Infância espiritual: Ser filhos no Filho

“E serei para vós um pai e vós sereis meus filhos e filhas – diz o Senhor todo-poderoso” (2Cor 6, 16b-18).

O catecismo de São Pio X pergunta por que a primeira Pessoa da S. Trindade se chama “Pai”. Primeiramente, por gerar eternamente a segunda Pessoa da Trindade, o Filho, que se encarnou no seio da Virgem Maria, Nosso Senhor Jesus Cristo. Depois, por ter adotado os batizados como filhos, infundindo em nós a vida divina. E, em sentido amplo, toda a criação é obra de Deus.

O segredo da santidade é aprender a ser filhos como Jesus Cristo o foi.

No Antigo Testamento, a percepção de Deus como pai é muito reduzida. Nos evangelhos, é o centro da vida de Jesus. Abbá! Na apresentação solene de Jesus, que define sua personalidade e missão, o Batismo no rio Jordão, O Espírito Santo pousou sobre Ele e ouviu-se a voz do Pai: Tu és o meu Filho muito amado (cf. Mc 1, 9-12). Nenhum título, sacerdote, profeta ou rei, Senhor, Messias etc., é mais importante do que “Filho”. Quando ensina a rezar, diz: “Pai Nosso”. Quando sofre no horto, Pai, não se faça a minha, mas a tua vontade”… há numerosas parábolas em que Deus é representado como pai. É-nos particularmente familiar a figura do nosso Pai-Deus na parábola do filho pródigo.

Nosso Senhor diz aos seus Apóstolos: Se vos não converterdes e vos não tornardes como meninos, não entrareis no reino dos céus (cf. Mt 18, 1-6). Pelo Batismo, a vida divina passa ser a nossa, por assim dizer, o sangue de Deus corre em nossas veias. Temos de ser filhos por graça, mas também de fato. “Recebestes o espírito de filiação adotiva, por ele clamamos: Abba, Pai! O mesmo Espírito dá testemunho a nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Rm 8, 15-16).

Na nossa cultura é comum se ouvir “também sou filho de Deus”. Mas, há níveis de compreensão disso. A experiência mística de nosso Padre no bonde. “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3, 1a.2)

Uma compreensão profunda nos encherá de paz. “Bem aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9).

Temos de ser como Jesus em Belém, antes de Nazaré. “Diante de Deus, que é Eterno, tu és uma criança menor do que, diante de ti, um garotinho de dois anos. E, além de criança, és filho de Deus. – Não o esqueças” (Caminho, 860).

Vida de infância não é infantilidade. Também não é passividade. É um modo de nos relacionarmos com Deus onde não há espaço para a mentira e a autossuficiência. Não é psicologia: se imaginar como criança ou algo semelhante, mas é ter consciência das proporções entre Deus e eu: eus tem tudo e eu, nada. Ele eterno, poderoso, sábio e amoroso e eu, dependente de tudo isso. Nada posso por conta própria. Os frutos são muitos: humildade, alegria, bondade, simplicidade e tantos benefícios quantos o Pai nos queira conceder.

As semelhanças entre a infância espiritual e natural são patentes. Quais as qualidades inatas das crianças? Em geral, são simples, sem nenhuma duplicidade, ingênuas, cândidas; não representam, não se mascaram; mostram-se tal como são. Ademais, têm consciência da sua deficiência, pois têm de receber tudo dos seus pais, o que as dispõe à humildade. São levadas a crer simplesmente em tudo o que dizem as suas mães, a depositar uma confiança absoluta nelas e a amá-las de todo o seu coração, sem cálculo.

Uma segunda grande diferença é indicada por São Francisco de Sales: na ordem natural, quanto mais o filho cresce, mais ele tem de se tornar auto-suficiente, pois um dia o seu pai e a sua mãe lhe faltarão. Pelo contrário, na ordem da graça, quanto mais o filho de Deus cresce, mais ele compreende que não poderá jamais bastar-se a si próprio e que dependerá sempre intimamente de Deus. Quanto mais ele cresce, mais ele deve viver da inspiração especial do Espírito Santo, que vem suprir pelos seus dons a imperfeição das nossas virtudes, de modo que, no fim, o filho de Deus torna-se mais passivo sob a ação divina do que entregue à sua atividade pessoal e no fim entra no seio do Pai, onde encontrará a beatitude por toda a eternidade.

