ALBERTINA BERKENBROCK, LEIGA (1919-1931)

Albertina Berkenbrock nasceu a 11 de Abril de 1919, em São Luís, Imaruí (Brasil), numa família de origem alemã, simples e profundamente cristã. Há uma singular concordância entre os testemunhos dados nos vários processos canónicos por parte das testemunhas que a tinham conhecido e convivido com a Serva de Deus, ao descrevê-la como uma menina bondosa no mais amplo sentido do termo. A natural mansidão e bondade de Albertina conjugavam-se bem com uma vida cristã compreendida e vivida completamente. Da prática cristã derivava a sua inclinação à bondade, às práticas religiosas e às virtudes, na medida em que uma criança da sua idade podia entendê-las e vivê-las. Sabia ajudar os pais no trabalho dos campos e especialmente em casa. Sempre dócil, obediente, incansável, com espírito de sacrifício, paciente, até quando os irmãos a mortificavam ou lhe batiam ela sofria em silêncio, unindo-se aos sofrimentos de Jesus, que amava sinceramente.

 A frequência aos sacramentos e a profunda compenetração que mostrava ter na participação da mesa eucarística é um índice de maturidade espiritual que a menina tinha alcançado; distinguia-se pela piedade e recolhimento.

 O cenário no qual foi consumado o delito é terrivelmente simples, quanto atroz e violenta foi a morte da Serva de Deus. No dia 15 de Junho de 1931, Albertina estava apascentando os animais de propriedade da família quando o pai lhe disse para ir procurar um bovino que se tinha distanciado. Ela obedeceu. Num campo vizinho encontrou Idanlício e perguntou-lhe se tinha visto o animal passar por ali.

 Idanlício Cipriano Martins, conhecido com o nome de Manuel Martins da Silva, era chamado pelo apelido de Maneco. Tinha 33 anos, vivia com a mulher próximo da casa de Albertina e trabalhava para um tio dela. Embora já tivesse matado uma pessoa, era considerado por todos um homem recto e um trabalhador honesto. Albertina muitas vezes levava-lhe comida e brincava com os seus filhos; portanto, era uma pessoa do seu conhecimento. Quando Albertina lhe perguntou se tinha visto o boi, Maneco responde que sim, acrescentando que o tinha visto ir para o bosque próximo dali e ofereceu-se para a acompanhar e ajudar na busca. Mas, ao chegarem perto do bosque, convidou-a para deitar com ele. Seguiu-a com intenção de lhe fazer mal. Albertina não consentiu e Maneco então a pegou pelos cabelos, jogou-a ao chão e, visto que não conseguia obter o que queria porque ela reagia, pegou um canivete e cortou o seu pescoço. A jovem morreu imediatamente. Dos testemunhos dos companheiros de prisão de Maneco revelou-se que a menina declarou a sua indisponibilidade pois aquele acto era pecado. A intenção de Maneco era clara, a posição de Albertina também: não queria pecar.

 Durante o velório, Maneco controlava a situação fingindo velar a vítima e ficando por perto da casa. Porém, antes que descobrissem quem era o assassino, algumas pessoas notaram um fenómeno particular: todas as vezes que ele se aproximava do cadáver da Serva de Deus, a grande ferida do pescoço começava a sangrar.

 No funeral de Albertina participou um elevado número de pessoas e todos diziam já que era uma “pequena mártir”, pois dado o seu temperamento, a sua piedade e delicadeza, eram convictos de que tinha preferido a morte ao pecado. Albertina sacrificou a vida somente pela virtude.

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Início da conversão de São Francisco

Relato de três companheiros de São Francisco de Assis (c. 1244) 


§§ 7-8 (a partir da trad. de Debonnet e Vorreux, Ed. Franciscaines, 1968, p.810) 


Certa noite, depois do seu regresso a Assis, os companheiros do jovem Francisco elegeram-no como chefe do grupo. Com tantas vezes tinha feito, mandou então preparar um sumptuoso banquete. Depois de saciados, saíram todos e percorreram a cidade, a cantar. Os companheiros, em grupo, iam à frente de Francisco; este, empunhando o bastão de chefe, fechava o cortejo, um pouco mais atrás, sem cantar, mergulhado nos seus pensamentos. E eis que, de súbito, o Senhor lhe aparece, enchendo-lhe o coração de uma doçura tal, que ele ficou sem conseguir falar, sem se mexer […].

