A Formação do caráter

Introdução

O Oleiro divino

“Palavra do Senhor a Jeremias: ‘Vem, desce até a casa do oleiro, que ali te farei ouvir a minha palavra’. Desci até a casa do oleiro e lá estava ele executando um trabalho na roda. O vaso que o oleiro fabricava de barro se estragou em sua mão. Ele fez um outro objeto conforme lhe pareceu mais conveniente. Foi então que veio a mim a palavra do Senhor: ‘Será que não posso agir convosco, casa de Israel, da forma como fez esse oleiro? – oráculo do Senhor. Pois como o barro na mão do oleiro, assim estais vós em minha mão, casa de Israel’” (Jr 18, 1-6).

Será que Deus pode agir conosco como o oleiro com o barro? Pois, diferente do barro, o Senhor só nos moldará se contar com o auxílio de nossa liberdade. Não somos uma coisa, mas pessoas. Há em nós essa docilidade, essa disponibilidade para que Ele modifique o nosso caráter, ou já estamos prontos e acabados? O objetivo do Pai é um só: no calor do Espírito Santo, modelar-nos segundo a Imagem do seu Filho, Jesus Cristo.

Conta-nos o famoso psicólogo Rudolph Allers:

Havia em nosso hospital de campanha, um convocado polonês, que era considerado um inútil e nunca tinha mostrado inclinações ou desejos de sacrifício e altruísmo. Mas, quando irrompeu um incêndio na aldeia, ele foi o único a precipitar-se numa casa incendiada, para salvar das chamas uma criancinha (Psicologia do caráter, Ed. Agir, 4a ed., 1958, p. 165).

Muitos homens acreditam que já se “esgotaram”, por assim dizer, que “não podem ir mais além”. Não acreditam poder ser melhores e mais amáveis. Pensam que já são muitos os anos que agem desse modo e não tem mais capacidade de mudar. No entanto, é falsa essa opinião. É uma crença na constância e na imutabilidade do próprio eu, que serve para dar determinada segurança. Difícil é aceitar que a vida está sempre mudando e que vivemos uma aventura que nos exige constante adaptação. Também esquecemos que a graça de Deus atua em nós exatamente com o objetivo de nos converter, e, portanto, de mudar o nosso ser e agir. Deus dirige-nos constantemente o convite: “Tenta! Vai de novo! Podes melhorar, eu sei disso”.

 

A importância da autodiscisplina para o progresso

 No início do processo de amadurecimento da personalidade, a criança é totalmente depende de seus pais, e os obedece por pressentir que eles possuem uma maior experiência. Na adolescência se passa da obediência dos pais, para a obediência do grupo de amigos. Na idade adulta se passa a certa autonomia, ainda que em muitas coisas, dependamos de instituições e de outras pessoas. É um caminho progressivo de internalização e adaptação às leis da sociedade. De uma disciplina exterior, passamos a disciplina interior. Aquele que obedeceu satisfatoriamente a seus pais, facilmente se obedecerá a si mesmo na idade adulta, ou seja, terá autodisciplina.

A educação do caráter visa formar a pessoa humana por inteiro, mas é, sobretudo, a educação da vontade. Assim, se passa da obediência à autodisciplina e da autodisciplina à vitória em qualquer atividade.

Hoje, se pensa que liberdade é fazer o que indica a moda do momento, ou entregar-se à arbitrariedade cega dos instintos. Os instintos podem tanto matar como dar a vida. É preciso orientar nossas tendências. Liberdade é dominar-se para se alcançar os grandes objetivos de uma vida cheia de ideais. Liberdade não é somente fazer o que se quer, mas sobretudo, querer o que se faz.

A vontade, orientada por princípios cristãos, guiará nossa existência à perfeição da filiação divina. Formar o próprio caráter consiste basicamente em aprender a obedecer a própria vontade. De nada adiantaria saber toda a Bíblia ou todo o Catecismo de cor, se eu não os pusesse em prática. E para que isso ocorra, é preciso mover a vontade e todos os nossos membros.

Contudo, se precisa distinguir o que é temperamento de caráter. Temperamento

é o complexo das tendências profundas que derivam da constituição fisiológica dos indivíduos; e que o caráter é o conjunto das disposições psicológicas que resultam do temperamento , enquanto modificado pela educação e os esforços da vontade e fixado pelo hábito (Ad. TANQUEREY, Compêndio de Teologia Ascética e Mística, 1961, p.774).

A formação do caráter: a) educação; b) vontade; c) hábitos bons: virtudes; hábitos maus: vícios. Falemos, primeiramente, das virtudes cardeais, depois, um plano para exercitá-las e por fim, a decisão bem determinada que teremos para pô-las em prática.

  1. 1.                 As Virtudes Cardeais

 “Irmãos, ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor. Assim o Deus da paz estará convosco” (Fl 4, 8.9b).

Diz o ditado: “Semeias um pensamento, colhes um ato; Semeias um ato, colhes um hábito; Semeias um hábito, colhes um caráter; Semeias um caráter, colhes um destino”.