Vejamos agora as principais virtudes (cf. Garrigou-Lagrange, “La vie spirituelle” número 302, dez. 1945) que se manifestam nela.

De início, a SIMPLICIDADE, a ausência total de duplicidade.

“Chamam-se crianças não pela sua idade, mas pela simplicidade do seu coração” (São João Crisóstomo, em Catena Aurea, vol. III, pág. 20).

“Como a criança que vos proponho como exemplo: ela não pensa uma coisa e diz outra; assim deveis atuar vós também, porque, se não tiverdes essa inocência e pureza de intenção, não podereis entrar no Reino dos céus” (São Jerônimo, Comentário ao Evangelho de São Mateus, 3, 18, 4).

A mentira é a arma de quem se sente desprotegido. A criança está bem protegida.

“Lançai sobre Ele todas as vossas preocupações, porque Ele cuida de vós” (1Pe 5, 7).

HUMILDADE. “quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” (1Cor 4.7).

Sem mim, não há nada que possais fazer. A imagem dos pescadores puxando a rede e a criança que auxilia.

FÉ. Conhece a sua ignorância. Sabe que não é dona, mas filha da verdade.

Não pretende ganhar todas as discussões; só as importantes.

Virtudes escondidas e comuns X aparentes e extraordinárias. Ocultar-se e desaparecer.

A CARIDADE. “Dá-me, meu filho, teu coração” (Pr 23, 26). “DESCANSAI na filiação divina. Deus é um Pai cheio de ternura, de infinito amor” (Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, 150).

“Vede como se amam; eles descobriram que são irmãos” (Tertuliano, Apologético, 34, 7).

ALEGRIA: “Porque Maria é Mãe, a sua devoção nos ensina a ser filhos: a amar deveras, sem medida; a ser simples, sem essas complicações que nascem do egoísmo de pensarmos só em nós; a estar alegres, sabendo que nada pode destruir a nossa esperança. O princípio do caminho que leva à loucura do amor de Deus é um amor confiado a Maria Santíssima” (S. Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 143).

A criança cai com freqüência, mas levanta-se com prontidão e ligeireza; quando se vive vida de infância, as próprias quedas e fraquezas são meio de santificação. O amor de uma criança é sempre jovem, porque esquece com facilidade as experiências negativas; não as armazena no seu interior, como faz quem tem alma de adulto.

“Fazer-se criança: renunciar à soberba, à auto-suficiência; reconhecer que, sozinhos, nada podemos, porque necessitamos da graça, do poder do nosso Pai-Deus para aprender a caminhar e para perseverar no caminho. Ser criança exige abandonar-se como se abandonam as crianças, crer como crêem as crianças, pedir como pedem as crianças” (S. Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 143).

MAGNANIMIDADE: “Ser pequeno. As grandes audácias são sempre das crianças. – Quem pede… a lua? – Quem não repara nos perigos, ao tratar de conseguir o seu desejo? – «Colocai» numa criança «dessas» muita graça de Deus, o desejo de fazer a Vontade dEle, muito amor a Jesus, toda a ciência humana que a sua capacidade lhe permita adquirir… e tereis retratado o caráter dos apóstolos de hoje, tal como indubitavelmente Deus os quer” (S. Josemaría Escrivá, Caminho, n. 857).

Propósito: “Não podemos ser filhos de Deus só de vez em quando, embora haja alguns momentos especialmente dedicados a considerá-lo, a compenetrarmo-nos desse sentido da nossa filiação divina que é a essência da piedade” (Josemaría Escrivá, Questões atuais do cristianismo, 3ª ed., Quadrante, São Paulo, 1986, n. 102).

Para adquirir o dom da Piedade (cf. Royo Marin, Antonio, Teologia de la perfección cristiana, 3. ed. Madrid : Católica, 1962, pag 526): Meios de fomentar esse dom: além dos meios gerais, 1) Cultivar em nós o espírito de filhos adotivos de Deus; 2) Cultivar o espírito de fraternidade universal com todos os homens; 3) Considerar todas as coisas, ainda que puramente materiais, como pertencentes à casa do Pai, que é a criação inteira; 4) Cultivar o espírito de total abandono nos braços de Deus;

“Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e prudentes e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11, 25).

