A presença de Deus

“Tudo o que fizerdes, em palavras ou obras, seja feito em nome do Senhor Jesus Cristo” (Cl 3, 17).

 

1.                 O que é o exercício da presença de Deus.

  1. 2.                 A presença de Deus e a inabitação da Santíssima Trindade na alma fiel.
  2. 3.                 A presença de Deus ao longo do dia: os meios.

 

  1. 1.                 O que é o exercício da presença de Deus.

Ler Jo 1, 35-39.

O Papa Bento, nos fala (Os apóstolos, testemunhas e enviados de Cristo. 22 de março de 2006) que

“À pergunta: «Que buscais?», eles respondem com outra pergunta: «Rabbi –que quer dizer “Mestre” — onde moras?». A resposta de Jesus é um convite «Vinde e vede» (Cf. Jo 1, 38-39). Vinde para poder ver. A aventura dos apóstolos começa assim, como um encontro de pessoas que se abrem reciprocamente. Para os discípulos começa um conhecimento direto do Mestre. Vêem onde vive e começam a conhecê-lo. Não terão de ser arautos de uma idéia, mas testemunhas de uma pessoa. Antes de serem enviados a evangelizar, terão de «estar» com Jesus (Cf. Mc 3, 14), estabelecendo com ele uma relação pessoal. Com este fundamento, a evangelização não é mais que um anúncio do que se experimentou e um convite a entrar no mistério da comunhão com Cristo (Cf. 1 Jo 13)” (grifo meu).

O exercício ascético da presença de Deus consiste em andar na presença de Deus ao longo do dia, transformando a vida inteira em oração.

Todos os santos permanecem em Deus, não somente nos momentos fortes de oração, que são como que usinas de energia espiritual, mas também ao longo do dia, na medida em que caminham pelo mundo levando consigo o tesouro escondido e a luz que brilha nas trevas.

Abrão tinha noventa e nove anos. O Senhor apareceu-lhe e disse-lhe: “Eu sou o Deus Todo-poderoso. Anda em minha presença e sê íntegro; quero fazer aliança contigo e multiplicarei ao infinito a tua descendência” (Gn 17, 1-2).

“Volta, minha alma, à tua paz, pois o SENHOR te fez o bem; ele me libertou da morte, livrou meus olhos das lágrimas, preservou de uma queda meus pés. Caminharei na presença do SENHOR na terra dos vivos” (Sl 116, 7-8).

“Em Deus confio, não temerei: o que um homem me pode fazer? Mantenho, ó Deus, os votos que te fiz: vou te render ações de graças, porque me livraste da morte, preservaste meus pés da queda, para que eu caminhe na presença de Deus, na luz dos vivos” (Sl 56, 12-14).

Uma estória:

A necessidade de respirar

Uma vez um homem decidiu consultar um estudioso sobre os seus problemas. Após uma longa viagem até o local onde vivia o Mestre, o homem finalmente conseguiu encontrá-lo: – “Mestre, eu venho a você porque eu estou desesperado, tudo dá errado e não sei mais o que fazer para ir à frente.” O sábio respondeu: – “Eu posso ajudar com isso … você sabe remar?” Um pouco confuso, o homem disse que sim. O mestre então levou-o à beira de um lago, pulou em um barco junto com o homem e começou a remar em direção ao centro, a pedido do mestre: – “Você vai agora explicar como melhorar minha vida?” Falando ao velho que gozava da viagem sem preocupações. – “Vá em frente, que temos de chegar ao centro do lago.” À chegada ao centro exato do lago, o mestre disse – “Ponha teu rosto perto da água e me diga o que você vê …”. O homem passou a maior parte de seu corpo por cima da borda do pequeno barco e tentando manter o equilíbrio, colocando seu rosto perto da água, mas não muito para entender porque que ele estava fazendo isso. De repente, o velho o empurrou e ele caiu na água. Ao tentar sair, o sábio segurou a sua cabeça com as duas mãos e o impediu de subir para superfície. Desesperado, o homem agarrando, chutando, se contorcia inutilmente sob a água. Quando ele estava prestes a afogar-se, então vamos o sábio o permitiu subir a superfície e depois para o barco. Depois de tosses e engasgos, ele gritou: – “Você está louco! Você não percebe que quase me afogou?”. Com o rosto sereno, o mestre perguntou: – “Quando você estava debaixo de água, o que era que você mais queria naquele momento?”. – Respirar, é claro! – “Bem, quando você necessitar de Deus com a mesma veemência com que necessitou da respiração, então você está preparado para ter sucesso …”. É tão fácil (ou difícil). Às vezes é bom para chegar ao ponto de “afogamento” para descobrir como enfocar os esforços para alcançar algo.

 

Rezemos em todo o tempo, não somente nos momentos previstos. No Catecismo da Igreja Católica (2742) diz:

Orai sem cessar(1Ts 5, 17), “dai sempre graças por tudo a Deus Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5, 20), “servindo-vos de toda a espécie de orações e preces, orai em todo o tempo no Espírito Santo; e, para isso, vigiai com toda a perseverança e com preces por todos os santos” (Ef 6, 18).

«É possível, mesmo no mercado ou durante um passeio solitário, fazer oração frequente e fervorosa; sentados na vossa loja, a tratar de compras e vendas, até mesmo a cozinhar» (São João Crisóstomo, De Anna, sermo 4, 6: PG 54, 668).

  1. 2.                 A presença de Deus e a inabitação da Santíssima Trindade na alma fiel.

Na sua despedida, o Senhor prometeu-nos não nos deixar órfãos, enviando o Espírito Defensor á Igreja e aos nossos corações.

São Paulo revela a presença da terceira pessoa, do Espírito Santo em nós: “Não sabeis que sois um templo, e que o Espírito Santo mora em vós?” (1Cor 3,16; 2Cor 6,16). E novamente (Rm 5,5): “O amor de Deus foi derramado em nós, pelo Espírito Santo que nos foi dado”.

Mas, o próprio Jesus Cristo também permaneceu. (Presença de Deus: “Vou e venho a vós” (Jo 14, 28). Conferir p. 254 Jesus de Nazaré II). Ele manifesta de muitos modos a sua presença.

A Sacrossanctum Concilium, n. 7, fala de algumas dessas presenças, especialmente na Liturgia:

Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro – «O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se ofereceu na Cruz» -quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos Sacramentos, de modo que, quando alguém batiza, é o próprio Cristo que batiza. Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt. 18,20).

No sermão da despedida, Jesus anuncia aos seus discípulos: “Um dia compreendereis que eu estou em vós e que vós estais em Mim” (Jo 14, 20).

E o Pai, está em nós? “quem me ama, guarda minha palavra. Meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada” (Jo 14,23).

A S. Trindade está em nossas almas: “Deus é amor e aquele que permanece no amor, permanece (mora) em Deus, e Deus nele” (1Jo 4,9).

Ter sede, ter sede, simplesmente, e abrir os peitos: o vazio que a fé nos trouxe, a graça o cumpre e o enche. Às vezes, temos sede de Deus e morremos de sede, tendo a fonte dentro das nossas almas em graça!

Pois Os primeiros cristãos viviam compenetrados desta presença divina. Sto. Inácio de Antioquia, mártir, diz que os cristãos são “teóforos”, isto é, levam Deus em sua alma.

São Leônidas, a caminho do martírio, despede-se do pequeno filho, beijando-lhe o coração: “Aqui mora Deus”.

Orígenes, ilustre filho deste Leônidas, escreveu a bela palavra: “Ó cristão, tu és um céu e irás ao céu”. Sto. Agostinho: “Carregando em nós o Deus do céu, somos céu”. Repete-o a  Imitação de Cristo (3,39), dizendo ao cristão: onde tu estás, aí está o céu.

“Os homens vivem à superfície de suas almas, sem penetrar nunca no interior” (Leseur)

A Isabel da Trindade ao conversar com uma carmelita amiga, exclama: “Mas não sente os três? Eu os sinto”.

“O Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17,21).

 

  1. 3.                 A presença de Deus ao longo do dia: meios (ver sobretudo, Presença de Deus in padrefaus.org).

 

“O Senhor é tão agradecido que não deixa sem prêmio um simples levantar de olhos com que nos lembramos dEle” (Santa Teresa, Caminho de perfeição, 23, 3).

 

1) – colocar nesses aparelhos eletrônicos de uso diário, e no computador de trabalho, alguma imagem de Cristo, de Maria Santíssima, de cenas evangélicas, de santos, etc

– A mesma finalidade pode-se alcançar por meio de um crucifixo ou de uma imagem de Nossa Senhora (ou de ambos). Também é ótimo utilizar como “despertador-lembrete”, um santinho, uma medalha…

– Eu gostaria ainda de lhe recomendar vivamente que carregue sempre consigo um pequeno crucifixo de bolso (além do seu terço ou tercinho de anel).

“Acorre perseverantemente ao Sacrário, de modo físico ou com o coração, para te sentires seguro, para te sentires sereno: mas também para te sentires amado… e para amar!” (Forja, 837)

São Josemaría escreveu (18.1.1932) um propósito: “Dedicarei o Domingo à Trindade Beatíssima. A Segunda-feira, às minhas boas amigas, as Almas do Purgatório. A Terça-feira, ao meu Anjo da Guarda e a todos os outros Anjos da Guarda, e a todos os anjos do céu sem distinção. A Quarta-feira, ao meu Pai e Senhor São José. A Quinta-feira, à Sagrada Eucaristia. A Sexta-feira, à Paixão de Jesus. O Sábado, à Virgem Santa Maria, minha Mãe”.

Encontram-se, por exemplo, trechos da Ave-Maria espalhados pelas margens dos textos de São Tomás, como jaculatórias que ajudavam o santo a manter o coração inflamado.

a)     Procure achar as jaculatórias dentro do seu coração. Rezar não pode ser nunca uma coisa mecânica

b)     Outra fonte de jaculatórias, maravilhosa, é a Bíblia.

c)     Finalmente, podemos encontrar um tesouro de jaculatórias na tradição da devoção cristã (bastaria pensar, por exemplo, nas numerosas jaculatórias de Ladainha lauretana, que costuma rezar-se após o Terço).

─ «Faça-se em mim segundo a vossa Vontade»

─ «Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso»

─ «Sagrado Coração de Jesus, em vós confio»

─ «Sagrado Coração de Jesus, dai-nos a paz»

─ «Vinde, Espírito Santo!»

─ «Doce Coração de Jesus, sede o meu amor. Doce Coração de Maria, sede a minha salvação»

─ «Jesus, José e Maria, dou-vos o coração e a alma minha»

─ «Senhor, eu me abandono em Vós, confio em Vós, descanso em Vós»

─ «Senhor, o que Tu quiseres, eu o amo»

─ «Jesus, dá-me o amor com que queres que eu te ame»

─ «Meu Deus, eu te amo, mas ensina-me a amar»

 

Mais algumas sugestões práticas

a) É muito útil associar habitualmente alguma jaculatória a um determinado ato.

b) Quero dizer que escolhem uma jaculatória por dia, como “senha”, como “lema” daquele dia.

c) Finalmente, se você é pessoa que gosta de acompanhar os “tempos litúrgicos” e as festas e tradições da Igreja com devoção (Quaresma, Páscoa, Mês de Maria, novena do Espírito Santo, etc.), sugiro-lhe que escolha como “senha”, nesses tempos, jaculatórias relacionadas com eles (na Quaresma, atos de dor dos pecados, de contrição; na Páscoa, atos de fé em Jesus ressuscitado, no Mês de Maio e na Novena da Imaculada Conceição, algumas jaculatórias dedicadas a Nossa Senhora, etc.).

 

Salmo 15

— Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio!

— Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio!

