Portanto, consideramos apenas os crimes contra as pessoas, os que constituem a essência do fenómeno do terror. Esses respondem a uma nomenclatura comum, mesmo que tal prática seja mais acentuada neste ou naquele regime: execução por meios diversos – fuzilamento, enforcamento, afogamento, espancamento e, em alguns casos, gás de combate, veneno ou acidente de automóvel; destruição pela fome – indigência provocada e/ou não socorrida; deportação – a morte podendo ocorrer no curso do transporte (em caminhadas a pé ou em vagões para animais) ou nos locais de residência e/ou de trabalhos forçados (esgotamento, doença, fome, frio). O caso dos períodos ditos de “guerra civil” é mais complexo: não é fácil distinguir o que decorre do combate entre poder e rebeldes e o que é massacre da população civil.
Contudo, podemos estabelecer os números de um primeiro balanço que pretende ser somente uma aproximação mínima e que necessitaria ainda de uma maior precisão, mas que, de acordo com estimativas pessoais, dá uma dimensão da grandeza e permite sentir a gravidade do assunto:
– URSS, 20 milhões de mortos,
– China, 65 milhões de mortos,
– Vietnã, 1 milhão de mortos,
– Coreia do Norte, 2 milhões de mortos,
– Camboja, 2 milhões de mortos,

– Leste Europeu, 1 milhão de mortos,
– América Latina, 150.000 mortos,
– África, 1,7 milhão de mortos,
– Afeganistão, 1,5 milhão de mortos,
– Movimento comunista internacional e partidos comunistas fora do poder, uma dezena de milhões de mortos.
O total se aproxima da faixa dos cem milhões de mortos.
Essa escala de grandeza recobre situações de grande disparidade. É incontestável que, em valor relativo, o “trofeu” vai para o Camboja, onde Pol Pot, em três anos e meio, conseguiu matar da maneira mais atroz – a fome, a tortura – aproximadamente um quarto da população total do país. Entretanto, a experiência maoísta choca pela amplitude das massas atingidas. Quanto à Rússia leninista ou stalinista, ela dá calafrios por seu lado experimental, porém perfeitamente refletido, lógico, político.

fonte:

JEAN-LOUIS PANNÉ, ANDRZEJ PACZKOWSKI, KAREL BARTOSEK JEAN-LOUIS MARGOLIN. O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO: Crimes, terror e repressão.BCD união de editoras. Rio de Janeiro, RJ, 1999.

O comunismo cometeu inúmeros: inicialmente, crimes contra o espírito, mas também crimes contra a cultura universal e contra as culturas nacionais. Stalin ordenou a demolição de centenas de igrejas em Moscou; Ceaucescu destruiu o coração histórico de Bucareste para construir edifícios e traçar perspectivas megalomaníacas; Pol Pot fez com que fosse desmontada pedra por pedra a Catedral de Phnom Penh e abandonou à selva os templos de Angkor; durante a revolução cultural maoísta, tesouros inestimáveis foram quebrados ou queimados pelas Guardas Vermelhas. Entretanto, por mais graves que tenham sido essas destruições, a longo prazo, para as nações envolvidas e para a humanidade inteira, em que medida elas pesam em face do assassinato em massa de
pessoas, de homens, de mulheres, de crianças?

Fonte:

JEAN-LOUIS PANNÉ, ANDRZEJ PACZKOWSKI, KAREL BARTOSEK JEAN-LOUIS MARGOLIN. O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO: Crimes, terror e repressão.BCD união de editoras. Rio de Janeiro, RJ, 1999.

“Ora, os  cri…

Aparte

“Ora, os  crimes do comunismo  não  foram  submetidos  a uma  avaliação  legítima e normal,  tanto do ponto de vista histórico quanto do ponto de vista moral”.

Fonte:

JEAN-LOUIS PANNÉ, ANDRZEJ PACZKOWSKI, KAREL BARTOSEK JEAN-LOUIS MARGOLIN. O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO: Crimes, terror e repressão.BCD união de editoras. Rio de Janeiro, RJ, 1999.

CASAL CRISTÃO: IDE E EVANGELIZAI

 Dom Dimas Lara Barbosa 

“A família é um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos e caribenhos e é patrimônio da humanidade inteira. Em nossos países, uma parte importante da população está afetada por difíceis condições de vida que ameaçam diretamente a instituição familiar. Em nossa condição de discípulos e missionários de Jesus Cristo somos chamados a trabalhar para que esta situação seja transformada e a família assuma seu ser e sua missão no âmbito da sociedade e da Igreja” (DAp 432).