Quando os companheiros se voltaram para trás e o viram assim tão longe deles, voltaram atrás e aproximaram-se, receosos; encontraram-no mudado, como se fosse outro homem. Perguntaram-lhe: «Em que é que pensavas para te esqueceres assim de nos seguir? Estarias a pensar em arranjar mulher?» «Têm toda a razão! Decidi ter esposa, uma esposa mais nobre, mais rica e mais bela do que todas as que vocês já viram». Os companheiros puseram-se a troçar dele […].

A partir daquele momento, ele fazia os possíveis para que Jesus Cristo lhe ocupasse a alma, e bem assim aquela pérola que tanto desejava comprar depois de tudo ter vendido (Mt 13, 46). Furtando-se frequentemente aos olhos dos que dele troçavam, ia muitas vezes – quase diariamente – rezar em segredo. De alguma maneira a isso era impelido pelo gozo antecipado daquela doçura extrema que tantas vezes o visitava e que com tanta força o atraía, estando ele na praça ou noutros locais públicos, para a oração.

«Acompanhavam-No os Doze e algumas mulheres»

João Paulo II, Papa entre 1978 e 2005 
Mulieris dignitatem, § 27 


Na história da Igreja, desde os primeiros tempos, existiam — ao lado dos 
homens — numerosas mulheres, para as quais a resposta da Esposa ao amor 
redentor do Esposo adquiria plena força expressiva. Como primeiras, vemos 
aquelas mulheres que pessoalmente tinham encontrado Cristo, tinham-No 
seguido e, depois da Sua partida, juntamente com os apóstolos, «eram 
assíduas na oração» no cenáculo de Jerusalém até ao dia do Pentecostes. 
Naquele dia, o Espírito Santo falou por meio de «filhos e filhas» do Povo 
de Deus […] (cf. At 2, 17). Aquelas mulheres, e a seguir outras mais, 
tiveram parte activa e importante na vida da Igreja primitiva, na 
edificação desde os fundamentos da primeira comunidade cristã — e das 
comunidades que se seguiram —, mediante os próprios carismas e o seu 
multiforme serviço. […] O apóstolo fala de suas «fadigas» por Cristo, e 
estas indicam os vários campos de serviço apostólico da Igreja, a começar 
pela «Igreja doméstica». Nesta, de facto, a «fé sincera» passa da mãe para 
os filhos e os netos, como realmente se verificou na casa de Timóteo (cf. 2 
Tim 1, 5).O mesmo se repete no decorrer dos séculos, de 
geração em geração, como demonstra a história da Igreja. A Igreja, com 
efeito, defendendo a dignidade da mulher e a sua vocação, expressou honra e 
gratidão por aquelas que — fiéis ao Evangelho — em todo o tempo 
participaram na missão apostólica de todo o Povo de Deus. Trata-se de 
santas mártires, de virgens, de mães de família, que corajosamente deram 
testemunho da sua fé e, educando os próprios filhos no espírito do 
Evangelho, transmitiram a mesma fé e a tradição da Igreja. […] Mesmo 
diante de graves discriminações sociais, as mulheres santas agiram de «modo 
livre», fortalecidas pela sua união com Cristo. […]Também em nossos dias a Igreja não cessa de enriquecer-se com o 
testemunho das numerosas mulheres que realizam a sua vocação à santidade. 
As mulheres santas são uma personificação do ideal feminino, mas são também 
um modelo para todos os cristãos, um modelo de «sequela Christi», um 
exemplo de como a Esposa deve responder com amor ao amor do Esposo. 