Quem me vê, vê o Pai.

“Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!” (Jo 14, 8). Jesus respondeu-lhe em tom de indulgente reprovação: “Há tanto tempo que estou convosco, e não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que me dizes, então, mostra-nos o Pai? Não crês que Eu estou no Pai e o Pai está em mim?… Crede-me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim” (Jo 14, 9-11).

A vocação masculina é a de a) permanecer no Pai, por meio de Jesus Cristo, no Espírito Santo, a fim de ser b) como que um sacramento  da Paternidade de Deus.

Isso comportará também uma especial vivência daquilo que a Teologia Espiritual denomina “infância espiritual”, uma espiritualidade que nasce no Batismo: ser filhos, no Filho. Quanto mais filhos do Pai, mais pais para os outros.

Apesar da nossa fragilidade

“Respondeu-lhe Pedro: Mesmo que seja necessário morrer contigo, jamais te negarei! E todos os outros discípulos diziam-lhe o mesmo” (Mt 26,35).

“Pedro interveio: Mesmo que sejas para todos uma ocasião de queda, para mim jamais o serás” (Mt 26,33).

Poderia se pensar que masculinidade é uma certa soberba e autoconfiança indestrutíveis. No fundo, a autoconfiança é uma ilusão, e é preciso reconhecer a própria fragilidade. A fortaleza está fora de mim, mas pela graça, também está dentro. “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4, 13). Podemos ter orgulho de nossa masculinidade, o que não significa autossuficiência.

Numa audiência geral (Pedro, o apóstolo. Quarta-feira, 24 de Maio de 2006), o Papa Bento fez a seguinte reflexão:

 Numa manhã de Primavera esta missão ser-lhe-á confiada por Jesus ressuscitado. O encontro será na margem do lago de Tiberíades. O evangelista João narra-nos o diálogo que naquela circunstância se realiza entre Jesus e Pedro. Nele revela-se um jogo de verbos muito significativo. Em grego o verbo “filéo” expressa o amor de amizade, terno mas não totalizante enquanto o verbo “agapáo” significa o amor sem reservas, total e incondicionado. Jesus pergunta a Pedro pela primeira vez: “Simão… tu amas-Me (agapâs-me)” com este amor total e incondicionado ( cf. Jo 21, 15)? Antes da experiência da traição o Apóstolo teria certamente respondido: “Amo-Te (agapô-se) incondicionalmente”. Agora, que conheceu a amarga tristeza da infidelidade, o drama da própria debilidade, diz apenas: “Senhor… tu sabes que sou deveras teu amigo (filô-se), isto é, “amo-te com o meu pobre amor humano”. Cristo insiste: “Simão, tu amas-Me com este amor total que Eu quero?”. E Pedro repete a resposta do seu humilde amor humano: “Kyrie, filô-se”, “Senhor, tu sabes que eu sou deveras teu amigo”. Pela terceira vez Jesus pergunta a Simão: “Fileîs-me?”, “tu amas-Me?”. Simão compreende que para Jesus é suficiente o seu pobre amor, o ùnico de que é capaz, e contudo sente-se entristecido porque o Senhor teve que lhe falar daquele modo. Por isso, responde: “Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo! (filô-se)”. Seria para dizer que Jesus se adaptou a Pedro, e não Pedro a Jesus! É precisamente esta adaptação divina que dá esperança ao discípulo, que conheceu o sofrimento da infidelidade. Surge daqui a confiança que o torna capaz do seguimento até ao fim: “E disse isto para indicar o género de morte com que ele havia de dar glória a Deus. Depois destas palavras acrescentou: “Segue-Me”!” (Jo 21, 19).

A partir daquele dia Pedro “seguiu” o Mestre com a clara consciência da própria fragilidade; mas esta consciência não o desencorajou. De fato, ele sabia que podia contar com a presença do Ressuscitado. Dos ingênuos entusiasmos da adesão inicial, passando pela experiência dolorosa da negação e pelo choro da conversão, Pedro alcançou a confiança naquele Jesus que se adaptou à sua pobre capacidade de amor. E mostra assim também a nós o caminho, apesar da nossa debilidade. Sabemos que Jesus se adapta a esta nossa debilidade.