1. Áquila e Priscila: exemplo de um casal cristão
“Paulo deixou Atenas e foi para Corinto. Aí encontrou um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, que acabava de chegar da Itália, com sua esposa Priscila, pois o imperador Cláudio tinha decretado que todos os judeus saíssem de Roma. Paulo entrou em contato com eles. Como tinham a mesma profissão – eram fabricantes de tendas – passou a morar com eles e trabalhar ali” (At 18,1-3).
Começou, assim, uma amizade duradoura. Esse casal acompanhará Paulo em suas viagens apostólicas. Continuam narrando os Atos dos Apóstolos que, saindo de Corinto, Paulo “navegou para a Síria e com ele Priscila e Áquila” (At 18,18). Dessa forma foi-se acendendo neles o desejo de levar Cristo a muitos. O Apóstolo deixa-os em Éfeso (cf. At 18,19) e parte para Cesaréia, Jerusalém e Antioquia, passando depois pelas regiões da Galácia e da Frígia (cf. At 18,19-23). Nesse meio tempo, chega a Éfeso um homem chamado Apolo, “homem eloqüente, versado nas Escrituras. 25Tinha recebido instrução no caminho do Senhor e, com muito entusiasmo, falava e ensinava com exatidão a respeito de Jesus, embora só conhecesse o batismo de João” (At 18,24-25).
Sobre esta passagem, comenta um santo dos nossos dias: “Áquila e Priscila, um casal de cristãos, ouvem as suas palavras e não permanecem inativos e indiferentes. Não lhes ocorre pensar: este já sabe bastante; ninguém nos manda dar-lhe lições. Como eram almas com autêntica preocupação apostólica, aproximaram-se de Apolo, levaram-no consigo e instruíram-no mais acuradamente na doutrina do Senhor (At 18,26)[1].
Depois de receber a instrução desse casal, como Apolo “estava querendo passar para a Acaia, os irmãos apoiaram-no e escreveram aos discípulos para que o acolhessem bem.. A presença de Apolo aí foi muito útil aos que tinham abraçado a fé – pela graça \de Deus.Pois ele refutava vigorosamente e em público os judeus, demonstrando pelas Escrituras que Jesus é o Cristo” (At 18,27-28). Aquele simples casal cristão, fabricante de tendas, ajudou a preparar um dos grandes pregadores do início do cristianismo.
“Talvez não se possa propor aos esposos cristãos melhor modelo que o das famílias dos tempos apostólicos: o centurião Cornélio, que foi dócil à vontade de Deus, e em cuja casa se consumou a abertura de Igreja aos gentios (At 10,24-48); Áquila e Priscila, que difundiram o cristianismo em Corinto e em Éfeso, e que colaboraram com o apostolado de São Paulo (At 18,1-26); Tabita, que com a sua caridade assistiu aos necessitados de Jope (At 9,36). E tantos outros lares de judeus e gentios, de gregos e romanos, aos quais chegou a pregação dos primeiros discípulos do Senhor.
Famílias que viveram de Cristo e que deram a conhecer Cristo. Pequenas comunidades cristãs, que atuaram como centros de irradiação da mensagem evangélica. Lares iguais aos outros lares daqueles tempos, mas animados de um espírito novo, que contagiava os que os conheciam e que com eles se relacionavam.
Assim foram os primeiros cristãos e assim havemos de ser nós, os cristãos de hoje: semeadores de paz e de alegria, da paz e da alegria que Jesus nos trouxe”[2].

2. “Ninguém dá o que não tem”

A evangelização não é uma técnica, não é apenas uma transmissão de conhecimentos sobre a religião católica. É fruto da conversão pessoal que, como exemplo de vida, faz com que outros sejam atraídos para Cristo. Aqueles primeiros casais de cristãos não tinham livros, ainda não tinham o Novo Testamento, não haviam sido escritos os Catecismos nem os manuais de teologia. Anunciavam a Cristo com as suas palavras, mas especialmente com as suas vidas.
Daí a grande importância do exercício pessoal das virtudes humanas e cristãs, que são a demonstração clara que queremos seguir a Cristo. A compreensão, o mútuo respeito e outras virtudes aprendidas no lar, como a primeira e melhor escola, têm repercussão num âmbito mais amplo. Se no seio da família se aprendeu a dialogar, a compreender os pontos de vista dos outros, a ceder à própria opinião, a prestar serviços, será mais fácil transmitir esses modos de proceder à sociedade.
“A promoção de uma autêntica e madura comunhão de pessoas na família converte-se em (…) exemplo e estímulo para as relações comunitárias mais amplas num clima de respeito, justiça, diálogo e amor”[3]. Por isso, “é fundamental que os pais dêem, nas suas famílias, um exemplo de vida coerente”[4].
E mais: “É urgente, em todas as partes, refazer o espírito cristão da sociedade (…). Os fiéis leigos – devido à sua participação no ofício profético de Cristo – estão plenamente implicados nesta tarefa da Igreja. Em concreto, corresponde-lhes testemunhar como a fé cristã – mais ou menos conscientemente percebida e invocada por todos – constitui a única resposta válida aos problemas e expectativas que a vida coloca a cada homem e a cada sociedade. Isto será possível se os fiéis leigos sabem superar, neles mesmos, a ruptura entre o Evangelho e a vida, recompondo na sua vida familiar cotidiana, no trabalho e na sociedade, essa unidade de vida que no Evangelho encontra inspiração e força para realizar-se com plenitude[5].
Aqui é grande a importância da vivência dos Sacramentos por parte do casal, sobretudo a Eucaristia, onde se unem profundamente a Cristo, e a Confissão freqüente, onde se levantam e recebem a orientação segura para começar e recomeçar sempre.