(grifos meus).
Fonte: http://www.evangelizo.org

Catequese do Papa: a teologia precisa da sensibilidade das mulheres

Segunda catequese dedicada a Santa Hildegarda de Bingen

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 8 de setembro de 2010 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Sala Paulo VI para a audiência geral.

***

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje, quero retomar e continuar a reflexão sobre Santa Hildegarda de Bingen, importante figura feminina da Idade Média, que se distinguiu pela sua sabedoria espiritual e pela sua santidade de vida. As visões místicas de Hildegarda são semelhantes àquelas do profeta do Antigo Testamento: expressando-se com as categorias culturais e religiosas da sua época, interpretava a Sagrada Escritura à luz de Deus, aplicando-a às várias circunstâncias da vida. Dessa forma, todos os que a ouviam se sentiam chamados a praticar um estilo de vida cristã coerente e comprometido. Em uma carta a São Bernardo, a mística renana confessa: “A visão cativa todo o meu ser: não vejo com os olhos do corpo, mas me aparece no espírito dos mistérios (…) Conheço o significado profundo do que é exposto no Saltério, nos Evangelhos e nos outros livros, que me são mostrados na visão. Este arde como uma chama em meu peito e na minha alma, e me ensina a compreender profundamente o texto” (Epistolarium pars prima I-XC: CCCM 91).

As visões místicas de Hildegarda são ricas de conteúdo teológico. Elas se referem aos principais acontecimentos da história da salvação, por meio de uma linguagem principalmente poética e simbólica. Por exemplo, em sua obra mais famosa, intitulada Scivias, ou seja, “Conhece os caminhos”, ela resume em 35 visões os eventos da história da salvação, da criação do mundo até o final dos tempos. Com as características próprias da sensibilidade feminina, Hildegarda, especificamente na seção central da sua obra, desenvolve o tema do matrimônio místico entre Deus e a humanidade, realizado na Encarnação. Sobre o lenho da cruz se realizam as núpcias do Filho de Deus com a Igreja, sua esposa , repleta de graça e capaz de dar a Deus novos filhos, no amor do Espírito Santo (cf. Visio tertia: PL 197, 453c).

A partir dessas breves referências, vemos já como também a teologia pode receber uma contribuição peculiar das mulheres, porque são capazes de falar de Deus e dos mistérios da fé com sua inteligência e sensibilidade próprias. Alento por esse motivo todas aquelas que desempenham este serviço a realizá-lo com profundo espírito eclesial, alimentando a própria reflexão com a oração e tendo em conta a grande riqueza, ainda em parte inexplorada, da tradição mística medieval, sobretudo a representada por modelos luminosos, como Hildegarda de Bingen.

A mística renana é autora também de outros escritos, dois deles particularmente importantes, porque mostram, como em Scivias, suas visões místicas: o Liber vitae meritorum (Livro dos méritos da vida) e o Liber divinorum operum (Livro das obras divinas), também chamado De operatione Dei. No primeiro, descreve-se uma visão única e poderosa de Deus que vivifica o cosmos com sua força e com sua luz. Hildegarda sublinha a profunda relação entre o homem e Deus e nos recorda que toda a criação, da qual o ser humano é o cume, recebe a vida da Trindade. O texto está centrado na relação entre virtude e vícios, de maneira que o ser humano deve enfrentar diariamente o desafio dos vícios, que o afastam no caminho para Deus, e as virtudes que o favorecem. É um convite a afastar-se do mal para glorificar a Deus e entrar, depois de uma existência virtuosa, na vida “cheia de alegria”.

No segundo livro, considerado por muitos sua obra-prima, descreve a criação em sua relação com Deus e a centralidade do homem, expressando um forte cristocentrismo de sabor bíblico-patrístico. A santa, que apresenta cinco visões inspiradas no Prólogo do Evangelho de São João, refere-se às palavras que o Filho dirige ao Pai: “Toda obra que quiseste e me encomendaste, eu a cumpri, e hoje estou em ti e tu em mim, e somos uma só coisa” (Pars III, Visio X: PL 197, 1025a).