As virtudes “com o auxílio de Deus, forjam o caráter e facilitam a prática do bem” (CEC 1810). As virtudes cardeais são como que quatro vigas que fundamentam o prédio da santidade. Pala virtude a pessoa procura não só praticar atos bons, mas dar o melhor de si, a excelência humana. Encontra sua exposição no Catecismo, n. 1803-11. Gregório de Nissa afirmou que “o objetivo da vida virtuosa é tornar-se semelhante a Deus” (CEC 1803).

Templanza es el amor que se mantiene íntegro e incólume para Dios; fortaleza es el amor que, por Dios, todo lo soporta con alegría; justicia es el amor que sólo sirve a Dios y, por esto, pone en su orden debido todo lo que está sometido al hombre; prudencia es el amor que sabe distinguir bien entre lo que es ventajoso en su camino hacia Dios y lo que puede ser un obstáculo (SAN AGUSTíN, Sobre las costumbres de la Iglesia, 1).

“Ama-se a retidão? As virtudes são seus frutos; ela ensina a temperança e a prudência, a justiça e a fortaleza” (Sb 8, 7). “Para santificar cada jornada, se han de ejercitar muchas virtudes cristianas; las teologales en primer lugar y, luego, todas las otras: la prudencia, la lealtad, la sinceridad, la humildad, el trabajo, la alegría” (J. ESCRIVA DE BALAGUER, Es Cristo que pasa, 23).

 

1.1             A prudência: Deus é a Verdade

 

“Sede, pois, prudentes, como as serpentes” (Mt 10,16).

A virtude da prudência é chamada “portadoras das virtudes”. Por conseguinte, a sua falta é ocasião de todos os vícios. A sua definição clássica é recta ratio agibilium – a reta razão no agir, poderíamos dizer em outras palavras a “ação refletida segundo alguns princípios”, em especial, a excelência humana. A prudência econômica, por exemplo, é a ação refletida segundo alguns princípios econômicos. A prudência cristã é a ação refletida segundo os princípios do Evangelho, em especial, as bem aventuranças.

A sociedade pós-moderna se caracteriza por um acento na emotividade e na subjetividade. Não se costuma refletir sobre os princípios que estão por detrás das minhas ações. Age-se ao sabor do momento, no entrechoque entre várias emoções e instintos, sem nenhuma orientação racional. Pessoas inconstantes, um dia exultantes de alegria, no outro dia deprimidas; Incoerentes com o que dizem e fazem; que mudam de opinião de acordo com a maioria, e não pensam por conta própria, sendo como uma biruta de aeroporto; enfim, pessoas difíceis de confiar.

A importância de se ter convicções firmes. A pedra no lago.

Todos os males morais provêm da imprudência ou da falta de fortaleza. Ou faltaram princípios humanos para se viver, ou força para pô-los em prática. Veja-se, por exemplo, um drogado. Ordinariamente, ou lhe faltou uma educação adequada, ou lhe faltou força de vontade para se manter no bem.

Na Idade Média, se representava essa virtude como uma mulher segurando um espelho mostrando a realidade e um livro contendo as normas morais. A prudência, segundo São Tomás (II-IIae/Q.47/a.8), consta de três atos: o conselho, o julgar e o imperar.

Quando se é prudente se busca conselhos como agir. O conselho da realidade, com suas inúmeras nuances. O conselho dos entendidos, ou experientes; e, o mais importante, o conselho do Espírito Santo.

Depois, a reflexão considerará a pertinências desses dados, e como aplicá-los na ação. Também preverá o momento certo de agir. Enfim, como e quando agir.

Por fim, a ação prudente, que é o imperar da vontade.

Um exemplo: a serpente; uma viagem.

“Cuidai pois, irmãos, em andar com prudência não como estultos, mas como circunspectos, recobrando o tempo. Considerai qual é a vontade de Deus” ( Ef 5,15).

Pela prudência, nos assemelhamos a Deus que sempre age de acordo com a Verdade.

1.2             A Justiça: Deus é Justo e Misericordioso

 O exemplo de São José. A justiça é dar a cada um o que lhe compete. Essa virtude garante a harmonia nas relações humanas. O cidadão que cumpre as leis dá ao Estado a sua contribuição. O cidadão que exige os seus direitos recebe o que o Estado tem o dever de lhe dar. Existe também a justiça entre as classes e os povos. Bem como, a justiça de sanção, que é a pena medicinal, e não vingativa, busca restabelecer a ordem violada. Há a justiça na família (honrarás pai e mãe), tanto para os genitores quanto para os gerados. A justiça para com Deus é chamada virtude da religião. O respeito a boa fama que cada um merece é violada pela maledicência e os juízos temerários. O respeito ao direito de conhecer a verdade, faz-nos pessoas sinceras e não mentirosas. Pela virtude da obediência, tornamo-nos semelhantes a Cristo.