3. Primeiro local de evangelização: o próprio lar

A família é a primeira escola das virtudes sociais[6]. Com freqüência, parece ser mais cômodo, mais fácil, mais gratificante cuidar dos filhos dos outros que dos próprios. No entanto, seria um grave erro edificar a vida espiritual e apostólica às margens do próprio lar, evangelizar os de fora, em detrimento dos de dentro, dos que estão mais próximos de nós.
Os lares cristãos são chamados a serem sementeiras de vocações, sacerdotais, religiosas e leigas, de pessoas decididas a serem santos de verdade. Certamente, a formação na fé, como acontece com todo processo educativo, deve ser progressiva, adequada à idade de cada um, respeitando a situação concreta em que cada um se situa. Deve, sobretudo, ser regada com muito amor.
Enquanto busca a santificação, a família:
a) É chamada a ser uma comunidade orante, a brilhar pelo dom e pela arte da oração, ser escola de oração, de que Maria e o próprio Jesus são modelos e mestres. A oração é para a família um dom. O seu artífice é o próprio Espírito Santo, que desperta em nós o desejo de orar, conduz a nossa oração e, para que ela seja possível, cria a necessária comunhão entre nós e o Pai. Assim, a oração é a expressão da luz e da beleza do Espírito Santo em nós e fonte de profunda alegria para quem crê.
b) É chamada a fazer a experiência do perdão, da partilha, da correção fraterna, do acolhimento, do amor, na vivência dos valores propostos por Jesus, de modo que todos contribuam para a santificação uns dos outros.
c) È chamada a ser Igreja doméstica, vivendo intensamente o amor, que se manifesta de modo especial no serviço, na atenção, no cuidado, na busca do bem maior.
d) Não pode ser uma comunidade fechada em si mesma, mas deve estar presente no mundo e também nele exercer a sua missão, de modo que a Igreja se faça presente na realidade secular.
e) Fiel à vocação a que foi chamada pela graça do batismo e do matrimônio, deve testemunhar, no mundo, os valores do Evangelho, o que supõe a condição de discípulos e missionários.
Corresponde, portanto, aos pais fazer que seus filhos, superando os limites da própria família, abram seu espírito à idéia de comunidade, tanto eclesiástica como temporal[7].
O que se pode fazer no lar? Eis apenas alguns exemplos:
– Dever de sentar: estendê-lo de vez em quando aos filhos, sobretudo quando já têm suficiente discernimento.
– Orações familiares em conjunto: bênção dos alimentos, orações juntos antes de dormir, etc.
– Leitura e explicação da Bíblia, conforme a idade dos filhos.
– Aproveitar os tempos fortes, como a Novena de Natal em família, Campanha da Fraternidade, Aniversários, Mês da Bíblia, Mês Vocacional, Campanha Missionária…
– Montagem do Presépio (Bento XVI, Advento de 2008)
– Retomar a prática do Terço em família (João Paulo II em Aparecida, 1980)
– Fomentar a generosidade com os mais necessitados (visitas a creches, orfanatos, asilos, etc.)
– A missão dos avós (Bento XVI na Espanha)

