O caráter mítico da linguagem da segunda narrativa da criação

JOÃO PAULO II

Rodapé da Audiência Geral
Quarta-feira, 19 de Setembro de 1979

“Na segunda narrativa da criação encontra-se a definição subjectiva do homem”

Se na linguagem do racionalismo do século XIX, o termo «mito» indicava aquilo que não se encontra na realidade, o produto da imaginação (Wundt) ou o que é irracional (Lévy-Bruhl), o século XX modificou o conceito de mito.

L. Walk vê no mito a filosofia natural, primitiva e irracional; R. Otto considera-o instrumento de conhecimento religioso; enquanto para C. G. Jung, o mito é a manifestação dos arquétipos e a expressão do «incônscio colectivo», símbolo dos processos interiores.

M. Eliade descobre no mito a estrutura da realidade que é inacessível à investigação racional e empírica: o mito transforma de facto o acontecimento em categoria e torna uma pessoa capaz de atingir a realidade transcendente; não é apenas símbolo dos processos interiores (como afirma Jung), mas acto autónomo e criativo do espírito humano, mediante o qual se realiza a revelação (cfr. Traité d’histoire des religions, Paris 1949, pág. 363; Images et symboles, Paris 1952, págs. 199-235.

Segundo P. Tillich o mito é um símbolo, constituído por elementos da realidade, para apresentar o absoluto e a transcendência do ser, aos quais tende o ato religioso.

H. Schlier insiste em que o mito não conhece os factos históricos e não precisa deles, pois descreve o que é destino cósmico do homem que e sempre o mesmo.

Por fim, o mito tende a conhecer o que é incognoscível.

Segundo P. Ricoeur: «Le mythe est autre chose qu’une explication du monde, de l’histoire et de la destinée; il exprime, en terme de monde, voire d’outre-monde ou de second monde, la compréhesion que l’homme prend de lui-même par rapport au fondement et à la limite de son existence. (…) Il exprime dans un langage objectif le sens que l’homme prend de sa dépendance à 1’égard de cela qui se tient à la limite et à 1’origine de son monde» (P. RICOEUR, Le conflit des interprétations, Paris, Seuil, 1969, pág. 383).

«Le mythe adamique est par excellence le mythe anthropologique; Adam veut dire Homme; mais tout mythe de l’«homme primordial» n’est pas «myte adamique», qui … est Seul proprement anthropologique; par là trois traits sont désignées:


— le myte étiologique rapporte l’origine du mal à un ancêtre de l’humanité actuelle dont la condition est homogène à la nôtre (…)


— le mythe étiologique est la tentative la plus extrême pour dédoubler 1’origine du mal et du bien. L’intention de ce mythe est de donner consistance à une origine radicale du mal distincte de 1’origine plus originaire de l’être-bon des choses. (…). Cette distinction du radical et d’originaire est essentielle au caractère anthropologique du mythe adamique; c’est elle qui fait de l’homme un commencement du mal au seuil d’une création qui a déjà son commencement absolu dans lacte créateur de Dieu.

— le mythe adamique subordonne à la figure centrale de l’homme primordial d’autres figures qui tendent à décentrer le récit, sans pourtant supprimer le primat de la figure adamique. (…)


Le mythe, en nommant Adam, l’homme, explicite l’universalité concrète du mal humain; l’esprit de pénitence se donne dans le mythe adamique le symbole de cette universalité. Nous retrouvons ainsi (…) la fonction universalisante du mythe. Mais en même temps nous retrouvons les deux autres fonctions, également suscitées par l’expérience pénitentielle (…). Le mythe proto-historique servit ainsi non seulement à généraliser 1’expérience d’Israël à l’humanité de tous les temps et de tous les lieux, mais à étendre à celle-ci la grande tension de la condamnation et de la miséricorde que les prophètes avaient enseigné à discerner dans le propre destin d’Israël.

Enfin, dernière fonction du mythe, motivée dans la foi d’Israël: le mythe prépare la spéculation en explorant le point de rupture de 1’ontologique et de 1’historique» (P. RICOEUR, Finitude et culpabilité: II. Symbolique du mal, Paris 1960, Aubier, págs. 218-227).

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