“O Verbo é o Esposo; a carne humana, a esposa; o ventre da Virgem foi seu Tálamo” (Santo Agostinho, Tract. 8 in Evang. Ioan. 4: ML 35, 1452 apud CABODEVILLA, Jose Maria. Hombre y mujer: Estudio sobre el matrimonio y el amor humano. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1960, pag. 21, traduzido do espanhol).

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O que é o Amor?

Josef Pieper

(Trad.: Gabriele G. Bretzke e L. Jean Lauand)

http://www.hottopos.com.br/notand4/crer.htm

Certo psicanalista americano definiu o que ocorre aqui de uma forma seguramente oportuna e contundente. Diz ele que, na visão do playboy, a folha de figueira só foi deslocada para outro lugar; ela agora cobre o rosto humano. Com o mesmo incisivo acerto vem-se apontando ainda o caráter enganoso do mero encontro sexual: a “união dos corpos” permanece necessariamente uma ilusão; na verdade, as pessoas tornam-se depois dela dois estranhos muito mais distantes um do outro do que antes.

E assim o paradoxo torna-se compreensível: uma sexualidade isolada do todo da existência separa os sexos muito mais do que os une, deixando-os sozinhos precisamente no domínio em que se supunham mais seguros de encontrar-se. O resultado, como afirma Paul Ricoeur, o resultado – certamente não esperado pela geração de Sigmund Freud, que defendia a queda dos tabus sexuais – é a perda de valor pela facilidade, a queda livre do relacionamento assim trivializado até a absoluta futilidade. O que à primeira vista poderia parecer uma extraordinária liberdade, revela sua vizinhança fatal e inevitável com o completo desespero.

(…) O americano Harvey Cox, teólogo batista, resgata a prática, já quase esquecida até entre os cristãos, da expulsão de demônios. Diz ele que não há ocasião em que o exorcismo seja tão necessário quanto em relação ao abuso cínico da sexualidade pelos charlatães do mercado e os feiticeiros do marketing e propaganda. É o que diz Harvey Cox no seu famoso livro Secular City. É certo que eu não consigo imaginar nem em sonho de que forma e em nome de que autoridade um Harvey Cox imagina a execução concreta do exorcismo; fica evidente, porém, que se trata de uma categoria religiosa, sagrada, ligada sem dúvida a um conceito que tem lugar numa esfera sobrenatural.
(…)

Mas, afinal de contas, poder-se-ia perguntar, que há de comum entre o fitar-se amoroso dos amantes e a atitude daquela religiosa, que tem compaixão dos mendigos moribundos? Existe de fato uma relação, sim. É certo que somente alguém extraordinário sabe imediatamente constatar o extraordinário em cada pessoa ao seu redor (“maravilhosamente criada, e ainda mais maravilhosamente recriada, redimida”(O autor cita a antiga oração da missa: “mirabiliter condidisti, et mirabilius reformasti” (Nota dos trad.))). E, então, esta maravilha pode muito bem traduzir-se como exclamação de amor: “É maravilhoso que você exista!”. E, assim, viemos dar quase na linguagem do amor erótico! Apesar disto, fica claro: a consumação significa também transformação. E o conceito de consumação pressupõe que ninguém saiba prever à primeira vista, qual será a profundidade que ela irá atingir; o aprendiz não é capaz de imaginar como será o domínio da plenitude do mister nem o que será exigido dele antes que chegue lá. Talvez a natural capacidade de amar precise passar por uma espécie de morte, para conseguir continuar vivendo. É de Agostinho a assustadora formulação: Ao mesmo tempo em que a caritas nos recria e rejuvenesce, ela nos traz, em certo sentido, a morte: “facit in nobis quamdam mortem”.

É precisamente a este fato que se refere também a antiqüíssima metáfora que chama a caritas de fogo, já que ela transforma tudo em cinzas e ao mesmo tempo, transforma-as em si mesma. Ou seja, trata-se de algo de muito mais sério do que uma piedosa e inofensiva invocação, quando o cristão reza: “Acende em nós o fogo do teu amor!”(Também uma antiga e conhecida oração: “Veni Sancte Spiritus, reple tuorum corda fidelium et tui amoris in eis ignem accende…” (Nota dos trad.)).

O reducionismo pune o corpo

22/4/2010

“Deixado para trás há muito tempo, o paradigma da ‘subordinação’ da mulher ao homem e também o seu antípoda, isto é, o feminismo radical e a própria teoria de gênero estão sendo deixados de lado”.

A opinião é de Gianfranco Ravasi, arcebispo e presidente do Pontificio Conselho da Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole-24 Ore, 18-04-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

“Mulher não se nasce. Torna-se”. É preciso reconhecer que essa frase – posta na abertura da segunda parte do famoso ensaio de Simone de Beauvoir, “O segundo sexo” – já estava pronta para se transformar em slogan e depois em bandeira. E assim ocorreu com o feminismo posterior àquele distante 1949, no qual o livro apareceu nas livrarias. Aquele lema e aquele texto foram, de algum modo, o incunábulo da chamada teoria de “gênero” ou, como se prefere dizer, do “gender”, uma teoria segundo a qual a diferença sexual entre mulher e homem não era mais reconduzida à fonte da natureza, mas derivada do rio da cultura e da artificiosa construção dos papéis sexuais realizada pela sociedade.

O delta ao qual se aportou com os multigêneros, pós-gêneros, transgêneros e assim por diante revela principalmente uma meta a qual se queria chegar: superar a natureza, considerada uma marca fictícia rígida e frígida. Freud, por outras razões, já observava que “a principal tarefa da cultura, a sua verdadeira razão de ser é defender-nos da natureza” (em “O mal-estar na civilização” de 1929).