4. Missão na Família e da Familia

Além disso, as portas do lar deveriam estar abertas a outras pessoas e famílias, num espírito marcadamente missionário. O Papa João Paulo II, dirigindo-se a um grupo de casais que promoviam atividades de orientação familiar, animava-os a ajudar um grande número de famílias a educar seus filhos, começando por procurar a melhora pessoal, um conhecimento mais objetivo dos vossos filhos e tomando consciência da necessidade de preocupar-vos também pelos filhos dos outros. Neste campo, em primeiro lugar é preciso estar bem convencidos do lugar originário e fundamental que ocupa a família, tanto na sociedade como na Igreja[8].
A missão do casal cristão, portanto, vai muito além do dever de cuidar da própria família. A comunidade familiar é convocada a estar aberta às outras comunidades semelhantes e à sociedade inteira, como células de um organismo sadio que, mesmo tendo vida própria, cooperam para o bem do corpo inteiro.
A confluência de gerações dentro de uma mesma família é uma riqueza que é preciso apreciar: pais e filhos, os avós e outros parentes próximos e, também, conforme a situação, as pessoas que se ocupam do serviço doméstico. Muitos desses servidores foram evangelizadas e até batizadas ou celebraram sua Primeira Eucaristia no seio da família em que trabalhavam.
E mais! A família, em virtude da sua natureza e vocação, longe de encerrar-se em si mesma, abre-se às outras famílias e à sociedade, assumindo sua função social[9]. A vida familiar pode, assim, alcançar um grande eco, um efeito multiplicador enorme em prol de toda a sociedade.
A família cristã hoje, sobretudo, tem uma vocação especial para ser testemunha da aliança pascal de Cristo, mediante a constante irradiação da alegria do amor e da certeza da esperança, da qual deve dar razão[10].
Como já consideramos no início, assim se comportaram os primeiros cristãos. Os Atos dos Apóstolos narram como a primeira preocupação das pessoas casadas que se convertiam, por exemplo Lídia (cf. At 16,14), o guarda da prisão (cf. At 16,33) ou o chefe da sinagoga (cf. At 18,8), consistia em transmitir a fé em Cristo aos demais membros da família.
Diante de uma sociedade que corre o perigo de ser cada vez mais despersonalizada e massificada e, portanto, desumana e desumanizadora, tendo como resultados negativos tantas formas de “evasão” – como são, por exemplo, o alcoolismo, a droga e o próprio terrorismo –, a família possui e comunica, ainda hoje, energias formidáveis, capazes de tirar o homem do anonimato, de mantê-lo consciente da sua dignidade pessoal, de enriquecê-lo com uma profunda humanidade e de inseri-lo ativamente, com sua unicidade e irrepetibilidade, no tecido da sociedade[11].
Em outras palavras, não batam as atividades desenvolvidas em âmbito paroquial ou eclesial. É preciso levar a fé cristã a toda a sociedade. Ir ao encontro dos “novos areópagos e centros de decisão”[12]. Ter a coragem de enfrentar os ambientes difíceis, lugares aparentemente refratários à mensagem evangélica. Para isso, é preciso estar preparados para enfrentar temas difíceis e saber dar razão da nossa esperança (cf. 1 Pd 3,15). Mostrar que vivemos porque acreditamos, não porque nos disseram que é assim que se deve fazer. É preciso formar-se bem e com profundidade; estudar os temas atuais, especialmente os mais atacados, e dar respostas convincentes, não apenas decoradas, mas aquelas que se podem defender com argumentos sérios, também lógicos e científicos, sem se esquecer de pedir as luzes do Espírito Santo para tomar a dianteira.
Outro local importante para a ação do casal cristão são as escolas onde estudam seus filhos. A mobilização dos pais e seu envolvimento nas decisões, sejam elas referentes à infra-estrutura material, sejam de cunho pedagógico e formativo, tornam-se cada vez mais necessários. Como alerta a Conferência de Aparecida, as novas formas educacionais de nosso continente… aparecem centradas prioritariamente na aquisição de conhecimentos e habilidades e denotam claro reducionismo antropolóico… com freqüência, elas propiciam a inclusão de fatores contrários à vida, à família e a uma sadia sexualidade. Dessa forma, não não manifestam os melhores valores do jovens nem seu espírito religioso; menos ainda lhes ensinam os caminhos para superar a violência e se aproximar da felicidade, nem os ajudam a levar uma vida sóbria e adquirir as atitudes, virtudes e costumes que tornariam estável o lar que venham a estabelecer, e que os converteriam em construtores solidários da paz e do futuro da sociedade[13].

[1] SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ, Amigos de Deus, n. 269.
[2] SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ, É Cristo que passa, n. 30.
[3] JOÃO PAULO II, Familiaris consortio, 22/11/1981, n. 43.
[4] JOÃO PAULO II, Homilia, 3/11/1982.
[5] JOÃO PAULO II, Christifideles laici, 30/12/1988, n. 34.
[6] CONCÍLIO VATICANO II, Decreto Gravissimum educationis, n.3.
[7] CONCILIO VATICANO II, Decreto Apostolicam actuositatem, n.30.
[8] JOÃO PAULO II, Discurso ao VII Congresso Internacional sobre a Família, 7/11/1983, n.1-2.
[9] JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Familiaris consortio, 22/11/1981, n.52.
[10] Ibidem.
[11] Ibidem, n.43.
[12] Documento de Aparecida, n.491.
[13] Documento de Aparecida, n.328.