Em outros escritos, por último, Hildegarda manifesta uma variedade de interesses e o dinamismo cultural dos monastérios femininos da Idade Média, diferentemente dos preconceitos que ainda hoje existem sobre essa época. Hildegarda dedicou-se à medicina e às ciências naturais, assim como à música, pois tinha talento artístico. Compôs também hinos, antífonas e cantos, recolhidos com o título Symphonia Harmoniae Caelestium Revelationum (Sinfonia da Harmonia das Revelações Celestes), que eram gozosamente interpretados nos mosteiros, difundindo uma atmosfera de serenidade, e que chegaram até nós. Para ela, toda a criação é uma sinfonia do Espírito Santo, que é em si mesmo alegria e júbilo.

A popularidade que rodeava Hildegarda levava muitas pessoas a fazer-lhe consultas. Por este motivo, dispomos de muitas de suas cartas. A ela se dirigiam comunidades monásticas de homens e mulheres, bispos e abades. Muitas das respostas continuam sendo válidas para nós. Por exemplo, a uma comunidade religiosa feminina, Hildegarda escreveu: “A vida espiritual deve ser atendida com muita dedicação. No início, o cansaço é amargo, dado que exige a renúncia aos caprichos, ao prazer da carne e a coisas semelhantes. Mas, quando a alma se deixa fascinar pela santidade, experimentará como algo doce e agradável o próprio desprezo do mundo. Só é necessário prestar atenção inteligentemente a que a alma não murche” (E. Gronau,Hildegard. Vita di una donna profetica alle origini dell’età moderna, Milão, 1996, p. 402).

E quando o imperador Federico Barbarroja provocou um cisma eclesial, opondo 3 antipapas ao Papa legítimo, Alexandre III, Hildegarda, inspirada em suas visões, não hesitou em recordar-lhe que também ele, o imperador, estava submetido ao juízo de Deus. Com a audácia que caracteriza todo profeta, escreveu ao imperador estas palavras da parte de Deus: “Atento, atento a esta malvada conduta dos ímpios que me desprezam! Escuta, rei, se queres viver! Do contrário, minha espada te transpassará!” (ibidem, p. 412).

Com a autoridade espiritual de que estava dotada, Hildegarda viajou nos últimos anos da sua vida, apesar da idade avançada e das penosas condições dos deslocamentos. Todos a escutavam com prazer, inclusive quando utilizava um tom severo: consideravam-na uma mensageira enviada por Deus. Ela exortava sobretudo as comunidades monásticas e o clero a viverem em conformidade com sua vocação. Em particular, Hildegarda se opôs ao movimento dos cátaros alemães. Os cátaros, literalmente “puros”, propugnavam uma reforma radical da Igreja, principalmente para combater os abusos do clero. Ela os repreendeu com força, por querer subverter a própria natureza da Igreja, recordando-lhes que uma verdadeira renovação da comunidade eclesial não se consegue tanto com a mudança das estruturas, e sim com um sincero espírito de penitência e um caminho de conversão. Esta é uma mensagem que nunca devemos esquecer.

Invoquemos sempre o Espírito Santo, para que suscite na Igreja mulheres santas e valentes, como Santa Hildegarda de Bingen, que, valorizando os dons recebidos de Deus, ofereçam sua preciosa e peculiar contribuição para o crescimento espiritual das nossas comunidades e da Igreja na nossa época.

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

Santa Hildegarda, importante figura feminina da Idade Média, distinguiu-se pela sua sabedoria espiritual e santidade de vida. Nos seus escritos e contatos, sublinha a profunda relação entre o homem e Deus, recordando que toda a criação, em cujo vértice está o ser humano, recebe vida da Santíssima Trindade. Quando Frederico Barba-Ruiva causou um cisma eclesial, opondo vários antipapas ao Papa legítimo Alexandre III, Hildegarda recorda ao imperador que também ele estava sujeito ao juízo de Deus. E a quantos invocavam uma reforma radical da Igreja pondo em risco a sua verdadeira natureza, lembra que uma autêntica renovação não se obtém tanto com a mudança das estruturas, mas sobretudo com um sincero espírito de penitência e um real caminho de conversão.