Nós seguimo-lo com a nossa capacidade de amor e sabemos que Jesus é bom e nos aceita. Para Pedro foi um longo caminho que fez dele uma testemunha de confiança, “pedra” da Igreja, porque constantemente aberto à ação do Espírito de Jesus. O próprio Pedro qualificar-se-á como “testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há-de manifestar” (1 Pd 5, 1). Quando escreveu estas palavras já era idoso, encaminhado para a conclusão da sua vida que selou com o martírio.

Então, foi capaz de descrever a alegria verdadeira e de indicar de onde ela pode ser obtida: a fonte é Cristo acreditado e amado com a nossa fé frágil mas sincera, apesar da nossa fragilidade. Por isso escreveu aos cristãos da sua comunidade, e di-lo também a nós: “Sem o terdes visto, vós o amais; sem o ver ainda, credes nele e vos alegrais com uma alegria indescritível e irradiante, alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação das almas” (1 Pd 1, 8-9).

Eva

Fonte: http://sumateologica.wordpress.com/2011/09/29/eva/

John Milton, Paraíso PerdidoCanto VIII

 

Foi grande o golpe e em um instante a cura.
Deus coas mãos a costela vai moldando,
Té que uma criatura dela forma
Mui semelhante a mim, mas de outro sexo.
Pareceu-me tão bela e tão amável,
Que tudo quanto dantes no Universo
Julgara belo agora o crê mediano –
Ou que do Mundo as formosuras todas
Em corpo tão gentil se resumiam,
Principalmente nos benignos olhos
Que desde então mimosos infundiram
Dentro em meu coração tanta doçura,
Qual nunca exp’rimentado havia dantes:
Do porte seu também logo exalaram
O espírito de amor, graças, deleites
Que em toda a Natureza se esparziam.
Nisto ela foge e me deixou em trevas:
De repente acordei na ânsia de acha-la
Ou de carpir sem causa a perda sua,
Abjurando prazer que não fosse ela.
No entanto, quando menos a esperava,
Não longe a vi, tal como a vira em sonhos
Adornada de quanto o Céu e a Terra
Para fazê-la amável possuíam.
Ei-la que vem: condu-la o Autor celeste,
Guiando-a com sua voz, porém não visto:
Dos ritos conjugais vem informada,
Da santidade e candidez das núpcias:
Nos olhos traz o Céu, no andar as graças,
O amor e o brio nas maneiras todas.
Em tantas perfeições eu enlevado,
A erguer assim a voz fui compelido:
“Ela volta!… Dissipa-se o meu susto!
“Cumpres quanto disseste, é Deus benigno,
“Generoso doador de coisas belas;
“Mas esta sobrepuja as outras todas
“Que não se podem comparar com ela.
“Nela me estou a ver; dos meus por certo
“Seus ossos são, da minha carne a sua:
“Do homem tirada foi, mulher se chama:
“Por ela pai e mãe ele abandona,
“E esposo se une à esposa idolatrada –
“Em deliciosa união ambos formando
“Um coração, uma alma, uma só vida.”
Prestava ela atenção às minhas vozes:
Acabando de ser por Deus formada,
Inda toda pudor, toda inocência,
Já conhecia com clareza exata
O grande preço das virtudes suas;
Que deve ser com mimo requestada
E não ganhada sem que muito a roguem;
Que não deve óbvia ser, nem ser esquiva,
Mas recatada estar, assim causando
Mais vivo amor, mais ávido apetite:
Ou, por melhor dizer, a Natureza
Nos pensamentos tanto lhe influía,
Lida que isentos da mais leve mancha,
Que ela me olhou modesta e retirou-se.
Eu fui seguindo-a: percebeu em breve
Com que respeito e amor eu me portava,
E não tardou com majestoso obséquio
Em ceder à razão que me assistia.
Ao nupcial aposento a vou guiando,
Corada, semelhante à manhã bela:
Nessa hora inteiro o Céu e os astros todos
Sobre nós mandam mais seleto influxo,
E nos decoram com fulgor mais vivo:
Mais ataviados de verdura e flores
Dão-nos os parabéns montes e vales;
Suave e alegre concerto as aves tecem;
Frescas as virações, meigas as brisas,
Nossa união pelas árvores murmuram,
E coas asas brincando nos atiram
De arbustos próprios rosas e fragrâncias,
Até que o rouxinol entoou solene
O canto do himeneu, e assim convida
Da tarde a estrela a que de pronto acenda,
No arbóreo cimo da montanha sua,
Das sacras núpcias o brilhante facho.
Assim te hei relatado a minha história,
Levando-a té ao ápice da dita
Que neste Paraíso estou gozando:
E cumpre confessar que – achando eu gosto
Em tudo o mais de que se adorna o Mundo,
Quais os passeios, plantas, frutos, flores,
A música das aves, tudo em suma
Que delicadamente me comove
O tato, o gosto, o ouvido, a vista, o cheiro,
Por nada sinto na alma abalo vivo,
Desejo ígneo nenhum, goze ou não goze;
Mas outro é meu sentir por tal beleza.
Vejo-a abalado de transporte sumo,
Cheio de igual transporte a toco e apalpo;
Ardo por ela em comoção estranha,
Minha única paixão conheço nela:
Quaisquer outros prazeres não me agitam,
A todos eles superior me julgo;
Porém somente me confesso fraco
Ante os encantos, ante o mover d’olhos,
Com que a beleza triunfar consegue.
Ou pobre a Natureza em mim se mostra,
Fazendo-me imperfeito a assim não apto
De tal objeto a repelir encantos:
Ou mais talvez tirou do que bastava
Do meu lado, e essa falta me enfraquece:
Ou, quando menos, deu em demasia
Ornatos à mulher que, não obstante
Ser no seu interior menos sublime
Mostra por fora as perfeições mais belas.
Não que eu deixe de ver que abaixo fica
No desígnio essencial à Natureza
E da alma nas internas faculdades,
Que são na espécie humana as mais distintas;
E que também por fora iguala menos
De quem nos fez a majestosa imagem,
E designa com menos expressão
O caráter de império impresso no homem,
Com que ele as outras criaturas rege,
Contudo, quando dela me aproximo,
Tão amável a julgo, tão perfeita,
Tão ciente de si mesma e extreme em tudo,
Que quanto ela pretende, ou faz, ou fala,
O mais discreto me parece sempre,
O melhor, o mais certo, o mais virtuoso:
À vista dela a ciência a mais profunda
Titubeia, desmente a usada força;
A mais grave e ilustrada sisudez
Desconcerta-se e mostra-se loucura.
Como se antes de mim fosse ela feita
E não depois, qual foi por causa minha,
De autoridade e de razão se adorna:
E, para tudo ter, seu porte amável,
Candura e graças todo, em si ostenta
Nobreza de alma, pensamentos grandes,
Dela em torno espalhando reverência
Que faz o ofício ali de guarda de anjos