Para buscar um fundamento “experimental” a essa tese, quem se dedicou por primeiro foi um cirurgião norte-americano, John Money, que apontou sua atenção sobre os neonatos com genitais ambíguos: célebre foi o caso dos gêmeos homozigotos Reimer de 1965 que, porém, no fim se revelou uma espécie de bumerangue para o cientista e para outros de seus defensores.

Enquanto isso, porém, a teoria havia se elevado como brasão de armas de uma certa opinião pública, e assim ela aportou nas aulas de direito, a partir da Suprema Corte norte-americana, onde encontrou o seu difusor por excelência na juíza Ruth Bader Ginsburg, enquanto a ONU também era envolvida na questão, começando pelas disputas na Conferência de Pequim de 1995 (tudo isso e outras coisas são examinados no livro “Maschio o femmina? La guerra del genere”, de Dale O’Leary, Ed. Rubbettino, 2006). Nessa espécie de tempestade que tentava desmontar não só as gramáticas, mas também os estatutos sociais, não podiam faltar os objetores.

É fácil ver sobre essa frente aqueles que reconhecem a “basilaridade” de uma lei natural na antropologia, como a Igreja Católica. Surpreende, ao invés, a presença de uma importante faixa do feminismo, crítica com relação ao reducionismo e ao abstratismo realizado pela teoria de gênero sobre a corporeidade. Escrevia Anne Stevens em “Donne, potere, politica” (Ed. Mulino, 2009): “Existem algumas diferenças biológicas de fundo entre homens e mulheres, reconhecíveis na vida cotidiana e que podem tornar sensato falar de homens e de mulheres e atribuir os adjetivos masculino e feminino aos membros dos respectivos grupos”.

Como corolário dessa reação, houve a afirmação de relevo capital segundo a qual “contestar o gênero não significa aceitar a desigualdade dos sexos”. Essa frase constitui o título do último capítulo de um límpido e documentado livro da historiadora Giulia Galeotti, “Gender Genere” (Ed. Viverein), uma extraordinária síntese crítica do fenômeno, ao qual chegamos por causa da nossa longa introdução. A jovem estudiosa – que já tem nas costas uma série de publicações que não têm medo de avançar em territórios acidentados e escaldantes, como uma “Storia dell’aborto”, editada pela Mulino, ou uma história da identidade paterna na idade contemporânea, “In cerca del padre”, publicada no ano passado pela editora Laterza – não só reconstrói a ascensão e o declínio dessa teoria (que continua tendo adeptos mais “viscerais” do que racionais), mas mostra também a sua substancial matriz ideológica e as relativas consequências sobre os pilares da antropologia e da própria cotidianidade social.

Deixado para trás há muito tempo (na realidade histórica, as viscosidades, porém, nunca são limpadas totalmente…), o paradigma da “subordinação” da mulher ao homem (curiosamente, no livro do Gênesis, “imagem de Deus” são “o macho e a fêmea” e não só o homem!), e também o seu antípoda, isto é, o feminismo radical e a própria teoria de gênero estão sendo deixados de lado: é notável que, na última “Enciclopedia di bioetica e sessuologia”, editada por Giovanni Russo (Ed. Elledici-Cic-Velar, 2004), esteja totalmente ausente qualquer tratamento do tema do “gênero”, mesmo que isso seja talvez um engano. Só queremos acrescentar que a teologia feminista mais recente embocou um caminho mais “simbólico”, o da “reciprocidade na equivalência e na diferença”, em prática, alinhando-se à afirmação da protagonista do Cântico dos Cânticos: “O meu amado é meu, e eu sou sua” (2,17; 6,3).

A relação se cumpre porque se reconhece que toda criatura humana é necessária por possuir, sim, uma idêntica natureza, mas com modalidades próprias. Observa sinteticamente Rosino Gibellini na sua “Breve storia della teologia del XX secolo” (Ed. Morcelliana, 2008): “Esse novo modelo é chamado também de ‘transformativo’, por comportar uma tarefa prática de superação e de transformação tanto da relação tradicional de inferioridade/complementariedade, quanto da relação feminista radical da paridade/identidade abstrata, em uma relação de relacionalidade/reciprocidade sobre a base da equivalência”.

Em apêndice, do texto de Galeotti queremos, ao invés, extrair um último ponto crítico, muito provocativo, que envolve a teoria de gênero, ou seja, a questão do aborto. As legislações dos países ocidentais conferem só à mulher o direito de escolha nessa matéria. “A consequência dessa atitude é que, no caso da interrupção da gravidez, a fisicidade biológica da mulher é a única que conta. É possível que a natureza e a biologia só contem aqui?”.

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=31677

O que é o Amor?

http://www.hottopos.com.br/notand4/crer.htm

Josef Pieper

(Trad.: Gabriele G. Bretzke e L. Jean Lauand)

Trata-se de um perigo a que todos estamos cotidianamente expostos, o da repentina extrapolação do limite que separa o amor verdadeiro e o desejo de prazer egoísta. De repente, de forma mais ou menos inadvertida, podemos acabar por procurar algo de estranho ao amor, e a pessoa amada deixa de ser um alguém humano para transformar-se para nós, talvez inesperadamente, em um indivíduo qualquer, como se fosse coisa, um mero “mecanismo” – como diz C. S. Lewis, de forma impiedosamente drástica – um mecanismo “que se usa para diversão”.