de alegria, vós todos que estais de luto, a fim de vos amamentar à saciedade em seu seio que consola, a fim de que sugueis com delícias seus peitos generosos (Is 66, 10-11).

A pureza do amor masculino e feminino são sinais do Amor de Deus, o nosso amor, é a sua Glória. O corpo feminino é um especial sinal da beleza de Deus. Deus lhe deu beleza e a capacidade de gerar a vida. Por isso, a mulher é a imagem de Deus na terra. Ela não é um simples objeto. A primeira ferramenta para a correta valorização do outro é a modéstia no agir e no se vestir. Assim, ela é a “ministra da beleza”[10].

 

[1] O presente artigo é como que um resumo do livro: Jason Evert, Theology of her body, discovering the Beauty and Mystery of Femininity, Ed. Ascension Press, 2009. É um resumo ligeiro, grosseiro, apenas com fins didáticos.

[2] Alice von Hildebrand, Woman as the Guardians of Purity, Homiletic and Pastoral Review (March 2004), 14-18; citation at 15 apud Jason Evert, idem, p. 5.

[3] Jason Evert, idem, p. 11.

[4] Dos Tratados sobre a Primeira Carta de São João, de Santo Agostinho, bispo, Tract.4,6: PL 35,2008-2009.

[5] Sheila Ruth, Issues in Feminism: An Introduction to Womens’s Studies (New York: McGraw-Hill, 2000).

[6] Louann Brizendine, The Female Brain (New York: Morgan Road Books, 2006), 12.

[7] The Female Brain, sem tradução para o português.

[8] Fulton Sheen, as quoted in True Girl 1, 1 (February/March 2006).

[9] João Paulo II, Carta às Mulheres,1995, n. 2.

[10] Eden, 150.

Pérolas aos porcos

Fonte:

https://padrepauloricardo.org/blog/as-perolas-jogadas-aos-porcos

perolas-aos-porcos-frame

Não existe nada mais terrível que ver um grande tesouro afundado em um denso lamaçal. Por isso a advertência do Evangelho: “Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas” [1]. A pérola é algo muito precioso. A simples razão ensina ao homem que aquilo que é precioso deve ser guardado, tratado com bastante zelo e cuidado. Aos porcos, lança-se lavagem, não pedras preciosas; aos porcos, lançam-se as sobras, não aquilo que se tem em alta conta.

No mundo antigo, no entanto, certas pérolas jaziam afundadas na lama e foi o Cristianismo, com a verdade de sua doutrina e o vigoroso testemunho de seus adeptos, que recuperou a razão e a justiça então obscurecidas pelos pecados dos homens. Em tempos como os nossos, em que um malfadado feminismo prega ódio e desrespeito à religião, nada melhor que lembrar o respeito e a dignidade que a religião cristã devolveu às mulheres “em sua condenação do divórcio, do incesto, da infidelidade conjugal e da poligamia” [2].

O Império Romano foi escolhido por Deus para presenciar a “plenitude dos tempos” [3]. Era o ambiente apropriado para a visita de um Senhor preocupado mais com os enfermos e pecadores que com os saudáveis e justos [4]. De fato, a situação em que aí se encontravam os homens – e principalmente as mulheres – era degradante. As leis e escritos da época pressupunham “o direito de abandonar os filhos do sexo feminino” e a “a prerrogativa [dos homens] de determinar às esposas e amantes que praticassem o aborto” [5]. Uma sociedade permissiva como a antiga – em que o divórcio era plenamente acessível e a poligamia amplamente praticada – dava à figura masculina poder de subjugar as mulheres, tornando-as mais escravas que seres humanos de verdade.

Assim se encontrava o mundo antigo – com louváveis exceções, verificadas num e noutro lugar – até a chegada de Cristo. Com Ele, que, no seio do Pai, escolheu uma mulher para ser a mais virtuosa criatura que a terra viria a conhecer; com Ele, que, ressuscitado, apareceu primeiro a mulheres [6]; com Ele, que, pela boca de São Paulo, abolia todas as distinções entre as pessoas – já não havia mais “judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher” [7], mas todos eram um só em Cristo; com Ele, restaurou-se a esperança à feminilidade então tão suja e obscurecida pelo pecado e pela vileza humana. Historicamente, é inegável: “a mulher em si mesma (…) nunca foi tão exaltada como no cristianismo” [8].

A tradição cristã impregnou na cultura ocidental a consciência de que a mulher é muito mais que seus atributos físicos e naturais; que a mulher não é um pedaço de carne a ser idolatrado, mas um todo de humanidade através do qual é possível vislumbrar a eterna beleza do Criador. Ainda hoje, mulheres que aceitaram a doutrina cristã sobre a modéstia dão testemunho da leveza, da delicadeza e da simplicidade da autêntica beleza feminina.

“[A mulher] tem outras belezas muito mais excelentes e nobres: a beleza da sua inteligência, a beleza dos seus sentimentos e, sobretudo, a beleza da sua virtude e do seu caráter. Não se pode prescindir desta beleza espiritual, sob pena de rebaixar e degradar a mulher à condição vil dos irracionais. Seria o mesmo que entregar uma criatura humana, a pretexto de que é composta de carne e ossos, aos cuidados e ao laboratório do veterinário” [9].

Por isso, não é possível olhar para certas reivindicações de movimentos ditos “progressistas” senão com ceticismo e vergonha. Feministas que vão às ruas pelo direito de ser “vadias” ou que se proclamam “prostitutas” [10] podem estar fazendo o que for, menos defendendo a dignidade da mulher. Rebaixar-se à disposição aparentemente “livre” dos próprios corpos – como se fossem apenas matéria –, expor totalmente as próprias pernas e partes íntimas ao público – como se fossem pedaços de carne num açougue –, pedir o “direito” de matarem os próprios filhos que são concebidos em seu ventre – como se esses fossem mera “extensão” de seus membros –, não só é desconsiderar o alto valor que têm as mulheres – muito maior que o preço das pérolas e das joias mais caras! É como entregá-las “aos cuidados e ao laboratório do veterinário”; é transportá-las ao nível dos animais; é, real e lamentavelmente, lançá-las aos porcos.

Marcha das vadias

O que querem essas senhoritas – que dizem “representar” as mulheres – é a volta à Antiguidade, no mais horrível e decadente de seus aspectos; a volta ao aborto e ao infanticídio, ao divórcio e à poligamia, à degradação sexual e à permissividade dos costumes… na ilusão de que tudo isso as liberte. Só que a história é uma grande mestra: esses instrumentos que as feministas de hoje consideram “libertadores” são, miseravelmente, as mesmas armas que as prenderam à escravidão noutros tempos. Não as tornam “mais mulheres”; au contraire, colocam-nas abaixo de sua própria natureza e vocação; lançam-nas, terrivelmente, aos cães e aos porcos.

Corruptio optimi pessima est, diz um adágio latino. A corrupção dos ótimos é péssima, a corrupção de quem deveria, por sua alta dignidade, ser melhor, é ainda pior que as outras corrupções. A corrupção da mulher, pelo feminismo, deforma-a a ponto de torná-la irreconhecível… como uma pérola escondida em um chiqueiro, como uma joia cujo brilho é ofuscado por uma porção de lama.

Ainda hoje – e especialmente hoje –, ressoam firmes as palavras de Cristo: “Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas”. Que as mulheres tomem consciência do grande dom e do alto valor que possuem – e correspondam com coragem à sua dignidade.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere