O que é a Direção Espiritual?

Introdução

Antes de responder, deixemos que o Papa João Paulo II nos aconselhe: “Na própria vida não faltam obscuridades e, inclusive, debilidades. É o momento da direção espiritual pessoal. Se se fala confiadamente, se se expõe com simplicidade as próprias lutas interiores, se sai sempre adiante, e não haverá obstáculo nem tentação que consiga nos separar de Cristo” (João Paulo II, Carta a los seminaristas de España, Valencia 8-XI-1982).

A vida cristã é uma ascensão da pessoa humana ao Deus Trino. Essa elevação da alma é obra do Espírito Santo. As obras da carne, “fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, rixas, ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas” nos tornam pesados e, de águias, passamos a ser galinhas que voam baixo. “Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio” (Gl 5, 19-23).

O Espírito Santo

O guia de nossas vidas não pode ser o amor desordenado a si próprio. Se deixamos que o único critério de nossa vida seja o egoísmo logo nos afastaremos de Deus. Quem dirige sua vida segundo seus próprios gostos, emoções e critérios, num individualismo fechado aos outros, é um corcunda que só olha o seu próprio umbigo. O modo de ampliar os nossos horizontes e possibilidades é levantando o olhar para o alto.

“Aqueles são filhos de Deus, que se deixam guiar pelo Espírito de Deus” (Rm 8, 14). Quem deve guiar nossas vidas é a Cabeça da Igreja que é Cristo. E, Ele nos orienta pelo Espírito Santo que habita em nossos corações. De maneira que Cristo, Igreja e nossos corações andam numa única e mesma direção: fazer a Vontade de Deus. Quem cumpre a Vontade de Deus, é guiado por Ele.

O Espírito Santo é o verdadeiro guia e diretor. “Virá o Espírito da Verdade, e os guiará à verdade completa” (Jo 16, 13). A missão do Espírito Santo é guiar-nos para Jesus Cristo, a Verdade. Ao moldar em nós a imagem do Filho, somos conduzidos à verdade do próprio ser humano. Conhecendo a Cristo, nós nos conheceremos. Reconhecendo à Trindade, a verdade da pessoa humana e a Trindade que em nós habita, a alegria será completa.

A obra da nossa santificação é primeiramente do Espírito santo. Por melhor que sejam os meus esforços, se não há abertura para Deus, nunca haverá verdadeira ascensão e perfeição humana. Santidade não é uma conquista humana, é um dom de Deus. A teologia oriental em vez de santificação, utiliza termos como “endeusamento”. De fato, o Espírito Santo nos faz participante da vida trinitária ao nos conformar ao Filho do Pai.

Definição e natureza

A Direção espiritual é a arte de guiar as pessoas, individualmente, com um trabalho constante e progressivo, para a posse do grau da perfeição, ao qual Deus as chama. Isso significa que Deus guia os cristãos à perfeição não somente por inspirações e dons, mas utilizando-se de pessoas como instrumentos. A Direção espiritual desde os primeiros tempos da Igreja foi considerada como uma tarefa de pastoreio, ou seja, um ofício apropriado aos ministros ordenados.

“Cristo deu a sua Igreja a segurança da doutrina, a corrente de graças dos sacramentos; e, dispôs que ajam pessoas para orientar, para conduzir, para trazer à memória, constantemente, o caminho” (Josemaría Escrivá, Es Cristo que pasa, 34).

“É interessante lembrar que a Igreja sempre tem recomendado a direção espiritual a todos os que desejam amadurecer seriamente na vida cristã; de forma análoga a como se aconselha a um cardíaco procurar a orientação de um cardiologista, e a um jogador de futebol ou de tênis a ter um coach, um técnico que os prepare e oriente. Ninguém é bom técnico de si mesmo” (Pe. Francisco Faus in padrefaus.org).

São Josemaría fala disso com uma imagem simples: “Convém que conheças esta doutrina segura: o espírito próprio é mau conselheiro, mau piloto, para dirigir a alma nas borrascas e tempestades, por entre os escolhos da vida interior. – Por isso, é vontade de Deus que a direção da nau esteja entregue a um Mestre, para que, com a sua luz e conhecimento, nos conduza a porto seguro” (Caminho, n. 59).

Notemos que São Paulo, mesmo tendo experiências místicas nas quais Cristo lhe falava, precisou de Ananias como um guia para a vida cristã. Assim quis o Senhor. “Também a São Paulo lhe chamou Cristo por si mesmo e lhe falou. Mas, podendo revelar-se em ato o caminho da santidade, preferiu encaminhá-lo a Ananias e lhe ordenou que aprendesse de seus lábios, a verdade: levanta-te e entra na cidade, e se te dirá o que hás de fazer” (CASIANO, Colaciones, 2).

Quem obedece a Vontade de Deus não erra e certamente será santo. Ela se manifesta nos deveres de estado, nas inspirações, na Palavra de Deus e também na docilidade na direção espiritual. O diretor tem graça de estado para aconselhar. Convém que ele seja sábio, santo e experimentado. “A soberba inclina aos principiantes a fugir dos mestres que não aprovam seu espírito e ainda por lhes aborrecer” (cf. São João da Cruz, Noche oscura, I, 2).

Trata a un varon piadoso, de quien conoces que sigue los caminos del Señor, cuyo corazon es semejante al tuyo y te compadecera si te ve caído. Y permanece firme en lo que resuelvas, porque ninguno sera para ti mas fiel que el. El alma de este hombre piadoso ve mejor las cosas que siete centinelas en lo alto de una atalaya. Y en todas ellas ora por ti al Altisimo, para que te dirija por la senda de la verdad. Eclo 37, 15-19.

A diferença entre a direção espiritual e a) o Sacramento da Confissão; b) a Psicologia.

“Não ter guia, cabeça, nem capitão, é grande mal; é a causa de todas as desgraças e a origem de todas as desordens, de todas as tribulações e da confusão” (S. João Crisóst., Homl. 34, ad Hebr., sent. 391, Tric. T. 6, p. 39 l.).

 

A prática da Direção espiritual

A regularidade é importante.

E, do que se fala na direção espiritual? Não é conversa mole, mas tampouco é uma prestação de contas formal. Basicamente, são aquelas coisas que mais influenciaram o caminho de nossa vida nos últimos dias.

Seguirei, agora, literalmente, os conselhos do padre Francisco Faus:

1) Prepare bem cada conversa, fazendo um pouco de meditação a respeito e tomando umas notas por escrito: uma listinha dos temas de que quer falar; e, sobretudo, como lhe estou insistindo, pedindo muito a ajuda do Espírito Santo;

2) Não vá à direção para gastar o tempo com conversa mole, falando das notícias do jornal, do frio e do calor e de outras coisas que nada tem a ver. Em todo caso, só uns dois minutos, como «prólogo» para começo de conversa.

3) Não se esqueça de começar informando como é que viveu os conselhos e sugestões recebidos na última conversa, as dificuldades com que deparou para cumpri-los, as fraquezas (preguiça, tentações,etc.) que o levaram a abandoná-los, etc.

4) Comente também as inspirações, os bons pensamentos que Deus suscita em nós para melhorar alguns defeitos, concretizar algumas iniciativas de vida espiritual ou de apostolado, fazer novas mortificações, etc. É muito bom não ser «sujeito passivo», que só escuta conselhos. Seja também «ativo», pense e apresente novas propostas de luta espiritual (por exemplo: gostaria de ler tal livro; pensei tais e tais penitências e temas de meditação para a Quaresma; gostaria de preparar o Natal assim; pensei que poderia ter tal conversa com um amigo afastado de Deus).

5) Os «temas» da direção espiritual, os assuntos que convém tocar nas conversas com o diretor, são muito variados, e é impossível falar de todos em uma só entrevista (tendo também em conta que, muitas vezes, só poderá contar com meia hora ou pouco mais). Mas, como fizemos em outras reflexões, vou sugerir-lhe aqui alguns que julgo mais importantes:

a) em primeiro lugar, fale claro dos assuntos que – por vergonha, por medo de ficar mal e de desiludir o diretor – mais lhe custe falar: uma queda mais séria, uma infidelidade, uma reincidência na preguiça e nas omissões, etc. São Josemaría dizia que “quem oculta ao seu diretor uma tentação, tem um segredo a meias com o demônio” (Sulco, n. 323). E, em sentido positivo, acrescentava: “Acabaram-se as aflições… Descobriste que a sinceridade com o diretor conserta com uma facilidade admirável aquilo que se entortou” (ibid., n. 335).

b) depois, os problemas que estão exigindo mais esforço, mais oração e, às, vezes, mais conforto e até consolo: dramas familiares, filhos que se desencaminham, graves dificuldades no trabalho, doenças sérias. Tenha, porém, em conta que, se você só buscasse consolo, não acharia solução. O melhor consolo é o «conforto», ou seja, o conselho que fortalece e ajuda a levar com garbo aquela cruz e a santificar-se com ela. Por isso, perante um grave problema, às vezes o melhor conselho é o de viver com mais intensidade o plano de vida espiritual.

c) sempre comente como foi o seu plano de vida espiritual: se o cumpriu, se foi constante e pontual, como fez a oração e o exame diário, como preparou as Comunhões, que empenho colocou em melhorar a presença de Deus no trabalho, como praticou as mortificações habituais, que frutos  ou dúvidas lhe suscitou a leitura do Evangelho e de algum livro espiritual, etc.

d) é preciso tratar das virtudes, especialmente daquela ou daquelas que mais falta nos fazem: humildade, paciência, castidade, ordem, intensidade e perfeição no trabalho, caridade, luta contra os defeitos do temperamento, etc.

e) tendo em conta que não há verdadeiro amor a Deus sem amor ao próximo (cf 1 Jo 4,20-21), convém falar da nossa melhora no trato habitual com os que convivem e trabalham conosco (especialmente esposa, marido, filhos), e do apostolado que fazemos (primeiro, do apostolado pessoal com parentes, colegas, amigos; depois, da colaboração em iniciativas de apostolado).

f) se estiver se sentindo incomodado com alguma dúvida de , alguma dificuldade para entender a doutrina da Igreja, algumas palavras do Papa que não entendeu, etc., não deixe de apresentar essa dúvida ao diretor.

“O que sozinho quer estar, sem arrimo ou guia, será como a árvore que está sozinha e sem dono no campo, que por mais fruta que tenha, os viajantes as colherão e não chegará a amadurecer. A árvore cultivada e guardada com bons cuidados de seu dono, dá fruto a seu tempo que dela se espera. A alma sozinha, sem mestra, que tem virtude, é como o carvão aceso que está sozinho; antes se irá esfriando do que acendendo” (cf. São João da Cruz, Dichos de luz y de amor, 1. c., pp. 958-964).

Cristo quer ser o nosso diretor espiritual e, para tanto, se utiliza dos padres, outros Cristos, para nos explicar as Escrituras. “Não é verdade que nosso coração ardia quando ele nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32).

Ainda sobre os temas: fé, castidade, apostolado, trabalho, piedade, vergonha, dramas, plano de vida, virtudes, os com que convivemos…

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