 

1.3             A fortaleza: Deus é a fortaleza da minha vida

 Sê corajoso e porta-te como um homem. Observa os preceitos do Senhor, teu Deus, andando em seus caminhos, observando seus estatutos, seus mandamentos, seus preceitos e ensinamentos, como estão escritos na lei de Moisés. E assim serás bem sucedido em tudo o que fizeres e em todos os teus projetos (1Rs 2, 2b-3).

A Virgem Maria. É a coragem para fazer o bem e para enfrentar ao mal. Caminho 17. Também é a força para se conseguir virtudes ou para se ser coerente com os próprios princípios. Aquele que sucumbe diante da pressão do ambiente e renuncia a ser coerente consigo mesmo, é fraco. “Não tenhas medo à verdade, ainda que a verdade te acarrete a morte” (Caminho, 34). É a paciência que transforma a monotonia em rotina alegre. Forte é o manso que se autodomina. Um primeiro passo para se obtê-la é vencendo a autocompaixão.

Fortaleza para fazer grandes coisas por Cristo, conciliando a magnanimidade com a humildade. Fortes como os mártires.

“Así nos figuramos a los hombres, recios y varoniles: sin miedo al dolor; hombres que saben sufrir callando, y no lo comunican para que no los compadezcan; sin miedo al sacrificio ni a la lucha; que no se arredran ante las dificultades; sin miedo al miedo; sin timideces ni complejos imaginados; incompatibles con la frivolidad; que no se escandalizan de nada de lo que ven ni oyen. Entereza es reciedumbre. Energía y decisión no son orgullo, sino virilidad. Esos hombres recios no pueden ser transigentes en todo, y defenderán, con una energía que asustará a los débiles, el espíritu y las normas del Cristianismo que profesan” (J.URTEAGA, El valor divino de lo humano, p. 68).

1.4             A temperança: Deus é saboroso

São João Batista. É a virtude que regula o movimento de algumas tendências. O sal é bom, mas em excesso estraga a comida. Modera o apetite reprodutivo: a castidade; o apetite nutritivo: evita a gula e a beberagem; o apetite por grandeza e glórias: humildade; o apetite por domínio: a mansidão. Não consiste em diminuir ou matar os instintos, mas dirigi-los para a plena potencialidade.

 

  1. 2.                 O Plano de Vida

 Para adquirir virtudes, convém formularmos um Plano de Vida. Nele se incluirá, basicamente, as normas de piedade e o combate para adquirir virtudes e extirpar pecados, deveres e horários.  Alguns têm o costume de escrever um diário espiritual. O Plano de vida deve servir para fazer o exame de consciência, ao menos no início.

“É preciso, pois, ter paciência, e não pretender desterrar num só dia tantos maus hábitos que adquirimos pelo pouco cuidado que tivemos com a nossa saúde espiritual” (J. TISSOT, A arte de aproveitar as próprias faltas, p. 14).

Formular um ideal de vida. Consistirá em Identificar-se com Cristo, segundo o meu estado de vida. “Tende os mesmos sentimentos que teve Cristo Jesus” (Fil 2, 5). A importância de um santo ou outra pessoa como modelo. Não basta olhar para o ideal, o topo da montanha e esquecer-se das pedras do dia-a-dia. Qual será o meu epitáfio?

 

  1. 3.                 O papel da vontade: querer ser santo

A nossa vida teve ter um único fim: a santidade. Caminho 1. A Santidade é “permanecer em Cristo”. Conquistar virtudes é apenas o primeiro andar, o primeiro sinal para Cristo de nossa vontade de que Ele entre, se torne dono, luz e calor de nossa alma.

Sta. Gertrudes, a santa litúrgica e do mistério pascal, julgando-se mal preparada para a banquete divino, vê o Filho de Deus aproximar-se. Ele lava-lhe as mãos, em remis/são dos pecados. Depois tira todo o seu ornato, colares, braceletes, anéis e enfeita com eles sua esposa. Revestida assim, com os méritos do Filho de Deus, Jesus ordena-lhe andar com garbo, com elegância, como compete a uma princesa do céu, i.é., com plena confiança nos méritos do divino Salvador.

“… ainda que me canse, ainda que não possa, ainda que arrebente, ainda que morra” (Santa Teresa, Caminho de perfeição, 21, 2).
“Vencer a si próprio é a maior das vitórias” (Platão). Caminho 5. Ambição. Caminho 22.

“Será que não posso agir convosco, casa de Israel, da forma como fez esse oleiro? – oráculo do Senhor”

Maria, virgo prudentíssima, ora pro nobis!

Exame:

Prudência: Eu sei ouvir as pessoas? Eu sou uma pessoa que possuo princípios e valores claros? Eu costumo atrasar meus compromissos?

Justiça: Eu conheço e exijo meus direitos? Eu trato bem aqueles que trabalham comigo ou para mim? Costumo dizer pequenas mentiras?

Fortaleza: Estou constantemente buscando melhorar o meu caráter? Sou paciente? Quais são meus projetos de levar o Evangelho a outras pessoas?

Temperança: Sei controlar a bebida, a comida e a sensualidade? Sou preguiçoso? Sou humilde?

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