SANTA PUREZA: entre o amor e o egoísmo

“Deus é amor” (1Jo 4, 16). “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). O ser humano é amor.

“Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação… Que cada um saiba usar o seu corpo santa e honestamente, não se abandonando às paixões, como fazem os pagãos, que não conhecem a Deus” (1Ts 4, 3-5).

 

No princípio

O texto bíblico segue em Gn 2, 25 dizendo que “os dois estavam nus, o homem e sua mulher, mas não sentiam vergonha”.

O Papa João Paulo II[1] apresenta a hermenêutica do dom, o critério fundamental para constituir uma antropologia adequada para interpretar essa nudez primordial. “E Deus viu tudo o que havia feito: e era muito bom” (Gn 1, 31). A criação é um dom de Deus, e a pessoa humana é capaz de compreender-se nessa dinâmica.

No “princípio”, homem e mulher são chamados a uma perfeita relação de amor entre si e com Deus, como administradores da Criação, pela ação da graça.

Viver a relação de mútua doação não é uma lei externa à pessoa humana. Mas, expressão de sua realidade subjetiva quando está na graça de Deus.

É a “Castidade como virtude moral que regula o exercício da sexualidade segundo o estado de vida da pessoa, em função de seus valores e no respeito da natureza da própria sexualidade[2].

Em suma, a castidade é, simultaneamente, um dom que é preciso pedir a Deus (cf. S. Josemaria Escrivá, Caminho, n. 118), e uma virtude que deve se conquistar, aperfeiçoar e crescer (cf. Id.,  Forja, n. 91), mediante o esforço generoso da nossa correspondência à graça.