Amados peregrinos de língua portuguesa, a minha saudação fraterna e agradecida para todos, com menção especial para os grupos de fiéis da Amora, em Portugal, e das paróquias do Divino Espírito Santo e São João Batista, no Rio de Janeiro, Santa Rita de Cássia e Nossa Senhora Mãe da Igreja, em Belo Horizonte. Esta peregrinação a Roma fortaleça, nos vossos corações, o sentir e o viver em Igreja, a exemplo de Santa Hildegarda, sob o terno olhar da Virgem Mãe. A Ela confio os anseios bons que aqui vos trouxeram. O Papa ama-vos, e a todos abençoa no Senhor.

[Tradução: Aline Banchieri e Alexandre Ribeiro.

©Libreria Editrice Vaticana]

Há uma crise de masculinidade na Igreja?

Na edição de julho-agosto da revista The Atlantic, Hanna Rosin pergunta se “O fim dos homens” está diante de nós. Ela argumenta que as mulheres – com níveis crescentes de educação e de emprego mais flexíveis nesta recessão econômica – vão assumir o controle, fazendo dos homens o segundo sexo. Nossa busca pela igualdade de gênero fez com que as mulheres disparassem na frente, deixando os homens na poeira. Será que isso é verdade?

A reportagem é de Christine B. Whelan, publicada no sítio Busted Halo, revista eletrônica dos padres paulinos dos EUA, 27-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eu já falei anteriormente sobre isso – assim como vários outros artigos que incentivam a misandria [aversão ao sexo masculino] e que diminuem o papel dos homens –, mas, ainda em abril, eu me encontrei com Damian Wargo (foto), co-fundador e diretor do The King’s Men (http://www.thekingsmen.us/), um ministério católico masculino com sede na Filadélfia, nos EUA, que é especialista nessas questões.

Ele e eu nos conhecemos em Nova York para debater em um programa de televisão as diferenças de gênero e o namoro a partir de uma perspectiva católica. Depois de termos debatido no ar, Damian e eu tivemos a oportunidade de conversar sobre a sua organização, suas opiniões sobre sexo, namoro e vida familiar, e sobre como os jovens homens pode se envolver com a Igreja.

Ele e eu temos perspectivas diferentes sobre algumas questões referentes aos papéis de gênero, mas seu desejo de envolver os homens na família e nas atividades comunitárias é admirável. Além disso, seu conselho para homens sobre namoro e casamento (leia!) é muito sólido.

Eis a entrevista.

Conte-me um pouco sobre o The King’s Men: por que ele começou? Quantos homens estão envolvidos? Qual é a sua missão e o seu objetivo?

O The King’s Men teve início em resposta à crise da masculinidade. Infelizmente, muitos homens não são ativos na Igreja de forma nenhuma. Alguns homens até veem as iniciativas de fé como exclusivamente para mulheres. Além disso, muitos homens estão confusos sobre seu papel natural como líderes, protetores e sustentadores. Meu colega Mark Houck (foto) e eu começamos o The King’s Men para enfrentar essa crise e para convocar os homens a agir, especialmente lutando nobres batalhas.

A missão do The King’s Men é: “Sob o chamado universal de Cristo Rei a servir, nós, como homens, comprometemo-nos a unir-nos e a fortalecer outros homens nos moldes do líder, do protetor e do sustentador, por meio da educação, da formação e da ação”. Existem cerca de 200 homens que são King’s Men muito ativos, e nossas iniciativas chegam a milhares de homens por ano.

Você fala de ajudar a edificar a fé em uma “modalidade masculina”. O que isso significa?

