O que é o Amor?

Josef Pieper

(Trad.: Gabriele G. Bretzke e L. Jean Lauand)

http://www.hottopos.com.br/notand4/crer.htm

Certo psicanalista americano definiu o que ocorre aqui de uma forma seguramente oportuna e contundente. Diz ele que, na visão do playboy, a folha de figueira só foi deslocada para outro lugar; ela agora cobre o rosto humano. Com o mesmo incisivo acerto vem-se apontando ainda o caráter enganoso do mero encontro sexual: a “união dos corpos” permanece necessariamente uma ilusão; na verdade, as pessoas tornam-se depois dela dois estranhos muito mais distantes um do outro do que antes.

E assim o paradoxo torna-se compreensível: uma sexualidade isolada do todo da existência separa os sexos muito mais do que os une, deixando-os sozinhos precisamente no domínio em que se supunham mais seguros de encontrar-se. O resultado, como afirma Paul Ricoeur, o resultado – certamente não esperado pela geração de Sigmund Freud, que defendia a queda dos tabus sexuais – é a perda de valor pela facilidade, a queda livre do relacionamento assim trivializado até a absoluta futilidade. O que à primeira vista poderia parecer uma extraordinária liberdade, revela sua vizinhança fatal e inevitável com o completo desespero.

(…) O americano Harvey Cox, teólogo batista, resgata a prática, já quase esquecida até entre os cristãos, da expulsão de demônios. Diz ele que não há ocasião em que o exorcismo seja tão necessário quanto em relação ao abuso cínico da sexualidade pelos charlatães do mercado e os feiticeiros do marketing e propaganda. É o que diz Harvey Cox no seu famoso livro Secular City. É certo que eu não consigo imaginar nem em sonho de que forma e em nome de que autoridade um Harvey Cox imagina a execução concreta do exorcismo; fica evidente, porém, que se trata de uma categoria religiosa, sagrada, ligada sem dúvida a um conceito que tem lugar numa esfera sobrenatural.
(…)

Mas, afinal de contas, poder-se-ia perguntar, que há de comum entre o fitar-se amoroso dos amantes e a atitude daquela religiosa, que tem compaixão dos mendigos moribundos? Existe de fato uma relação, sim. É certo que somente alguém extraordinário sabe imediatamente constatar o extraordinário em cada pessoa ao seu redor (“maravilhosamente criada, e ainda mais maravilhosamente recriada, redimida”(O autor cita a antiga oração da missa: “mirabiliter condidisti, et mirabilius reformasti” (Nota dos trad.))). E, então, esta maravilha pode muito bem traduzir-se como exclamação de amor: “É maravilhoso que você exista!”. E, assim, viemos dar quase na linguagem do amor erótico! Apesar disto, fica claro: a consumação significa também transformação. E o conceito de consumação pressupõe que ninguém saiba prever à primeira vista, qual será a profundidade que ela irá atingir; o aprendiz não é capaz de imaginar como será o domínio da plenitude do mister nem o que será exigido dele antes que chegue lá. Talvez a natural capacidade de amar precise passar por uma espécie de morte, para conseguir continuar vivendo. É de Agostinho a assustadora formulação: Ao mesmo tempo em que a caritas nos recria e rejuvenesce, ela nos traz, em certo sentido, a morte: “facit in nobis quamdam mortem”.

É precisamente a este fato que se refere também a antiqüíssima metáfora que chama a caritas de fogo, já que ela transforma tudo em cinzas e ao mesmo tempo, transforma-as em si mesma. Ou seja, trata-se de algo de muito mais sério do que uma piedosa e inofensiva invocação, quando o cristão reza: “Acende em nós o fogo do teu amor!”(Também uma antiga e conhecida oração: “Veni Sancte Spiritus, reple tuorum corda fidelium et tui amoris in eis ignem accende…” (Nota dos trad.)).

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