— Ó Senhor, sois minha herança e minha taça,/ meu destino está seguro em vossas mãos!/ Tenho sempre o Senhor ante meus olhos,/ pois se o tenho a meu lado não vacilo.

— Eis por que meu coração está em festa,/ minha alma rejubila de alegria,/ e até meu corpo no repouso está tranquilo;/ pois não haveis de me deixar entregue à morte,/ nem vosso amigo conhecer a corrupção.

— Vós me ensinais vosso caminho para a vida;/ junto a vós, felicidade sem limites,/ delícia eterna e alegria ao vosso lado!

 

Anúncios

Ite ad Joseph (Gn 37-45). 1 hora.

Introdução

José como figura de Jesus Cristo.

 

  1. 1.                 A traição.

Seus irmãos lhe roubam a túnica, o jogam numa cisterna (prisão), e comem. O pecado é uma traição que abala todas as relações: com Deus e com os outros. Eu reconheço que pecar é dizer uma vez mais “Crucifica-o”?

  1. 2.                 A santa pureza.

Putifar. Tentação da pureza como dilema entre pecado fácil, ou integridade difícil. Eu tenho a mesma resolução de José em não pecar contra a castidade?

  1. 3.                 Ambientes adversos.

A família, ambiente impuro, prisão, o trabalhoso encargo para o Faraó: unidade de vida, sem respeitos humanos. Sem tristeza, nem desânimo. “Homem de duas caras”. Eu sou uma presença positiva em todos os ambientes?

  1. 4.                 Prudência (econômica).

O estudo da juventude. O espírito de profissionalismo. Santificar o trabalho. Eu busco fazer meu trabalho com amor e profissionalismo?

  1. 5.                 Justiça, Confissão e Misericórdia.

Os irmãos merecem a cadeia. Mas, a misericórdia é restaurativa. É preciso confessar os pecados para alcançar a misericórdia. Eu me reconheço necessitado de misericórdia de Deus?

  1. 6.                 Ide a José.

Reconhecer o rosto misericordioso de Jesus Cristo. Jesus acrescenta, não tira nada de bom e verdadeiro da vida. Formar uma grande família novamente. Para uns, o rosto de Deus será irado, para outros, misericordioso, dependendo da confissão dos pecados. O sacramento da Reconciliação é o meio para sermos julgados pelo tribunal da misericórdia.

A união e a espera por Deus

O Papa João Paulo II afirmou que o matrimônio é, de certo modo, um protótipo para os demais sacramentos. O Batismo, a Crisma, a Eucaristia, os sacramentos da Cura e o da Ordem podem ser relidos a partir do matrimônio espiritual entre Deus e a humanidade. A Eucaristia, por exemplo, é o “banquete nupcial do Cordeiro” como diz a Liturgia e o livro do Apocalipse.

O matrimônio não é apenas uma benção, mas um encontro com Cristo. O sacramento não serve apenas para recebermos alguns dons e efeitos espirituais para constituir uma união duradoura. O matrimônio é, diariamente, um meio próprio e santo para se encontrar com Nosso Senhor Jesus Cristo e estabelecer um diálogo com ele. Afinal, quando o esposo se doa à esposa, não está se doando apenas a ela, mas à “imagem e semelhança de Deus” que há nela. Ainda mais, o encontro entre o esposo (fulano) e a esposa (fulana) é o encontro entre o Esposo (Jesus Cristo) e a Esposa (a Igreja). Ver Deus no cônjuge: eis o vosso desafio.

O matrimônio é uma realidade sacramental, pelo sinal visível da união esponsal vê-se uma realidade invisível: “Homens, amai vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5, 25). Dessa realidade invisível, provém a graça sacramental e a graça de estado para que ambos, esposo e esposa, se amem e tenham filhos, não apenas movidos por uma decisão ou pela paixão, mas pela ação do Espírito Santo. Assim, o matrimônio é caminho de santidade, e ainda, se torna possível a fidelidade até a morte, pois “Deus é fiel”[1].

Perceber que há algo de santo que se realiza no matrimônio é o primeiro passo. Depois, se precisa viver de acordo com esse dom a fim de se aproveitá-lo e o preservar. Georges Chevrot escreveu o livro As pequenas virtudes do lar, da editora Quadrante. O seu índice é o seguinte: “A pequena virtude da cortesia… do passar despercebido… da gratidão… da sinceridade… da discrição… da esperança… do bom humor… da benevolência… da economia… da pontualidade… da diligência… da paciência… e da perseverança”. Sem essa fila de pequenos hábitos, a convivência poderá se tornar problemática, por mais santo que seja o matrimônio. Pois, sem a humildade e a caridade que dão cor às virtudes, a convivência humana se torna insuportável.

O matrimônio já é uma prova do amor de Deus por nós. E é também a espera por bens ainda maiores, um Amor que olho algum jamais viu, imaginação alguma pressentiu a profundidade, a altura e a largueza Desse Senhor, que se prepara para se encontrar conosco. “À meia-noite ouviu-se um grito: Aqui está o noivo, saí para recebê-lo”! (Mt 25,6).


[1] Cf. 1Cor 1, 9; 10, 13; 2Cor 1,18; Dt 7, 9; Is 49, 7; 55, 3; Jr 42, 5; Os 11, 12; Hb 2, 17, etc.

Pinceladas sobre a castidade hoje

Os cristãos dizem que o ato sexual é sagrado. Também dizem que a pessoa humana é sagrada e que Deus é Santo e fonte de toda a santidade. Outros, dizem que o sexo é sagrado; não sabem se Deus existe; e têm certeza que os outros não existem: é o ápice do individualismo. Perceba-se que temos algo em comum: sexo é importante; mas, é mais importante e sagrado para os cristãos do que para os pervertidos.

Para nós, filhos de Deus, o ato sexual é um símbolo do Deus Amor. – Por favor, não se escandalizem, isso é teologia clássica -. O ato conjugal é um meio e não um fim: meio para amar o cônjuge (dimensão unitiva), gerar filhos (dimensão procriativa), e amar a Deus (chamemo-la de dimensão mística ou espiritual do sexo). Mantém-se uma clara escala de valores: Deus, o próximo, a sexualidade (masculinidade ou feminilidade) e o ato sexual que expressa e realiza de algum modo a sexualidade. Gosto de meditar com o Papa João Paulo II, na Mulieris Dignitatem, a necessidade de nos santificarmos no exercício da sexualidade. Ele disse que o arcanjo referiu-se a Maria como “plena de graça”. A graça supõe a natureza. Portanto, Maria tanto mais santa era, quanto mais feminina. O mesmo vale para a masculinidade, quando bem entendida.

Para os filhos das trevas o que vale é o prazer próprio e a descartabilidade do próximo. O ato sexual é sagrado, desde que não conduza ao amor e à responsabilidade pelo cônjuge: amor sem compromisso, descartável. O que vale não é a pessoa, mas o máximo prazer. Deus é visto como um repressor. Gerar filhos é uma amarra. A identidade sexual é vaga. Sente-se como um animal que sacia impulsos e não como alguém que ama. Pensam que se libertaram e são felizes, mas estão sozinhos e não sabem como sair do círculo vicioso.

É a “Castidade como virtude moral que regula o exercício da sexualidade segundo o estado de vida da pessoa, em função de seus valores e no respeito da natureza da própria sexualidade” (CENCINI, Amedeo. Virgindade e celibato hoje: para uma sexualidade pascal. trad. Joana da Cruz. São Paulo: Paulinas, 2009, p. 132). A castidade, no matrimônio, consiste no exercício da sexualidade e dos atos sexuais integrados no amor, ou seja, na afirmação do bem da outra pessoa. A luxúria consistirá na instrumentalização e despersonalização do outro (cônjuge ou não) em vista do prazer. Algumas ofensas a castidade: masturbação, fornicação, pornografia, prostituição, estupro, incesto, o ato sexual homossexual; a exclusão de alguma das dimensões do ato sexual (procriação e comunhão), o adultério, a união livre (“namoridos”) etc.

“Escreveste-me, médico apóstolo: ‘Todos sabemos por experiência que podemos ser castos, vivendo vigilantes, frequentando os Sacramentos e apagando as primeiras chispas da paixão, sem deixar que ganhe corpo a fogueira. É precisamente entre os castos que se contam os homens mais íntegros, sob todos os aspectos. E entre os luxuriosos predominam os tímidos, os egoístas, os falsos e os cruéis, que são tipos de pouca virilidade’” (S. Josemaría Escrivá, Caminho, n. 124).

Paternidade responsável

Era costume entre alguns romanos da Antiguidade provocar o vômito depois de tomar o alimento. Isso nos causa repugnância. É uma perversão da ordem das coisas. O alimento tem por finalidade nutrir o organismo e, como incentivo e recompensa, o corpo suscita o prazer. Assim como suscita a dor para indicar algo de errado. Mas, mesmo assim, cabe a razão ponderar o que é bom ou mal, pois há dores que vem para o nosso bem (uma injeção, por exemplo), e prazeres para o nosso mal (o prazer de irar-se, ou da tristeza ou do ceticismo etc.).

Hoje, tende-se a separar o prazer do ato sexual da sua finalidade procriativa.  É uma perversão da ordem das coisas. O corpo humano está desenhado para o amor fecundo. É uma questão de sobrevivência, mas não só. A fecundidade é símbolo da fecundidade espiritual do Deus Trino. É a benção que Deus prometeu a Abraão, ser numerosos como as estrelas do céu e as areias da praia. É da natureza e é um dever: “Deus os abençoou e lhes disse: “Crescei, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1,28). Os filhos são sinal concreto do amor de Deus por nós. De fato, quanto mais numerosos são os filhos, mais saudável tende a ser o ambiente familiar, e melhor se preparam as pessoas para a vida em sociedade.

Isso mudou com a cultura burguesa e, entre outras coisas, com a teoria malthusiana, já amplamente refutada. Pensou-se que a “multiplicação” da espécie era um vírus para o planeta. Percebe-se que os problemas do mundo de hoje, como sempre, estão mais ligados à distribuição das riquezas do que à fecundidade. Pelo contrário, hoje não se vive tanto uma “explosão demográfica” como um “inverno demográfico”, cujas conseqüências já são praticamente irreversíveis, por exemplo, para a Europa. A história ainda terá uns capítulos interessantes sobre o assunto.

Diante do chamado de Deus a sermos famílias numerosas e das necessidades particulares de cada família, a Igreja propõe a paternidade responsável. Ter filhos tantos quanto possível, a não ser que motivos graves exijam outra atitude. Motivos graves não são a impaciência e a falta de tempo, mas a saúde da gestante, a possibilidade de sustentar a educação etc. E, que o método para o controle dos nascimentos não esterilize a natureza procriativa do ato sexual. Mas, utilize as leis do próprio ato para o controle, ou seja, o recurso aos períodos infecundos. O método Billings continua imbatível, fácil, para mulheres de ciclo menstrual irregular, mas não dá dinheiro para as farmácias. Há muitas ginecologistas que poderão informar sobre o assunto.

Veja mais em: http://giselle.cfn.blog.br/?p=3907

Adão conheceu a Eva: a finalidade unitiva

Nas reflexões precedentes, iniciamos o tema da “sacramentalidade do matrimônio”. No entanto, estamos primeiramente a contemplar a realidade natural do próprio casamento.

O instinto sexual está intimamente relacionado ao matrimônio.  A diferença de sexos, a atração física, afetiva e psicológica entre homem e mulher são a base natural do matrimônio. A união entre os dois consegue uma complementação não só biológica, mas uma “integração” completa – afetiva, intelectual, espiritual e vital – dos valores da virilidade e feminilidade (cf. Diretório da Pastoral Familiar, 2004, n. 58).

As relações destituídas da dimensão unitiva, onde há o enlace de seres “anônimos”, gera sentimentos de culpa, desprezo, nojo e náusea, mesmo em culturas não-cristãs, como tem averiguado a antropologia e a psiquiatria contemporânea. A libido deve integrar-se na personalidade humana, elevando-se do mero prazer ao afeto, à amizade, e ao amor. Somente numa relação em que haja a atração sexual, sentimentos, troca de experiências e autodoação é que se pode falar de ato autenticamente humano e fecundo. A redução do ato sexual ao mero prazer momentâneo o transforma em produto num mercado que trata o amor humano como moeda.

Convém entender o termo usado em Gn 4, 1a: “Adão conheceu a Eva, sua mulher”. “Conhecer”, em linguagem bíblica, não é um ato apenas intelectual, mas uma experiência concreta. Pelo ato de se tornarem “uma só carne”, Adão e Eva se conhecem reciprocamente na sua profundidade de pessoa humana, mediante o sexo. O ato conjugal é um meio de união e não um fim em si mesmo; é um instrumento para o conhecimento mútuo dos cônjuges. Não conhecem somente a sexualidade como se fosse uma especificidade somática, mas a pessoal identidade desse outro “eu” feminino e masculino.

O fato de o homem e a mulher serem criados à imagem de Deus não significa apenas que cada um deles, individualmente, é semelhante a Deus, enquanto ser racional e livre; significa também que o homem e a mulher, na comunhão de amor, refletem no mundo a comunhão de amor que é própria de Deus, pela qual as três Pessoas se amam no íntimo mistério da única vida divina.

Amor que é autodoação de si para o amado. Doa-se a própria vida, e, inclusive, a liberdade. Amor é santa e doce escravidão. Santo Agostinho afirmou que o amor é a “vida que enlaça ou deseja enlaçar o amante ao amado” (De Trin. VIII 10: ML 42, 960). Assim, o amor se torna instituição por força de seu próprio ímpeto.

Salvos da solidão

“Este mistério é grande – eu digo isto com referência a Cristo e à Igreja” (Ef 5, 32). O mistério a que Paulo se refere tem haver com o plano de Deus para a salvação da humanidade. A nossa salvação será o Amor.

Esse plano de salvação, pedagogicamente, tem três etapas: a) a Criação e a Queda; b) a Salvação; c) a Ressurreição. Falando especificamente do amor humano, fomos a) feitos para amar; trocamos o amor pela “instrumentalização do outro” (o outro é um objeto para a minha utilidade); b) Cristo purifica o nosso amor pela Cruz; o Espírito Santo doado à Igreja nos permite amar como Cristo; c) esse amor chegará ao ápice com a Ressurreição da carne.

a) A criação: Deus nos desenhou para a reciprocidade do amor.  O fim da vida humana é o amor a Deus e ao próximo. Somos feitos à imagem e semelhança do Deus Amor. Uma das primeiras características da pessoa humana descrita no livro do Gênesis é a solidão. Adão olhou para a criação e percebeu que nada lhe era complementar. Há uma solidão indestrutível no ser humano. O homem precisa de alguém que lhe seja complementar.

Reflete o Papa João Paulo II: “Trata-se aqui do “auxiliar” só na ação, no “submeter a terra” (cf. Gn 1, 28)? Certamente se trata da companheira da vida, com a qual o homem pode unir-se como a uma esposa, tornando-se com ela “uma só carne” e abandonando por isso “seu pai e sua mãe” (cf. Gn 2, 24). A descrição bíblica, por conseguinte, fala da instituição, por parte de Deus, do matrimônio contextualmente com a criação do homem e da mulher como condição indispensável para a transmissão da vida às novas gerações dos homens, à qual o matrimônio e o amor conjugal são, por sua natureza, ordenados: “Sede fecundos e multiplicai-vos, povoai a terra; submetei-a” (Gn 1, 28) (A Dignidade da Mulher, n. 6, grifo do autor).

O casal se une numa só carne e são fecundos pelo mesmo ato: são os dois aspectos intrínsecos do ato sexual, o unitivo e o procriativo. Esse duplo aspecto constitui a “natureza” do ato sexual.