 

A queda

O medo e a vergonha surgem pela desobediência[3] a Deus: “Ele respondeu: – Eu te vi no jardim, fiquei com medo porque estava nu, e me escondi. O Senhor Deus lhe replicou: – E quem te disse que estavas nu? Então comeste da árvore proibida?” (Gn 3, 10- 11).

A quebra do Amor: “Em meu interior, agrada-me a lei de Deus; em meus membros descubro outra lei que guerreia contra a lei da razão e me torna prisioneiro da lei do pecado que habita em meus membros” (Rm 7, 22-23). A pessoa humana não domina o seu corpo com a mesma simplicidade e naturalidade do princípio, tem medo e desconfiança de Deus e de si mesma. A vergonha aparece não só como desobediência a Deus, mas como a consciência do próprio desejo de dominar (ou ser dominada) e instrumentalizar o outro.

A lei da concupiscência[4], no âmbito da sexualidade, é o máximo prazer sem compromisso, como se fosse uma espécie de amor-lixo descartável. Gerar filhos é uma amarra e a identidade sexual é vaga. Sente-se como um animal que sacia impulsos e não como alguém que ama. Pensam que se libertaram e são felizes, mas estão sozinhos e não sabem como sair do círculo vicioso.

Uma coisa, de fato, é ter consciência de que o valor do sexo faz parte de toda a riqueza de valores, com que o ser feminino aparece ao homem; e outra coisa é “reduzir” toda a riqueza pessoal da feminilidade àquele único valor, isto é, ao sexo, como objeto idôneo à satisfação da própria sexualidade[5].

É a “segunda descoberta do sexo[6]”: o pudor (para valorizar a personalidade e a amizade, antes da atração sexual e para defender da concupiscência alheia; não é só esconder o corpo, mas se estende no jeito de tratar, nas conversas, nos olhares etc.).

Em parte como resultado desta transformação radical, inúmeros terapeutas raro encontram pacientes que sofrem de recalque sexual, à maneira dos histéricos de Freud, no mundo que precedeu as duas grandes guerras. Na verdade, encontramos naqueles que nos procuram em busca de ajuda exatamente o oposto: muita conversa, muita atividade sexual, praticamente nenhuma queixa de inibições relativas a ir para a cama com tanta freqüência e com tantos parceiros quantos lhes agrade. Mas queixam-se é de insensibilidade e ausência de paixão. (…) Tanto sexo e tão pouco significado, ou mesmo diversão![7]

Portanto, a vida segundo a carne é a vida submetida ao domínio da tríplice concupiscência, afastada de Deus, instrumentalizadora do próximo, em profundo conflito interior, sem esperança de salvação. A vida segundo o Espírito, que exige algum empenho humano na virtude da temperança, recebe como graça o autodomínio, a alegria e a salvação. O Espírito oposto à carne é a contraposição de dois modos de viver.

 

Redenção 15m.

A teologia da concupiscência não deve levar a pôr em permanente suspeita e ceticismo ao coração humano. As palavras de Cristo convidam a uma ética que aproveitando a força original da criação e a graça da redenção possa “realizar o significado esponsal do corpo e a exprimir, de tal modo, a liberdade interior do dom, isto é, daquele estado e daquela força espiritual, que derivam do domínio da concupiscência da carne”[8].

Para a redenção é necessário ao domínio de si uma “habitual temperança”[9]. É preciso reconquistar o Amor.

“Esse Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor existe liberdade” (2Cor 3, 17). Pela pureza, a pessoa humana se purifica de suas paixões libidinosas e mantém-se na justiça e na santidade de Deus e da Igreja. “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo? Vou, pois, tomar os membros de Cristo para torná-los membros de uma prostituta? Porém, quem se une ao Senhor se torna um só espírito com ele” (1Cor 6, 15.17). A pureza é, portanto, um modo de unir-se a Cristo, um dom carismático, em específico “o dom da ‘piedade’”[10]. Essa é a “antropologia do renascimento do Espírito Santo[11].

O desejo humano deve dirigir-se para o “Esposo das almas”, Jesus Cristo. É impossível não recordar aquelas palavras do Papa João Paulo II, de que o ser humano é alguém em estado de busca infindável: “busca da verdade e busca duma pessoa em quem poder confiar” (Fides et Ratio, 33). Amando a Cristo mais do que a qualquer outra pessoa humana, poderei amar ao próximo, o que, ao contrário, necessariamente não ocorre.

A concupiscência faz com que os seres que são segundo a Causa e Natureza única, a única desejável e impassível, sejam mais desejáveis que Aquela. Por isso torna a carne preferível ao espírito, e o gozo do visível mais agradável que a glória e o esplendor do espiritual[12].

A nossa razão deve mover-se, por conseguinte, à busca de Deus; a nossa força concupiscível[13] deve orientar-se para o desejo d’Ele, e a irascível[14] deve lutar pela sua conservação; ou melhor, para falar mais propriamente, a mente deve tender para Deus, fortalecida pela tensão da potência irascível e inflamada pelo desejo extremo da concupiscência[15].

No Espírito Santo, o homem e a mulher se relacionam com “toda a simplicidade, a sua limpidez e também a sua alegria interior[16]. Mas antes , o nosso desejo, a vontade, a imaginação, enfim, todo o coração humano deve preferir mais ardentemente a Deus, do que a qualquer relação humana, seja sexual ou não. “Retirou-me da cova da morte e de um charco de lodo e de lama” (Sl 39,3a).

O que é a castidade? É a plenitude do amor expressa na sexualidade, extinguindo toda a espécie de egoísmo. O amor engloba a sexualidade, não ao inverso.

A santa pureza produz muitos frutos na alma: dilata o coração e facilita o desenvolvimento normal da afetividade; gera uma alegria íntima e profunda, mesmo no meio das contrariedades; possibilita a ação apostólica; fortalece o caráter diante das dificuldades; torna-nos mais humanos, aumentando a nossa capacidade de entender e compadecer-nos dos problemas alheios.

Meios 20m.

  1. Portanto, o primeiro é a união com Cristo, para que purifique o nosso desejo.

«A castidade – a de cada um no seu estado: solteiro, casado, viúvo, sacerdote – é uma triunfante afirmação do Amor» (Sulco, n. 831).

  1. A amizade com os irmãos.

“Jesus, guarda o nosso coração! Um coração grande, e forte, e terno, e afetuoso, e delicado, transbordante de caridade para contigo, a fim de servirmos a todas as almas” (S. Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 177).

3. A humildade: Para alcançarmos esta virtude, é necessário em primeiro lugar que sejamos humildes, o que tem como manifestação clara e imediata a sinceridade nas nossas conversas com quem orienta a nossa alma. A própria sinceridade conduz à humildade.

4. A luta ascética: “Se queremos guardar a mais bela de todas as virtudes, que é a castidade, devemos saber que ela é uma rosa que somente floresce entre espinhos; e, portanto, só a encontraremos, como todas as outras virtudes, numa pessoa mortificada” (Santo Cura d’Ars, Sermão sobre a penitência).

“Tenho para mim – afirmava o abade João Cassiano (século V) – que não poderemos jamais reprimir o aguilhão da carne, se antes não conseguirmos refrear os desejos da gula”.

Quem é dono da imaginação, tem noventa por cento ganho para ser, com fortaleza, dono e senhor dos seus impulsos sexuais e dos seus sentimentos e, portanto, do seu amor. Este autodomínio do pensamento é a chamada “mortificação interior”, tanto ou mais importante para o senhorio da vontade como a “mortificação dos sentidos”.

5. Fugir sempre. Sem complacência com o inimigo.

“A santa pureza exige uma conquista diária, porque não se adquire de uma vez para sempre. E pode haver épocas em que a luta seja mais intensa e haja que recorrer com mais freqüência à Santíssima Virgem e lançar mão de algum meio extraordinário“.

“Cuidai da castidade com esmero, e também dessas outras virtudes que formam o seu cortejo – a modéstia e o pudor –, que vêm a ser como que a sua salvaguarda. Não passeis levianamente por cima dessas normas que são tão eficazes para nos conservarmos dignos do olhar de Deus: a guarda atenta dos sentidos e do coração; a valentia – a valentia de ser covarde – para fugir das ocasiões; a freqüência dos sacramentos, de modo particular a Confissão sacramental; a sinceridade plena na direção espiritual pessoal; a dor, a contrição, a reparação depois das faltas. E tudo ungido com uma terna devoção a Nossa Senhora, para que Ela nos obtenha de Deus o dom de uma vida santa e limpa” (S. Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 185).