Todos os homens são chamados a ser líderes, protetores e sustentadores. São Tomás de Aquino ensina que “a graça supõe a natureza”. Assim, para que um homem suba na vida espiritual, ele precisa de uma boa formação em um nível natural, tornando-se finalmente muito animado pela graça de Deus. Os homens gostam de construir estruturas que sustentam as necessidades dos outros. Essa é a base do amor autosacrificial, da liderança e da sustentação.

O homem, pela sua natureza física, é chamado a proteger as mulheres e as crianças. Não podemos ignorar esse fato ou fugir dessa realidade, ou a vida de fé de um homem não possuirá um componente para a sua missão dada por Deus. A fé apresentada em uma modalidade masculina sempre vai chamar os homens a agir pelo amor e pelo bem de sua família e do bem comum.

O The King’s Men é muito explícito com relação aos perigos da pornografia. Por quê? Qual é o impacto que a pornografia tem nos homens jovens, e o que os grupos King’s Men sugere como soluções para o amplo consumo de pornografia online entre os jovens?

A indústria da pornografia é uma indústria de 13 bilhões de dólares por ano nos EUA. Os homens são os consumidores primários. A única solução para esse problema é que os homens vejam esse flagelo na nossa cultura como uma batalha que precisa ser vencida, de forma a proteger o bem comum. A maioria dos homens cresceu em uma cultura completamente sexualizada, que ensina os homens, desde seus primeiros anos, que usar as mulheres para a luxúria e o sexo não é algo errado. Na verdade, equivocadamente, eles são ensinados que isso deve ser admirado.

Isso teve um impacto devastador sobre a nossa cultura, já que ensina os homens a desenvolver vícios nessa área em vez de virtudes. Os resultados são doenças, divórcio, violência, vícios e dor incalculáveis. A solução é que os homens se convençam que a pornografia é gravemente maligna, e que um homem pode, com a graça de Deus, levar uma vida virtuosa de castidade. Uma vez que um homem comece a desenvolver seu autodomínio, ele também pode começar a ajudar a guiar os outros nessa área e formar alianças que não irão tolerar a pornografia em suas comunidades ou por meio da Internet e de outras mídias.

Em agosto, o The King’s Men organizou um retiro chamado “Into the Wild”, nos arredores de Pittsburgh (intothewildweekend.com). Como foi esse retiro? Quem participou e o que aconteceu nesse retiro?

Partindo do princípio que a graça supõe a natureza, o “Into the Wild” foi principalmente um fim de semana orientado a habilidades ao ar livre, centrado em oferecer aos homens experiências ligadas à vocação natural de um homem como líder, protetor e sustentador. Situado no Estado da Pensilvânia, o “Into the Wild” treina homens em questões como orientação, topografia, armamento, defesa pessoal, técnicas de sobrevivência, construção ao ar livre, pesca, caça, jogos na selva, preparação de alimentos e muito mais. A parte inicial das manhãs consistia em oração, missa e uma pequena palestra ligada ao arquétipo masculino do dia que estávamos nos esforçando para desenvolver. Na metade das manhãs, nos dedicávamos à aquisição de habilidades, e, à tarde, a competições em equipe e/ou simulações de desafios. As noites eram um tempo para o descanso, o relaxamento, a oração e o companheirismo ao redor das fogueiras. As acomodações para o descanso consistiam em pequenas cabanas de estilo rústico sem eletricidade.

O “Into the Wild” é para qualquer homem. Em primeiro lugar, o “Into the Wild” é ótimo para um homem acostumado com a vida do campo, que busca estar com outros homens de fé no meio do campo. Em segundo lugar, também é excelente para pais e filhos e homens em geral que buscam uma tremenda experiência de ligação. Finalmente, é bom para homens que têm o desejo de compreender melhor a vida na selva e ser treinados em habilidades ao ar livre.

O “Into the Wild” e as atividades do The King’s Men também estão abertos àqueles que buscam uma experiência espiritual?

Absolutamente. Muitos homens que participaram do “Into the Wild” nos disseram que esses dias foram o final de semana mais espiritual das suas vidas.