6. É preciso uma «cruzada de virilidade e de pureza que enfrente e anule o trabalho selvagem daqueles que pensam que o homem é uma besta» (Caminho 121).

Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897), carmelita, Doutora da Igreja
Poemas «Viver de amor» e «Por que te amo, Maria» (trad. a partir de OC, Cerf DDB 1996, p. 668)

«Dá-lhe também a capa»

Viver do Amor é dar sem olhar
Sem neste mundo exigir um salário.
Ah! Eu dou sem contar,
pois sei que quem ama é perdulário!
Ao Coração Divino, que transborda ternura,
Dei tudo. […] Corro os meus dias ligeira, sem dor nem fraqueza
Nada mais tendo que esta minha riqueza:
Viver do Amor.

Viver do Amor é banir o temor,
Riscando a lembrança dos erros passados.
De meus pecados não vejo nem cor,
Com amor inflamante foram perdoados!
Ó doce fornalha, ó divina chama,
Morada que elejo com todo o fulgor,
Canto em teu fogo, e sou eu quem clama (cf Dn 3, 51):
«Vivo de Amor!» […]

«Viver do Amor, que estranha loucura!»
O mundo me diz «Cessai de cantar!»
«Que os perfumes e a vida futura
«Com utilidade os deveis empregar!»
Amar-Te, Jesus, se é perda, é ganho fecundo!
Para sempre são Teus meus perfumes, Senhor,
Quero cantar ao deixar este mundo:
«Morro de Amor !»


[1] TOB 13, 2. [As catequeses sobre a Teologia do Corpo se encontram integralmente em JOÃO PAULO II, Homem e mulher o criou: catequeses sobre o amor humano, 2005. Doravante, o livro é significado pela sigla “TOB” (Theology of Body, como mundialmente conhecida) seguido do número da catequese e o parágrafo].

[2] CENCINI, Amedeo. Virgindade e celibato hoje: para uma sexualidade pascal. trad. Joana da Cruz. São Paulo: Paulinas, 2009, p. 132.

[3] O pecado como desobediência não é só o rompimento da norma objetiva “não comas da árvore de conhecer o bem e o mal” (cf. Gn 2,17), mas também o não escutar a norma subjetiva do Amor e da confiança, de fato, obedecer vem do latim ob-audire, escutar.

[4] A concupiscência é a inclinação para o pecado. A inclinação para o prazer, em si, não é pecado. Só há pecado se for um prazer desordenado, pecaminoso.

[5] TOB 40, 3.

[6] TOB 29, 4.

[7] MAY, Rollo, Eros e Repressão: Amor e vontade. trad. Áurea Brito Weissenberg. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1978, p. 42, grifo do autor.

[8] TOB 46, 4.

[9] TOB 49, 4.

[10] TOB 57, 1, grifo do autor.

[11] TOB 57, 5, grifo do autor.

[12] MÁXIMO, São, Centúrias sobre a Caridade e outros escritos espirituais. Ed. Landy, s.n.t., p. 138.

[13] O apetite concupiscível.

[14] O apetite irascível (impulso ou Thymós) atua pela “atração pelos bens árduos (ou fuga dos males difíceis de serem evitados), com base no estabelecimento das relações instintivas pela estimativa (captação dos valores no passado e no futuro)” (FILHO, Ives Gandra Martins. Manual Esquemático de Filosofia. 3. ed. São Paulo: LTr, 2006, p. 137, grifo do autor).

[15] MÁXIMO, São. Centúrias sobre a Caridade e outros escritos espirituais. Ed. Landy, s.n.t., p. 144.

[16] TOB 58, 7, grifo do autor.

Assumir as dores

Masculinidade: Sl 22; A solidão paterna não terá algo do assumir as dores do outro, como o Servo sofredor?  

“Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba: não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. Mas o Senhor Deus é o meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado. A meu lado está quem me justifica; alguém me fará objeções? Vejamos. Quem é meu adversário? Aproxime-se” (Is 50, 6-8).

O rosto impassível do pai e do justo que enfrentam ao mal.