Seu padroeiro é Santo Agostinho. Como vocês o escolheram?

A maioria dos homens podem se identificar com as lutas de Santo Agostinho com a pureza e vê-lo como um homem apaixonado, que teve uma radical transformação que levou a um coração que batia apenas para Deus. Ele é um modelo para os homens de todas as esferas da vida.

Se você pudesse dar três pequenos conselhos para os homens solteiros e jovens que estão interessados em namorar e em ter um relacionamento, quais seriam?

Um: quando o Senhor coloca uma forte atração por uma mulher em seu coração, e o seu intelecto concorda, busque essa mulher com propósito e paixão. Não tenha medo de pedir o telefone para uma menina ou para sair com ela. Simplesmente por mostrar um forte e genuíno interesse de uma maneira saudável, você irá se separar da grande maioria dos homens que falha nessa área. Dois: ser muito claro com suas intenções. Deixe que a mulher saiba que você não está interessado em um relacionamento casual, mas tem o desejo em seu coração de, algum dia, ser um marido e pai. Três: se você estiver desanimado com a garota que você está namorando, não continue buscando-a. Uma mulher merece um homem que queira estar com ela e só com ela. Assim que você souber que ela não é a mulher que Deus lhe reservou, avise-a que você discerniu isso, mesmo que você só tenha saído com ela uma ou duas vezes.

E três conselhos para os homens que estão namorando ou são casados?

Um: seja um homem em busca do coração da sua esposa! Dois: sempre coloque as necessidades da sua esposa acima das suas próprias. Três: nunca fale negativamente sobre a sua esposa aos seus amigos.

Eu escrevi um artigo sobre a misandria – o ódio pelos homens. Como as mulheres podem apoiar os homens e encorajá-los a ser tudo o que podem ser?

Para os homens, ser respeitados pode ser uma necessidade tão forte assim como a necessidade de uma mulher de ser amada. Eu já encontrei algumas mulheres que eram excessivamente críticas com relação aos homens e rápidas em apontar as falhas de um homem aos outros. Isso é terrível para um homem. Além disso, por mais difícil que seja, tente confiar em um homem até que se prove o contrário. Infelizmente, muitos homens já deixaram algumas mulheres em situações muito trágicas. Isso levou a uma forte desconfiança nos homens, em geral. No entanto, existem homens bons por aí, em quem se pode confiar, e que têm o desejo de fazer a coisa certa. E isso pode prosperar quando ele sabe que as mulheres ao seu redor confiam e admiram-no.

* * *

Então, seria este o “fim dos homens” – ou há outra forma de promover a igualdade entre os sexos? Mulheres, vocês confiam que os homens podem respeitá-las? Gostariam que seus homens adotem o papel de líder, protetor e sustentador? O que você pensa sobre o papel do homem no namoro e na formação da família? Homens, o chamado do The King’s Men fala algo para vocês? Vocês se sentem como se houvesse uma crise da masculinidade na sua comunidade? Qual a dimensão do problema da pornografia? Vamos dar início a esse debate.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=36231

Autodoação

A comunidade cristã só é autêntica, quando os seus membros se inserem progressivamente no mistério Pascal de Cristo. O mistério Pascal de Cristo é o da sua autodoação na Cruz, a ressurreição e o dom do Espírito. Naturalmente, os cristãos passarão a viver como Cristo: na autodoação. Comunidades que não gerem vocações para o celibato e a virgindade não são vivas; tampouco, gerarão vocações matrimoniais, pois tanto a virgindade quanto o matrimônio são vocações de autodoação para uma outra pessoa, Divina ou humana. O problema das vocações sacerdotais na Igreja Latina não é o celibato, mas a falta de vida cristã intensa. Pois, que revolucionemos a Igreja: mais fidelidade a Cristo, mais fidelidade à Igreja, mais fidelidade ao Papa e ao bispo diocesano. E Deus se mostrará benigno e fiel, escolhendo mais e mais pessoas que se dediquem de corpo e alma ao seu serviço.